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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Gérard de Nerval: A avó

 
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[traduzido por Mauro Gama]

Já faz três anos que morreu a avó
— A boa senhora — e, então, quando a enterraram,
Parente, amigo, todos a choraram
Com verdadeira dor, e amargo dó.

Só eu errava pela casa, aflito,
Surpreso, mais que triste; e, ao ficar perto
De seu caixão, alguém não me achou certo
Ver aquilo sem lágrimas, sem grito.

Dor estridente e logo terminada:
Três anos faz, e novas emoções,
Quer bens, quer males — e revoluções —
Têm sua memória n’alma já apagada.

Só eu sonho com ela e choro, instante;
Três anos faz; no tempo que me arrosta,
Como um nome gravado numa crosta,
Sua lembrança se cava mais adiante!

Gérard de Nerval

La grand’mère

Voici trois ans qu’est morte ma grand’mère,
— La bonne femme, — et, quand on l’enterra,
Parents, amis, tout le monde pleura
D’une douleur bien vraie et bien amère.

Moi seul j’érrais dans la maison, surpris
Plus que chagrin; et, comme j’étais proche
De son cercueil, — quelqu’un me fit reproche
De voir cela sans larmes et sans cris.

Douleur bruyante est bien vite passée:
Depuis trois ans, d’autres émotions,
Des biens, des maux, — des révolutions, —
Ont dans les coeurs sa mémoire effacée.

Moi seul j’y songe, et la pleure souvent;
Depuis trois ans, par le temps prenant force,
Ainsi qu’un non gravé dans une écorce,
Son souvenir se creuse plus avant!

Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sábado, 4 de julho de 2026

Gérard de Nerval: Pensamento de Byron


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[traduzido por Mauro Gama]

Elegia.

Por amor, e perseverança,
Crera dobrar o teu rigor,
E o sopro todo de esperança
No coração veio-se impor;
No entanto o tempo, que posponho,
Toda a verdade me mostrou,
Fugiu a esperança, como um sonho...
E o amor apenas me restou!

Restou tal qual um precipício
Entre meus dias e a ventura,
Como um mal a que estou propício,
Um peso, enfim, que não satura.
Para a esse ardil fugir também
Nenhum esforço hoje me escuda,
Pois pé na tumba o homem já tem
Sem a esperança como ajuda.
Gostava de acordar a lira
E, num constante encantamento,
Ousava, como quem delira,
Tirar-lhe acordes, cismarento.
Vertendo muita vez o pranto,
Cantei tuas graças mais divinas;
Magia havia no meio canto,
Desde que tu, só tu ma ensinas.

Passou esse tempo, e não delira,
Como antes minha voz fremente;
Nem mais encontro em minha lira
Os sons que tinha, antigamente.
Nesta aflição que me devora,
Só vejo o tempo a se escorrer;
Se o olhar ainda me brilha, agora,
É que há uma lágrima a correr!

Quebraremos essa taça, a vida:
É de veneno, e de irrisão;
Era loucura, e boa bebida,
Mas me abalava a compreensão.
Por muito tempo em inútil sonho,
Ó glória, amor, não sou meu ser:
Glória, és mentira a que me exponho,
Amor, és a má sorte, a doer!

Gérard de Nerval

Pensée de Byron

Élégie.

Par mon amour et ma constance,
J’avais cru fléchir ta rigueur,
Et le souffle de l’espérance
Avait pénétré dans mon coeur;
Mais le temps, qu’en vain je prolonge,
M’a découvert la vérité,
L’espérance a fui comme un songe…
Et mon amour seul m’est resté!

Il est resté comme un abîme
Entre ma vie et le bonheur,
Comme un mal dont je suis victime,
Comme un poids jeté sur mon coeur!
Pour fuir le piège où je succombe,
Mes efforts seraient superflus;
Car l’homme a le pied dans la tombe,
Quand l’espoir ne le soutient plus.
J’aimais à réveiller la lyre,
Et souvent, plein de doux transports,
J’osais, ému par le délire,
En tirer de tendres accords.
Que de fois, en versant des larmes,
J’ai chanté tes divins attraits!
Mes accents étaient pleins de charmes,
Car c’est toi qui les inspirais.

