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domingo, 10 de maio de 2026

Tristan Corbière: Paris diurna

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor
Sempre o prato do dia e úmido de amor.

Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.

Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.

Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.


Paris diurne

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.

Les laridons en cercle attendent près du four,
On entend vaguement la chair rance bruire,
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.

Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.

Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino:Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendantepostumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Tristan Corbière: Duelo das camélias

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Eu vi o sol duro de encontrar aos tufos
Esgrimir.  Vi a esgrima ensolarar,
Fazendo paradas em lances bufos;
Melros de negro assistiam brilhar.

Um senhor em camisa se aprontava;
Parecia uma camélia, todo branco;
No ramo outra flor rosa vicejava
Como… E o florete vergou num flanco.

 Raiva, estou roxo!… Ah! ele me degola –
… Camélia branca  lá  como Sua gola…
Camélia amarela,  aqui  mastigada…

Meu amor morto, da lapela caiu.
 Eu, chaga aberta, flor primaveril!
Camélia viva, de sangue matizada!

Tristan Corbière

Dueul aux camélias

J'ai vu le soleil dur contre les touffes
Ferrailler. J'ai vu deux fers soleiller1,
Deux fers qui faisaient des parades bouffes;
Des merles en noir regardaient briller.

Un monsieur en ligne arrangeait sa manche;
Blanc, il me semblait un gros camélia;
Une autre fleur rose était sur la branche,
Rose comme... Et puis un fleuret plia.

Je vois rouge... Ah oui! c'est juste: on s'égorge
... Un camélia blanc comme Sa gorge...
Un camélia jaune, ici tout mâché...

Amour mort, tombé de ma boutonnière2.
A moi, plaie ouverte et fleur printanière!
Camélia vivant, de sang panaché!

Veneris Dies 13 ***

Notas do tradutor Marcos Antônio SiscarRetoma o tema baudelairiano do duelo amoroso (por exemplo, em “Duellum”). O título remete também ao romance de Alexandre Dumas Filho, A Dama das camélias, de 1849.
1. verso 2 — “Soleiller” é um neologismo, de origem provençal, construído a partir de “soleil”;
2. verso 12 — “Bouttonière” significa também a incisão fina e comprida que pode fazer um florete;
*** “Veneris Dies 13 — joga com a etimologia de “vendredi”, dia de Vênus e sexta-feira 13, dia fatídico.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Tristan Corbière: O Renegado

 

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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

(Homens do mar)

Isto é um renegado. Um grande contumaz:
   Para fazer nada, tudo faz.
Cortou sete mares, ou mais; bravo e poltrão,
Corsário anfíbio, em passeio ou em ação;
Escravo, flibusteiro, negro, branco, soldado,
Capanga; faz de tudo um pouco, o coitado:
Macaco, sabujo de dama... e mesmo: dama.
Profeta in partibus, vendendo a alma por grama;
Veneno, flautista, carrasco ou enforcado,
Médico, eunuco; pedinte, um facão do lado...

A morte o conhece, e já não se sente atraída...
Cuspido pela morte, cuspido pela vida,
Ele come homem, ouro, excremento, poeira,
Come chumbo, ambrósia… ou nada Aquilo que cheira. —

Seu nome! Trocar de pele lhe era fácil...
Em todas as línguas é: Cidalísia, Inácio,
Todos los santos... Mas tal peso já não tem;
O T. F. de forçado apagou muito bem!...

Quem o moveu... o amor? Já cheirou a cueiro!
Ele violou tudo: a forca e o carcereiro.
Ódio? Não. Roubo? Recusou o que era dado.
Amarrou o bode do vício? Não é viciado:
Não... na barriga ele tem uma messalina,
É um temperamento... um artista de rapina.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Não teve misericórdia nem com o diabo.
Tenha o leme! Apodreceu tudo até o cabo,
Matou toda besta, destratou o trato tosco...
Puro, por haver purgado todo desgosto.

                   Baleares.

Tristan Corbière

Le Rénégat*

(Gens de mer)

Ça c’est un renégat. Contumace partout:
    Pour ne rien faire, ça fait tout.
Écumé de partout et d’ailleurs; crâne et lâche,
Écumeur amphibie1, à la course, à la tâche;
Esclave, flibustier, nègre, blanc, ou soldat,
Bravo: fait tout ce qui concerne tout état;
Singe, limier de femme... ou même, au besoin, femme;
Prophète in partibus, à tant par kilo d’âme;
Pendu, bourreau, poison, flûtiste, médecin,
Eunuque; ou mendiant, un coutelas en main...

La mort le connaît bien, mais n’en a plus envie...
Recraché par la mort, recraché par la vie,
Ça mange de l’humain, de l’or, de l’excrément,
Du plomb, de l’ambroisie... ou rien Ce que ça sent.

Son nom? Il a changé de peau, comme chemise...
Dans toutes langues c’est: Ignace ou Cydalyse2,
Todos los santos... Mais il ne porte plus ça;
Il a bien effacé son T. F. de forçat!...

