quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Schlegel: O historiador é um profeta voltado para o passado. [frag. 80] & outros fragmentos


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[traduzido por Márcio Suzuki]

          [62] Imprimir está para o pensar, assim como a recuperação após parto está para o primeiro beijo.
          [66] Quando não tem mais nada que responder ao crítico, o autor gosta de lhe dizer: Você não pode fazer melhor. Isso é o mesmo que se um filósofo dogmático quisesse censurar o cético por este não poder inventar um sistema.
          [70] Onde um promotor público deve entrar em cena, já tem de estar presente um juiz público.
          [72] Panoramas do todo, como agora estão em moda, surgem quando alguém passa por alto* cada particularidade e depois faz a soma.
          [80] O historiador é um profeta voltado para o passado.
          [92] Enquanto os filósofos não se tornarem gramáticos ou os gramáticos filósofos, a gramática não será o que foi entre os antigos, uma ciência pragmática e uma parte da lógica, nem se tornará uma ciência em geral.
          [97] Como estado passageiro, o ceticismo é insurreição lógica; como sistema, é anarquia. Portanto, método cético seria algo mais ou menos como um governo insurgente.

[Fragmentos Athenäum]

Friedrich Schlegel

          [62] Das Druckenlassen verhält sich zum Denken, wie eine Wochenstube zum ersten Kuß.
          [66] Wenn der Autor dem Kritiker gar nichts mehr zu antworten weiß, so sagt er ihm gern: Du kannst es doch nicht besser machen. Das ist eben, als wenn ein dogmatischer Philosoph dem Skeptiker vorwerfen wollte, daß er kein System erfinden könne.
          [70] Wo ein öffentlicher Ankläger auftreten soll, muß schon ein öffentlicher Richter vorhanden sein.
          [72] Übersichten des Ganzen, wie sie jetzt Mode sind, entstehen, wenn einer alles einzelne übersieht, und dann summiert.
          [80] Der Historiker ist ein rückwärts gekehrter Prophet.
          [92] Ehe nicht die Philosophen Grammatiker, oder die Grammatiker Philosophen werden, wird die Grammatik nicht, was sie bei den Alten war, eine pragmatische Wissenschaft und ein Teil der Logik, noch überhaupt eine Wissenschaft werden.
          [97] Als vorübergehender Zustand ist der Skeptizismus logische Insurrektion; als System ist er Anarchie. Skeptische Methode wäre also ungefähr wie insurgente Regierung.

[Athenäums-Fragmente]

* Nota do tradutor Márcio Suzuki: Jogo de palavras entre Übersicht (panorama, visão geral, sinóptica) e übersehen (ver por alto, não ver, não reparar).
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Schlegel — O dialeto dos fragmentos, Tradução, Apresentação e Notas de Márcio Suzuki, com Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1997, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Ingrid Martins: Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, . . .

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Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, as coisas acabam. Assim como acaba o açúcar, e você  é obrigado a tomar café puro.
Acaba como acaba o bombom, e no final sobra só a embalagem suja, que você tenta passar a língua pra comer o resto, e vê que não sobrou nada. As coisas acabam mesmo.

Não foi diferente com a Joelma e o Chimbinha. Com a Fátima Bernardes e o William Bonner. Comigo. Você. Tudo tem fim, a gente já sabia disso. Minha mãe já dizia: tem coisas que vem, acontece e acaba. Menos as contas pra pagar, isso sempre vai existir. Mas sejamos realistas, nós terminamos e isso é natural, até a natureza acaba. Você viu, o tomate que eu plantei acabou, assim como acabou o pé de hortelã, o pé de cebolinha, e aquela rosa que te dei e você não cuidou muito bem. Cê vê, as coisas acabam. É assim, quando vê já foi, quando foi nem viu, e assim como esse texto ruim, que também terá final, assim foi com a gente, e não que tenha sido intencional, ninguém opta pelo fim, eu mesma se pudesse estaria com meu pé de tomate até hoje! Mas assim é a vida, comigo aconteceu muitas vezes, muitas coisas acabaram pra mim, muitas coisas chegaram no fim, e infelizmente não tem muito o que fazer, não tem pra onde correr.
ENFIM, O QUE EU QUERIA MESMO DIZER, É QUE TUDO ACABA, MENOS A MINHA VONTADE DE BEBER.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Francisca Júlia da Silva: Fonte de Jacó

