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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Lima Barreto: Uma entrevista

Diário do hospício & O cemitério dos vivos | Amazon.com.br
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(A Folha, 31 de janeiro de 1920)

          Lima Barreto, o romancista admirável de Isaías Caminha, está no Hospício. Boêmio incorrigível, os desregramentos de vida abateram-lhe o ânimo de tal forma, que se viu obrigado a ir passar uns dias na praia da Saudade, diante do mar, respirando o ar puro desse recanto ameno da cidade. Lá está seguramente há um mês. É verdade que não está maluco, como a princípio se poderá cuidar; apenas um pouco excitado e combalido. O seu espírito está perfeitamente lúcido, e a prova disso é que Lima Barreto, apesar do ambiente ser muito pouco propício, tem escrito muito. Ainda há dias, numa rápida visita que lhe fizemos, tivemos ocasião de verificar a sua boa disposição e de ouvi-lo sobre os planos de trabalho que está construindo mentalmente, para realizar depois que se libertar das grades do manicômio. Lima Barreto apareceu-nos vestindo a roupa de zuarte, usada no estabelecimento, os cabelos desgrenhados e os dedos sujos de tinta, sinal evidente de que escrevia no momento em que fora chamado.
           Então, Lima, o que é isso?
           É verdade. Meteram-me aqui para descansar um pouco. E eu aqui estou satisfeito, pronto a voltar ao mundo.
           Boa, então, esta vidinha?
           Boa, propriamente, não direi: mas, afinal, a maior, senão a única ventura, consiste na liberdade; o Hospício é uma prisão como outra qualquer, com grades e guardas severos que mal nos permitem chegar à janela. Para mim, porém, tem sido útil a estadia nos domínios do senhor Juliano Moreira. Tenho coligido observações interessantíssimas para escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos. Leia O cemitério dos vivos. Nessas páginas contarei, com fartura de pormenores, as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro destas paredes inexpugnáveis. Tenho visto coisas interessantíssimas.
           Mas, afinal, como vieste para aqui?
           Muito simplesmente. Estando um pouco excitado, é natural, por certos abusos, resolveu meu irmão que eu necessitava descanso. E, um belo dia, meteu-me num carro e abalou comigo para cá. Quando verifiquei  onde estava, fiquei indignado. Essa indignação, pareceu, então aos homens daqui acesso furioso de loucura e o seu amigo foi, sem mais formalidades, trancafiado num quarto-forte. Aí é que presenciei as cenas mais engraçadas entre todas as que já me têm sido dado ver. Éramos quatro dentro de um espaço que mal chegava para um homem se mover com certa liberdade. Um preto epilético, que tinha ataques horríveis, um mulato de fisionomia má, que tinha mania de ser mudo, um português, coitado, que resolveu ser cavalo de tílburi e eu. Logo que entrei, compreendi o perigo de minha situação e procurei me colocar num canto, bem cosido à parede, para evitar os pontapés, que à guisa de coices, dava o suposto cavalo de tílburi. O preto epilético, porém, veio em meu auxílio.
           Você não é aprendiz de marinheiro? perguntou-me acolhedor.
          E eu, para o não contrariar, respondi logo que sim.
           Eu me lembro de você acrescentou ele. Somos colegas.
          Se não fosse esse “colega”, agora não sei onde estaria, o “cavalo” era fraco, menor e tinha uma predileção especial pelas minhas parcas carnes. De vez em quando, juntava os pés e — bumba! arrumava um par de coices violentos. O preto é que intervinha, e, gritando como se fosse cocheiro, obrigava-o a escoicear as paredes e não a mim. Assim foram as minhas primeiras horas pesadas neste caso. Depois é que compreenderam que eu não era um maluco e me libertaram.
           Mas não te reconheceu ninguém?
           Até então, não. Nem eu fiz por isso. Queria, ao contrário, passar despercebido, para observar melhor e mesmo para verificar, por experiência própria, a maneira como eram tratados os loucos desprotegidos e sem dinheiro que no Hospício também predomina o “pistolão”, é preciso que se note. Logo que me soltaram, entretanto, deram-me uma vassoura e mandaram-me varrer o Pavilhão de Observação e, depois, o parque.
          E, passivamente me submeti e dei conta do serviço. Foi quando terminava de varrer o parque, que um pensionista me reconheceu e denunciou. No dia seguinte me visitava o meu amigo Humberto Gotuzzo e me fazia transferir para a seção em que eu até agora estou.
           E a companhia, que tal?
           Boa. Onde estou só há inofensivos, malucos mansos ou menos suspeitos, como eu. Não fazem mal a ninguém, nem se preocupam uns com a vida dos outros. Há uns “cacetes”, conversadores ou pedinchões. Querem penas, papel, cigarros enfim, os “filantes” que existem lá fora, existem também aqui dentro. Mas são mansos e não fazem mal a ninguém. Pode-se viver perfeitamente no meio deles.
           Cita aí alguns tipos interessantes dos que observaste. A título de curiosidade...
           Isso não. Se eu os citar, o livro perderá o interesse. Essas coisas valem, sobretudo, pela novidade. O que posso assegurar, no entanto, é que há uns esplêndidos, melhores ainda do que o tal “cavalo de tílburi”.
           E quando pensas lançar O cemitério dos vivos?
           Não sei. Agora só falta escrever, meter em forma as observações reunidas. Esse trabalho pretendo encetar logo que saia daqui, porque aqui não tenho as comodidades que são de desejar para a feitura de uma obra dessa natureza.
          E Lima Barreto, sorrindo, arrancou do bolso um pedaço de papel:
           Estás vendo? São uns tipos que acabo de jogar.

