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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.
Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.
Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver
de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.
Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.
Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.
Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.
Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.
A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.
Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.
(As Impurezas do Branco — 1973)
Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa,
Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel
de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins,
Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspa Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles,
Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e
Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond
de Andrade (1902 — 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo
Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia
e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista,
funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais
e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor
de Geografia e Português no Ginásio Sul Americano em Itabira; viveu intensamente
o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas
em livros, jornais e revistas: Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista
do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica,
revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular
[diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo
por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras,
Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento
do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A
Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951);
Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do
Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962);
A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966);
Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão,
crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973);
Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz se a Crônica
(1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981);
Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas,
aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o
alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês,
holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem
braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos,
Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice
Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut
Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações
várias.





