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(Consagrado à cidadezinha natal]
I
Barca dos sonhos, minha
companheira
Dos dias de tormenta e de
bonança,
Em seu seio o mar calmo te
balança;
Vamos longe vogar, barca
veleira.
Atrás fica o passado em nossa
esteira,
Vai-nos à proa o lume da
esperança,
Do passado a saudade nos
alcança,
Mas a esperança como vai
ligeira!
Na vasta solidão do mar,
enquanto
Rememoro a existência
dolorosa,
Surgem dias de gozo puro e
santo.
Cresce a luz da esperança
radiosa,
Vamos dormir dos astros sob o
manto.
Barca dos sonhos, pétala de
rosa.
II
Barca dos sonhos, pétala de
rosa,
Vamos dormir das ondas nos
arminhos,
E por baixo de nós monstros
marinhos
Cortam do abismo a senda
tenebrosa.
Ao longe, em negra linha
temerosa,
Outros monstros de ferro
amplos caminhos
Fecham nos mares amplos, e
sozinhos
Ditam a lei da força
imperiosa.
Dá-me a cota de malha, o meu
montante,
O rijo elmo encantado de mambrino
E o meu leal e heróico rocinante.
Se monstros combater é meu
destino,
Tenho p’ra luta o braço meu
possante,
Para a vitória um protetor
divino.
III
Desta vitória o protetor
divino
Vem do oriente como a luz do
dia,
E do sol ao fulgor que se
irradia
Entoa o mundo redimido o hino.
Ouves acaso esse tanger de
sino
Que vem de longe, além da
penedia?
É o triste tocar da Ave-Maria
Na velha torre que me viu
menino.
Vês como o sol se esconde no
poente
E doura apenas o perfil da
serra,
Barca dos sonhos a vagar
silente?
Aproa à costa que meu lar
encerra,
Pois quero agora repousar
contente
No seio amado e bom da minha
terra.
[Julho de 1912]
[Revista da Academia
Brasileira de Letras, ano III, nº 7, 1912.]
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Antologia de Poetas Fluminenses
(vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica
Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça
(1841 — 1913), fluminense de Itaboraí, recebeu seus primeiros ensinamentos da mãe,
com quem aprendeu línguas, música e desenho; depois, já no Rio de Janeiro, então
capital do Império estudou no Colégio Marinho e no Curiácio, e, em São Paulo, formou-se
em Direito na Faculdade do Largo São Francisco (atual USP); foi advogado, professor,
jornalista, diplomata, teatrólogo, tradutor, escritor e poeta; colaborou como redator
no Diário do Rio de Janeiro, além de publicar seus textos e críticas, manter colunas
em outros periódicos: Jornal do Commércio, Correio Mercantil, Jornal da República,
Actualidade, Tribuna Liberal, O Ipiranga e outros, em alguns deles ocupando funções
as mais variadas; foi tradutor da Casa Garnier, livraria e editora; suas obras:
Singairu (poesia, 1859), O Romance de um Moço Rico (teatro, 1860), A Herança (teatro,
1861), Joana de Flandres, ou A Volta do Cruzado (ópera, 1863), Marabá (romance,
prefaciado por José de Alencar, 1875), Lendas da Serra e da Baixada (poesia, 1910)
etc.; foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criador e ocupante
da cadeira nº 20, sendo patrono o escritor Joaquim Manuel de Macedo; o poeta, assim
como Lúcio de Mendonça, seu irmão mais velho, também sofreu com cada vez mais
acentuados problemas na visão, ambos morreram cegos.