Lima Barreto: literatura que se confunde com vida pessoal denuncia ...
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Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos — Lima Barreto, Prefácio de Alfredo Bosi e Organização e Notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta entre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em  jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Amador Ribeiro Neto: O que é poesia? — Entrevista

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        Pergunta: O que é poesia para você?
        Amador Ribeiro Neto: Embora seja professor de teoria da poesia e poeta, eu não sei o que é poesia. Por isto me valho de 2 grandes pensadores: poesia é palavra na sua mais condensada dimensão (Pound) e é som, sentido e imagem numa interação semiótica (Jakobson).

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        ARN: Clareza de pensamentos e consciência de linguagem. Neca de pitibiribas de inspiração. Muito tutano, no duro.

        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        ARN: Poetas: Augusto de Campos, João Cabral de Melo Neto e Caetano Veloso. Escolhi estes 3 poetas porque o que fazem/fizeram me provocam, me instigam e me incomodam sempre.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; Amador Ribeiro Neto e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Amador Ribeiro Neto, nascido em 1953, paulista de Caconde, com mestrado em Teoria Literária pela USP e doutorado em Semiótica pela PUC SP, é poeta, crítico literário, pesquisador e professor; escreveu e publicou Barrocidade (poesias, 2003), Imagens & Poemas (com Roberto Coura, 2008), organizou Muitos — Outras Leituras de Caetano Veloso (2003), Literatura na Universidade (ensaios, 2001), Epifania da Poesia sobre Haicais de Saulo Mendonça (ensaios, 2012) e participou de antologias.

