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quinta-feira, 31 de julho de 2025

Carlos Drummond de Andrade: Desligamento do poeta

 
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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.

Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.

Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver

de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.

Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.

Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.

Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.

Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.

A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.

Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.

(As Impurezas do Branco — 1973)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspa  Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas: Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Carlos Drummond de Andrade: Os ombros suportam o mundo

 
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Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Sentimento do Mundo — 1940

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspar Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Carlos Drummond de Andrade: Não se mate

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Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Brejo das Almas (1934)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspar Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

terça-feira, 18 de junho de 2019

Vinicius de Moraes: Soneto de separação

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De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

VINICIUS DE MORAES
Vinicius de Moraes

[translated by Ashley Brown]

Sonnet on separation

Suddenly laughter became sobbing
Silent and white like the mist
And united mouths became foam
And upturned hands became astonished.

Suddenly the calm became the wind
That extinguished the last flame in the eyes
And passion became foreboding
And the still moment became drama.

Suddenly, no more than suddenly
He who'd become a lover became sad
And he who'd become content became lonely

The near became the distant friend
Life became a vagrant venture
Suddenly, no more than suddenly.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; Vinicius de Moraes (1913  1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford Inglaterra; além de poeta, foi crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para Orfeu Negro, e que se tornaria um filme premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; obra poética: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.

sábado, 25 de maio de 2019

Carlos Drummond de Andrade: Som

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Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalgas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
como se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição.

Discurso de primavera  1977

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo  (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

sábado, 9 de março de 2019

Carlos Drummond de Andrade: Lira romantiquinha

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Por que me trancas
o rosto e o riso
e assim me arrancas
do paraíso?

Por que não queres,
deixando o alarme
(ai, Deus: mulheres!),
acarinhar-me?

Por que cultivas
as sem-perfume
e agressivas
flores do ciúme?

Acaso ignoras
que te amo tanto,
todas as horas,
já nem sei quanto?

Visto que em suma
é todo teu,
de mais nenhuma,
o peito meu?

Anjo sem fé
nas minhas juras,
porque é que é
que me angusturas?

Minh'alma chove
frio, tristinho.
Não te comove
este versinho?

Viola de Bolso — 1952

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos PoemasClaro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso as Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Carlos Drummond de Andrade: O PTT

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                    Ao saber que o Ato Institucional nº 2* extinguira os partidos políticos, a proprietária do prédio alugado ao PTT (Partido Tradicionalista Transistorizado) botou as mãos na cabeça:  E agora, José?
                    Se o Partido estava proibido de existir, quem lhe pagaria o aluguel? Um partido tão bom, tão pontual: pagava sempre dia 1º, salvo se caísse em domingo ou feriado; aí, pagava de véspera. Nunca tivera o menor aborrecimento com o inquilino. O próprio tesoureiro vinha trazer o dinheiro no envelope. Educado, de pouca conversa, esperava no corredor; convidado a sentar-se na sala, agradecia: estava bem assim; “Nem cafezinho o senhor aceita?” Obrigado, acabei de tomar no Diretório, aliás preciso voltar logo, estamos em sessão permanente, o momento político é muito melindroso”.
                    Dona Melisa não insistia, porém não deixava de renovar o convite todo mês. Simpatizava com o tesoureiro, senhor mais para 60 anos do que para 50, aliança no dedo, circunspecto, fisionomia de quem guarda altos segredos políticos e não irá revelá-los a troco de gentilezas. De resto, Dona Melisa queria lá saber de nenhum segredo nacional, estadual ou municipal. Orgulhava-se, é certo, de ser senhoria de um partido político  e que partido: tradicionalista, como convém à nossa formação cristã; e transistorizado, isto é, moderno, atual. Não a convidaram para inscrever-se nele, nem Dona Melisa aceitaria: é dos que votam com a consciência, e a sua lhe recomendava: “Confia nos homens, não nos partidos”.
                    Confiava no tesoureiro, tanto que não exigia contrato de locação. Ele se apresentara com a ata da fundação do Partido e com o dinheiro na mão, disposto a pagar seis meses adiantados; ela aceitou três, e no fim do prazo dispensou o pagamento por antecipação. O partido funcionava lá há bem cinco anos, sem dor de cabeça para ela. Agora cerra as portas, vai-se o inquilino ideal. Arranjará outro, mas quem garante que será tão sério quanto esse?
                    Dia 1º o tesoureiro apareceu na forma do costume, e disse-lhe que não se preocupasse. O Partido continuaria a ocupar a casa. Como, se o AI-2 acaba com os partidos?  O nosso é diferente  explicou-lhe o tesoureiro, – O Ministro da Justiça reconheceu que temos organização especial, por assim dizer apartidária, ou superpartidária; nosso principal objetivo é manter e cultivar as tradições morais, adaptando-as à era tecnológica; a senhora não conhece nossos estatutos; se conhecesse, havia de gostar. —  Então continua meu inquilino?  Continuamos; o PTT não pode parar.
                    Dona Melisa ficou tão satisfeita que contou a novidade às amigas. Não era apenas senhoria de um partido, mas do único partido sobrevivente à chacina do AI-2. O único? Uma das amigas contou para o marido, este duvidou: gostaria de saber que partido era esse, onde, como funcionava, etc. A dúvida foi transmitida a Dona Melisa, que não gostou nada do cepticismo do marido de sua amiga. Ela própria não sabia muito a respeito do PTT, mas, uma vez que duvidavam de sua palavra, iria à sede, pediria os estatutos, era capaz até de inscrever-se, por que não?
                    Pegou o ônibus para o bairro distante, desceu em frente à sede do PTT. Não tinha tabuleta, porta e janelas estavam fechadas. Tocou longamente a campainha. Ia desistir, pensando em voltar outro dia, quando ouviu sair lá de dentro um fio de musiquinha pré-carnavalesca: “Ui, ui, ui! roubaram a mulher do Rui”. Decerto o zelador ouvia rádio, não escutara a campainha. Bateu com força na porta. Bateu tanto que ela se entreabriu e ia fechar–se rapidamente, mas Dona Melisa empurrou-a, enérgica, a tempo de ver o tesoureiro e uma loira, ambos de short, correrem desabaladamente em direção ao quintal, onde se extinguiu para sempre o Partido Tradicionalista Transistorizado.

