sábado, 31 de maio de 2025

Goethe: Secretíssimo

____________________
[traduzido por Daniel Martineschen]

“Nós, os fofoqueiros,
estamos muito preocupados:
quem é tua amada, e se tu
não tens muitos cunhados.

Vemos que apaixonado estás,
até podemos aceitar;
mas que a amadfa te ame,
isso não podemos acreditar.”

Sem problema, meus senhores,
vão a ela, mas ouçam bem:
Tremerão em sua presença;
Ausente, louvem sua imagem.

Sabem como Xaabe Aldim
se despiu sobre o Arafat.
Ninguém que haja como ele
está fazendo disparate.

Se perante a tão amada
ou perante o trono do rei
o teu nome for falado:
esta é a paga mais elevada.

Foi por isso o grande luto
quando Majnun quis morrer,
e que Laila o seu nome
nunca mais voltasse a dizer.

(Divã Ocidento-Oriental
Livro do Amor)

Goethe

Geheimstes

"Wir sind emsig, nachzuspüren,
Wir, die Anekdotenjäger,
Wer dein Liebchen sei und ob du
Nicht auch habest viele Schwäger.

Denn daß du verliebt bist, sehn wir,
Mögen dir es gerne gönnen;
Doch, daß Liebchen so dich liebe
Werden wir nicht glauben können."

Ungehindert, liebe Herren,
Sucht sie auf! Nur hört das Eine:
Ihr erschrecket, wenn sie dasteht,
Ist sie fort, ihr kost dem Scheine.

Wißt ihr, wie Schehab-eddin
Sich auf Arafat entmantelt,
Niemand haltet ihr für törig,
Der in seinem Sinne handelt.

Wenn vor deines Kaisers Throne
Oder vor der Vielgeliebten
Je dein Name wird gesprochen
Sei es dir zu höchstem Lohne.

Darum war’s der höchste Jammer,
Als einst Medschnun sterbend wollte,
Daß vor Leila seinen Namen
Man forthin nicht nennen sollte.

(West-östlicher Divan
Ushk Nameh)
____________________
Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Vasko Popa: Galinha

 
____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Crê
Somente no pipilar alegre
Das lembranças amarelas

Desaparece
Diante dos galhos nevados
Que se estendem atrás dela

Resseca
Sob os lagos famintos
Que acima dela circulam

Salta
Da cabeça que sangra
E a mergulha na noite

Salta
Sobre o poleiro para alçar vôo

Vasko Popa

КОКОШКА

Верује
Само веселом пијуку
Својих жутих сећања

Нестане
Пред снежним гранама
Што се за њом пружају

Пресахне
Испод гладних језера
Што над њом круже

Одскочи
Од своје крваве главе
Која је у ноћ гњура

Одскочи
На легало да узлети
____________________
Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Rui Cinatti: Fato

 
____________________
Tenho apreendido muito convosco, ó amigos homens,
a gostar de aventuras e, sobretudo,
mulheres ao alto, ao lado, ao fundo
e, adormecido, sonhar fora do mundo.

07/12/[19]76

(56 Poemas — 1981)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Rui Cinatti ou Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes (1915 1986), nascido em Londres, Reino Unido, viveu em Portugal e no Timor Leste, fez seus primeiros estudos como aluno interno no lisboense Instituto Militar dos Pupilos do Exército, formou-se em Fitogeografia no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, foi antropólogo, agrônomo e poeta; viajou pelo mundo, na Universidade de Oxford, Inglaterra, tardiamente estudou Etnologia e Antropologia Social e Cultural; em Timor Leste (à época, colônia ultramarina portuguesa), desempenhou funções públicas no governo local, sempre relacionadas com seu aprendizado técnico e acadêmico; na área literária, em 1940, foi co-dirigente da revista Cadernos de Poesia, ao lado de Jorge de Sena e outros, ali publicou suas primeiras obras poéticas; entre 1942-1943, fundou a revista Aventura, da qual foram redatores Eduardo Freitas da Costa, Jorge de Sena ...; colaborou com as revistas Panorama e Atlântico (revista luso-brasileira); consta de sua biografia que, a partir de 1958, com a publicação d'O Livro do Nómada Meu Amigo, ‘a presença dos territórios por onde viajou e sobretudo de Timor, se assumiria como “objeto em que se concretiza a aproximação do poeta consigo mesmo e com a vida humana dos outros”’; escreveu e publicou: Nós não somos deste mundo (1941), Anoitecendo, a vida recomeça (1942), Poemas escolhidos (1951), O livro do nómada meu amigo (1958), Sete septetos (1967), Crônica Cabo Verdeana (1967), Ossobó (1967), O tédio recompensado (1968), Borda d’alma (1972), Uma sequência Timorense (1970), Memória descritiva (1971), Conversa de rotina (1973), Cravo singular (1974), Timor — Amar (1974), Os poemas do Itinerário Angolano (1974), 56 poesias (1981), todos de poesia, além de várias obras de Antropologia e Botânica Timorense; premiações: Prêmio Antero de Quental (pela obra O Livro do Nómada Meu Amigo, 1958), Prêmio Nacional da Poesia (por Sete Septetos, 1968), Prêmio Camilo Pessanha (1971), Prêmio P.E.N. Clube de Poesia (1982); pertenceu à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, da qual foi presidente.