domingo, 18 de setembro de 2016

Frederico Barbosa: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Frederico Barbosa: Durante muitos anos recusei-me a responder a essa pergunta. Considerava precipitado ou enganador quem a tentava responder. E muitas tentativas de definição da poesia são mesmo superficialidades subjetivas demais para meu gosto: palavras vagas que formam quase sempre a mesma ladainha difusa e mistificadora.
          Mas, paradoxalmente, se me recusava a definir a poesia, adorava e adotava a definição de Roman Jakobson, de que a função poética da linguagem é a projeção  do "princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação", ou seja, na criação literária a composição se sobrepõe, como princípio construtivo, à mera escolha das palavras guiada apenas pela semântica. Jakobson acrescenta ainda que a função poética é caracterizada por três aspectos básicos: imagens, sonoridade e ritmo. A partir destes conceitos do mestre linguista, eu inventei uma oficina de poesia que ministrei em vários cantos do país. Foi na troca instigante com os participantes destas oficinas que cheguei, sem abandonar os conceitos fundamentais de Jakobson, à minha definição de poesia que, embora pareça simples, norteia hoje meu pensamento sobre ela:
           Poesia é a palavra/impacto, é uma composição construtiva de efeitos. É a linguagem organizada da forma mais meticulosa possível para fazer sentir.
          Decorrente desta definição, podemos deduzir que:
          Fazer um poema é escrever usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível no leitor.
           Compor um poema é controlar nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor.
          A poesia dissolve as fronteiras entre som e sentido, forma e conteúdo.
           O verdadeiro poeta, de Homero a Augusto de Campos, sempre será o mais consciente artífice da linguagem.
           No poema sempre se usarão os recursos econômicos e sutis para atingir os resultados mais impactantes.
           Na poesia menos é sempre mais.
           O maior efeito que um poeta pode produzir não é dizer ao leitor o que ele (poeta) sente, mas é fazer o leitor sentir o mesmo ao ler o poema.
          No meu entender é isso o que define o poeta. O resto pode ser filosofia, religião, psicologia, sociologia, mistificação... qualquer coisa, menos poesia.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          FB: Precisa se despir de todas as ideias preconcebidas, românticas e preconceituosas que rondam o fazer poético. Como os conceitos de dom, talento e inspiração. Como a ideia de que o poeta é mais sensível ou que escrever poesia é sentir ou vivenciar emoções... Deve desconfiar de todas as mistificações da poesia e do papel do poeta.

          Deve saber que escrever poesia é um trabalho meticuloso e preciso e que, muitas vezes, não recebe o reconhecimento que merece, até porque está envolto em tanta mistificação... Se os próprios poetas consideram seu trabalho uma "inspiração divina", um "dom artístico"... quem irá respeitar o trabalho do poeta?
          O iniciante deve tentar lutar contra a sedução da facilidade e buscar sempre os caminhos mais difíceis.
          O iniciante deve correr da troca de elogios fáceis do compadrio, típico da vida literária brasileira.
          O iniciante não deve querer ser poeta, deve querer fazer bons poemas.
          
          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          FB: Seguindo a minha definição acima, minha escolha recai sobre três poetas que escrevem usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível e que controlam nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor. São, portanto, três dos mais conscientes artífices da nossa língua: Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos.

