sexta-feira, 30 de abril de 2021

óssip mandelstam: Liberta-me, libera-me, Vorôniej* . . . & etc.

 
____________________
dos “cadernos de vorôniej”

[traduzido por Augusto de Campos]

1

Liberta-me, libera-me, Vorôniej*
Devolve-me ou devora-me em teu sorvo, 
Desinverna-me ou vara-me de nojo 
Voraz neve, Vorôniej  dente, corvo!

(Vorôniej, abril de 1935)

2

Como pedra do céu, na terra, um dia,
Um verso condenado caiu, sem pai, sem lar;
Inexorável, a invenção da poesia
Não pode ser mudada, e ninguém a irá julgar.

(Vorôniej, 20 de janeiro de 1937)

3

O que lutou contra o óxido e o bolor,
Qual prata feminina se incendeia,
E o trabalho silencioso prateia
O arado de ferro e a voz do inventor.

(Vorôniej, 1937)

Óssip Mandelstam

[1]

Пусти меня, отдай меня, Воронеж: . . .

Пусти меня, отдай меня, Воронеж:
Уронишь ты меня иль проворонишь,
Ты выронишь меня или вернешь, 
Воронеж  блажь, Воронеж  ворон, нож...

([Воро́неж] Апрель 1935 [r.])

[2]

Как землю где-нибудь небесный камень будит, . . .

Как землю где-нибудь небесный камень будит,
Упал опальный стих, не знающий отца.
Неумолимое  находка для творца 
Не может быть другим, никто его не судит.

(Воро́неж, 20 января 1937)

[3]

Как женственное серебро горит, . . .

Как женственное серебро горит,
Что с окисью и примесью боролось,
И тихая работа серебрит
Железный плуг и песнотворца голос.

(Воро́неж, [Начало] 1937)

* Nota do tradutor Augusto de Campos: Vorôniej: cidade em que Mandelstam foi confinado, entre 1934 e 1937, por ordem de Stálin.
____________________
poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; bibliografia: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Raul de Leoni: Legenda dos Dias

 
____________________
O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

____________________
História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Raul de Leôni (1895 1926), nascido em Petrópolis RJ, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, foi diplomata e poeta; em 1914 iniciou sua colaboração literária em revistas (Fon-Fon e Para Todos) e jornais cariocas (Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Jornal e O Dia); bibliografia: Ode a Um Poeta Morto (1919) e Luz Mediterrânea (1922); parte de sua obra em prosa, artigos de interesse literário, ficou dispersa em periódicos da época.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Autoria desconhecida: Aos Poetas — Miséria *

____________________
Artista! Se te oprime a esquálida miséria,
Se a grande falta de ouro amarra as tuas asas,
Rojando-te no chão, na lama da matéria,
Mesclando a fome vil ao sonho em que te abrasas,

Não te importe o clamor dessas turbas tão rasas,
Não te importe o pungir da carne deletéria;
Num solo de veludo ou num solo de brasas,
Caminha, fito o olhar numa esperança etérea.

Que te importa o banal? A propriedade? O mundo?
Se te negam o pão, usa a força, expropria;
Em vez de te humilhar, faze-te vagabundo!

Vibra o plectro de luz por esse mundo afora,
Mas lega, quando morto, à multidão sombria,
Um grito de revolta e uma estrofe sonora.

* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15: Soneto impresso, sem nome do autor nem outra referência; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de vários autores libertários, lê-se o seguinte trecho: ...Edgard Leuenroth, num trabalho metódico e minucioso, reuniu, sobretudo na imprensa operária e livre-pensadora, poesias de várias regiões do país publicadas ao longo dos anos 1900. Nelas e por elas lamentam-se as condições de vida e de trabalho do assalariado, as misérias dos vícios e das guerras, as resignações e as crendices religiosas; denunciam-se as tiranias e as injustiças das instituições autoritárias. Em oposição, são enaltecidos o uso da razão e o livre-pensar e o trabalhador é alentado para a luta, apesar dos sofrimentos e das desilusões. Curiosamente, raramente as poesias se referem às formas de organização do movimento ou da sociedade futura propostas pelos anarquistas; reportam-se mais ao valor da instrução racionalista e à importância do saber e da cultura; exaltam o trabalho como elemento fundamental na edificação da futura sociedade anárquica e o próprio lazer como meio de educação e de luta. Muitas das poesias coletadas por Edgard são manuscritas, outras datilografadas, algumas impressas; umas são acompanhadas de cartas explicativas; outras são delicadas a algum militante ou enviadas para serem incorporadas ao documento em elaboração pelo velho militante.” ...
____________________
Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História [vários autores], Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; sobre a autoria do poema Aos Poetas Miséria, nada se sabe, o que de resto está explicitado no trecho do texto/documento A Poesia Anarquista, da historiadora Yara Aun Khoury, acima transcrito.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Hilda Hilst: Tenho pena . . .

 
____________________
XI

Tenho pena
das mulheres que riem com os braços
e choram de mentira para os homens.
E descobrem o seio antes do convite
e morrem no prazer... olhos fechados.

