____________________
[traduzido,
metrificado e rimado por Milton Lins]
Meu
coração baba na popa,
meu
coração cheio de fumo:
lançar-lhe-ão
jatos de sopa.
meu
coração baba na popa:
um chiste
a ouvir de toda tropa
que
incita um riso sem aprumo,
meu
coração baba na popa,
meu
coração cheio de fumo!
São
arretados, piu-piu-escos
Todo esse
insulto é depravado!
Pela
noitinha, ventos frescos
são
arretados, piu-piu-escos
Abracadabra...
são dantescos,
meu
coração seja poupado:
são
arretados, piu-piu-escos,
todo esse
insulto é depravado!
Quando
acabar todo o tabaco,
o que
fazer, meu coração?
Existirá
refrão de Baco,
quando
acabar todo o tabaco:
dor no
meu papo, estarei fraco,
quem o
aviltar não tem perdão:
quando
acabar todo o tabaco,
o que
fazer, meu coração?
29.9.1997.
Le Couer du Pitre
(Le Coeur Supplicié)
Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!
Ils y lancent des jets de soupe,
Mon triste cœur bave à la poupe:
Sous les quolibets de la troupe
Qui pousse un rire général,
Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!
Ithyphalliques et pioupiesques
Leurs insultes l’ont dépravé!
À la vesprée, ils font des fresques
Ithyphalliques et pioupiesques.
Ô flots abracadabrantesques,
Prenez mon cœur, qu’il soit sauvé:
Ithyphalliques et pioupiesques,
Leurs insultes l’ont dépravé!
Quand ils auront tari leurs
chiques,
Comment agir, ô cœur volé?
Ce seront des refrains bachiques
Quand ils auront tari leurs
chiques:
J’aurai des sursauts stomachiques
Si mon cœur triste est ravalé:
Quand ils auront tari leurs
chiques,
Comment agir, ô cœur volé?
Juin 1871
____________________
Rimbaud em
Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, e Prefácio
de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE – Universidade de Pernambuco,
Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville,
estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências
de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles
Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes
da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura
e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente
as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada
no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações
(Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros
poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks
e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound,
Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e
partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades,
realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões
inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations,
com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud
morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização
em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.