          Três textos teóricos fundamentais para a elaboração da teoria da poesia como palavra/impacto são:
          "A filosofia da composição", de Edgar Allan Poe, que expõe em detalhes o processo de criação racional e meticuloso do poema "O Corvo". Até hoje choca os defensores da inspiração mistificadora.
          ABC da literatura, de Ezra Pound, que apresenta o conceito de grande literatura como "linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível".
          Linguística e comunicação, de Roman Jakobson, que apresenta a teoria da função poética da linguagem, que precisa ser levada em conta em toda e qualquer discussão sobre a definição de poesia.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Frederico Barbosa e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Frederico Tavares Bastos Barbosa, nascido em 1961, pernambucano de Recife, formado pela USP Universidade de São Paulo em Física, Grego, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, é poeta e crítico literário; escreveu e publicou Rarefato (1990), Nada feito nada (recebeu o Prêmio Jabuti, 1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002), A construção do zero (2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (recebeu, pela segunda vez, o Prêmio Jabuti, 2004), além de outros títulos em verso e prosa; tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP; participou de antologias, com seus textos, e organizou antologias poéticas de outros autores.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carlos Felipe Moisés: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Carlos Felipe Moisés: No começo, aos 13-14 anos, era só uma brincadeira. No colégio onde estudei, poesia era praticamente sinônimo de "rima", e havia uma tal de "métrica", esse negócio de contar as sílabas, umas fortes, outras fracas, e por aí vai (ou melhor, ia). Então achei divertidíssimo brincar de procurar rimas, contar as sílabas nos dedos, para ver se eu tinha um decassílabo, um alexandrino ou um redondilho. Achei, desde o começo, que isso era tão divertido quanto fazer palavras cruzadas, colecionar figurinhas, jogar bola na rua, empinar papagaio, chocar traseira de caminhão, paquerar as meninas etc. Não era nada que eu levasse a sério. E ainda bem... Nessa idade, não acho saudável levar a sério seja lá o que for. Aconteceu que, lá pelos 16-17, eu li por acaso uns poetas modernos, quer dizer, do início do século XX, e de repente descobri que a poesia é a expressão mais apurada, mais densa, mais inquietante e mais verdadeira que o ser humano é capaz de dar ao seu "sentimento do mundo", como diz Carlos Drummond de Andrade. Passei a encarar a poesia como uma espécie de síntese superior de tudo quanto você for capaz de pensar e sentir, sobre a vida, a natureza, o amor e a morte, o destino, a amizade, e assim por diante. Desde essa época, a poesia me acompanha, como uma espécie de cúmplice imprescindível. Escrever os meus poemas tem-me ajudado a ir filtrando aquilo que vale a pena ser lembrado, tem me ajudado a ir deixando no papel umas imagens, umas cenas, umas impressões, que me dão a certeza de algo afinal tão banal, que é simplesmente estar vivo. Mas estar vivo como alguém que vai deixando o seu testemunho, e não como alguém que apenas sobrevive e vê o tempo passar. O que é a poesia para mim? Começou como brincadeira, depois foi-se tornando a representação simbólica do sentido (possível) da minha existência, aquela atividade sem a qual a (minha) vida não teria sentido. E, pensando bem, nunca deixou de ser, de um modo ou de outro, uma espécie de brincadeira, embora eu nunca mais me preocupasse com as rimas e com a sílabas contadas nas pontas dos dedos.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          CFM: Apesar dos vários livros publicados, alguns premiados, ou justamente por isso, não me sinto em condições de dar conselho a ninguém. Ainda que seja um "iniciante"? Ainda assim. Iniciante, na verdade, é exatamente como eu próprio me sinto, com toda a suposta "experiência" acumulada em tantos anos. Cada livro, cada poema, é aquela mesma angústia, aquela mesma dúvida dos primeiros: será que vou ser capaz? Será que que vale a pena tentar escrever sobre isto? E, depois de escrito: será que funcionou, será que acertei a mão? É sempre como se eu estivesse começando tudo de novo. Com o iniciante não é assim mesmo? Conselhos recebi muitos, e sou grato a todos: os que acatei e deram certo, os que acatei e não deram certo, os que rejeitei e poderiam ter dado certo (mas não tenho mais como saber) e os que rejeitei porque eram pura besteira. O que o iniciante deve perseguir? A sua verdade. Se ainda não tem uma, vá atrás dela. Ainda que não a encontre, valerá a pena procurar. E não acredite em nenhum conselho que lhe diga (em matéria de poesia ou outra matéria qualquer): aqui está a verdade. Mais conselhos (só para confirmar que sou mesmo contraditório): não acredite muito em elogios, prefira sempre ficar com as críticas, se eles forem inteligentes e honestas. Com os elogios excessivos, a sua busca da verdade se interrompe, você dá um suspiro de alívio e fica achando, bestamente, que já chegou lá. Com as críticas, as boas, você cresce, você se supera, e segue em frente. Como distinguir as boas das más críticas? Ah! Só você vai ser capaz de distinguir. Por fim, por melhor que seja o poema que você acabou de escrever (na sua opinião e na de "todo mundo"), ache, sempre, que você pode escrever outro ainda melhor.

