quinta-feira, 31 de julho de 2025

Carlos Drummond de Andrade: Desligamento do poeta

 
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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.

Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.

Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver

de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.

Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.

Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.

Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.

Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.

A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.

Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.

(As Impurezas do Branco — 1973)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspa  Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas: Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Anna Akhmátova: Eu visitei o poeta

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio

e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!

Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.

Mas me lembrarei sempre da conversa,
do meio-dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.

Janeiro de 1914

Anna Akhmátova

Я пришла к поэту в гости...

Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня!

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.

Январь 1914
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Augusto Frederico Schmidt: Poema — Fixa o teu olhar sobre as águas . . .

 
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Fixa o teu olhar sobre as águas
Que estão correndo, lá embaixo.
Contempla a paisagem que o sol
Em despedida ainda ilumina.

Olha as fisionomias humanas
Que vão passando diante de ti.
Absorve, enfim, o mundo em que vives
Este instante de consciência e equilíbrio.

Recebe tudo o que está fora de ti:
Árvores, águas, perfumes, olhares de homens
E de bichos; recebe tudo o que puderes
Para que a natureza inteira anime e transborde

O teu mundo deserto e escuro,
Absorve tudo, atrai até mesmo
As asas deste crepúsculo e os ventos
Em que elas se agitam.

Dá cor ao que é em ti cinza e melancolia.
Procura fazer nascer do teu silêncio
A música, tão escondida no teu ser
Como o veio de água ao fundo da terra.

Enriquece a tua alma de alegria e de sons,
Porque tu podes morrer, porque é
Incerta a tua vida, e ficarás diminuído
E humilhado, se compareceres vazio e triste

Diante do Criador do universo e dos seres.
Alegra-te e vivifica o teu mundo,
Porque tua morte pode estar chegando
E não a deves receber com as mãos vazias,

Com os olhos vazios, na indiferença e no tédio de tudo
O que te foi dado conhecer e possuir.

(Mar Desconhecido — poemas, 1942)

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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça), nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos do Rio de Janeiro) e no Colégio Americano Granbery, de Juiz de Fora MG, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); em 1928, escreveu e publicou seus primeiros poemas, Canto do Brasileiro e, logo após, vieram os três Cantos do Liberto; suas obras: Navio Perdido (livro considerado de estréia, 1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), O Galo Branco (prosa: memórias, diários, confissões, 1948 e 2ª edição, 1957); Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância na época: Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e outros; em São Paulo, participou do Movimento Modernista.

Sylvia Plath: Canção da manhã

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

O amor te põe pra funcionar, relógio de ouro puro.
A parteira surra suas nádegas, e seu grito nu
Se aninha entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, louvando sua vinda. Estátua nova.
Num museu arejado, sua nudez
Ameaça nossa segurança. Ficamos rodeando, brancos como paredes.

Não sou mais sua mãe
Do que a nuvem que desfaz o espelho que a reflete,
Rabisco lento na mão do vento.

De noite sua respiração corrosiva
Vacila entre rosas lisas. Acordo para ouvir:
Longe, um mar movendo em meus ouvidos.

Um grito, e escorrego da cama, vaca obesa e floral
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A vidraça

Empalidece e suga estrelas sujas. E agora você confere
Suas anotações;
Vogais claras sobem feito balões.

Sylvia Plath

Morning song

Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue.
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I’m no more your mother
Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind’s hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat’s. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Ariel (coleção de poemas, 1965)
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; viveu na Inglaterra desde o seu casamento com o poeta britânico Ted Hughes; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativa de suicídio, a poeta suicidou-se em 11 de fevereiro de 1963.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Patricia Hooper: Deserto

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Onde existe um rio,
aí se tem um sabor de direção.

Onde existe um pomar,
isto diz sobrevida.

Onde existe um deserto,
isto muda tudo,

como se a terra não tivesse desejado
suprir apenas suas próprias carências.

Patricia Hooper

Desert

Where there’s a river,
that tostes of direction.

Where there’s an orchard,
that says survival.

