
Eu amo aquela estaçãozinha
sossegada,
aquela estaçãozinha anônima que existe
longe, onde só se faz uma breve parada...
Na casa da estação, que é pequena e caiada,
mora, a se estiolar, uma menina triste.
À chegada do trem, semi-erguendo a cortina,
ela espia por trás da vidraça que a encobre,
Muita gente do trem para fora se inclina
e olha curiosamente o rosto da menina,
tão anônima quanto a estaçãozinha pobre.
O trem parte... Ficou na distância, esquecida,
a estaçãozinha... e a moça triste da janela...
Mas vai comigo uma lembrança dolorida...
Quem sabe se a mulher esperada na vida
não era aquela da estação, não era aquela,
aquela que ficou lá para trás, perdida?
Monteiro Lobato & Cia. —
Editores, São Paulo, 1921)

____________________
Panorama da Poesia Brasileira, Volume
V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização
Brasileira S/A, Rio de Janeiro; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 — 1963), paulista de Santos, foi magistrado, diplomata, jornalista, poeta, contista e romancista; trabalhou como revisor, redator e/ou colaborador em diversos periódicos nacionais (Jornal do Commercio — São Paulo, Correio Paulistano, Jornal do Brasil, O Globo, A Notícia — Pernambuco); como diplomata, radicado em países europeus, ocupou-se em divulgar a literatura brasileira por onde passou; no meio literário, Ribeiro Couto ficou definido pela participação no período de transição entre os simbolistas e o movimento modernista, a que o poeta se ligou em 1922; escreveu e publicou O Jardim das Confidências (poesias, 1921), A Casa do Gato Cinzento (contos, 1922), O Crime do estudante Batista (contos, 1924), Poemetos de Ternura e de Melancolia (1924), A Cidade do Vício e da Graça (crônicas, 1924), Um Homem na Multidão (poesias, 1926), Baianinha e Outras Mulheres (contos, 1927), Canções de Amor (poesias, 1930), Cabocla (romance, 1931), Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1932), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Prima Belinha (romance, 1940), Largo da Matriz (contos, 1940), Cancioneiro do Ausente (1943), O Dia é Longo (poesias, 1944), Rive Etrangère (1951), Entre Mar e Rio (1952), Le Jour est Long (1958), entre outros títulos; teve obras traduzidas para o francês, italiano, húngaro, servo-croata e sueco.