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Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isaac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d'água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma samaritana, acaso, à fonte veio:
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou uma graça lasciva:

“Água!” pediu Jesus, “mata-me a sede e a mágoa,
Do cântaro que tens dá-me uma pouca d'água,
Que em troca eu te darei da fonte d'água viva”.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

domingo, 27 de novembro de 2022

Heine: Os anjos*

 

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[traduzido por André Vallias]

Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.

Heinrich Heine

Die Engel

Freylich ein ungläub’ger Thomas
Glaub’ ich an den Himmel nicht,
Den die Kirchenlehre Romas
Und Jerusalems verspricht.

Doch die Existenz der Engel,
Die bezweifelte ich nie;
Lichtgeschöpfe sonder Mängel,
Hier auf Erden wandeln sie.

Nur, genäd’ge Frau, die Flügel
Sprech’ ich jenen Wesen ab;
Engel giebt es ohne Flügel,
Wie ich selbst gesehen hab’.

Lieblich mit den weißen Händen,
Lieblich mit dem schönen Blick
Schützen sie den Menschen, wenden
Von ihm ab das Mißgeschick.

Ihre Huld und ihre Gnaden
Trösten jeden, doch zumeist
Ihn, der doppelt qualbeladen,
Ihn, den man den Dichter heißt.

[1847]

* Nota do tradutor André Vallias:Os anjos”: poema escrito para Betty Rothschikld (1805 — 1886) — nascida Betty Salomon von Rothschild, mulher (e sobrinha) do barão James Mayer de Rothschild (1792 — 1868) — na edição do Atta Troll que o poeta lhe presenteou.
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

sábado, 26 de novembro de 2022

Neno Vasco: A Marselhesa do Fogo

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Coro:

A chama a crepitar! Em círculo formai!
Dançai!
Dançai!
De archote aceso o mundo iluminai!

Correi, correi, filhos do Povo!
Deixai a pena e vinde ver...
Vinde assistir ao quadro novo:
O burgo vil a arder, a arder!
A chama alegre, a crepitar,
Anda a correr entre os casebres:
Arde um covil de fome e febres:
A chama heróica sobe ao ar...

A chama heróica sobe, voa,
Sobre as pocilgas rubro véu:
E a crepitar o fogo entoa
Uma canção que sobe ao céu...
Quanta miséria desinfecta
A chama audaz de rubro tom!
O burgo é velho, o fogo é bom!
A chama sobe em linha recta...

O burgo todo se esboroa
A chama varre a podridão
Oh! como a terra será boa!
Oh! quantas messes brotarão!
Colhe as panteras no covil
Queimada vá! Colhe as serpentes!
A chama tem línguas frementes,
E põe no céu um tom febril...

A chama faz cair tugúrios,
E faz ruir prisões também:
Lambe quartéis, mantos purpúreos,
A podridão que a terra tem...
E enquanto o burgo se reduz,
As brasas rubras fumegantes
[As chamas têm tons fulgurantes]
Duma potente e nova luz.

A chama canta, salta e corre,
O velho burgo tomba enfim...
Oh! quanto abutre cai e morre!
Oh! quanto abutre em seu festim!
De face a arder que a chama crésta!
Oh párias nus vinde dançar.
Dançar em roda, correr, cantar,
Que esta fogueira é vossa festa!

[A] Guerra Social,16/7/1911,
[nº2], p. 3, [Rio de Janeiro].

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Neno Vasco (1878 1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, estudou no Liceu, de Amarante, formou-se pela Faculdade de Direito de Coimbra, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; suas obras: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus — Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Théophile Gautier: A Nuvem

 
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[traduzido por Gonçalves Crespo]

As roupas deslaçando, entra no banho
A lânguida sultana enamorada:
Livre do pente, os ombros nus lhe beija
A longa e fina trança desatada.

Atrás dos vidros o sultão a espreita;
E consigo murmura: como é bela!
"Ninguém a vê, ninguém! o negro eunuco
Do harém na torre solitário vela!"

Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
Do sereno e alto azul iluminado:
Vejo-lhe os seios nus, vejo-lhe o dorso,
E o seu corpo de pérolas colmado.

Fez-se pálido Ahmed bem como a lua,
E erguendo o seu “kandjar” de folha rara,
Desce, e apunhala a nua favorita...
Quanto à nuvem... no azul se dissipara...

Théophile Gautier

Le nuage

Dans son jardin la sultane se baigne,
Elle a quitté son dernier vêtement;
Et délivrés des morsures du peigne,
Ses grands cheveux baisent son dos charmant.

Par son vitrail le sultan la regarde,
Et caressant sa barbe avec sa main,
Il dit: L’eunuque en sa tour fait la garde,
Et nul, hors moi, ne la voit dans son bain.

 Moi, je la vois, lui répond, chose étrange!
Sur l’arc du ciel un nuage accoudé;
Je vois son sein vermeil comme l’orange
Et son beau corps de perles inondé.

Ahmed devint blême comme la lune,
Prit son kandjar au manche ciselé,
Et poignarda sa favorite brune
Quant au nuage, il s’était envolé!
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

José Oiticica: O Maior Instante


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A voz disse baixinho ao meu ouvido:
"Recorda-te de mim!" e eu vi, sem ver,
Naquele meio-escuro, indefinido,
O vulto da que foi todo o meu ser:

O mar uivava longe o seu gemido
E estava muito longe a Cabra a arder!
Ó tu que amei tão da alma, ente querido,
Fala-me assim, ajuda-me a viver!

E a que se foi, num segredar de amante,
Repetiu-me as palavras memoriais
E encheu-me de sua alma olente e iriante.

Ecoaram ecos de perdidos ais...
Houve um tremor na sombra e, nesse instante,
As nossas almas se adoraram mais.

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, e da revista A Vida; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Marina Tzvietáieva: A Carta


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[traduzido por Augusto de Campos]

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera o fim:
Salva de soldados,
No peito três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.

[11 de agosto de] 1923

Marina Tzvietáieva

Письмо

Так писем не ждут,
Так ждут письма.
Тряпичный лоскут,
Вокруг тесьма
Из клея. Внутри словцо.
И счастье. И это всё.

Так счастья не ждут,
Так ждут конца:
Солдатский салют
И в грудь свинца
Три дольки. В глазах красно.
И только. И это всё.

Не счастья стара!
Цвет ветер сдул!
Квадрата двора
И черных дул.

(Квадрата письма:
Чернил и чар!)
Для смертного сна
Никто не стар!

Квадрата письма.

