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quarta-feira, 8 de março de 2023

Lúcio de Mendonça: A Besta Morta

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Na senzala, no chão, numa esteira amarela,
Jaz o filho de Cam, o maldito. É um velho.
No mal coberto ombro os vestígios do relho
Traçaram-lhe uma cruz, a única que o vela.

Cruza no peito as mãos roídas do trabalho.
Sobram do cobertor os grossos pés informes.
Dorme, descansa enfim, que do sono em que dormes
Já não pode acordar-te a sanha do vergalho!

Como única oração que tua alma proteja,
Por sobre a podridão de tua boca fria
Vibra no ar zumbindo a mosca de vareja...

Enquanto, ao longe, o sino, em voz cansada e lenta,
Reza, doce cristão, a sua Ave Maria,
E o moribundo sol as nuvens ensanguenta.

[Visões do Abismo — 1888 / Murmúrios
e Clamores: poesias completas — 1902]

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); desde 1889, com a proclamação da república, passa a ocupar diversos cargos públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal, mas continua escrevendo para jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.