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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Pereira da Silva: Estranho pássaro


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Pousa junto ao pomar, ao sol morrente,
Pássaro negro de plumagem feia.
E lá se queda, como que se enleia
Horas a fio misteriosamente...

À proporção que a lâmpada cadente
Do sol crepuscular mal bruxuleia,
Que estranhas coisas íntimas gorjeia
O solitário intérprete do Poente!

Ouvindo-lhes os prelúdios da linguagem,
Corre o verde nervoso da folhagem
Todo um vivo tremor de calafrio.

Voa. Enoitece. Num silêncio de Horto
Como que o bosque continua absorto
Nos trêmulos do pássaro sombrio...

(Solitudes, pág. 205)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 1944), paraibano de Araruna, aos 14 anos foi matriculado no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, começou a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, formou-se em Direito, foi promotor público, jornalista, crítico literário e poeta; desiludindo-se da vocação jurídica, pediu exoneração da Promotoria e passou a se dedicar plenamente ao jornalismo; trabalhou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, Época, Jornal do Commercio e, depois, em A Noite, além de ter publicado nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que criou a revista Rosa-Cruz, divulgadora deste movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli! (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O pó das sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928), Alta Noite (1940), Poemas Amazônicos (publicação póstuma, 1958); o poeta é patrono da Academia Paraibana de Letras cadeira 34 e pertenceu à ABL Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Pereira da Silva: Hora de fundas cismas nos Espaços; . . . [soneto]

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Hora de fundas cismas nos Espaços;
Hora de paz, de lânguida dormência;
Hora em que os corações se sentem lassos
De respirar a poeira da existência...

Sobem da terra mórbidos cansaços,
Cansaços da Miséria, da Indigência.
E a sombra espalma pelos ares baços
A cor cristã das pétalas da hortênsia...

Ave Maria! Como a Noite desce,
Plena de Assombro e de melancolia,
Depois que o sol tem murcho toda a messe!

Ave Maria, Céus! Ave Maria!
Té sob tanta exaustação parece
Que exala o mundo a última agonia... *


* Nota de Massaud Moisés: Pereira da Silva, Vae Soli!, Curitiba, Imp. Paranaense, 1903, p.53.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 1944), paraibano de Araruna, estudou no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, formou-se em Direito, foi promotor público, jornalista, crítico literário e poeta; colaborou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, Época e Jornal do Commercio, além de ter feito publicações nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que publicou a revista Rosa-Cruz, divulgadora deste movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli! (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O pó das sandálias (1923), Senhora da melancolia (1928) e outros títulos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 6 de março de 2016

Pereira da Silva: Nihil

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Dia parado entre nevoento e enxuto.
A natureza como semi-morta.
Quanto aos vencidos, Musa, desconforta
Esta infinita sugestão de luto!

Quanto a mim, de minuto por minuto,
Ouço alguém... Alguém bate à minha porta...
Quem é? Quem sabe? Uma saudade morta,
Cousas tão d’alma que eu somente escuto.

Nesta indecisa solidão sombria
Sem cor, sem som, meio entre noite e o dia,
Como que a Morte a tudo, a tudo assiste...

Como que pela Terra desolada
A consciência universal do Nada
Deixa um silêncio cada vez mais triste...

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876  1944), paraibano de Araruna, formado em Direito, foi promotor público, jornalista e poeta; colaborou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, A Época e Jornal do Commercio, além de ter feito publicações nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que publicou a revista Rosa-Cruz, divulgadora daquele movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O Pó das sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928) e outros títulos.

Pereira da Silva: Acédia

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Fitando o mar, que desespero insano,
Esquisito desejo netunino
De partir, alijando o meu destino
Sobre os perigos múltiplos do oceano!

Mar alto! Céus a todo descortino!...
Como eu me fora  nauta veneziano 
No meu veleiro solto a todo o pano
E à discrição desse furor divino!

Nem bússola, farol, sextante ou guia,
Nada do que não fosse a plenitude
Que entre as águas e o céu me envolveria.

Quando, vencida essa derrota rude,
Também me visse em plena solitude:
Mar alto, céu sem Deus, alma vazia...

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876  1944), paraibano de Araruna, formado em Direito, foi promotor público, jornalista e poeta; colaborou como crítico literário nos jornais cariocas A Cidade do Rio, Gazeta de Notícias, A Época e Jornal do Commercio, além de ter feito publicações nas revistas Mundo Literário, Rua do Ouvidor e outras; participou do grupo simbolista que publicou a revista Rosa-Cruz, divulgadora daquele movimento literário; escreveu e publicou Vae Soli (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O Pó das sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928) e outros títulos.