Ce temps n’est plus, et le délire
Ne vient plus animer ma voix;
Je ne trouve point à ma lyre
Les sons qu’elle avait autrefois.
Dans le chagrin qui me dévore,
Je vois mes beaux jours s’envoler;
Si mon oeil étincelle encore,
C’est qu’une larme va couler!

Brisons la coupe de la vie;
Sa liqueur n’est que du poison;
Elle plaisait à ma folie,
Mais elle enivrait ma raison.
Trop longtemps épris d’un vain songe,
Gloire! amour! vous eûtes mon coeur:
O Gloire! tu n’est qu’un mensonge;
Amour! tu n’est point de bonheur!

Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Gérard de Nerval: El Desdichado

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[traduzido por Mauro Gama]

Eu sou o Tenebroso, — o Viúvo, — o Inconsolado,
O príncipe aquitano em torre agora ruída.
Minha Estrela morreu, meu lude constelado
Traz o Sol negro e o horror da Angústia desmedida.

Na noite tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me de volta a flor, que amei na alma oprimida,
E Posílipo, o mar da Itália a cada lado
A latada de Rosa e Pâmpano provida.

Sou eu Febo ou o Amor?... Byron ou Lusignan?
Tenho o rosto ainda rubro ao beijo de uma Rainha;
Sonhei dentro da grota onde a Sereia nada...

Duas vezes o Aqueronte atravessei, em sã
Conquista, e à órfica lira a modular já tinha
Os suspiros da Santa e os gritos de uma Fada.

Gérard de Nerval

El Desdichado

Je suis le Ténebreux, — le Veuf, — l’Inconsolé:
Le prince d’Aquitaine à la tour abolie:
Ma seule Étoile est morte: et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.

Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon cœur désolé
Et la treille où le Pampre à la Vigne s’allie!

Suis-je Amour ou Phébus? — Lusignan ou Biron?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine;
J’ai rêvé dans la grotte où nage la Sirène...

Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Acheron:
Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée
Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.

(Les Chimères — 1854)
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Gérard de Nerval: O ponto negro

 

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[traduzido por Mauro Gama]

Quem quer que tenha olhado o sol bem fixamente
Crê ante seus olhos ver, a voar teimosamente,
Ao redor, uma nódoa algo lívida, no ar.

Assim bem moço ainda e muito petulante
Ousei fixar na glória os olhos um instante:
Ficou-me um ponto negro em meu voraz olhar.

Depois, mesclado a tudo, em sinal de algum luto,
Por toda parte, onde o olho eu ponho ou mais perscruto,
Vejo-a também pospor-se assim, a negra escória!

Que coisa, sempre! Está entre mim e qualquer ventura!
Ó, é que apenas a águia — ai dessa desventura! —
Contempla impunemente os dois, o sol e a glória!

Gérard de Nerval

Le point noir

Quiconque a regardé le soleil fixement
Croit voir devant ses yeux voler obstinément
Autour de lui, dans l’air, une tache livide.

Ainsi, tout jeune encore et plus audacieux,
Sur la gloire un instant j’osai fixer les yeux:
Un point noir est resté dans mon regard avide.

Depuis, mêlée à tout comme un signe de deuil,
Partout, sur quelque endroit que s’arrête mon oeil,
Je la vois se poser aussi, la tache noire!

Quoi, toujours? Entre moi sans cesse et le bonheur!
Oh! c’est que l’aigle seul — malheur à nous, malheur!
Contemple impunément le Soleil et la Gloire.

Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Gérard de Nerval: É uma Mulher o Amor

 
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[traduzido por Mauro Gama]

É uma mulher o amor, a glória e a esperança;
Aos filhos que ela guia, ao homem consolado,
Eleva o coração e o sofrimento amansa,
Como um anjo dos céus sobre a Terra exilado.

Curvado no trabalho ou pelo seu destino,
A sua voz o homem se ergue e na alma se esclarece,
Impaciente em sua marcha escassa de alto tino,
Só um sorriso o doma, e o coração lhe aquece.

