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domingo, 30 de agosto de 2026

Rimbaud: O Coração do Palhaço

 
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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Meu coração baba na popa,
meu coração cheio de fumo:
lançar-lhe-ão jatos de sopa.
meu coração baba na popa:
um chiste a ouvir de toda tropa
que incita um riso sem aprumo,
meu coração baba na popa,
meu coração cheio de fumo!

São arretados, piu-piu-escos
Todo esse insulto é depravado!
Pela noitinha, ventos frescos
são arretados, piu-piu-escos
Abracadabra... são dantescos,
meu coração seja poupado:
são arretados, piu-piu-escos,
todo esse insulto é depravado!

Quando acabar todo o tabaco,
o que fazer, meu coração?
Existirá refrão de Baco,
quando acabar todo o tabaco:
dor no meu papo, estarei fraco,
quem o aviltar não tem perdão:
quando acabar todo o tabaco,
o que fazer, meu coração?

29.9.1997.

Arthur Rimbaud

Le Couer du Pitre

(Le Coeur Supplicié)

Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!
Ils y lancent des jets de soupe,
Mon triste cœur bave à la poupe:
Sous les quolibets de la troupe
Qui pousse un rire général,
Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!

Ithyphalliques et pioupiesques
Leurs insultes l’ont dépravé!
À la vesprée, ils font des fresques
Ithyphalliques et pioupiesques.
Ô flots abracadabrantesques,
Prenez mon cœur, qu’il soit sauvé:
Ithyphalliques et pioupiesques,
Leurs insultes l’ont dépravé!

Quand ils auront tari leurs chiques,
Comment agir, ô cœur volé?
Ce seront des refrains bachiques
Quand ils auront tari leurs chiques:
J’aurai des sursauts stomachiques
Si mon cœur triste est ravalé:
Quand ils auront tari leurs chiques,
Comment agir, ô cœur volé?

Juin 1871
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, e Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE – Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Rimbaud: De cócoras

 
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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Bem tarde, ao se sentir de estômago enjoado,
Milótus, bom irmão, um olho na panela;
do sol — um caldeirão bem claro e areado —
lhe vem uma enxaqueca; após, e com cautela,
desloca nos lençóis seu ventre avantajado.

E sob o cobertor ele se agita e desce,
seus joelhos cola ao ventre, e estremece de espanto,
como quem vai comer a presa que apetece
porque faltou pegar no vaso branco, ao canto,
e a roupa arregaçar difícil lhe parece!

Com frio, se acocora, os dedos do seu pé,
com rugas, tiritando, ao claro sol que marca
tons fulvos de brioche aos janelões, até;
e no nariz do velho acende a chama parca,
funga, ao raio solar, pólipos da ralé.

Pois ele, ao pé do fogo, os braços tortos, fome
no ventre, escorregar sente as coxas no fogo,
as calças chamuscar, o pito se consome,
qual ave em remelexo o ventre faz um jogo,
como um montão de tripa a sua pança some!

Em volta, confusão de móveis mal talhados
farrapos na sujeira e sobre sujos buchos;
os escabelos são uns sapos alheiados,
de cócoras, a olhar: bufês goelas de bruxos,
que um pesadelo entreouve, apetites dobrados.

De náuseas o calor enfara a sala estreita,
a cuca do homem bom e plena de estofados,
e os pêlos a eriçar ele ouve, a pele afeita
ao úmido, soluço em sons muito engraçados
escapa, sacudindo o banco, que ele ajeita...

Da lua à noite vem algum raio profundo
em volta do seu cu, fulgurações de luz,
e a sombra em pormenor se acocora num fundo
de neve malva-rosa, um rosa que reluz...
E Vênus um nariz persegue ao fim do mundo.

Casa Forte, 30 de julho de 1997.

Arthur Rimbaud

Accroupissements

Bien tard, quand il se sent l’estomac écœuré,
Le frère Milotus un œil à la lucarne
D’où le soleil, clair comme un chaudron récuré,
Lui darde une migraine et fait son regard darne,
Déplace dans les draps son ventre de curé.

Il se démène sous sa couverture grise
Et descend ses genoux à son ventre tremblant,
Effaré comme un vieux qui mangerait sa prise,
Car il lui faut, le poing à l’anse d’un pot blanc,
À ses reins largement retrousser sa chemise!

