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quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Dalton Trevisan: Sábado


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          Hoje é sábado; não, eu é que estou sábado. Organizo o domingo assim a cozinheira o seu bolo de nozes: aparo o cabelo, engraxo o sapato, escolho a gravata de bolinha. Pouca gente na rua, os plátanos enfeitam-se da conversa de pardais.
          Meninas já brincam, vestidinho branco no portão. Debruçando no livro de capa preta diz o escriturário, com o lápis no ar: não te gastes, amanhã é domingo. Os cães conspiram na esquina: se amanhã é domingo, tem osso de galinha.
          Solteirona descansa o cotovelo na janela: ai, tomara não chova domingo. Um gordo antegoza o domingo no prato fundo de macarrão. A amada não veio, João? Amanhã domingo estará na missa.
          Alma de artista, domingo você rabisca o retrato da menina, fita azul no cabelo, mãe e filha chateadas. Noivo, a sambiquira é com vinho na casa da sogra. Dor de dente? Que dia desgraçado: o dentista não atende domingo.
          Se você morre no sábado mais depressa esquecido.
          Eis o domingo e, como todo domingo, um dia perdido amanhã é segunda-feira.

(O conto Sábado, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Dalton Trevisan: Candinho se apresenta para a mulher de João: . . .


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[conto 134]

          Candinho se apresenta para a mulher de João:
           Minha senhora, venho me queixar do seu marido, que me roubou o Edu. Cuidei como de um filho, hoje estou velho. Ninguém por mim senão ele. Seu marido, moço e bonito, pode ter todos os homens e mulheres. Só peço que me deixe o único amor.
          Ao chegar o marido, ela exige explicação.
           É verdade ele diz.
           Então escolha. Eu ou esse aí.
           Já escolhi.
          Mesma hora João sai de casa, abandonando a mulher e os dois filhos.
          João e Edu ficam anos juntos. Um dia, mais uma vez, os dois brigam e João o expulsa de casa. Em desespero, Edu se queixa à mãe de João:
           Madame, sou um perdido e um desgraçado. Só a senhora pode me salvar. Conto com a sua piedade e o seu socorro. O João quer me abandonar. Já de cabelo branco, não sei ganhar a vida. Aprendi apenas a agradá-lo, que me acostumou com o melhor. Quando enjoa de mim, saio pela rua atrás de moço bonito para ele. Agora me expulsa por amor de outro, instalado no meu quarto. Como hei de viver, sem uma pensão? Se ele não me acode, só me resta morrer.
          Procurado pela velhinha, João nem pisca:
           Esse aí? Fala de morte. Só que não morre.
          Ah, é? Dia seguinte, Edu abre o gás, toma veneno, corta o pulso. Enquanto agoniza, escreve ao pérfido João o último bilhete. Com sangue desenha trêmulo ADEUS sobre o coração varado sem dó pelo teu punhal gotejante de mel.
          João rasga-o em pedacinhos:
           Morreu, a Dudu Louca? Bem feito. Muito feliz com o meu novo amor.

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Pico na Veia: Dalton Trevisan, 2002, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