Where there’s a desert,
that changes everything,

as if earth hadn’t wanted
to fill only her own need.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Patricia Hooper, nascida em 1941, estadunidense de Saginaw, Michigan, formada pela University of Michigan (bacharelado e mestrado), é poeta e escritora dedicada à juventude e infanto-juvenis; suas obras: Other Lives (poems, 1984), A Bundle of Beasts (obra juvenil, 1987), The Flowering Trees (1995), How the Sky's Housekeeper Wore Her Scarves (obra juvenil, 1995), At the Corner of the Eye (poems, 1997) A Stormy Ride on Noah's Ark (obra juvenil, 2001), Where Do You Sleep, Little One? (obra juvenil, 2001), Aristotle's Garden (2004), Separate Flights (poems, 2016), além de participação em antologias e colaborações nas revistas The American Scholar, Orion, The New Criterion, American Poetry Rewiew, The Atlantic Monthly, The Hudson Review, Iowa Review, The Southem Review, Poetry; Patricia Hooper recebeu várias premiações por seus livros: Norma Farber First Book Award Poetry Society of America (por Other Lives — poems, 1984), Anita Claire Sharf Award from the University of Tampa Press (por Separate Flights — poems, 2016) ...

domingo, 27 de julho de 2025

Charles Bukowski: Conversa às Três e Meia da Madrugada

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto
na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

Charles Bukowski

3:30 A.M. Conversation

at 3:30 a.m. in the morning
a door opens
and feet come down the hall
moving a body,
and there is a knock
and you put down your beer
and answer.

god damn it, she says,
dont' you ever sleep?

and she walks in
her hair in curlers
and herself in a silk robe
covered with rabbits and birds

and she has brought her own bottle
to which you splendidly add
2 glasses;
her husband, she says, is in Florida
and the sister sends her money and dresses,
and she has been looking for a job
for 32 days.

you tell her
you are a jockey's agent and a
writer of jazz and love songs,
and after a couple of drinks
she doesn't bother to cover
her legs
with the edge of the robe
that keeps falling away.

they are not bad legs at all,
in fact, very good legs,
and soon your are kissing a
head full of curlers.

and the rabbits are beginning
to wink, and Florida is a long way
away, and she says we are not strangers
really because shes has seem me
in the hall.

and finally
there is very little
to say.

The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems 1946—1966 (1988)
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25 Melhores Poemas de Charles Bukowski, edição bilíngue, Organização e Apresentação de Márcia Cavendish Wanderley e Tradução de Jorge Wanderley, 2ª edição, 2003, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro — RJ; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, iniciou o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; pôs-se a escrever, foi expulso de casa, passou a morar em pensões e, sem emprego, desistiu da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; adquiriu alguma notoriedade com publicações de contos nos jornais alternativos Open City e Nola Express; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; suas obras: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (Notas de um velho safado, 1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido, poemas, 1986), The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems 1946—1966 (1988) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passou a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

sábado, 26 de julho de 2025

Ascânio Lopes: A casa da família

 
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Olha, minha amiga, nossa
velha casa de família, tão cheia de lembranças.
Neste quarto morreu minha avó,
neste outro casou-se minha avó,
neste outro casou-se minha irmã.
Os nossos pais olham sorrindo
os nossos brinquedos, os mesmos
que eles tinham, há cinquenta anos.
Os mesmos lugares.
O amor de meus pais das elegantes maneiras antigas.
O nosso amor-mocidade, o nosso amor-americano
vibrará nos mesmos luares.
E o mesmo berço
e o velho Cristo.
E o quarto da Ceia.
Até as goteiras são conhecidas.
O velho relógio de parede
que já marcou todas as horas da família.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

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Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Gérard de Nerval: Nobres e Criados

 
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[traduzido por Mauro Gama]

Esses nobres de outrora, e de livros, canções,
Com suas testas de boi e semblantes dantescos,
Os corpos com a estrutura e os ossos gigantescos,
Qual se houvessem no solo as raízes, fundações.

Se voltassem ao mundo, e cá tivessem a idéia
De cada herdeiro achar, de seus nomes, sua lida,
Raça de Laridons que nos paços, decaída,
Entre ministros corre e, ávida, enxameia;

Secos em seus plastrões e estofos afetados,
Entenderiam porém, esses nobres senhores,
Que, desde aquele tempo, a seu sangue e favores,
Suas filhas vêm mesclando o sangue de seus criados!

