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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Caso Redibitório (Matrimônio)

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.

Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…

Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.

Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,
porém, uma ideia, mais clara?…

(Revista Código nº 8, 1983, Salvador — BA)

Jules Laforgue

Cas rédhibitoire (Mariage)

Ah! mon âme a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.

Oh! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes!…

J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.

Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire?…
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica, e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente, editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada em 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Domingos nº 2

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

No domingo exerço
Dizer o meu terço
Às irmãs de berço.

Orfeu, belo Orfeu!
Harém, corifeu
Das margens do Alfeu...

Jovem Parsifal!
Pendão virginal
Nos muros do mal...

Preso Prometeu!
Plá que percorreu
Séculos ateus...

Nabuco’nosor
Moloch-esplendor
Nosso imperador?

Vós filhas de Eva
Irmãs, berço e seiva,
Destino que enleva!

Salomé de Nada!
Múmia embalsamada
Dormem as amadas...

Ofélia de Tudo
Vinde a mim (outubro)
Sou surdo e sou mudo.

Casta Salambô!
A lua e seu halo,
Lava meu mantô...

Irmã Messalina!
Ó pantera fina
Rasga musselinas...

E tu Cinderela
Reprisa a novela
Palco sem janela!

Ou Paulo e Virgínia
Vinheta bendita
Dos céus das colônias...

Ó louca psiquê!
Pecado-nenê
Sem quê nem pra quê...

Jules Laforgue

Dimanches nº 2

Le Dimanche, on se plaît
À dire un chapelet
À ses frères de lait.

Orphée, ô jeune Orphée!
Serials des coriphées
Aux soirs du fleuve Alphée…

Parcifal, Parcifal!
Étendart virginal
Sur les ramparts du mal…

Prométhée, Prométhée!
Phrase répercutée
Par les siècles athées...

Nabucodonosor!
Moloch des âges d’or
Régissez-nous encor?...

Et vous donc, filles d’Ève,
Soeurs de lait, soeurs de sève,
Des destines qu’on se rêve!

Salomé, Salomé!
Sarcophage embaumé
Où dort maint Bien-Aimé…

Ophélie toi surtout
Viens moi par ce soir d’août
Ce sera entre nous.

Salammbo, Salammbo!
Lune au chaste halo
Qui laves nos tombeaux…

Grande soeur, Messaline!
Ô panthère câline
Griffant nos mousselines…

Oh! même Cendrillon
Reprisant ses haillons
Au foyer sans grillon…

Ou Paul et Virginie,
Ô vignette bénie
Des ciels des colonies…

— Psyché, folle Psyché,
Feu-follet du péché,
Vous vous ferez moucher!...

(Des Fleurs de bonne volonté [di Jules Laforgue —
Barbaro Pietro Vaccaro, 1994, Catania — Italia])
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Litanias da lua: Jules Laforgue — edição bilíngue, Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Lua na Província

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Ah! Lua, formosa e cheia,
Gorda, qual fortuna alheia!

A corneta soa ao fundo,
Passa, o senhor adjunto.

Um cravo toca a vidraça,
Um gato atravessa a praça:

É a província que dorme,
Lançando o último acorde!

O piano bate a janela.
Que hora são agora bela?

Tranqüila Lua, que exílio!
Preciso dizer que brilho?

Lua — Lua diletante,
De nenhum clima distante,

Viste ontem o Missouri,
E as muralhas de Paris,

Fiordes do norte-europeu,
Pólos, mares, que sei eu?

Lua contente, assim olhas,
O comboio, a esta hora,

De sua viagem de núpcias!
Eles partiram pra Escócia.

Que cena, se, este inverno,
Ela seguisse meus versos!

Lua — Lua navegante,
Sejamos então amantes?

Ricas noites! Eu me deito,
A Província no meu peito!

E a Lua, bondosa velha,
Enfia algodão na orelha.

Jules Laforgue

Complainte de la lune en province

Ah! la belle pleine Lune,
Grosse comme une fortune!