          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          CFM: Retomando o que já comentei na primeira pergunta, os poetas modernos (não foram só três, mas vou ficar com "os três mais") que me marcaram para sempre, que me ajudaram a encontrar o que talvez seja uma vocação, que me revelaram o que há de verdadeiramente humano na poesia foram: Mário de Andrade, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. Quando li esses poetas pela primeira vez, lá pelos 15 anos, a sensação foi uma só: eu tinha acabado de levar uma descomunal porrada, ao mesmo tempo na boca do estômago, no meio da cara e no fundo da alma. Minha vida, minha visão de mundo, nunca mais foram as mesmas. Então decidi: um dia vou escrever um poema, um só, do jeito deles, quem sabe misturando um pouco do jeito de cada um. Ainda não consegui, mas continuo tentando. Naquela idade, e depois, não tive pejo nenhum: vou imitar esses poetas. E imitei mesmo, e segui imitando, embora sempre tentando disfarçar, isto é, acrescentando à imitação alguma coisa própria. E acho (sinto) que deu mais ou menos certo: hoje não imito mais, mas não saberia dizer a partir de que momento o disfarce passou a prevalecer. Bem, os três poetas são esses, embora eu pudesse acrescentar mais alguns. Agora, três poemas? Quer dizer, um de cada? Aí já fica mais difícil. Mas posso tentar: do Mário, a Paulicéia desvairada, inteira, especialmente a série com o título "Paisagem" e a "Ode ao burguês"; do Pessoa, a dificuldade aumenta, mas digamos que o Alberto Caeiro e o Álvaro de Campos, inteiros, especialmente o "Há metafísica bastante em não pensar em nada", do primeiro, e a "Tabacaria", do segundo; do Drummond, a dificuldade é a mesma, mas vou destacar o Sentimento do mundo, A rosa do povo e o Claro enigma, inteiros, especialmente, na ordem, "Mãos dadas", "Procura da poesia" e "A máquina do mundo". Escolhas? A impressão que tenho, tantos anos depois, tanto tempo de convívio, é que eu não os escolhi, eles é que me escolheram. Ou o acaso se incumbiu de tudo.


 
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Carlos Felipe Moisés e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Carlos Felipe Moisés, nascido em 1942, paulista e paulistano, graduado em Letras Clássicas pela USP  Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa também pela USP, é poeta, crítico literário, professor e tradutor, com extensa obra e publicações em jornais e revistas; obra poética: Carta de marear (1966), Poemas reunidos (1974), Círculo imperfeito (1978), Subsolo (1989), Lição de casa & poemas anteriores (1998)...

domingo, 30 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: O Soneto que Explicava a Pedra

Enfim, tinha uma pedra

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do  caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Drummond, 
Alguma Poesia, 1930)

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Carlos Drummond de Andrade:  Vamos ver o soneto de João Alfhonsus. Mas você mesma é que o lerá.

Lya Cavalcanti:  "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,

no meio do caminho sem sentido,

só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...

Que tudo se perdeu na estrada infinda...

Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!

Nem coração, furor, ódio, carinho,

nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"

Drummond:  Pois é. Quando este soneto saiu na Folha da Manhã, de São Paulo, em 25 de outubro de 1942, pensei, candidamente, que estava resolvido o problema de incompreensão pública relativa aos meus versinhos da pedra. Que nada. Os leitores procuraram João Alphonsus para felicitá-lo: "Seu soneto está ótimo. Entende-se perfeitamente. Mas o tinha uma pedra no meio do caminho, isso, faça-me o favor, só dando com a pedra no bestunto do poeta." De sorte que João Alphonsus, em vez de me ajudar, me atrapalhou ainda mais. Pouca gente estava a par da poesia avançada que se fazia na Europa, daí um motivo a mais para condenar um suposto produto poético muito menos escandaloso do que, por exemplo, o poema de Aragon, divulgado exatamente na mesma época, 1925. Esse poema consistia em repetir 19 vezes em sete linhas a palavra persienne, sem pontuação. Só no final aparecia um ponto de interrogação. E Aragon, que me conste, não era doido. Mas eu era.