domingo, 16 de junho de 2024

Dalton Trevisan: O duelo


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          José foi morar na velha casa, o quintal cheio de gatos. Ele não gostava de bichos, espalhou à noite iscas de carne envenenada. Descobriu ninhada de gatinhos, meteu-os no saco e com um porrete malhou os pobres-diabos. Furada de unhas, a bola de estopa arrastando-se pelo chão espirrava de sangue as paredes. Quando acertava numa cabeça ela explodia, laranja podre ao cair do galho.
          Acabou com os gatos do quintal, menos um era afeiçoado à casa, não ao antigo dono.
          Preparou bolinhas com arsênico, o gato não comeu. Por muitos dias não viu o inimigo. Seguia o rastro: a cabeça crua de galinha, ali a seus pés, roubada da lata de lixo. José ia lidar nas roseiras e, na terra fofa, a maldição dos cocôs enterrados. De noite, chegava da rua e na escada avistou o bichano: espantoso, negro, belo.
          Deitado na cama, ouvia as unhas lá na tampa da lata engordava à sua custa. O gato bebia a sua água do balde, enrolado no seu capacho. José, terror da família, desafiado por um vagabundo, que o adotava seu dono. Se estalasse a língua, viria rastejando beijar-lhe o sapato... Ah, esmagar-lhe a cabeça que nem uma ponta de cigarro. Planejando assassiná-lo, não dormia. A mulher comentou:
           Parece louco, José. O gato não lhe fez mal. É bicho de Deus.
          Antes do gato, não se atreveria a falar naquele tom. José tossia: os pelos do outro no ar... Certa feita encurralou-o no canto da casa. Avançou de cacete em riste, o diabo agarrou-se à parede e foi ao chão, de unhas quebradas. A pancada rebentou um dos quadris obscenos. Mal-ferido, ainda se arrastou pelo jardim.
          José cobria a cabeça para não ouvir os gritos de uma gata amorosa. Eram muitos bichanos, reconhecia a voz do seu entre todos. Uns olhos fosfóreos alumiavam o quarto. Garras subiam-lhe pela roupa, enterravam-se na carne e despertava com miado horrendo.
          A casa pequena para os dois. Bebia no botequim, ao outro a mulher elegera campeão da família. Com a mão na porta, escutou um dos filhos:
           Mamãe, o pai tem raiva do nosso gato?
          Cantando voltou de madrugada. Não o encontrava há três dias; quem dera morto, no fundo do porão, um bico de galinha na negra garganta. Ao pé da escada, olhou para cima: duas luas no último degrau. Era a coisa, viva, comendo...
          Atirou-se para a estripar com unhas e dentes. O maldito fugiu. José tropeçou e rolou pela escada. Choramingava, pescoço quebrado, boca mergulhada no lixo.
          A porta da cozinha não se abriu. A família escolhera o outro, que miava em torno do moribundo o gato da casa a carpir o dono querido.

(O conto O duelo, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Dalton Trevisan: Despedida


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          Meu pai leva-me à porta do famoso noturno para a cidade grande:
           Cuide-se, meu filho. É um mundo selvagem.
          Esse verbo clamante no teu ouvido. Por delicadeza, perdi a minha voz. Ó profetas ó sermões!
           Longe da família, será você contra todos.
          Homem não se beija nem abraça, nos apertamos duramente as mãos. Me instalo a uma das janelas, com a vidraça descida. Mais que me esforce, impossível erguê-la. Já não podemos falar. Esse pai dos pais ali na plataforma, mudo e solene. O trem não parte. Fumaça da estação? De repente ei-lo de olhos marejados.
          E, sem querer, também eu comovido. Diante de mim o feroz tirano da família? Ditador da verdade, dono da palavra final? Primeira vez, em tantos anos, vejo um senhor muito antigo. Pobre velhinho solitário. Merda, o trem não parte. Meu pai saca o relógio do colete, dois giros na corda. Pressuroso, digo que se vá. Doente, não apanhe friagem. E ele sem escutar.
          Olha de novo o relógio. Aceno que pode ir, não espere a partida. Quero ver a hora? Exibe o patacão na ponta da corrente dourada. Nosso último encontro, sei lá. E, ainda na despedida, o eterno equívoco entre nós. Maldita vidraça de silêncio a nos separar. Desta vez para sempre.

(O conto Despedida, publicado originalmente em
234 ministórias — 1997, foi revisto pelo autor para
a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Dalton Trevisan: Gigi