Carlos Drummond de Andrade: O Maior Trem do Mundo

____________________
O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
para o Japão.

O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará

pois nem terra nem coração existem mais.

[publicado em 1984 — Jornal “O Cometa Itabirano”]

Drummond

El Mayor Tren del Mundo

(versión de Manuel Graña Etcheverry)

El mayor tren del mundo
lleva a mi tierra
para Alemania
lleva mi tierra
para el Canadá
lleva mi tierra
para el Japón.

El mayor tren del mundo
arrastrado por cinco locomotoras a óleo diesel
enganchadas adosadas desenfrenadas
lleva mi tempo, mi infancia, mi vida
triturada en 163 vagones de mineral y destrucción.

El mayor tren del mundo
transporta la cosa mínima del mundo,
mi corazón itabirano.

Allá va el mayor tren del mundo
va serpenteando va desapareciendo
y un día, yo sé, no volverá

porque ni tierra ni corazón existen más.
____________________
Caminhos Drummondianos: Itabira — MG, edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e 2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Lirio de Rezende: Últimos momentos de Nero

 
____________________
Maldito seja o dia em que eu nasci
Maldito o ebúrneo leite que mamei
Maldita a vida inútil que passei
E malditas as mágoas que sofri

Maldita seja a paz que idealizei
Mais os lauréis do gênio que expandi
Maldita seja a lei que proclamei
E todo bem que aos nobres concedi.

Maldito seja o trono, a humanidade
Maldito o amor, o gozo, a liberdade
Que não passam de meras ilusões

Maldita seja a Madre-Natureza
Que permite o momento de fraqueza
Em que morre o maior dos corações

(Voz Cosmopolita, 1/2/1923, p. 2.)

____________________
Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

terça-feira, 27 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Bapo

 
____________________
          Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de desaponto, indagava da criada:
           Bapo?
           É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando todo.
          Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões, olhava para a ama e confirmava, gravemente:
           Bapo!
          Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
          Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
          Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala, pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse, molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de fole. O menino ria:
           Papá?
           Bapo está com fome, sim. Joga um pedacinho de pão para ele.
          As migalhas caíam em chuva na superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias, enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o fundo do lago.
          De tarde, vinha não se sabe donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador, atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o emaranhado de hastes e raízes.
          Passava dias sumido. Ninguém mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
           Bapo!
           Bapo foi-se embora. Não chega lá, não. Você está ficando muito levado!
          E o menino repetia, fazendo com as mãozinhas um gesto desolado:
           Foi bó!
          Arisco, mal sentia um vento mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada, permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
          Um dia, numa manhã de julho, sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em “s”, sinuoso e hirto.
          Certa tarde quanto tempo depois? , deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
          Desvencilharam-no com um pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento. Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
          Quando o agarraram, ainda tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água, ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
           Fiu! Fiu! Fiu!
          O menino, aflito, apontava para o pobre corpo ferido e aleijado:
           Dodói! Dodói!
          Soltaram-no de novo. E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha.
          Quando o tiraram dali, estava morto.

____________________
Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Ascânio Lopes: Os guardas e o pastor & O tecelão

 
____________________
Os guardas e o pastor

          Os homens de sobrecenho carregado, vestidos de bronze, passaram na estrada com o rumor de espadas pesadas, batendo nos selins de prata e o som seco das ferraduras dos cavalos, batendo nas pedras e o estrídulo soar dos clarins e o pesado e compassado ruído dos tambores.
          Todo vale os ouviu, menos o pastor que estava entretido em guiar seu gado para o curral.
          Ele só tinha ouvidos para as coisas humildes e só enxergava as coisas quotidianas.

o

O tecelão

A mão do tecelão é leve
e breve, e traça iluminuras
de fios, como riscos
suaves e ligeiros
das aves
no ar.