Qui l’a poussé... l’amour? Il a jeté sa gourme3!
Il a tout violé: potence et garde-chiourme.
La haine? Non. Le vol? Il a refusé mieux.
Coup de barre4du vice? Il n’est pas vicieux;
Non... dans le ventre il a de la fille-de-joie,
C’est un tempérament... un artiste de proie.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Au diable même il n’a pas fait miséricorde.
Hale encore! Il a tout pourri jusqu’à la corde,
Il a tué toute bête, éreinté tous les coups...
Pur, à force d’avoir purgé tous les dégoûts.

              Baléares5.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
O poema apresenta uma sequência de autodefinições comparável à dos poemas-epitáfio em Corbière, poeta “anfíbio”. [ . . . ] [traduzido] da seção do livro chamada “Homens do mar”.
1. verso 4 – “Amphibie”: segundo o dicionário Littré, o homem que professa, sucessivamente, sentimentos contrários;
2. verso 16 – “Ignace”: lembra o santo; “Cydalyse”, nome utilizado por Nerval [Gérard de] lembra um nome de cortesã;
3. verso 19 – “Jeter la gourme”: fazer loucuras na mocidade;
4. verso 22 – “Avoir le coup de barre”: sentir-se repentinamente muito cansado;
5. “Baléares”: os portos das ilhas Baleares eram ponto de passagem e de refúgio para todo tipo de aventureiro em ação no Mediterrâneo.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Tristan Corbière: Pária

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Que eles paguem por seus países,
Homens livres! sob o trabuco
E povoem ninhos felizes!...
Eu, porém, sou o magro cuco.

Coração eunuco, amputado
De tudo o que molhe ou que vibre...
A Liberdade é um hino aguado
Para mim: sempre só. Sempre livre.

A minha Pátria... é todo o mundo;
E já que o planeta é rotundo,
Não temo ver seu fim qual é...
Pátria é onde o meu ser se planta:
Terra ou mar, está sob a planta
De meus pés quando estou de pé.

Quando me deito, a pátria amada
É a cama triste e maltratada
Onde eu espalmo em minha palma
A metade, como eu sem alma;
Cara metade: é uma dama...
A metade da minha cama.

Uma idéia oca constrói
Meu ideal; meta o imprevisto
Mas a nostalgia me rói...
Do país por mim nunca visto.

Que os carneiros sigam a rota
De Carcassonne a Finisterra...
Minha rota me segue. A idiota
Me seguirá por toda a terra.

Meu pendão sobre mim revoa,
Tendo só o céu por coroa:
É a brisa no meu cabelo...
Não importa a língua a dizê-lo,
Topo qualquer papo furado;
E também sei ficar calado.

Meu pensamento é um sopro frio:
É o ar. O ar que me cerca, mudo.
Minha palavra, o eco vazio
Que não diz nada e isso é tudo.

O meu passado não me intriga.
A única coisa que me liga
É a minha mão na outra, irmã.
Minha memória Nada. Traça.
O meu presente é o que se passa
No futuro Amanhã... amanhã.

Eu não conheço o meu vizinho;
Eu sou aquilo que eu me creio.
O eu humano é tão mesquinho...
Eu não me amo nem me odeio.

Vamos! a vida é uma garota
Que me convida para um beijo...
Meu desejo é: deixá-la rota,
Prostituí-la sem desejo.

Os Deuses?... Por acaso eu vim;
Talvez existam por acaso...
Eles, decerto, ao cabo e ao fim,
Me encontrarão, se for o caso.

Minha pátria, quando eu morrer,
Se abrirá bem para acolher
O pó que a mortalha encerra.
Uma mortalha pra meu pó?
Se a minha pátria é a própria terra
Meu osso vai se dar bem, só.

Tristan Corbière

Paria

Qu'ils se payent des républiques,
Hommes libres! carcan au cou
Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!...
Moi je suis le maigre coucou.

Moi, coeur eunuque, dératé
De ce qui mouille et ce qui vibre...
Que me chante leur Liberté,
A moi: toujours seul. Toujours libre.

Ma Patrie... elle est par le monde;
Et, puisque la planète est ronde,
Je ne crains pas d'en voir le bout...
Ma patrie est où je la plante:
Terre ou mer, elle est sous la plante
De mes pieds quand je suis debout.

Quand je suis couché: ma patrie
C'est la couche seule et meurtrie
Où je vais forcer dans mes bras
Ma moitié, comme moi sans âme;
Et ma moitié: c'est une femme...
Une femme que je n'ai pas.

L'idéal à moi: c'est un songe
Creux; mon horizon l'imprévu
Et le mal du pays me ronge...
Du pays que je n'ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,
De Carcassonne à Tombouctou...
Moi, ma route me suit. Sans doute
Elle me suivra n'importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,
Il a le ciel pour couronne:
C'est la brise dans mes cheveux...
Et dans n'importe quelle langue
Je puis subir une harangue;
Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:
C'est l'air. L'air est à moi partout.
Et ma parole est l'écho vide
Qui ne dit rien et c'est tout.