24/12/1965
Caminhos de João Brandão, crônicas  1970

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Notas deste aprendiz de blogueiro:
1. O AI-2, ou Ato Institucional nº 2, foi instituído em 27 de outubro de 1965, durante a ditadura militar, no governo do general Castello Branco; tal ato, além de outras determinações restritivas social e politicamente, decretou o fim das eleições diretas para presidente e o fim do pluripartidarismo, tornou extintos todos os partidos políticos existentes até então, cancelando seus registros; a partir daquela data, os partidos que legalmente passaram a existir foram dois: a Arena (partido do governo militar) e o MDB (partido de oposição), sendo que este era visto por boa parte dos opositores, como de oposição consentida;
2. À época, dezembro de 1965, o poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade escrevia suas crônicas para o jornal carioca Correio da Manhã;
3. Clicando no título 'O PTT' lá em cima, o abusado leitor/leitora irá ouvir (com saudosismo?!) a marchinha carnavalesca que fala da mulher do Rui.
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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Carlos Drummond de Andrade: Instante

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Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E o que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

[A Vida Passada a Limpo  1959]

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; sua obra: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos PoemasClaro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas  (1957); A Vida Passada a Limpo (1959); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966);  Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

domingo, 29 de novembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: Censo Industrial

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Que fabricas tu?
Fabrico chapéu
feito de indaiá.

Que fabricas tu?
Queijo, requeijão.

Que fabricas tu?
Faço pão-de-queijo.

Que fabricas tu?
Bolo de feijão.

Que fabricas tu?
Geléia da branca
e também da preta.

Que fabricas tu?
Curtidor de couro.

Que fabricas tu?
Fabrico selim,
fabrico silhão
só de sola d'anta.

Que fabricas tu?
Eu faço cabresto,
barbicacho e loro.

Que fabricas tu?
Toco uma olaria.

Que fabricas tu?
Santinho de barro.

Que fabricas tu?
Fabrico melado.

Que fabricas tu?
Eu faço garapa.

Que fabricas tu?
Fabrico restilo.

Que fabricas tu?
Sou da rapadura.

Que fabricas tu?
Fabrico purgante.

Que fabricas tu?
Eu torro café.

Que fabricas tu?
Ferradura e cravo.

Que fabricas tu?
Panela de barro.

Que fabricas tu?
Eu fabrico lenha
furtada no pasto.

Que fabricas tu?
Gaiola de arame.

Que fabricas tu?
Fabrico mundéu.

Que fabricas tu?
Bola envenenada
de matar cachorro.

Que fabricas tu?
Faço pau-de-fogo

Que fabricas tu?
Facão e punhal
de sangrar capado.

Que fabricas tu?
Caixão de defunto.

Que fabricas tu?
Fabrico defunto
na dobra do morro.

Que fabricas tu?
Não fabrico.
Assisto às fabricações.


Boitempo  1968

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...