Enquanto outros pensam
em glórias, desejam
palácios,
riquezas,
o tecelão
sonha com
teares pujantes e
tecidos fantásticos.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

____________________
Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

domingo, 25 de maio de 2025

José Oiticica: A Ave

 
____________________
Eu era a ave saudosa, de asas rijas,
Engaiolada por oculta mão...
Eu, eterno! eu, viajor! “Não! não te aflijas,
Pássaro, hás de deixar teu alçapão!”

E eu fitava a alta linha das cornijas
Onde quisera ter meu ninho, em vão!
“Para possuíres tudo, não exijas;
Cumpre, sem desejar, tua missão.”

Sendo minha missão cantar, eu, a Ave,
Cantei, ao céu mortal e à luz sem cor,
A canção de Solweg  eterna e grave! 

Cantei! E um dia as asas do Voador
Saíram da prisão sem mais entrave...
Cantar é o talismã do Cantador.

____________________
José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor, poeta, militante e ativista do anarquismo; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, da revista A Vida e do jornal Na Barricada; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

sábado, 24 de maio de 2025

B. Lopes: Velho Muro


____________________
Velho muro da chácara! Parcela
Do que já foste: resto do passado,
Bolorento, musgoso, úmido, orlado
De uma coroa víride e singela.

Forte e novo eu te vi, na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela…

Linda epoméia te bordava a crista;
Eras, ao luar de leite, um linho albente,
Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

Em ti pousava a doce borboleta…
E quantas noites viste, ermo e silente,
Romeu beijando as mãos de Julieta!

[Plumário — 1905]

____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (várias autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu; depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Ribeiro Couto: Baianinha

 
____________________
[trechos]

[ . . . ]

          Zezé Flores chegou à pensão numa segunda-feira. O marido fora nomeado engenheiro da Inspetoria de Portos. Vinham de São Salvador, de mudança, com três pesadas malas de roupa e um acento baiano horroroso, em que os rr eram aspirados como hh ingleses.
          Era morena, miúda, flexível. Ao rir-se, a boca pequena e fina descobria dentes alvos, que sugeriam mordidelas gostosas em nacos de carne polpuda. Tinha atitudes imperativas, um olhar vitorioso quando encarava as pessoas. Usava vestidos de cores berrantes, amarelos em oca, vermelho sangrento de urucum.

[ . . . ]

          A baianinha empolgou-me. A iniciação do nosso amor foi simples.
          O quarto dela era nos fundos do edifício, cujos compartimentos davam para um pátio com jardim. O chuveiro era no extremo do pátio. Sempre que eu passava, enfiado no roupão de banho, via Zezé costurando, numa cadeira de braços, entre os tinhorões dos canteiros.
          Acanhado, eu cumprimentava.
          Às vezes, o chuveiro estava ocupado. O professor de Inglês cantarolava lá, com uma voz estertorante de barítono gasto.
          A princípio timidamente, fui tomando o hábito de parar junto de Zezé Flores antes de ir para a ducha. Como sentisse nela uma ironia maliciosa que zombava do meu acanhamento, animei-me aos poucos. Passamos a conversar coisas picantes.
          Ela gostava de frases:
           O déstino de uma móler bonita é o amorr. Não é nãão?
          Essa literatura avançada ficava chocante na sua boca provinciana de baianinha.
          Em todo caso, que fazer? Um dia beijei-a.
          Não teve o menor susto. Lambeu a boca, como que recolhendo o beijo e continuou a conversa, muito calma.
          Olhei para trás, com o terror de que houvessem visto: à janela de um quarto havia o gato da casa, que dormia ao sol. Uma abelha zumbia em torno de uma flor, quase no meu nariz.
          Corri ao chuveiro para isolar-me, para pôr de novo as ideias em ordem, porque o meu instintivo rompante me abalara as fibras, agora desmanchadas pela comoção.

[ . . . ]

(Histórias de Cidade Grande [Contos Escolhidos].
Rio de Janeiro: Cultrix, 1960, pp. 93-96.)

____________________
Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, cursou a Escola de Comércio José Bonifácio dessa cidade, estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, onde bacharelou-se, foi jornalista, magistrado, promotor público, diplomata, poeta, contista e romancista; trabalhou/colaborou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, em São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, no Rio de Janeiro, A Província, em Pernambuco, e em outros periódicos; suas obras: em poesia: O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Canções de amor (1930), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (O dia é longo, 1958), Longe (1961) ...; em prosa: A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Histórias de Cidade Grande — contos escolhidos (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros  títulos; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; escreveu poemas em francês, o livro Le jour est long (O dia é longo); pertenceu à Academia Brasileira de Letras; como diplomata, atuou na França, em Portugal, Holanda e Iugoslávia, neste país, foi embaixador e ali se aposentou.