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          Não dê dinheiro ao Gigi. É um pedido de mãe aflita!  cada vez que Gigi foge de casa o anúncio no jornal, ao lado do retrato 3 x 4 na farda de soldadinho. Com o dinheiro, ele bebe, faz doidice. Dona Maria quer morrer antes que enterrem o filho no asilo.
          Gigi é manso, louco só nos olhos: sabem de coisas que a mãe não suspeita. Dona Maria penteia-lhe o remoinho e põe-no à janela, vidraça descida. Às vezes tem permissão de ficar na porta e, ao se ver só, pede cigarrinho às pessoas. Depois quer fogo. Quando o outro risca o fósforo, ele sopra. O outro acende o segundo fósforo, segura-o na concha das mãos. Sem tirar o cigarro da boca, Gigi sopra o fósforo. Sopra-os todos, até que a pessoa fuja de medo e fuma o cigarro apagado.
          Mora na janela, atrás da vidraça, onde caça mosca. Guloso pelas varejeiras, as mais gordas, azuis e verdes, com brilho de ouro; de uma arranca as asas e, escondida na mão, ouve deslumbrado o bzzz nem pode brincar, tão depressa ela morre.
          Embora dócil, resiste a cortar unha ou cabelo. Tanto crescem as unhas, esgueira-se de sapato na mão, gato com seu pedaço de carne. É chamado o enfermeiro, que lhe amarra as mãos na cadeira. Depois apara as unhas, barbeia, rapa a cabeça. Xinga-o de Louquinho, sem que se ofenda.
          Dona Maria traz seu prato. Ele espalha a comida no chão, logo fervilha de formiga preta. Estala formiguinha na unha nem sai sangue.
          Noite de lua aos berros na janela do sótão. É a serenata para a mulher do vizinho. Ela pegou na mão de Gigi:
          — Tadinho do meu bem!
          Tanto bastou que a adorasse. O quarto de Gigi dá para o quintal do vizinho. A mulher surge à porta, ele fica imediatamente nu, atrás da vidraça, ronco feio na garganta. A moça não sai do lugar. Eis o marido que o ameaça de revólver:
           Esse tarado eu arrebento!
          Só não avisa a polícia: Dona Maria sofre do coração, morta a um grito do filho. O socorro da velha é o Bitu.
           Leve o Gigi passear. Os dois ganham broinha de fubá.
          O menino gosta de Gigi e bate palminha de alegria um doido só para ele. Faz que Gigi peça dinheiro na rua. Bitu compra sorvete e não dá a Gigi. No fim do sorvete, Gigi lambe os pingos na mão do menino.
          Apostam corrida de besouro. Bitu prende-lhes um fio na carapaça, enfia uma farpa no rabo. Gigi perde sempre o menino quebra uma patinha do seu corredor. Guardados na caixa de sapatos, por mais que lhes dê água e pão-de-ló, morrem de tristeza.
          A vizinha segurou-lhe a mão. Ele, que era manso, começou a ter ataque. Sobe ao quarto do sótão. Ela não aparece? Engole a mosca zumbindo na vidraça.
          O relógio do louco é a inveja de Bitu, nem um dos dois sabe as horas. Gigi aperta o relógio na orelha e ouve, um fio de baba no canto da boca: é doce como estalar formiguinha. O menino segredou-lhe a mulher do vizinho perdida de paixão. Gigi lhe desse o relógio, levá-lo-ia ao seu quarto.
          Antes foi ver o que dona Maria estava fazendo: partia ervilha na cozinha. O menino guiou o doidinho ao portão da outra casa.
           Entre, Gigi. Não tenha medo. A moça quer um beijo!
          Gigi traz a caixa de papelão com cinco besouros mortos o presente de noivado.
          Não avança o piá além do portão. Espiando a janela do sótão, a moça penteia o longo cabelo dourado. O marido azeita o revólver no quarto. Tarde tão quieta, dona Maria escuta uma ervilha cair no chão.
          Gigi segue pelo corredor na ponta do pé, a unha crescida. O coração do menino, à sombra do muro, bate mais alto que o relógio na mão fechada.

(O conto Gigi, publicado originalmente em Novelas
Nada Exemplares — 1959, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa — Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Dalton Trevisan: A comadre


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          Na tarde aprazada João foi à casa do compadre para acertar uma dívida. Dona Maria disse que o homem não estava, mas por que não estava? Respondeu que tinha pressa e ficava para outro dia.
           Entre, que ele não demora insistiu risonha a comadre.
          Ao vê-lo, irresoluto, a sacar o relógio do bolsinho da calça:
           A modo que tem medo de mim?
          João espiava os gestos faceiros da moça e não queria desfeitear o compadre. Entrou, mas não aceitou a cadeira:
           Espero mesmo de pé.
          A dona disse que, escondida do marido, gostava de um cigarrinho.
           Não aqui na sala, que ele sente o cheiro. É melhor na janela do quarto.
          João enrolou cigarro de palha. Ela queixava-se de não sei quem e, reclinada no travesseiro, descansou as pernas sobre a cama, a saia acima do joelho.
          Na terceira tentativa, João conseguiu rematar a palha, dobrou uma das pontas. Ao apanhar o cigarro, ela segurou-lhe a mão. Disse que na cama havia lugar para mais um.
          Sentando-se, ele riscava o polegar trêmulo no isqueiro. Em vez de acender o cigarro, dona Maria soprou o fogo.
           Deite, seu bobo.
          Que bulha foi essa na cozinha? Ficaram suspensos, a olhar um para o outro.
           É o gato afirmou ela. Não carece ter susto.
          Sem saber que na casa não havia gato, João tirou o paletó e descalçou o sapato.

(O conto A comadre, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Dalton Trevisan: Dois velhinhos


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          Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela do asilo.
          Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.
          Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:
           Um cachorro ergue a perninha no poste.
          Mais tarde:
           Uma menina de vestido branco pulando corda.
          Ou ainda:
           Agora é um enterro de luxo.
          Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
          Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.
          Cochila um instante é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.

