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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Jarid Arraes: Aqualtune

 
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Como filha de um rei
Aqualtune era princesa
Era no reino do Congo
Da mais alta realeza
E na tradição que tinha
Encontrava fortaleza.
Lá no Congo era feliz
De raiz no ancestral
Mas havia outros reinos
Dos quais Congo era rival
E por isso houve guerra
Com desfecho vendaval.
Na disputa dessa guerra
Foi seu povo humilhado
E o reino de seu pai
Foi vendido como escravo
Mais de dez mil lutadores
Igualmente enjaulados
Aqualtune foi vendida
Em escrava transformada
Foi levada para um porto
Onde foi então trocada
Por moeda, por dinheiro
Pruma vida aprisionada.
Acabou num navio negreiro
Que ao Brasil foi viajar
Nos porões do sofrimento
Muito teve que enfrentar:
As doenças e tristezas
E a maldade a transbordar.
Aqualtune com seu povo
Nos porões muito sofreu
Tinham febres e doenças
Pela dor que só cresceu
Era fome e era castigo
Muita gente padeceu.
Foi no Porto de Recife
Que o navio então parou
Quando muito finalmente
No Brasil desembarcou
Aqualtune novamente
Teve alguém que a comprou.
Foi vendida como escrava
Chamada reprodutora
Imagine o pesadelo
Que função mais redutora
Pois seria estuprada
De escravos genitora.
Sua principal função
Seria a de procriar
Estuprada na rotina
Muita dor pra suportar
Imagine uma princesa
Isso tudo enfrentar!
Foi levada a Porto Calvo
Pernambuco, a região
E vivendo como escrava
Enfrentou a solidão
Os castigos e torturas
Do seu corpo a agressão.
Imagine quantos filhos
Aqualtune teve então
Tudo fruto de estupro
Fruto de violação
E ainda eram tomados
No meio dum sopetão.
Mas na vida de tortura
Aqualtune ouviu falar
Sobre a pura resistência
Dos escravos a lutar
E soube de Palmares
O que pode admirar.
Aqualtune se empolgou
Do seu povo quis a luta
E pensou em se juntar
Pra somar nessa labuta
Mesmo estando em gravidez
Ela estava resoluta.
A gravidez já avançada
Não causou impedimento
Aqualtune foi com tudo
Formando esse movimento
De convicta esperança
E com muito entendimento.
Junto com outras pessoas
Negras de muita coragem
Aqualtune fez a fuga
Mesmo com toda voragem
Foi parar em um quilombo
E falou de sua linhagem.
Todos lá reconheceram
Que era ela uma princesa
E por isso concederam
Território e realeza
Para a brava Aqualtune
Coroada de firmeza.
Nos quilombos do Brasil
Era forte a tradição
De manter vivas raízes
Africanas na nação
Aqualtune isso queria
Disso fazia questão.
Mas a sua importância
Muito mais se mostraria
Não se sabe com certeza
Mas pelo que se anuncia
Aqualtune teve um filho
E Ganga Zumba ele seria.
Segundo essa tradição
Foi avó doutro guerreiro
De imensa relevância
Para o negro brasileiro
Era Zumbi dos Palmares
Liderança por inteiro.
Aqualtune, infelizmente
Faleceu numa armação
Planejada por paulistas
Com fim de destruição
Do quilombo de Palmares
E de sua tradição.
Sua aldeia foi queimada
Pelos brancos assassinos
Não se sabe bem a data
Do seu fim e desatino
Mas a sua história viva
Para isso a descortino.
Quando ela faleceu
Bem idosa já estava
Aqualtune sim viveu
Como líder destacava
Essa força feminina
Que a princesa exaltava.
Eu só acho um absurdo
Porque nunca ouvi falar
Na escola ou na tevê
Nunca vi ninguém contar
Sobre a garra de Aqualtune
E o que pôde conquistar.
Uma história como a dela
Deveria ser contada
Em todo livro escolar
Deveria ser lembrada
No teatro e no cinema
Que ela fosse retratada.
Mas eu tive que sozinha
As informações buscar
Foi porque ouvi seu nome
Uma amiga mencionar
E por curiosidade
Fui on-line pesquisar.
A história do meu povo
Nordestino negro forte
É tão rica e importante
É vitória sobre a morte
Pois ainda do passado
Modificam nossa sorte.
Quando penso em Aqualtune
Sinto esse encorajamento
A vontade de enfrentar
De mudar neste momento
Tudo aquilo que é racismo
E plantar conhecimento.