Lya:  Todos nós somos um pouco. Ou somos mais do que parecemos.

Drummond:  Talvez. Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga, e amiga que se tornou tal precisamente por causa dele. Posso dar o nome dessa pessoa, que já não vive: Lúcia Branco. Pianista notável, depois formadora de pianistas como Artur Moreira Lima, Lúcia era culta e sensível. Detestava cordialmente minha pedra no caminho. Para distrair um garoto, seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do "tinha uma pedra", e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: "A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa..." Não explicou que coisa era, mas Lúcia deixou de se divertir com a pedra e passou a me distinguir com sua simpatia, porque eu havia despertado aquela reação no garoto.

Lya:  Valeu a pena.

Drummond:  Valeu. Ganhei uma amiga de qualidade excepcional. Mas valeu também por outro motivo. Meu calhau continuou despertando ecos contraditórios, na maioria hostis. De todas as zombarias, de todo o barulho produzido por ele, tirei a lição evidente. O renome literário pode fundar-se nas circunstâncias mais caprichosas e menos relevantes. Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras a mais ou a menos. Uma coisinha escrita aos 21 anos era o corpo de delito que decidiu o julgamento. Se na juventude eu houvesse cometido um assassinato e fugido para a Guiana Holandesa, meu crime estaria prescrito no fim de tanto tempo, mas para delito poético não havia prescrição. O lado negativo seria triste se não houvesse o lado compensatório das pessoas que, para surpresa minha, mesmo não achando nenhuma obra de arte na pedra, começaram a gostar de mim porque viam no poeminha alguma coisa que bulia com elas, como a representação paisagística  pobre paisagem  de um sentimento de frustração, obstrução, inviabilidade, experimentado por elas. Ganhei um prêmio que não fizera por alcançar e, mesmo, que não merecia. O caso de Lúcia Branco.

Lya:  Modéstia, charminho...

Drummond:  Não. O que há de mais importante na literatura, sabe? é a aproximação, a comunhão que ela estabelece  entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos. Como defenderia um amigo pessoal. Um dia, a pintora Maria Teresa Vieira me disse uma coisa linda: que tem inúmeros amantes noturnos, de Van Gogh a Fernando Pessoa. O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente, mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem não a sente.

Tempo Vida Poesia - Confissões No Rádio
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Tempo Vida Poesia  confissões no rádio  Carlos Carlos Drummond de Andrade, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974), Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984), Tempo Vida Poesia confissões no rádio (1986); e tantos outros...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Julian Assange (Wikileaks) entrevista Rafael Correa, Presidente do Equador - parte 2

Segue a 2ª parte da entrevista imperdível...
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Julian Assange (Wikileaks) entrevista Rafael Correa, Presidente do Equador - parte 1

Imperdível esta entrevista para os que temos o lado esquerdo ativado e que pensamos serem positivas e necessárias as inflexões políticas levadas a efeito pelos últimos governantes eleitos na América Latina, particularmente os do Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina, Venezuela, Brasil... Vale a pena conferir mesmo!
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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Luiz Roberto Ramos: "O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo."