La retraite sonne au loin,
Un passant, monsieur l’adjoint;

Un clavecin joue en face *,
Un chat traverse la place:

La province qui s’endort!
Plaquant un dernier accord,

Le piano clôt sa fenêtre.
Quelle heure peut-il bien être?

Calme Lune, quel exil!
Faut-il dire: ainsi soit-il?

Lune, ô dilettante Lune,
À tous les climats commune,

Tu vis hier le Missouri,
Et les remparts de Paris,

Les fiords bleus de la Norwège,
Les pôles, les mers, que sais-je?

Lune heureuse! ainsi tu vois,
À cette heure, le convoi

De son voyage de noce!
Ils sont partis pour l’Écosse.

Quel panneau, si, cet hiver,
Elle eût pris au mot mes vers!

Lune, vagabonde Lune,
Faisons cause et mœurs communes?

Ô riches nuits! je me meurs,
La province dans le cœur!

Et la lune a, bonne vieille,
Du coton dans les oreilles.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino: ‘Traduzi “en face” por “vidraça”. “Vidraça capta o sentido de “em frente”, de “visibilidade”.
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Tristan Corbière: Gritos de cego *

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

(Sobre motivo baixo-bretão Ann hini goz.)

   No olho matado há calor
   Uma cunha dá-lhe cor
Cravejado eu estou sem um caixão
Vazaram meu olho sem compaixão
   No olho vazado há calor
   E a cunha turva a cor

   Deus misericors
   Deus misericors
Bate em minha cabeça de pau
O martelo do suplício final
   Deus misericors
   Deus misericors

   Os urubus têm pavor
   De provar do meu odor
Abreviar meu Gólgota é uma vã
Esperança, Lamma sabacthani
   Pombas da morte sem pavor
   Molhai o bico desse odor

   Vermelha como uma flor
   A chaga é prova de amor1.
Vermelha como a gengiva babada
No riso de uma velha desdentada
   A chaga é prova de amor
   Vermelha como uma flor

   Vejo círculos de cor
   E o sol branco mordedor
Na água dos meus olhos se retempera
O ferro cozido no fogo do inferno
   Vejo um círculo de cor
   E o sol branco mordedor

   Brota em meu interior
   Uma gota de humor
Eu vejo o paraíso que se esconde
Lá dentro, Miserere, De Profundis
   O enxofre do interior
   Do crânio é todo meu humor

   Aquele que morto for
   Dê graças ao criador
Sejam gratos o mártir e o eleito
Com Jesus e a Virgem sem defeito
   Se morto e julgado for
   Que agradeça ao criador

   Um cavaleiro ao redor
   Repousa sem rancor
Descansa no cemitério bendito
Dormindo sua sesta de granito
   O homem de pedra ao redor
   Tem dois olhos sem rancor

   Oh sinto ainda tua cor
   Terra amarela d’Armor
Entre os meus dedos sinto o rosário
Cristo de osso no lenho do Calvário
   Boquiaberto com tua cor
   Ó céu defunto d’Armor

   Perdão por orar em dor
   Senhor, contra teu favor
Meus olhos são furos em vermelhidão
Que o capeta fez com a própria mão
   Perdão por gritar de dor
   Senhor, se este é teu favor

   Ouço o vento em furor
   Com seu corne zumbidor
Esse é o halali dos trespassados
Eu ladro após minha hora demasiado
   Ouço o vento em furor
   Já sinto o zumbi da dor

                                             Menez-Arrez.

Tristan Corbière

Cris d’Aveugle

(Sur l’air bas-breton Ann hini goz.)