Nesta época de ferro, a glória é toda incerta:
Esperando-a demais, chegamos a abdicar.
Mas quem não a quererá, de graça e paz coberta,
Da beleza que a traz, ou no-la faz ganhar?

Gérard de Nerval

Une femme est l’amour

Une femme est l’amour, la gloire et l’espérance;
Aux enfants qu’elle guide, à l’homme consolé,
Elle élève le coeur et calme la souffrance,
Comme un esprit des cieux sur la terre exilé.

Courbé par le travail ou par la destinée,
L’homme à sa voix s’élève et son front s’éclaircit;
Toujours impatient dans sa course bornée,
Un sourire le dompte et son coeur s’adoucit.

Dans ce siècle de fer la gloire est incertaine:
Bien longtemps à l’attendre il faut se résigner.
Mais qui n’aimeraient pas, dans sa grâce sereine,
La beauté qui la donne ou qui la fait gagner?

[Poésies diverses]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Gérard de Nerval: Romança

 
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[traduzido por Mauro Gama

Ària: O Nobre Fulgor do Diadema

Sob alegrias simuladas
Não nos escondas tua dor!
Tanto em tristeza nos agradas
Quanto em sorriso encantador:
Em meio à névoa a aurora invade
O vale, e assim o olhar enleva
E, bela em tênue claridade,
A noite, Febe, encanta a treva.

Quem te vê muda e pensativa
Sonhar sozinha o dia inteiro,
A ingênua virgem em ti reaviva
Que ainda suspira o amor primeiro;
Não vê a coroa e seu esplendor
Cingindo em ti os cabelos belos,
E se lhe entrega com o ardor
Do amor primeiro e seus anelos.

Gérard de Nerval

Romance

Air: Le Noble Eclat du Diadème

Ah! sous une feinte allégresse
Ne nous cache pas ta douleur!
Tu plais autant par ta tristesse
Que par ton sourire enchanteur:
À travers la vapeur légère
L'Aurore ainsi charme les yeux;
Et, belle en sa pâle lumière,
La nuit, Phœbé charme les cieux.

Qui te voit, muette et pensive,
Seule rêver le long du jour,
Te prend pour la vierge naïve
Qui soupire un premier amour;
Oubliant l'auguste couronne
Qui ceint tes superbes cheveux,
A ses transports il s'abandonne,
Et sent d'amour les premiers feux!

(Poèmes divers)
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas [Edição Bilíngue], Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Gérard de Nerval: Nobres e Criados

 
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[traduzido por Mauro Gama]

Esses nobres de outrora, e de livros, canções,
Com suas testas de boi e semblantes dantescos,
Os corpos com a estrutura e os ossos gigantescos,
Qual se houvessem no solo as raízes, fundações.

Se voltassem ao mundo, e cá tivessem a idéia
De cada herdeiro achar, de seus nomes, sua lida,
Raça de Laridons que nos paços, decaída,
Entre ministros corre e, ávida, enxameia;

Secos em seus plastrões e estofos afetados,
Entenderiam porém, esses nobres senhores,
Que, desde aquele tempo, a seu sangue e favores,
Suas filhas vêm mesclando o sangue de seus criados!

Gérard de Nerval

Nobles et valets

Ces nobles d'autrefois dont parlent les romans,
Ces preux à fronts de boeuf, à figures dantesques,
Dont les corps charpentés d'ossements gigantesques
Semblaient avoir au soi racine et fondements;

S'ils revenaient au monde, et qu'il leur prît l'idée
De voir les héritiers de leurs noms immortels,
Race de Laridons, encombrant les hôtels
Des ministres, — rampante, avide et dégradée;

Êtres grêles, à buscs, plastrons et faux mollets: —
Certes ils comprendraient alors, ces nobles hommes,
Que, depuis les vieux temps, au sang des gentilshommes
Leurs filles ont mêlé bien du sang de valets!