Reproduzo texto-entrevista com o médico geriatra Luiz Roberto Ramos, diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordenador do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (extraído do site da Rede Brasil Atual):
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São Paulo – O Brasil caminha a passos largos para ter uma das maiores populações idosas do planeta. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 13 anos o país ocupará o sexto lugar no ranking daqueles com maior número de idosos. Hoje, 10% da população brasileira, cerca de 15 milhões de pessoas, tem mais de 60 anos.
Em dez anos, esse número vai dobrar. Segundo o geriatra Luiz Roberto Ramos, após os 60 anos a maioria das pessoas terá ao menos uma doença crônica e o que vai determinar a saúde nessa faixa etária é a capacidade de o idoso ter uma vida autônoma.
Ramos, que é diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordena o Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o país precisa se preparar para cuidar da saúde de seus idosos, inclusive formando mais médicos especializados. A entrevista foi concedida à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.  
Como o senhor analisa o rápido crescimento da população idosa no Brasil?
O que está ocorrendo no Brasil não é só um envelhecimento populacional nos moldes do que foi observado em outros países anteriormente, mas é um processo muito mais acelerado por conta do fato de que o Brasil está envelhecendo já com algumas questões bastante resolvidas, como anticoncepção, porque para uma população envelhecer precisa cair a fecundidade dessa população.
O Brasil está envelhecendo, porque não só o brasileiro está vivendo mais, mas as mulheres estão tendo menos filhos. Na medida em que entram menos crianças na população, começam a sobressair os idosos. Esse é o processo de envelhecimento. Na época em que a Europa envelheceu a gente não tinha mecanismos de controle da natalidade, a coisa era feita mais na base do calendário e, mesmo assim, houve envelhecimento.
No Brasil, quando isso acontece, no final da década de 70, começa a cair a fecundidade já com os métodos anticoncepcionais bastante desenvolvidos. Foi uma queda muito mais rápida e muito mais intensa fazendo com que esse processo todo no Brasil fosse bastante encurtado. Nós estamos envelhecendo na metade do tempo que a Europa envelheceu.
Qual é a idade média do idoso brasileiro?
A idade média do brasileiro hoje está em 75 anos. As mulheres vivem sempre um pouco mais que a média, os homens sempre um pouco menos. Podemos dizer que o brasileiro ganhou nos últimos 50 anos quase 30 anos a mais de vida. Essa é uma equação complicada, porque mexe com o planejamento de vida das pessoas. Em pouco tempo, as pessoas passam a administrar 20, 30 anos a mais de vida e isso tem uma série de implicações até para o sistema da Previdência Social.            
Quem é o idoso brasileiro? Como identificar essa população?
Do ponto de vista demográfico, chamamos de idosas as pessoas com mais de 60 anos. Alguns países da Europa mais desenvolvidos identificam o idoso com mais de 65 anos. Na Escandinávia, por exemplo, um idoso é um individuo com mais de 70 anos, porque muitas pessoas atingem essa idade em boas condições de saúde, fazendo com que as peculiaridades da velhice fiquem sendo empurradas para frente.
Então o parâmetro nesse caso é a saúde?
O parâmetro é a conservação das pessoas. Em países como a Suécia eles estão preocupados com a população com mais de 70 anos, embora você possa dizer que uma pessoa com mais de 60 é idosa. Eles identificam a população de atenção com mais de 70 anos. No Brasil, a gente ainda trabalha com a noção de que idosos são os indivíduos que têm mais de 60 anos e que hoje representam cerca de 10% da população, ou seja, 15 milhões de pessoas.
O que nos preocupa é que em menos de 10 anos essa população vai dobrar e nós vamos ter 30 e tantos milhões de idosos no Brasil. Aí sim, vai ser uma população grande, uma das maiores do planeta, e que vai ter que ser cuidada.
Quais são os estigmas relacionados aos “velhos”?