(O conto Dois velhinhos, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Dalton Trevisan: Loira, magra, pálida. Olhinho verde. . . .

 
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Conto 54

          Loira, magra, pálida. Olhinho verde. Faz o curso de normalista em Curitiba, pronto adoece do peito. Volta para casa se tratar com repouso e comida farta. De noite à janela, almofada no peitoril, se distrai com o movimento na praça.
          João começa a subir e descer a rua. Ela não sai da janela. Na quinta ou sexta noite, ele ganha coragem: “Boa noite.” Ela acena de leve. Na volta, ele para. Assim inicia o namoro. Com aprovação da mãe que se afasta quando ele surge na esquina.
          Grande vexame a avozinha caduca, guardada longe das visitas. De repente salta a cabecinha branca na janela do sótão e berra o palavrão medonho. Os dois pretendem não ouvir. A moça olha fixamente as luzes piscantes na porta do cinema.
          Um mês de namoro sob a janela. Depois ele entra na sala. É quando o tio médico o aborda na praça:
           João, sabe a doença que ela tem, não é? Ela se apaixona por você, e daí? Você compromete a moça, que não pode casar. Serão os dois infelizes.
          Perturbado, roído de culpa, se despede da namorada. Já lhe devolvendo os presentes: um retratinho 3x4, outro colorido, tamanho postal. Mais a fitinha rósea de cabelo. Motivo: uma longa viagem de estudo.
          Arrependidíssimo volta para casa, chutando pomba na calçada e se chamando rato piolhento com gravatinha-borboleta e tudo.
          Nove da noite, ao cruzar a praça, dá com a moça à janela. Amor, pena e remorso, aproxima-se. ela, voz chorosa:
           Veio me dizer o que esqueceu ontem?
          No peito sete agulhas fininhas de gelo.
           Não. vim dizer que te amo. E não quero te perder. Você me perdoa?
          Eis a cabecinha branca da velhota na janela do sótão:
           Pu-ta-que-me-pa-riu!
          Reconciliados, os dois riem com gosto.
          Conselho médico, ela deve passar toda manhã respirando o ar puro do campo — ele ao seu lado, mãos dadas. Lívida e linda, na face uma pétala de carmim de febre, tossicando no lencinho rendado. Convencidos, ele mais que ela, que para tão grande amor tão pouca é a tísica.
          Sem aviso a família decide mudar para Curitiba. Eles passam a se cartear: “Quando me deixou, ai João... pensei de ir para a cama... nunca mais levantar... agora deitada ficarei... me levem de volta para você...”
          Mal sabe a pobre que desta vez. Na carta seguinte, a última, um anel de cabelo: seria loiro? ai não, branco seria?
          Tão saudoso, com tamanha aflição, deitada lá longe, ele salta correndo no primeiro trem. Na tarde florida de sol, à sombra de uma árvore, espia a casa de veneziana verde. Pra lá pra cá, por duas horas, na louca esperança de uma luva de crochê acenando da janela.
           Por que não bateu?
           Não tinha liberdade para isso.
          Dia seguinte a notícia da morte no sono. Meses depois, a mãe vai à casa de João pedir de volta cartas e retratos. Ele remexe no bauzinho e entrega o seu tesouro mais precioso.
           Mas não devolvi todas. Uma eu guardo até hoje.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Dalton Trevisan: picos na veia [nanocontos IV]

 
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Conto 132:

O marido para o melhor amigo e amante da mulher:
Nunca se case, meu velho. Olha pra mim. Já viu alguém mais infeliz?
E o amante, ressabiado: Epa, será que ele sabe?

Conto 141:

A mulher do velho poeta:
 Em vez de ganhar dinheiro, você fica aí sentado cantando o mesmo versinho!

Conto 147:

Melhora muito o convívio de Sócrates e Xantipa assim que um deles bebe cicuta.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Dalton Trevisan: picos na veia [nanocontos III]

 
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Conto 37:
 
Na farmácia, a mocinha com o bebê no colo, apagando a voz:
 Uma caixa de pílula e um batom bem vermelho.
 
Conto 85:
 
A mulher para a mocinha:
 Mas ele te bate?
 Não. Isso, não.
 Então? Está reclamando do quê?
 
Conto 135:
 
O velhote, bem tristonho:
Ainda fica duro, o carinha. Só que não trava.
 
Conto 201:
 
O solitário, abrindo a porta da casa deserta:
 Ei, minha gente, cheguei!
Juntos alegremente respondem o irmão caruncho e a irmã baratinha.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.