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terça-feira, 25 de abril de 2017

Cecília Meireles: Irrealidade

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Como num sonho
aqui me vedes:
água escorrendo
por estas redes
de noite e dia.
A minha fala
parece mesmo
vir do meu lábio
e anda na sala
suspensa em asas
de alegoria.

Sou tão visível
que não se estranha
o meu sorriso.
E com tamanha
clareza pensa
que não preciso
dizer que vive
minha presença.

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente.

Se me perguntam
pessoas, datas,
pequenas coisas
gratas e ingrata,
cifras e marcos
de quando e de onde,
a minha fala
tão bem responde
que todos crêem
que estou na sala.

E ao meu sorriso
vós me sorrides… *
Correspondência
do paraíso
da nossa ausência
desconhecida
e tão feliz!

Mar Absoluto e Outros Poemas — 1945

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* Nota de Darcy Damasceno: Sorris, em todas as edições. Corrigimos. Estilisticamente, o lapso teria explicação (rima sorris — feliz).
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Cecília Meireles — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 107, Seleção e Apresentação de Darcy Damasceno, 1974, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; obra poética: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Cecília Meireles: Vigilância

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A estrela que nasceu trouxe um presságio triste;
inclinou-se o meu rosto e chorou minha fronte:
que é dos barcos do meu horizonte?

Se eu dormir, aonde irão esses errantes barcos,
dentro dos quais o destino carrega
almas de angústia demorada e cega?

E como adormecer nesta Ilha em sobressalto,
se o perigo do mar no meu sangue se agita,
e eu sou, por quem navega, a eternamente aflita?

E que deus me dará força tão poderosa
para assim resistir toda a vida desperta
e com os deuses conter a tempestade certa?

A estrela que nasceu tinha tanta beleza
que voluntariamente a elegeu minha sorte.
Mas a beleza é o outro perfil do sofrimento,
e só merece a vida o que é senhor da morte.

Mar Absoluto e Outros Poemas — 1945

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Cecília Meireles — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 107, Seleção e Apresentação de Darcy Damasceno, 1974, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; obra poética: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.