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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

André de Chénier: Jovem Cativa


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[traduzido por João de Deus]

Como o pâmpano, hei de eu morrer? não quero!
Respeita a foice a espiga verde ainda;
Sem medo da vindima, o estio inteiro
Bebe o pâmpano as lágrimas da aurora:
E eu verde como a espiga, tenra e linda
Quero, mas não por ora!

Talvez que a outrem, morte, grata fosses;
Espero! Embora em lágrimas me lave,
Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
Se há dias tristes, ai! há-os tão doces...
Sem amargo, que mel, por mais suave
Que mar em paz continua?

Benéfica ilusão meu seio habita.
Sepulte-me este cárcere inumano;
A asa nívea da fé não se agrilhoa.
Escapa ao laço da prisão maldita,
Mais viva e alegre a esse aéreo oceano,
A alvéola canta e voa.

Hei-de morrer? por quê? se não diviso
Em minha alma um remorso; durma ou vele,
Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expele;
E a luz assoma a custo!

O fim do meu destino é lá tão longe!
Quantos passei dos álamos que adornam
Esta bela viagem? Eu, sentada
Ao banquete da vida apenas hoje,
A taça ainda cheia as mãos me entornam,
Dos lábios ilibada.

Estou na primavera, oh segadores!
E as mais quadras do ano havia agora
De não acompanhar o sol, havia?
Debruçada em meu pé, glória das flores,
Eu não vi mais do que raiar a aurora;
Quero acabar o dia!

Espera um pouco, oh morte! nada perdes:
Antes consola os que o remorso, o medo,
O desalento pálido devora!
Guarda-me ainda o campo grutas verdes,
A musa, cantos! e o amor... segredo!
Não morre, não, por ora!

Assim, encarcerada, o rosto lindo
E a vista alçando às regiões ignotas,
Minha musa entoou na fé mais viva;
E eu, as lânguidas mágoas sacudindo,
Moldei em doce verso as doces notas
Dessa jovem cativa!


La Jeune Captive

L'épi naissant mûrit de la faux respecté;
Sans crainte du pressoir, le pampre tout l'été
Boit les doux présents de l'aurore;
Et moi, comme lui belle, et jeune comme lui,
Quoi que l'heure présente ait de trouble et d'ennui,
Je ne veux point mourir encore.

Qu'un stoïque aux yeux secs vole embrasser la mort,
Moi je pleure et j'espère; au noir souffle du nord
Je plie et relève ma tête.
S'il est des jours amers, il en est de si doux!
Hélas! quel miel jamais n'a laisse de dégoûts?
Quelle mer n'a point de tempête?

L'illusion féconde habite dans mon sein.
D'une prison sur moi les murs pèsent en vain.
J'ai les ailes de l'espérance.
Échappée aux réseaux de l'oiseleur cruel,
Plus vive, plus heureuse, aux campagnes du ciel
Philomèle chante et s'élance.

Est-ce à moi de mourir? Tranquille je m'endors,
Et tranquille je veille; et ma veille aux remords
Ni mon sommeil ne sont en proie.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux;
Sur des fronts abattus, mon aspect dans ces lieux
Ranime presque de la joie.

Mon beau voyage encore est si loin de sa fin!
Je pars, et des ormeaux qui bordent le chemin
J'ai passé les premiers à peine,
Au banquet de la vie à peine commencé,
Un instant seulement mes lèvres ont pressé
La coupe en mes mains encor pleine.

Je ne suis qu'au printemps, je veux voir la moisson;
Et comme le soleil, de saison en saison,
Je veux achever mon année.
Brillante sur ma tige et l'honneur du jardin,
Je n'ai vu luire encor que les feux du matin;
Je veux achever ma journée.

Ô mort! tu peux attendre; éloigne, éloigne-toi;
Va consoler les coeurs que la honte, l'effroi,
Le pâle désespoir dévore.
Pour moi Palès encore a des asiles verts,
Les Amours des baisers, les Muses des concerts.
Je ne veux point mourir encore.

Ainsi, triste et captif, ma lyre toutefois
S'éveillait, écoutant ces plaintes, cette voix,
Ces voeux d'une jeune captive;
Et secouant le faix de mes jours languissants,
Aux douces lois des vers je pliais les accents
De sa bouche aimable et naïve.

Ces chants, de ma prison témoins harmonieux,
Feront à quelque amant des loisirs studieux
Chercher quelle fut cette belle:
La grâce décorait son front et ses discours,
Et, comme elle, craindront de voir finir leurs jours
Ceux qui les passeront près d'elle.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; André-Marie Chénier (1762 1794), nascido em Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia), aos três anos de idade levado para a França, estudou no Collége de Navarre, foi poeta e escritor; de mãe [que se dizia] grega e pai francês e diplomata, André Chénier, por relações de amizade, passou a frequentar a aristocracia parisiense, viajou pela Suíça e Itália, tornou-se secretário da embaixada em Londres; participante da revolução francesa, escreveu artigos e panfletos contra os jacobinos, contestou a competência da Assembléia no processo do rei Luís XVI em 1793, tornou-se suspeito, esteve fugido da França e, no retorno a Paris, foi preso no cárcere de Saint-Lazare e, após 141 dias, guilhotinado em 25 de julho de 1794; suas obras: Bucólicas (1785-1787), Elegias (1785-1789); sua poesia só se tornou conhecida e respeitada mais de duas décadas após sua morte; o poema La Jeune Captive foi escrito na prisão.