Or, il s’est accroupi, frileux, les doigts de pied
Repliés grelottant au clair soleil qui plaque
Des jaunes de brioche aux vitres de papier;
Et le nez du bonhomme où s’allume la laque
Renifle aux rayons, tel qu’un charnel polypier.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Le bonhomme mijote au feu, bras tordus, lippe
Au ventre: il sent glisser ses cuisses dans le feu,
Et ses chausses roussir, et s’éteindre sa pipe;
Quelque chose comme un oiseau remue un peu
À son ventre serein comme un monceau de tripe!

Autour, dort un fouillis de meubles abrutis
Dans des haillons de crasse et sur de sales ventres;
Des escabeaux, crapauds étranges, sont blottis
Aux coins noirs: des buffets ont des gueules de chantres
Qu’entr’ouvre un sommeil plein d’horribles appetits.

L’écœurante chaleur gorge la chambre étroite,
Le cerveau du bonhomme est bourré de chiffons.
Il écoute les poils pousser dans sa peau moite,
Et, parfois, en hoquets fort gravement bouffons
S’échappe, secouant son escabeau qui boite…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Et le soir, aux rayons de lune qui lui font
Aux contours du cul des bavures de lumière,
Une ombre avec détails s’accroupi, sur un fond
De neige rose ainsi qu’une rose trémière…
Fantasque, un nez poursuit Vénus au ciel profond.

(Poésies — 1871)
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE — Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

domingo, 14 de junho de 2026

Rimbaud: Vergonha

 
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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Se uma lâmina relaxa
Nesse miolo já cortado,
Pacote em cores e graxa,
Vapor jamais renovado,

(Ah! Se ela cortar, em vez,
O nariz, lábios, orelhas,
A barriga! A insensatez
Das suas pernas parelhas!)

Mas, não. Não creio senão
Que no seu crânio a lanceta
Que os pedregulhos no chão,
Que nas tripas um cometa,

Menino não possa agir
Não perderá um instante
Sem cessar de delinquir,
De perturbar, ser tratante.

Das Montanhas como um gato...,
De emporcalhar uma espécie!
Ó meu Deus, a morte é um fato!
Que se levante uma prece!

Casa Forte, 7 de março de 1998

Arthur Rimbaud

Honte

Tant que la lame n’aura
Pas coupé cette cervelle,
Ce paquet blanc, vert et gras,
À vapeur jamais nouvelle.

(Ah! Lui, devrait couper son
Nez, sa lèvre, ses oreilles,
Son ventre! et faire abandon
De ses jambes! Ô merveille!)

Mais, non; vrai, je crois que tant
Que pour sa tête la lame,
Que les cailloux pour son flanc,
Que pour ses boyaux la flamme,

N’auront pas agi, l’enfant
Gêneur, la si sotte bete,
Ne doit cesser un instant
De ruser et d’être traître,

Comme un chat des Monts-Rocheux...
D’empuantir toutes sphères!
Qu’à sa mort pourtant, ô mon Dieu!
S’élève quelque prière!
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE — Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

domingo, 19 de abril de 2026

Rimbaud: Cinco Horas da Tarde

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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Passada uma semana, as botinas furadas
nas pedras do caminho, em Charleroi entrei.
— E no Cabaré Verde: eu quis comer torradas
com manteiga, e pernil, que, frios, reclamei.

E coloquei, feliz, as pernas sob a mesa
verde; vi com cuidado as formas inocentes
gravadas no tapete. — Achei uma beleza,
quando uma moça viva, os dois peitos pendentes,

— aquela não temia o ardor de ser beijada —
alegre me serviu, bem quente, uma torrada
e pôs o pernil morno em prato colorido,

presunto rosa e branco em alho perfumado
e o copo me inundou, com seu chope espumado
dourado pelo sol, num raio desferido.

Casa Forte, 3 de setembro de 1997.

Arthur Rimbaud

Cinq Heures du Soir

(Au Cabaret Vert, cinq heures du soir)

Depuis huit jours, j’avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J’entrai à Charleroi,
— Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines
De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienheureux, j’allogeai les jambes sous la table
Verte; je contemplai les sujets très naïfs
De la tapisserie. — Et ce fut adorable,
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

— Celle-là, ce n’est pas un baiser qui l’épeure! —
Rieuse, m’apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d’une gousse
D’ail, — et m’emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.

Oc. 1870
Cahier de Douai
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE — Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.