Tenho pena
do poeta feito para só ser pai... e ser poeta.
E daqueles que dormem sobre o papel
à espera do vocábulo
e dos que fazem filhos por acaso
e dos doidos e do cão que passa

e de mim... que espero a morte
na confusão e no medo.

Balada do Festival — 1955

____________________
Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: No dia 3 mais uma primavera

____________________
No dia 3 mais uma primavera
contas, formosa e escreves-me, pedindo
que eu compareça ao bródio ameno e lindo,
que a tal festa não falte... ai! quem me dera!

Eu, que sou nos folguedos mesmo cuera,
vou faltar desta vez. Horror infindo!
É que o meu terno podre está se esvaindo
de tão batido e pálido. Pudera!

Tenho razões, bem vês, minhas candongas,
De não comparecer à linda festa,
A ouvir ao piano as belas arapongas...

Nesta minha pindaíba se concentra
a causa disso... É a explicação que resta
... e em festa de jacu nhambu não entra!

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biográficos de Sylvio Figueiredo, anotados por Luiz Antonio Barros organizador deste Os Poetas Satíricos ..., ficamos sabendo que, embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
____________________
Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo), fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

domingo, 25 de abril de 2021

Apollinaire: Outono doente

____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

Outono doente a adorado
Morrerás quando a tempestade soprar nas roseiras
Quando tiver nevado
Nos jardins

Pobre outono
Morra em brancura e em riqueza
De neve e de frutas maduras
No fundo do céu
Gaviões flutuam
Sobre as ninfas crédulas de cabelo verde e anãs
Que nunca amaram

Nas orlas longínquas
Os cervos bramaram
E quanto amo ó estação quanto amo teus rumores
As frutas caindo sem que as colhamos
O vento e a floresta que choram
Todas as suas lágrimas no outono folha a folha
                 As folhas
                 Que pisamos
                 Um trem
                 Em que rodamos
                 A vida
                 Que passamos

Apollinaire

Automne malade

Automne malade et adoré
Tu mourras quand l’ouragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des éperviers planent
Sur les nixes nicettes aux cheveux verts et naines
Qui n’ont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que j’aime ô saison que j’aime tes rumeurs
Les fruits tombant sans qu’on les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuille à feuille
                 Les feuilles
                 Qu’on foule
                 Un train
                 Qui roule
                 La vie
                 S’écoule

[1913]
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou por todos os gêneros literários — poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

Maria Lúcia Dal Farra: Alho

 
____________________
A túnica que me envolve a cabeça
é de cera,
faz fugir insetos,
deixa incerta minha figura
cria sortilégios e mistério.
Mas se mostro os dentes
(e só assim sou benéfico!)
assusto morcegos, capetas
e serpentes.

Povos avançados do universo
um dia me depuseram na Terra
(antes do Dilúvio)
por isso o vulto possuo de testículos,
da bolsa que
(por legítimos meios)
inventa a maravilha curática
para qualquer tipo de anseio.

Loucos? Frenéticos?
Impotentes? Enfeitiçados?
Cru ou aferventado
virtudes exalo para cada cuidado.
Vampiros me evitam,
vermes me temem,
assombrações e escorpiões se pelam 
tudo posso contra seus eflúvios!

Mágico e afrodisíaco,
transito há séculos entre hindus, árabes e egípcios.
Sendo da Sicília nado
sou (por isso mesmo) perito em maus olhados
e jamais confundido com bugalhos.

Meu forte odor
(que faz furor entre os carentes)
me afasta, afinal, das gentes.
Nem dentro de uma réstia
me entendo comigo mesmo

alheado...

____________________
Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

sábado, 24 de abril de 2021

Wallace Stevens: O imperador do sorvete

 
____________________
[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Chama o enrolador de charutos,
O musculoso, e pede que ele bata
Em xícaras caseiras cremes lúbricos.
Que as raparigas vistam as roupas
Que é seu costume usar, e os rapazes
Tragam flores no jornal do mês passado.
Que parecer termine em ser somente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Pega no armário de pinho,
Com os puxadores de vidro quebrados,
O lençol que ela bordou com pombas
E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Wallace Stevens

The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Harmonium (1923, 1931)
____________________
Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Afonso Schmidt: A nossa fogueira

 
____________________
A fim de festejar o nosso dia,
Pois o dia dos míseros não tarda,
Vamos fazer uma vermelha orgia
Para que o mundo das mentiras arda.

Fogo na lei parcial que nos mentia
E que se impunha a tiros de espingarda,
Fogo nos santarrões de sacristia,
Fogo na toga, no burel, na farda!

Fogo nos bairros proletários onde
A vergonha dos míseros se esconde;
Que o conforto pertence a quem trabalha.

A nova máquina social, do povo,
Precisa ser como um alfange novo
Que sai do coração de uma fornalha.