Mon passé: c'est ce que j'oublie.
La seule chose qui me lie,
C'est ma main dans mon autre main.
Mon souvenir Rien C'est ma trace.
Mon présent, c'est tout ce qui passe
Mon avenir Demain... demain.

Je ne connais pas mon semblable;
Moi, je suis ce que je me fais.
Le Moi humain est haïssable...
Je ne m'aime ni ne me hais.

Allons! la vie est une fille
Qui m'a pris à son bon plaisir...
Le miens, c'est: la mettre en guenille,
La prostituer sans désir.

Des dieux?... Par hasard j'ai pu naître;
Peut-être en est-il par hasard...
Ceux-là, s'ils veulent me connaître,
Me trouveront bien quelque part.

Où que je meure, ma patrie
S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie,
Assez grande pour mon linceul...
Un linceul encor: pour que faire?...
Puisque ma patrie est en terre
Mon os ira bien là tout seul...
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

sábado, 24 de setembro de 2022

Tristan Corbière: Infante em seu lençol (risinho)

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

O prazer te foi duro, mais fácil é o mal
   Deixa-o vir à luz do dia.
À musa funesta já não se faz madrigal;
   Vais e o anjo fica à revelia

Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel;
   Canta, mas deixa essa mania
De sair à rua estendendo teu chapéu,
   Por vinténs de amor ou ironia.

Agora dorme: eis o sono que liberta;
Com tua agonia a Morte brinca esperta,
   Como o gato magro e o rato;

Sorrateira, a pata te lança ou te deita.
E o velho paroxismo ainda te deleita:
   Torce a boca, escuma... e seja grato.

Tristan Corbière

Petit coucher1
(risette)

Le plaisir te fut dur, mais le mal est facile
   Laisse-le venir à son jour.
À la Muse camarde on ne fait plus d'idylle;
   On s'en va sans l'Ange à son tour

Ton drap connaît ta plaie, et ton mouchoir ta bile;
   Chante, mais ne fais pas le four
D'aller sur le trottoir quêter dans ta sébile,
   Un sou de dégoût ou d'amour.

Tu vas dormir: voici le somme qui délie;
La Mort patiente joue avec ton agonie,
   Comme un chat maigre et la souris;

Sa patte de velours2 te pelotte et te lance.
Le paroxysme3 encor est une jouissance:
   Tords ta bouche, écume... et souris.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Pela temática da morte e pelo tratamento em segunda pessoa, esse poema “reencontrado” lembra bastante a seção “Rondéis para depois”, embora suas imagens sejam mais fortes. Título  “Petit coucher” era uma expressão da época da monarquia que designava a cerimônia para o momento em que o rei se recolhia. “Risette” (risinho de criança), como subtítulo, evoca a homofobia contida no título: “petit coucher” (adjetivo + substantivo), uma cochilada, pode ser lido “petit couché” (substantivo + particípio passado), a criança em sua cama. Como em “Rondéis pour Après”, a imagem do sono remete à da morte. A tradução destaca aqui a idéia do príncipe (infante, como substantivo) em sua cama, mas também a idéia de uma certa ingenuidade infantil (“infante”, adjetivo em função de advérbio), em face da morte (“lençol” entendido como mortalha, como em “Soneto póstumo”), de acordo com a atmosfera do poema;
2.Chat qui fait parte de velours” é o gato que apresenta as patas tendo escondido suas garras. Em sentido figurado, “faire patte de velours” significa dissimular um objetivo maligno sob uma aparência inofensiva;
3. Provável referência a [Alfred de] Musset, em Namouna: Chez lui la jouissance était un paroxysme.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

sábado, 6 de agosto de 2022

Tristan Corbière: Aventura galante e a ventura

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Odor della feminità.

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz  um pouco  é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia  triste ofício!  eu, assim,
 Ofício!...  velejava. Ela passou por mim.
 Ela quem?  A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a…  porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                               me deu uns tostões.

Rua dos Mártires.

Tristan Corbière

Bonne fortune et fortune1

Odor della feminitá.

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,
Pour la passante qui, d’un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de la prunelle ou la peau de mon cœur…

Et je me crois content pas trop! mais il faut vivre:
Pour promener un peu sa faim, le gueux s’enivre…

Un beau jour quel métier! je faisais, comme ça,
Ma croisière. Métier!… Enfin, Elle passa
Elle qui? La Passante! Elle, avec son ombrelle!
Vrai valet de bourreau, je la frôlai… mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,
Et… me tendit sa main, et…
                                                  m’a donné deux sous.

Rue des Martyrs2.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Variação periódica do soneto “A uma passante”, de Baudelaire. No título, há um jogo de palavra com “fortune”, que pode designar uma “aventura galante” quando ela é boa, “bonne”. A fortuna ou a ventura alcançadas nessa aventura são uma referência irônica aos “tostões” do final do poema;
2. “Rue des Martyrs” — Rua famosa de Montmartre, numa área conhecida de prostituição. O “mártir” não deixa de remeter, ironicamente, à sorte que tem o poeta em sua aventura parisiense.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.