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Hoje é sábado; não, eu é que estou
sábado. Organizo o domingo assim a cozinheira o seu bolo de nozes: aparo o cabelo,
engraxo o sapato, escolho a gravata de bolinha. Pouca gente na rua, os plátanos
enfeitam-se da conversa de pardais.
Meninas já brincam, vestidinho
branco no portão. Debruçando no livro de capa preta diz o escriturário, com o
lápis no ar: não te gastes, amanhã é domingo. Os cães conspiram na esquina: se
amanhã é domingo, tem osso de galinha.
Solteirona descansa o cotovelo na
janela: ai, tomara não chova domingo. Um gordo antegoza o domingo no prato
fundo de macarrão. A amada não veio, João? Amanhã domingo estará na missa.
Alma de artista, domingo você
rabisca o retrato da menina, fita azul no cabelo, mãe e filha chateadas. Noivo,
a sambiquira é com vinho na casa da sogra. Dor de dente? Que dia desgraçado: o
dentista não atende domingo.
Se você morre no sábado mais
depressa esquecido.
Eis o domingo e, como todo domingo,
um dia perdido — amanhã é segunda-feira.
(O conto Sábado, publicado
originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo
autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)
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Quem tem medo de vampiro? — contos,
Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan,
nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito
do Paraná (atual UFPR — Universidade Federal do Paraná), foi advogado,
jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e
Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas
Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba
(1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador
(1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena
de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos
ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan
editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo,
a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz
de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados
por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos
— como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer
traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas
como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da
Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná,
patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o
contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês,
holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas,
americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro
A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e
diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de
Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária:
o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa — Portugal), o Prêmio Machado de
Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012,
diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.