Gérard de Nerval

Nobles et valets

Ces nobles d'autrefois dont parlent les romans,
Ces preux à fronts de boeuf, à figures dantesques,
Dont les corps charpentés d'ossements gigantesques
Semblaient avoir au soi racine et fondements;

S'ils revenaient au monde, et qu'il leur prît l'idée
De voir les héritiers de leurs noms immortels,
Race de Laridons, encombrant les hôtels
Des ministres, rampante, avide et dégradée;

Êtres grêles, à buscs, plastrons et faux mollets:
Certes ils comprendraient alors, ces nobles hommes,
Que, depuis les vieux temps, au sang des gentilshommes
Leurs filles ont mêlé bien du sang de valets!

[Odelettes — 1834]
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Gérard de Nerval — Cinquenta Poemas, Edição Bilíngue, Tradução, Estudo crítico, Súmula biográfica e Notas de Mauro Gama, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, ensaísta, contista, novelista, romancista e tradutor; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; em 1826 deu início às suas publicações, parte de seus poemas vieram à luz em jornais e revistas da época; suas obras: Elégies et Odelettes (1834), Léo Burckart (drama, 1839), Voyage en Orient (contos e novelas “poéticas”, 1851), Sylvie (conto, 1853), Les Filles du Feu (As Filhas do Fogo, coleção de contos, e poemas “Les Chimères”, 1854), Promenades et Souvenirs (narrativas, 1854), Les Chimères (As Quimeras, poemas, 1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (narrativas, 1855), Autres Chimères (publicação póstuma), Poésies Diverses (publicação esparsa ou postumamente) ...; além dos já citados Goethe e Klopstock, também traduziu Schiller, Uhland, Burger, reunindo-os em Poésies Allemandes (1830), posteriormente, ainda traduziu Heinrich Heine; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

S. T. Coleridge: A Balada do Velho Marinheiro [trecho da Parte I]

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[traduzido por Paulo Vizioli]

PARTE I

Um velho Marinheiro encontra três Galantes
convidados a uma festa nupcial, e detém um.

É um velho Marinheiro,
E detém um, de três que vê:
“Por tua barba branca e cintilante olhar,
Tu me deténs por quê?

Agora o noivo escancarou as suas portas,
E eu sou seu familiar.
O comensal se apresta, principia a festa;
Ouve o alegre exultar.”

O Convidado Nupcial é enfeitiçado pelo olhar do velho
homem do mar, e é obrigado a ouvir sua história.

Com a escarnada mão ele o detém ainda;
“Houve um navio...” lhe disse.
“Solta-me! Solta-me, barbado vagabundo!”
Deixou que a mão caísse.

Com o olho cintilante ele o detém agora...
E, quieto, o Convidado
Fica a escutar, como criança de três anos,
Pelo outro dominado.

O Convidado vai sentar-se numa pedra:
Vê-se forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir.

“O navio foi saudado, o porto evacuado;
Equipagem radiante,
Passamos sob a igreja, sob o promontório,
Sob o farol adiante.

[ . . . ]

S. T. Coleridge

The Rime of the Ancient Mariner *

PART I

An ancient Mariner meeteth three Gallants
bidden to a wedding feast, and detaineth one.

It is an ancient Mariner,
And he stoppeth one of three.
“By thy long grey beard and glittering eye,
Now wherefore stopp’st thou me?

The Bridegroom’s doors are opened wide,
And I am next of kin;
The guests are met, the feast is set:
May’st hear the merry din.”

The Wedding-Guest is spellbound by the eye of the old
seafaring man, and constrained to hear his tale.

He holds him with his skinny hand,
“There was a ship,” quoth he.
“Hold off! unhand me, grey-beard loon!”
Eftsoons his hand dropt he.

He holds him with his glittering eye —
The Wedding-Guest stood still,
And listens like a three years’ child:
The Mariner hath his will.

The Wedding-Guest sat on a stone:
He cannot choose but hear;
And thus spake on that ancient man,
The bright-eyed Mariner.

“The ship was cheered, the harbour cleared,
Merrily did we drop
Below the kirk, below the hill,
Below the lighthouse top.

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* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que o longo poema The Rime of the Ancient Mariner (A Balada do Velho Marinheiro) é composto de 144 estrofes distribuídas em 7 seções e totalizando mais de 620 versos.
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth), é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.