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Jarid Arraes: Tereza de Benguela

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Na História do Brasil
Por escolas ensinada
Aprendemos a mentira
Que nos é sempre contada
Sobre negros e indígenas
Sobre a gente escravizada.
Nos contaram que escravos
Não lutavam nem tentavam
Conquistar a liberdade
Que eles tanto almejavam
E por isso que passivos
Os escravos se encontravam.
A mentira propagada
Me dá nojo de pensar
Pois era do povo negro
A força para enfrentar
Com imensa inteligência
Planejar e conquistar.
Um exemplo muito grande
É Tereza de Benguela
A rainha de um quilombo
Que mantinha uma querela
Contra o branco opressor
Sem aceite de tutela.
No estado Mato Grosso
Havia o Quariterê
Um quilombo importante
Para livre se viver
Cooperando em coletivo
Guerreando pra vencer.
José Piolho, seu marido
Acabou por falecer
E Tereza de Benguela
Veio, pois, rainha a ser
Liderando com firmeza
Na certeza de crescer.
No quilombo liderado
Era possível encontrar
Estrutura de política
Que seria de invejar
E a administração
Também era exemplar.
Tinha armas poderosas
Pra lutar e resistir
Com talento pra forjar
Se botavam a fundir
Objetos muito úteis
Para a vida construir.
As algemas e outros ferros
Que serviam de prisão
Lá na forja transformavam
Pra outra utilização
Não serviam de tortura
Mas para a libertação.
O quilombo tinha armas
Pela troca ou por resgate
E com muita resistência
Suportavam esse embate
Libertando muita gente
Pela via do combate.
O sistema muito rico
Tinha até um parlamento
E também um conselheiro
Pra rainha embasamento
Que exemplo grandioso
Era o gerenciamento!
Além disso, ainda tinha
O plantio de algodão
E também lá se tecia
Pra comercialização
Os tecidos que vendiam
Fora da quilombação.
As comidas do quilombo
Que ali eram plantadas
Dividas entre todos
Também comercializadas
Tudo aquilo que sobrava
Para venda enviadas.
Tinha milho e macaxeira
E também tinha feijão
Sem esquecer a banana
Com fins de alimentação
E as sobras, como disse
Pra comercialização.
Foi por isso que Tereza
Duas décadas reinou
Com a força do quilombo
Que com garra liderou
E por isso pra História
A rainha então ficou.
Em mil setecentos e setenta
Quariterê foi atacado
Por Luiz Pinto de Souza
o Coutinho era enviado
Pelo sistema escravista
O quilombo era acabado.
A população de negros
Setenta e nove se contavam
E a população indígena
Tinham trinta que restavam
Foram presos, foram mortos
Pelos que assassinavam.
De acordo com o registro
Tereza foi capturada
Mas depois de poucos dias
A rainha adoentada
Acabou-se falecendo
Da mazela ali tomada.
E os brancos matadores
A cabeça lhe cortaram
Exibindo em alto poste
Pra mostrar aos que ficaram
A maldade desses brancos
Que do racismo enricaram.
Dia vinte e cinco de julho
É o dia de lembrar
De Tereza de Benguela
que heroína a reinar
Foi durante sua vida
Sem jamais silenciar.
Que exemplo inspirador
Que mulher tão imponente
Foi Tereza de Benguela
Uma deusa para a gente
Que até hoje não desiste
Dessa luta pertinente.
É por isso que escrevo
Mulher negra também sou
E registro de Tereza
O legado que ficou
Pois bem poderosamente
A Tereza aqui passou.
Que seus feitos importantes
Não mais sejam esquecidos
Que o racismo asqueroso
Não lhes deixe escondidos
Pois são para o povo negro
Exemplos fortalecidos.
Oh, Tereza de Benguela!
Nosso espelho ancestral
Sua alma ainda vive
E entre nós é maioral
Nós honramos sua luta
Sua força atemporal!

