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dos “cadernos
de vorôniej”
[traduzido por Augusto de Campos]
1
Liberta-me, libera-me, Vorôniej*, —
Devolve-me ou devora-me em teu sorvo, —
Desinverna-me ou vara-me de nojo —
Voraz neve, Vorôniej — dente, corvo!
(Vorôniej, abril de 1935)
2
Como pedra do céu, na terra, um dia,
Um verso condenado caiu, sem pai, sem lar;
Inexorável, a invenção da poesia
Não pode ser mudada, e ninguém a irá julgar.
(Vorôniej, 20 de janeiro de 1937)
3
O que lutou contra o óxido e o bolor,
Qual prata feminina se incendeia,
E o trabalho silencioso prateia
O arado de ferro e a voz do inventor.
(Vorôniej, 1937)
[1]
Пусти меня, отдай меня, Воронеж: . . .
Пусти меня, отдай меня,
Воронеж:
Уронишь ты меня иль проворонишь,
Ты выронишь меня или вернешь, —
Воронеж — блажь, Воронеж — ворон, нож...
([Воро́неж] Апрель 1935 [r.])
[2]
Как землю где-нибудь небесный камень будит, . . .
Как землю где-нибудь небесный камень будит,
Упал опальный стих, не знающий отца.
Неумолимое — находка для творца —
Не может быть другим, никто его не судит.
(Воро́неж, 20 января 1937)
[3]
Как женственное серебро горит, . . .
Как женственное серебро горит,
Что с окисью и примесью боролось,
И тихая работа серебрит
Железный плуг и песнотворца голос.
(Воро́неж, [Начало] 1937)
* Nota do tradutor Augusto de Campos: Vorôniej: cidade em
que Mandelstam foi confinado, entre 1934 e 1937, por ordem de Stálin.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos,
Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos,
Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip
Mandelstam (1891 — 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou
Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor,
crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em
1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; bibliografia:
Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej
(preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter
elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético,
foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno,
o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi
postumamente reabilitado.




