O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo, então essa inevitabilidade tem um lado positivo. Os brasileiros estão vivendo mais, mas todo mundo recusa um pouco a ideia de envelhecer porque associa envelhecimento com decrepitude, no sentido das pessoas ficarem fragilizadas e principalmente se tornarem velhos dependentes e incapazes de tocar a sua própria vida.
Algumas pessoas vão envelhecer com perda funcional e consequentemente vão se tornar dependentes no dia a dia, mas elas são a minoria. A grande maioria das pessoas envelhece capaz de administrar a própria vida. No entanto, a gente tem que ter presente que a ocorrência de doenças crônicas é quase que inevitável ou seja, após os 60 anos a grande maioria das pessoas vai ter pelo menos uma doença crônica, seja pressão alta, diabete, catarata, um problema cardíaco.
Mas isso não quer dizer que ela vai ser uma pessoa limitada, dependente. Significa sim, que ela vai ter que administrar diariamente uma ou mais doenças crônicas que são inevitavelmente desenvolvidas na medida que os anos passam. O que é evitável é o individuo perder função, perder capacidade de tocar a vida de forma independente.
Esse é o foco principal das pesquisas que a gente realizou durante todos esses anos, ou seja, saúde na velhice é a manutenção da função suficiente para o individuo ter uma vida independente, autônoma. Esse é o novo conceito de saúde.
Aquele idoso que vive sozinho, que se vira sozinho.
Ele é capaz de viver sozinho porque ele consegue realizar as atividades que todo mundo faz, como se vestir, tomar banho, comer, fazer compras, cuidar das finanças, enfim, manter a sua casa e a sua família sem precisar de ajuda específica de ninguém. Esse indivíduo pode ter várias doenças. Tenho uma conhecida, a dona Clemência, que tem 90 anos e mora sozinha. Toma seus remédios, mas não depende da família para a própria sobrevivência.
Eu costumo dizer que viver sozinho na velhice, não é para quem quer, é para quem pode. É uma conquista você poder depois de uma certa idade, ter capacidade funcional suficiente para viver sozinho. Dá para você ser saudável na velhice e, ao mesmo tempo, tomar remédio para pressão, diabete, e isso não comprometer a sua saúde global.
Qual a receita para um envelhecimento saudável?
Primeiro, se manter ativo é uma grande ajuda para todas as pessoas depois da suposta idade da aposentadoria. A outra coisa é o próprio “viver sozinho” que estimula o indivíduo a se manter independente e capaz de realizar tudo que ele precisa durante o dia. E terceiro, ter claro o benefício de fazer atividade física. Um bom exemplo de manter a saúde funcional é permanecer ativo do ponto de vista laboral e do ponto de vista físico e mental.
O mercado de trabalho no Brasil está aberto à terceira idade?
Ainda não da mesma forma que se observa na Europa, onde já existem políticas bastante explícitas de recontratação e pessoas aposentadas podem ter determinadas funções que não demandam muita agilidade física, mas demandam comprometimento. É um mercado que se abre para idosos.
No Brasil, algumas áreas já identificam nos idosos pessoas mais confiáveis, com responsabilidade maior nas suas funções e que, portanto, atrairiam contratações apesar da idade e do fato de já serem aposentados em outras funções. Mas acho que é uma coisa que o Brasil vai precisar desenvolver mais. É um campo de trabalho para pessoas que já se aposentaram em alguma função e que ainda tem condições físicas e mentais de servir a sociedade.
Quais são os direitos dos idosos no Brasil?
Existe um Estatuto do Idoso bastante desenvolvido, com uma série de direitos nem sempre acessíveis a todos, pelo menos no momento. Nós vivemos num país com problemas econômicos, desemprego. Nessa disputa é óbvio que os idosos que necessitem de uma atividade laboral para fins econômicos certamente vão ter alguns problemas, porque esse mercado não está desenvolvido.
Agora, a própria necessidade de precisar trabalhar nessas idades já coloca esses indivíduos em uma situação de mais risco, porque eles certamente vêm de uma situação carente já de mais tempo. Mas o ideal é que as pessoas se mantenham ativas, sem a premência econômica, ou seja, terem uma aposentadoria mínima para poderem viver e trabalhar para melhorar essa situação e não como única alternativa.