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Jarid Arraes: Esperança Garcia

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Foi no século dezoito
Que este caso aconteceu
No estado Piauí
A mudança que se deu
E marcando nossa história
Esperança apareceu.
Pelos padres jesuítas
Ela foi escravizada
Esperança era mulher
Que vivia maltratada
Mas sua personalidade
Era alma de indomada.
Quando estava com os padres
Esperança se casou
E chegou a ter um filho
Que profundamente amou
Com seu marido vivia
Mas então tudo mudou.
Pois o Marquês de Pombal
Foi os padres expulsar
E a escrava Esperança
Acabou-se por passar
Ao governo do Estado
Que lhe mandou transportar.
Da Fazenda Algodões
Esperança foi tirada
Foi parar em Nazaré
Onde foi escravizada
E já nesse novo canto
Com dureza era espancada.
Separada do marido
Só o filho carregava
Mas a pobre da criança
Todo dia que apanhava
E por isso a Esperança
Muito mais se revoltava.
Acontece que Esperança
Tinha aprendido a ler
Ensinada pelos padres
Tinha jeito de escrever
Foi aí que decidiu
Uma carta conceber.
No dia 6 de setembro
Sua carta foi mandada
Com palavras de apelo
E linguagem explicada
Esperança que pedia
Por urgente salvaguarda.
O presidente da província
Foi quem leu o documento
Que continha em suas linhas
A denúncia do momento
Pois a dor de Esperança
Vinha de seu sofrimento.
Nessa carta ela dizia
Que vivia a apanhar
Uma vez sendo jogada
Com intento de matar
Foi caindo do sobrado
Mas se deu para escapar.
O seu filho, tão pequeno
Também era maltratado
O feitor da tal fazenda
Era um homem endiabrado
Que batia sem ter pena
Por qualquer caso furado.
Outra filha também tinha
Que queria batizar
Disse que era uma criança
Mas a fé era exemplar
E a religião cristã
Ela estava a professar.
E falou de outras mulheres
Querendo se confessar
Que do mesmo jeito dela
Precisavam de contar
Seus pecados escondidos
Para o padre perdoar.
Porque lá onde ela estava
Não se tinha a confissão
Nem batismo e nem missa
Que era assim religião
E Esperança argumentava
Que isso era confusão.
Foi usando desses pontos
Seu exemplo de esperteza
Por fazer da fé cristã
Argumento de clareza
Para ver se conseguia
Do governo uma presteza.
Afinal, o que diria
Para o branco convencer?
Se a gente escravizada
Não podia merecer
A menor das gentilezas
Para em paz sobreviver?
Não se sabe o desfecho
Se sequer foi respondida
Mas sem dúvida nenhuma
Era tão fortalecida
A coragem de Esperança
Que se tornou conhecida.
Porque no Brasil passado
O escravo era excluído
Sem saber ler e escrever
Sem poder ser instruído
Caso alguém fosse enfrentar
Acabava perseguido.
Era crime muito grave
Ensinar escravo a ler
Pela lei que existia
Era o jeito de viver
E seria muito preso
Quem fosse contradizer.
Luiz Mott foi o homem
Que essa carta encontrou
Quando estava em Portugal
Esse historiador
Resgatou o documento
E assim o publicou.
É por isso que Esperança
Na História se mantém
Porque teve essa coragem
E porque foi muito além
Não ficou só em silêncio
E mostrou que era alguém.
Se você não conhecia
Essa história inspiradora
Peço que também espalhe
Porque é transformadora
A verdade de Esperança
Essa grande lutadora.
São inúmeras mulheres
Que peitaram toda luta
Enfrentando o racismo
E com garra na labuta
Construíram um caminho
Sempre com a mente astuta.
Por causa dessas mulheres
Hoje temos liberdade
É por isso que me orgulho
Da minha ancestralidade
Preservar é um prazer
E responsabilidade.

