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Entre papéis e letras
na rotina do ofício
(e telegrama), assisto
à fossilização
de meus dedos na mesa.
(Morreu o tempo aqui.
Aqui se justificam
as mais absurdas lendas
de eternidade e tédio:
as horas se despiram
do suave segredo
de seu encantamento,
e já não há mais ponto
para a conversa lírica
dos atores, no palco
da vida funcionária.)
As mãos passeiam gordas
seus cachorros na mesa
de plástico ou verniz.
Que pássaro se oculta
nesta paisagem erma?
que vento acaso tímido
brincará nestas árvores
rasteiras? que distância,
que horizonte sem éter
devolverá meu grito?
Uivam unhas-de-fome
nos processos possessos
de despachos rotundos
à consideração
de olhares silenciosos.
Mas flor alguma (ou flora)
considera a atonia
da máquina dinâmica,
(Que imprevisto rodeia
o telefone?)
Os dedos continuam
a caça sem acaso.
São cabos de tormenta,
adamastores, simples
traços esferográficos
em rubricas inúteis.
Potros que se desligam
de seu mister sereno
de garanhões enxutos
amando nas pastagens.
Pálidos polvos plásticos
nas cavernas da mesa,
moluscos que se encolhem
nas esponjas de nylon
e distendem molhados
gestos vagos de angústia.
Meus dedos se cansaram
dos contatos de sempre.
Já não desenham plantas
nas páginas desertas,
nem cavalgam no dorso
das frases mais rebeldes,
apenas, conformados,
se trancam sonolentos
nas grades dos chavões
que, neste ensejo, parto
em mil pequenas partes
de protestos de estima
e consideração
à vida que se perde.
(Pássaro de Pedra — 1962)
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Gilberto Mendonça
Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global
Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, (1931 — 2024), goiano de Bela
Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades
Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade
de Coimbra — Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário;
lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal,
França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu
e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias:
Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra
(1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala
(1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada
de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados,
gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), ensaios e críticas: Goiás e Literatura
— A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964),
A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística
da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 — edição
revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio
(1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996),
Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e
reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade
literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL — Academia Brasileira
de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac
(da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis
(da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra,
1989), Troféu Juca Pato (da UBE — União Brasileira dos Escritores [patrocinado
pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem, 2002), etc.,
e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e
publicadas no exterior.