11 августа 1923
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Marina Ivanovna Tsvietáieva (1892 1941), russa e moscovita, foi poetisa, escritora e tradutora; por decisão da mãe, ainda criança estudou piano e, entre 1901 e 1905, educou-se em ginásios clássicos e internatos na Europa (Nervi Itália, Lausanne França e Freiburg Alemanha); aprendeu italiano, francês e alemão; cursou História da Literatura na Sorbonne em Paris; publicou seus primeiros poemas aos 16 anos; opondo-se à Revolução de Outubro, deixou a Rússia em 1922 para juntar-se ao marido que fora oficial do Exército Branco na guerra civil, residiu primeiro em Berlim, depois em Praga e em Paris; no exílio, “deu prova também de profunda oposição ao capitalismo” e, quando os nazistas invadiram a Tcheco-Eslováquia, “escreveu um ciclo de poemas que era uma denúncia veemente do fascismo”; já em 1940, em plena turbulência da segunda guerra, retornou à então União Soviética e acabou por suicidar-se em 1941, após o marido ter sido fuzilado e uma filha ter sido internada em campo de concentração; suas obras: Вечерний альбом (Álbum da Noite, 1910), Волшебный фонарь, вторая книга стихов, Изд. «Оле-Лукойе» (Lanterna Mágica, o segundo livro de poemas, Ed. "Ole-Lukoye", 1912), Юношеские стихи (Poemas juvenis, 1913-1915), Червонный валет (Valete de Copas, drama, 1918), Каменный Ангел (Anjo de Pedra, drama, 1919), Лебединый стан (Acampamento dos cisnes, 1921), Разлука (Separação, 1922), После России (Depois da Rússia, 1928), Сибирь (Sibéria, 1930) e outros textos em verso e prosa; foi contemporânea de Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak, Sofia Parnok, Óssip Mandelstam, Anna Akhmatova e outros; com uma Europa em guerra e uma Rússia conflagrada, traduziu Federico García Lorca, Charles Baudelaire e Vasa Pshavela, um meio de subsistência e sobrevivência.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dante Alighieri: Inferno, VII, 73 — 96


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[traduzido por Eugenio Mauro]

[ . . . ]

Ele, cujo saber tudo transcende,
fez os céus e lhes deu quem os conduz:
se em toda parte cada parte esplende

é que igualmente lhes reparte a luz;
do mesmo modo pra pompa mundana
designou uma ministra e deu-lhe jus

de ir permutando a riqueza profana
de um pra outro sangue, e de gente em gente,
livre do alcance da cobiça humana.

Logo, uma gente impera, e languescente
fica a outra então conforme o arbítrio dela,
que é oculto como na relva a serpente.

É vão vosso querer controvertê-la:
em seu reino prevê, julga e procede
ela só, como, noutro, outro deus zela.

Sua contínua permutação não cede;
necessidade o giro lhe apressura,
assim sempre aparece quem sucede.

Ela é posta em odiosa conjuntura
mesmo por quem mais deveria louvá-la
com vã calúnia e infundada censura;

mas, beata, não ouve a vossa fala;
co’as outras primas criaturas, leda
gira sua roda, e sua ventura embala.

[ . . . ]

(A Divina comédia, São Paulo, Editora 34, 1998.)

Dante Alighieri

Inferno, VII, 73 — 96

[ . . . ]

Colui lo cui saver tutto transcende,
fece li cieli e diè lor chi conduce
sí, ch’ogne parte ad ogne parte splende,

distribuendo igualmente la luce.
Similemente a li splendor mondani
ordinò general ministra e duce

che permutasse a tempo li ben vani
di gente in gente e d’uno in altro sangue,
oltre la difension d’i senni umani;

per ch’una gente impera e l’altra langue,
seguendo lo giudicio di costei,
che è occulto come in erba l’angue.

Vostro saver non ha contasto a lei:
questa provede, giudica, e persegue
suo regno come il loro li altri dèi.

Le sue permutazion non hanno triegue;
necessità la fa esser veloce;
sí spesso vien chi vicenda consegue.

Quest’è colei ch’è tanto posta in croce
pur da color che le dovrien dar lode,
dandole biasmo a torto e mala voce;

ma ella s’è beata e ciò non ode:
con l’altre prime creature lieta
volve sua spera e beata si gode.

[ . . . ]

(La Divina Commedia, Milão, Ulrico Hoepli, 1987.)
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida, Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença e para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Amadeu Amaral: Rios


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Almas contemplativas! Vão rolando
Por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, árvores e tetos,
Céus e terras, tranqüilos, espelhando;

Vão refletindo todos os aspectos,
Num serpentear indiferente e brando;
Espreguiçam-se, límpidos, cantando,
No remanso dos sítios prediletos;

Fecundam plantações, movem engenhos,
Dão de beber, sustentam pescadores,
Suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
Cumprindo o seu destino sem clamores
E sonhando consigo um grande sonho.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc. etc.