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).

sábado, 24 de outubro de 2020

Jarid Arraes: Eva Maria do Bonsucesso

 
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Existiu uma mulher
Chamada de Eva Maria
Quitandeira talentosa
Que um dia mostraria
Sua força exemplar
Sua garra pra lutar
Sem descanso noite e dia.
Sendo ela escrava forra
Conseguiu sua liberdade
Mas a marca do racismo
Não mudou sua verdade
Pois trabalho era tanto
Só ralando em todo canto
Sempre na dificuldade.
Para assim sobreviver
Na quitanda ela vendia
Todo tipo de hortaliça
E de fruta que exibia
Fosse a couve pra comer
A banana a oferecer
Na calçada ela estaria.
O seu nome foi ligado
Ao lugar de Bonsucesso
Sendo no Rio de Janeiro
Hoje faço seu regresso
Na memória da discórdia
Rua da Misericórdia
Onde o povo tinha acesso.
Foi no século dezenove
Julho, dia dezesseis
Mil oitocentos e onze
Quando algo grande fez
Pela garra de lutar
Do direito conquistar
Com tamanha sensatez.
Nesse dia de trabalho
Arrumou seu tabuleiro
Com as frutas e verduras
Para conseguir dinheiro
Mas um bicho apareceu
Foi aí que aconteceu
Todo seu desenroleio.
Uma cabra correu solta
E as bananas agarrou
Foi saindo na carreira
Mas a Eva se arretou
E já foi saindo atrás
Bem nervosa por demais
Pela cabra que a roubou.
Segurando numa vara
Eva a cabra perseguiu
Mas puxou foi o nervoso
De um branco que isso viu
Sendo o dono do animal
Quis sair de maioral
Mas a Eva reagiu.
José Inácio de Sousa
Era o nome do senhor
Que sentiu de achar ruim
Sem fazer nenhum pudor
Resolveu lhe estapear
Sem ao menos perguntar
O motivo causador.
Quando recebeu o tapa
Eva logo se mexeu
Deu o troco rapidinho
No senhor então bateu
Foi levada pra polícia
A danada da milícia
Que só branco defendeu.
Acontece que eram trinta
As pessoas que assistiam
E que vendo o ocorrido
Sem demora falariam
Em favor de Eva Maria
E da sua ousadia
A mulher defenderiam.
Olhe bem pra esse caso
Que negócio interessante
Pois o homem sendo branco
Sendo rico e dominante
Já achou que ganharia
E que a Eva prenderia
Num estalo de instante.
Só que tanta gente junta
Teve força de falar
E pela favor de Eva
Foram sim testemunhar
Eva ainda abriu a boca
Diz até que ficou rouca
Pelo forte discursar.
Se você acha que é isso
E no fim que vai pensando
Saiba que tem muito mais
Do que aqui vou te falando
Preste muita atenção
Veja a baita da emoção
Que eu agora vou contando.
Como fosse muito pouca
Eva não ter sido presa
O desfecho foi maior
Do que só sair ilesa
Foi o branco enclausurado
Por bater foi condenado
Na mais dura da certeza.
Imagina a raridade
Dum desfecho desse jeito
Porque nesse tempo torto
Branco que tinha direito
Sendo o preto renegado
Espancado e injustiçado
Sem favor de ser eleito.
A justiça brasileira
Nesse caso foi certeira
E por três meses prendeu
Sem considerar besteira
O senhor que era agressor
Sem espaço pra valor
Sem respeito de fronteira.
Depois que passou o tempo
Ele então foi libertado
Mas na História do Brasil
Isso sim ficou marcado
Como um caso de união
E de mobilização
Que nós temos memorado.
Imagine que coragem
Que essa Eva possuía
Por lutar pelo direito
Pelo que constituía
Sua fé na liberdade
Sua força na verdade
Que jamais ela escondia.
No passado do Brasil
No tempo da escravidão
Uma história como essa
Era sim revolução
Mas é fato que existiu
E que todo o povo viu
Mesmo sendo uma exceção.
É por isso que eu digo
Que ela teve um heroísmo
Pois sem medo de lutar
Enfrentou foi o racismo
Por saber que estava certa
Se manteve sempre alerta
E peitou o vil machismo.
Ela foi Eva Maria
Pulso de trabalhadora
Por direito de viver
Incansável lutadora
Ela deu foi um exemplo
Que rompeu o véu do tempo
E lhe fez mais redentora.