   L’œil tué n’est pas mort
   Un coin le fend encor
Encloué je suis sans cercueil
On m’a planté le clou dans l’œil
   L’œil cloué n’est pas mort
   Et le coin entre encor

   Deus misericors
   Deus misericors
Le marteau bat ma tête en bois
Le marteau qui ferra la croix
   Deus misericors
   Deus misericors

   Les oiseaux croque-morts
   Ont donc peur à mon corps
Mon Golgotha n’est pas fini
Lamma lamma sabacthani
   Colombes de la Mort
   Soiffez après mon corps

   Rouge comme un sabord
   La plaie est sur le bord
Comme la gencive bavant
D’une vieille qui rit sans dent
   La plaie est sur le bord
   Rouge comme un sabord

   Je vois des cercles d’or
   Le soleil blanc me mord
J’ai deux trous percés par un fer
Rougi dans la forge d’enfer
   Je vois un cercle d’or
   Le feu d’en haut me mord

   Dans la moelle se tord
   Une larme qui sort
Je vois dedans le paradis
Miserere, De profundis
   Dans mon crâne se tord
   Du soufre en pleur qui sort

   Bienheureux le bon mort
   Le mort sauvé qui dort
Heureux les martyrs, les élus
Avec la Vierge et son Jésus
   Ô bienheureux le mort
   Le mort jugé qui dort

   Un Chevalier dehors
   Repose sans remords
Dans le cimetière bénit
Dans sa sieste de granit
   L’homme en pierre dehors
   A deux yeux sans remords

   Ho je vous sens encor
   Landes jaunes d’Armor
Je sens mon rosaire à mes doigts
Et le Christ en os sur le bois
   À toi je baye encor
   Ô ciel défunt d’Armor

   Pardon de prier fort
   Seigneur si c’est le sort
Mes yeux, deux bénitiers ardents
Le diable a mis ses doigts dedans
   Pardon de crier fort
   Seigneur contre le sort

   J’entends le vent du nord
   Qui bugle comme un cor
C’est l’hallali des trépassés
J’aboie après mon tour assez
   J’entends le vent du nord
   J’entends le glas du cor

                                         Menez-Arrez.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
     * ‘O poema é uma descrição dos martírios do morto-vivo evitado até pelos urubus. Não é por acaso que esse poema faz parte da seção “bretã” do livro: a presença da morte é constante na cultura e mesmo na paisagem da Bretanha, em suas igrejas, em seus menires. Notar a ausência quase completa de pontuação desse poema, bem anterior a Mallarmé e a Apollinaire.
     “Ann hini goz” (em bretão, “la vieille femme”, a velha) era uma espécie de canto nacional bretão, entoado em geral por mendicantes.
     1. versos 19-20 — Substituímos a imagem da escotilha (“sabord”), pela da flor: a chaga está no flanco do navio (ou no flanco de Cristo crucificado) da mesma forma que é uma “prova de amor” (pela humanidade, no caso de Cristo). O registro no caso é irônico, dado o contexto dantesco do poema.’
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Tristan Corbière: Pária *

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Que repúblicas os contentem,
Homens livres! — rebanho preso —
Que suas proles amamentem!…
— Sou um cuco magro de desprezo.

— Coração eunuco, amputado
Daquilo que molhe ou que vibra…
Da Liberdade libertado
Estou! sempre só. Sempre livre.

— Minha Pátria… é o mundo afora;
Logo, não temo achar-me fora,
Pois que redondo o mundo é…
Minha pátria está onde a planta
— Em terra ou em mar — a planta
Dos meus pés — quando estou de pé.

— Quando deito: é a cama amada
Minha pátria, amarrotada,
Onde eu aperto contra o peito
Minha outra parte, desalmada;
É a mulher não encontrada,
Essa outra parte que estreito.

— O meu ideal: é um sonho
Oco; horizonte — o imprevisto —
E eu padeço de um mal medonho:
Saudade de algo nunca visto.

Que o rebanho siga a trilha,
De Carcassona a Tombuctu…
— Minha trilha me segue, milha
A milha, de norte a sul.

Meu bastão sobre mim revoa,
E tem o céu como coroa:
É meu cabelo contra o vento…
Não importa a língua falada,
Posso manter a boca fechada
Ou parlamentar com talento.

É um sopro árido o que penso:
É o ar. É o ar imenso.
Minha palavra é o eco mudo
Que não diz nada — e isso é tudo.

Meu passado: é o esquecido.
Só o que me mantém unido
São minhas mãos se dando, irmãs.
Lembrança — Nada. — Só a marca.
Presente — é tudo isso que passa
Futuro — Amanhã… amanhã.

Meu próximo não me é afim;
Sou aquilo que faço de mim.
— Odioso é o Eu humano…
— Não me odeio nem me amo.

— Vamos… a vida é uma dama
E ao seu bel-prazer fui posto…
O meu é: jogá-la na lama,
Prostituí-la a contragosto.

— Deuses?… — Vim por acaso a nascer;
Talvez existam — por acaso…
Se eles querem me conhecer,
Estou por aí, em todo caso.

— Morto, da minha pátria ganho
A mortalha de bom tamanho,
De um lado a outro do caminho…
Mas pra quê?… Se o que me encerra
É minha pátria que está na terra
Meus ossos irão bem sozinhos…

Tristan Corbière

Paria

Qu’ils se payent des républiques,
Hommes libres! — carcan au cou —
Qu’ils peuplent leurs nids domestiques!…
— Moi je suis le maigre coucou.

— Moi, — coeur eunuque, dératé
De ce qui mouille et ce qui vibre…
Que me chante leur Liberté,
A moi: toujours seul. Toujours libre.

— Ma Patrie… elle est par le monde;
Et, puisque la planète est ronde,
Je ne crains pas d’en voir le bout…
Ma patrie est où je la plante:
Terre ou mer, elle est sous la plante
De mes pieds — quand je suis debout.

— Quand je suis couché: ma patrie
C’est la couche seule et meurtrie
Où je vais forcer dans mes bras
Ma moitié, comme moi sans âme;
Et ma moitié: c’est une femme…
Une femme que je n’ai pas.

— L’idéal à moi: c’est un songe
Creux1.; mon horizon — l’imprévu —
Et le mal du pays me ronge…
Du pays que je n’ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,
De Carcassonne à Tombouctou2.…
— Moi, ma route me suit. Sans doute
Elle me suivra n’importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,
Il a le ciel pour couronne:
C’est la brise dans mes cheveux…
Et dans n’importe quelle langue;
Je puis subir une harangue;
Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:
C’est l’air. L’air est à moi partout.
Et ma parole est l’écho vide
Qui ne dit rien — et c’est tout.

Mon passé: c’est ce que j’oublie.
La seule chose qui me lie
C’est ma main dans mon autre main.
Mon souvenir — Rien — C’est ma trace.
Mon présent, c’est tout ce qui passe
Mon avenir — Demain… demain.

Je ne connais pas mon semblable;
Moi, je suis ce que je me fais.
— Le Moi humain est haïssable3.…
— Je ne m’aime ni ne me hais.

— Allons! la vie est une fille
Qui m’a pris à son bon plaisir…
Le mieniii, c’est: la mettre en guenille,
La prostituer sans désir.

— Des dieux?… — Par hasard j’ai pu naître;
Peut-être en est-il — par hasard…
Ceux-là, s’ils veulent me connaître,
Me trouveront bien quelque part.

— Où que je meure, ma patrie
S’ouvrira bien, sans qu’on l’en prie,
Assez grande pour mon linceul…
Un linceul encor: pour que faire?…
Puisque ma patrie est en terre
Mon os ira bien là tout seul…

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* ‘Em “Pária”, Corbière critica não só os ideiais políticos e intelectuais da sociedade de seu tempo, mas toda forma de idealismo. Terminando a seção “Golpes da sorte”, ele repete que seu horizonte é o “imprevisto”. [“Pária” também foi traduzido por Augusto de Campos]
1. versos 21-22 — “Songe / creux” joga com o substantivo “songe-creux” [sonhador, aquele que devaneia]
2. verso 26 — Carcassona é uma cidade turística localizada no sul da França. Tombuctu fica na República do Mali, África. A rota traçada por Corbière é, evidentemente, imaginária;
3. verso 47 — Referência a Pascal.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.