[Odelettes — 1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

sábado, 21 de junho de 2025

Gérard de Nerval: A Prima

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[traduzido por Mauro Gama]

Tem o inverno prazer: é, aos domingos frequente,
Se à terra branca traz um sol ouro e semente:
Pode-se com uma prima, airosa, ir a passear...
— E não vos faça aqui esperar para jantar,

Diz a mãe. E eis que a ver, nas Tulherias, vestidas
De flor e mansidão árvores negras, puídas,
A jovem sente frio... e vos faz perceber
Que o nevoeiro da tarde, aos poucos, vem-se erguer.

Voltamos e, do dia, enfim, só se reclama
Ter-se ido tão depressa... e com discreta chama;
Na casa então se sente, entre o apetite e a caça,
Bem debaixo da escada, — o bom peru que se assa*.

Gérard de Nerval

La cousine

L’hiver a ses plaisirs; et souvent, le dimanche,
Quand un peu de soleil jaunit la terre blanche,
Avec une cousine on sort se promener…
— Et ne vous faites pas attendre pour dîner,

Dit la mère. Et quand on a bien, aux Tuileries,
Vu sous les arbres noirs les toilettes fleuries,
La jeune fille a froid… et vous fait observer
Que le brouillard du soir commence à se lever.

Et l’on revient, parlant du beau jour qu’on regrette,
Qui s’est passé si vite… et de flamme discrète:
Et l’on sent en rentrant, avec grand appétit,
Du bas de l’escalier, — le dindon qui rôtit.

(Odelettes — [1834])

* Nota do tradutor Mauro Gama: O leitor aplicado encontrará uma sugestiva semelhança entre o fundo de cena deste poema, sua atmosfera, seus ingredientes, e os do episódio “Othys”, da novela “Sylvie”, em Les Filles de Feu.
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas [Edição Bilíngue], Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (poemas, 1854), Aurélia ou Le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postuamamente) ...; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Gérard de Nerval: Epitáfio

Resultado de imagem para Gérard de Nerval Cinquenta Poemas Ateliê Editorial edição bilíngue
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[traduzido por Mauro Gama]

Ele ora viveu feliz como um estorninho*,
Aqui terno e mais quieto, ali amoroso,
Ora só a sonhar, como um Clitandre umbroso,
Até que alguém bateu à porta de seu ninho.

Era a Morte! E lhe instou que um instante a mais, custoso,
Lhe desse para um poema, o último, em alinho;
Depois já se estendeu, sem dor ou descaminho,
No frio cofre, então, do corpo temeroso.

Tinha preguiça muita, ao que nos diz a história,
Via a tinta secar na escrivaninha inglória,
Queria saber tudo e nada soube, enfim.

E, ao vir-lhe a hora sua em que, lasso da vida,
Numa tarde de inverno, a alma lhe foi colhida,
Ele se foi, dizendo: “Ora, por que é que eu vim?”

Portrait de Gérard de NERVAL
Gerárd de Nerval

Epitaphe

Il a vécu, tantôt gai comme un sansonnet,
Tour à tour amoureux insoucieux et tendre,
Tantôt sombre et rêveur comme un triste Clitandre,
Un jour il entendit qu'à sa porte on sonnait.

C'était la Mort! Alors il la pria d'attendre
Qu'il eût posé le point à son dernier sonnet;
Et puis sans s'émouvoir, il s'en alla s'étendre
Au fond du coffre froid où son corps frissonnait.

Il était paresseux, à ce que dit l'histoire,
Il laissait trop sécher l'encre dans l'écritoire,
Il voulait tout savoir mais il n'a rien connu.

Et quand vint le moment, où, las de cette vie,
Un soir d'hiver, enfin, l'âme lui fut ravie,
Il s'en alla disant: “Pourquoi suis-je venu?”


* Nota do tradutor Mauro Gama: ... um trocadilho irrecuperável: o nome francês do pássaro, sansonnet (português “estorninho”), literalmente “sem soneto”, corresponde ao ceticismo do poeta ao qualificá-lo como stupide, na tradução: “sem brio”...
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Gérard de Nerval: Cinquenta Poemas — Tradução, Estudo crítico e Cronologia da vida e obra, por Mauro Gama, edição bilíngue, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.