Jarid Arraes
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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Jarid Arraes: Antonieta de Barros

 
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Conto aqui neste cordel
Uma história inspiradora
De uma preta muito forte
Que foi tão batalhadora
E com sua inteligência
Se mostrou norteadora.
Era uma catarinense
De Antonieta nomeada
Sendo de origem pobre
Teve a vida permeada
Por muita dificuldade
E por luta semeada.
Ela ainda era criança
Quando órfã se tornou
O seu pai que faleceu
E na vida lhe deixou
Com a mãe que a criava
E que muito lhe inspirou.
Tinha dezessete anos
Quando conseguiu entrar
Na escola normalista
Para mais se dedicar
Aos estudos que gostava
Querendo aperfeiçoar.
No entanto, é preciso
Uma coisa mencionar
Inda era os anos vinte
Quando ela foi estudar
Veja só que grande feito
Ela estava a desbravar!
Pois não era só mulher
O que era já difícil
Era negra num passado
De racismo, de suplício
Bem pior que atualmente
E sem sucesso propício.
No ano de vinte e dois
Antonieta então fundou
Um Curso Particular
Onde ela ensinou
Por toda a sua vida
Como muito acreditou.
Para que a população
Pudesse alfabetizar
Foi que Antonieta fez
Esse curso prosperar
Cheia de dedicação
Colocou-se a lecionar.
Tinha muito envolvimento
Com o assunto cultural
E ainda em vinte e dois
Ela fundou um jornal
Que chamou de A Semana
Escrevendo para o tal.
De política falava
Com bastante habilidade
Também sobre educação
E sobre a desigualdade
Na denúncia do machismo
E ao racismo no combate.
Ela também dirigiu
Uma revista quinzenal
Intitulada Vila Ilhoa
Como mais novo canal
Trabalhou diariamente
E rompeu com o banal.
Já alguns anos depois
Quis um livro publicar
E usou um outro nome
Para enfim concretizar
Como Maria da Ilha
Escreveu seu exemplar.
Foi também profissional
De grande orientação
Professora e diretora
Com convicta intenção
Foram várias as escolas
Onde pôs a sua mão.
Por seu grande caráter
Era muito admirada
Pelos seus jovens alunos
Ela era celebrada
Porque era obstinada
Coerente e respeitada.
Já na década de trinta
Se juntou ao movimento
Por Progresso Feminino
Exigido no momento
Era o FBPF
Com que teve envolvimento.
Conto ainda mais um fato
Que ela protagonizou
E marcou a nossa história
Como líder de valor
Pois abriu mais uma porta
Pro futuro que chegou.
Deputada federal
Antonieta se tornou
A primeira do estado
Como assim se registrou
E foi a primeira negra
Que o país efetivou.
Com essa grande conquista
Chegou a se transformar
Na primeira mulher negra
Com um mandato popular
Pelo Partido Liberal
Pela educação lutar.
Então veio a ditadura
De Estado Novo conhecida
E depois de sua queda
Ela fez-se embravecida
Conquistando muito mais
Grandemente merecida.
Antonieta foi incrível
Na política um destaque
Foi a pura pioneira
Sempre pronta pro combate
A primeira mulher negra
Para vários dos debates.
Por inteira a sua vida
Viveu como educadora
Jornalista ou deputada
Se manteve ensinadora
Com lições educativas
E também libertadoras.
As palavras que usou
Espalhou pela nação
E com tudo semeou
A melhor revolução
Pelo espaço feminino
Pela sua Negra Ação.
É por isso que eu digo
Antonieta é exemplar
E além de inspiradora
Pode muito desbravar
Foi abrindo os caminhos
Pra gente também passar.
Pras mulheres brasileiras
Ela é grande liderança
Deve ser muito lembrada
De adulto até criança
Pela sua honestidade
Por sua perseverança.
Nas escolas não ouvimos
Essa história impressionante
Mas eu uso o meu cordel
Que também é importante
Para que você conheça
E não fique ignorante.
Que você também espalhe
Isso que acabou de ler
Para que muitas pessoas
Tenham a chance de saber
Quem foi essa Antonieta
Como foi o seu viver.
Esse é o nosso papel
Considero obrigação
Pra acabar o preconceito
Pra espalhar a informação
Destruindo esse racismo
E gerando inspiração.
Eu e todas as mulheres
Neste verso agradecemos
E esperamos que em frente
Sempre juntas caminhemos
E lembrando Antonieta
Certo que nós venceremos.

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Jesus, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).