(Cottin * [Afonso Schmidt])


* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura  Revista Brasileira de História Nº 15: Recorte impresso, sem referências. Cottin é um pseudônimo de Afonso Schmidt, literato, simpatizante libertário. “A Plebe” publica poesias e artigos seus; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de autores libertários, lê-se o seguinte: ... “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; é instigante descobrir pseudônimos, saber que Souza Passos é também Felipe Gil, escrevendo em “A Plebe”. que Afonso Schmidt assina por vezes Cottin, no mesmo jornal; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância;” ...
____________________
Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; por vezes, Afonso Schmidt assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Konstantinos Kaváfis: Hegêmone da Líbia Ocidental

 
____________________
[traduzido por Trajano Vieira]

Nos dez dias de sua estada em Alexandria,
deixou impressão positiva
o hegêmone da Líbia ocidental,
Aristômenes, filho de Menelau.
Com suas vestes combinava o nome: ambos discretos, à grega.
Não era um perquiridor de honrarias,
as quais, modesto, acolhia satisfeito.
Seu dispêndio concentrava em bibliografia grega,
no campo historiográfico e filosófico.
Era um sujeito de poucas palavras.
Cogitavam da profundeza de suas reflexões,
gente assim não é de abrir a boca.

Não eram profundas suas reflexões ou coisa que o valha.
Tratava-se de um ente corriqueiro, ridículo.
Assumiu denominação grega, indumentária grega,
absorveu aqui e ali certas posturas gregas;
sua ânima se pelava de medo
com a eventual reversão
da impressão positiva,
caso escorregasse no grego, com grotescos barbarismos,
e os alexandrinos, como de hábito,
seres abomináveis,
zombassem dele.

Esse o motivo de sua continência verbal,
obcecado, trêmulo, com declinações e prosódia.
Aporrinhava-o o fato de ecoar, reprimida,
dentro de si,
a profusão de vozes.

[1928]


ΗΓΕΜΏΝ ΕΚ ΔΥΤΙΚΉΣ ΛΙΒΎΗΣ

Άρεσε γενικώς στην Αλεξάνδρεια,
τες δέκα μέρες που διέμεινεν αυτού,
ο ηγεμών εκ Δυτικής Λιβύης
Αριστομένης, υιός του Μενελάου.
Ως τ' όνομά του, κ' η περιβολή, κοσμίως, ελληνική.
Δέχονταν ευχαρίστως τες τιμές, αλλά
δεν τες επιζητούσεν• ήταν μετριόφρων.
Αγόραζε βιβλία ελληνικά,
ιδίως ιστορικά και φιλοσοφικά.
Προ πάντων δε άνθρωπος λιγομίλητος.
Θάταν βαθύς στες σκέψεις, διεδίδετο,
κ' οι τέτοιοι τόχουν φυσικό να μη μιλούν πολλά.

Μήτε βαθύς στες σκέψεις ήταν, μήτε τίποτε.
Ένας τυχαίος, αστείος άνθρωπος.
Πήρε όνομα ελληνικό, ντύθηκε σαν τους Έλληνας,
έμαθ' επάνω, κάτω σαν τους Έλληνας να φέρεται•
κ' έτρεμεν η ψυχή του μη τυχόν
χαλάσει την καλούτσικην εντύπωσι
μιλώντας με βαρβαρισμούς δεινούς τα ελληνικά,
κ' οι Αλεξανδρινοί τον πάρουν στο ψιλό,
ως είναι το συνήθειο τους, οι απαίσιοι.

Γι' αυτό και περιορίζονταν σε λίγες λέξεις,
προσέχοντας με δέος τες κλίσεις και την προφορά•
κ' έπληττεν ουκ ολίγον έχοντας
κουβέντες στοιβαγμένες μέσα του.

[1928]
____________________
Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: Ao operário

 
____________________
Operário ignorante e maltrapilho,
escravo, ilota da moderna idade
que neste afã perdes a cor e o brilho
do olhar, fanando a flor da mocidade.

Que vês de fome definhar teu filho
e de teu lar fugir a alacridade,
desperta finalmente e segue o trilho
da rebeldia e da felicidade!

Atenta na abjeção em que caíste,
a ardente voz dos teus irmãos escuta,
pensa na agrura do teu fado triste.

E, sem achares forças que te domem,
quebra os grilhões, instrui-te e, altivo, luta
por seres livre para seres HOMEM!

(jornal Spartacus, 25/10/1919, p. 2.)

Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biobibliográficos de Sylvio Figueiredo, em Os Poetas Satíricos do Café Paris (organização, apresentação e introdução de Luiz Antonio Barros, 2014), ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
____________________
Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; bibliografia: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

Pedro Kilkerry: Horas ígneas *

 

____________________
Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
De amores ruivos, protervos
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca

De animal.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres flores num mangue...


* Nota de Massaud Moisés: Apud Augusto de Campos, Re-visão de Kilkerry. S. Paulo, Fundo Estadual de Cultura, 1970, pp. 94-5. Além de um longo e elucidativo estudo da obra do poeta, o volume reúne toda a sua obra dispersa.
____________________
História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Pedro Militão Kilkerry (1885 1917), baiano de Santo Antonio de Jesus, formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima, órgão simbolista, e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro.