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[traduzido por João Accioli]
Vós sois malditas. Não obstante,
vossa ternura floresce
como o fruto escuro de um
beijo amargo,
quando a tarde quente
chameja sobre vossas torres
abarcando compridos e
sinuosos becos.
Quais girassóis murchos
vibram então uníssonos
todos os sinos no
campanário. E longe,
numa visão de cruzes,
crescem em tormentos de ouro
as vigas sinistras de altas
forcas.
E como um mar de chamas
ergue-se a cidade,
sobre a qual brilha o ocaso
como ferro em brasa;
sobre a qual, liso como a
cabeça de um boi,
o sol distante os chifres
coroados de sangue negro.
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| Georg Heym |
Verfluchung der Städte
Ihr seid verflucht. Doch
eure Süsse blüht
Wie eines herben Kusses
dunkle Frucht,
Wenn Abend warm um eure
Türme sprüht,
Und weit hinab der langen
Gassen Flucht.
Dann zittern alle Glocken
allzumal
In ihrem Dach, wie
Sonnenblumen welk.
Und weit wie Kreuze wächst
in goldner Qual
Der hohen Galgen düsteres
Gebälk.
Und wie ein Meer von Flammen ragt die Stadt,
Wo noch der West wie rotes
Eisen glänzt,
In den die Sonne wie ein Stierhaupt glatt
Die Hörner streckt, von dunkles Blut bekränzt.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã
— Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação
e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso,1985, Ediouro, Rio
de Janeiro — RJ; Georg Heym (1887 — 1912), alemão de Hirschberg, Baixa Silésia (hoje
região pertencente à Polônia), estudou no Liceu de Neuruppin, em Brandemburgo, cursou
Direito em Würzburg e Berlim, foi escritor e poeta; em 1910, em Berlim, passou a
ter contato com o recém fundado Der Neue Club (Novo Clube), um círculo literário
que se reunia no Neopathetisches Cabaret e, ali, Georg Heym e outros promissores
poetas, compartilhavam do mesmo sentimento rebelde contra a então cultura contemporânea
e deixavam aflorar o desejo de agitação política e estética; publicou seu primeiro
poema no Herold e, depois, no Demokrat; seus textos registravam a cidade dos miseráveis,
doentes e pedintes, dos hospitais abarrotados, das vielas de fome e miséria, das
crianças maltratadas e negligenciadas, o expondo como um visionário do terror e
do grotesco, e o tornavam próximo a Poe e a Baudelaire; o poeta morreu afogado no
rio Havel, ainda jovem; teve um primeiro e único livro editado em vida, Der ewige
Tag (O dia eterno, poesia, 1911); George Heym escreveu Der Athener Ausfahrt (drama,
1907), Der Feldzug nach Sizilien (drama, 1907/10) Spartacus (drama, 1908), Versuch
einer neuen Religion (ensaio, 1909), Atalanta oder die Angst (drama, 1910), Dissertation
über den Freiherrn von Stein (versos escolhidos, 1911), Der Dieb (romance, 1911/13),
Über Genie und Staat (ensaio, 1912), Zu den Wahlen (ensaio, 1912), Umbra vitae (1912),
Gedichte aus dem Nachlaß (poesia), Tagebücher (diários) ...; editorialmente ignorado
por décadas, as companhias passaram a vê-lo e a editá-lo em grande escala, e o poeta
foi reabilitado e reconhecido pela intelectualidade e crítica alemãs como o autor
de obras primas do nihilismo literário deste século.


