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[cordel livremente
inspirado pelo pensamento de Sartre]
Não nasci do meu cordel
Das palavras não surgi
Dessas rimas retorcidas
Que consigo sugerir
Sou um bicho limitado
De sentido putrefato
Que pretende resistir.
Há quem busque pelos mapasE acredite em previsõesAstros, linhas e pegadasDestinadas incisõesPelas páginas sagradasOrientações regradasDe esotéricas visões.
Ou ainda busca norte
Na indulgência do divino
No perdão que se oferece
Ao menor dos desatinos
Os joelhos redobrados
Buscam significado
Pro pecado paulatino.
Mas nascemos da nudezDa angústia que nos comeE enquanto perguntamosUm chamado nos consomeSomos todos invocadosAtraídos, intimadosA uma única e só fome.
Condenados a ser livres
E aos quilos suportar
Encarar-se enquanto fera
Que tenciona se domar
Toda escolha consumada
Vira a face admirada
E tentada a rejeitar.
Porém, digo, como bichoQue a verdade também temoProcurando outros meiosPara um fim bem mais extremoEscolhendo a solidãoTurvo a mira da visãoEncolhida, então, eu gemo.
Não existe uma mentira
Menos tola de se crer
Todo fim é o mesmo meio
Para o inteiro se perder
Toda estrada é ribanceira
Toda mente é traiçoeira
Se acredita se abster.
Vim vazia de essênciaComo toda viva genteProvocada a procurarA escusa da tangenteUm buraco a preencherUm pretexto a esquecerNarrativa incoerente.
Não nasci desse cordel
Das palavras que escrevi
Dessas rimas retorcidas
Que eu pude sugerir
Sou um bicho limitado
Mas meu significado
Eu pretendo construir.
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As 29 poetas hoje — Organização de Heloisa Buarque de Hollanda,
1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte,
região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu
influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos
20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres [logo depois se tornou coletivo], realizou encontros periódicos de mulheres incentivando-as para que escrevessem, foi colunista da revista Fórum e colaboradora das páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; a poeta também teve textos e entrevistas publicadas em portais, periódicos e revistas (Folha de São Paulo, Quatro Cinco Um, Caros Amigos, Claudia, Cult, Blooks, revista Parênteses, revista Gueto ...); tem obras traduzidas
para os idiomas francês, espanhol, italiano e inglês; suas obras: As Lendas de Dandara
(prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu
nome (poesia, 2018), Redemoinho em dia quente (contos, 2019), Corpo Desfeito (romance,
2022), Cordéis para crianças incríveis (literatura infantil, 2024) além de mais
de setenta títulos de livretos de literatura de cordel e também cordéis para o público
infantil; Jarid Arraes teve seu livro As Lendas de Dandara traduzido para o idioma
francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018); recebeu
premiações, entre as quais o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte —
categoria contos e crônicas, pelo livro Redemoinho em dia quente (contos, 2019).







