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[traduzido por Mauro Gama]
Quem quer que tenha olhado o
sol bem fixamente
Crê ante seus olhos ver, a
voar teimosamente,
Ao redor, uma nódoa algo
lívida, no ar.
Assim bem moço ainda e muito
petulante
Ousei fixar na glória os olhos
um instante:
Ficou-me um ponto negro em meu
voraz olhar.
Depois, mesclado a tudo, em
sinal de algum luto,
Por toda parte, onde o olho eu
ponho ou mais perscruto,
Vejo-a também pospor-se assim,
a negra escória!
Que coisa, sempre! Está entre
mim e qualquer ventura!
Ó, é que apenas a águia — ai
dessa desventura! —
Contempla impunemente os dois,
o sol e a glória!
Le
point noir
Quiconque a regardé le soleil
fixement
Croit voir devant ses yeux
voler obstinément
Autour de lui, dans l’air, une
tache livide.
Ainsi, tout jeune encore et
plus audacieux,
Sur la gloire un instant
j’osai fixer les yeux:
Un point noir est resté dans
mon regard avide.
Depuis, mêlée à tout comme un
signe de deuil,
Partout, sur quelque endroit
que s’arrête mon oeil,
Je la vois se poser aussi, la
tache noire!
Quoi, toujours? Entre moi sans
cesse et le bonheur!
Oh! c’est que l’aigle seul —
malheur à nous, malheur!
Contemple impunément le Soleil
et la Gloire.
Odelettes [1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas,
Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama,
2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 — 1855), nascido Gérard
Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista,
romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou do Petit
Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock
para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que
circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus
poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes
(1834), Léo Burckart (drama, 1839),
Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853),
Les Filles du Feu (coleção de contos, e poemas “Les
Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères
(poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères
(publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...;
além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger,
reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich
Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento
de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa
viela de Paris.

