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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Jorge de Lima: Apenas eu te aceito, não te quero . . . [soneto]


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[Dor do mundo]

Apenas eu te aceito, não te quero
nem te amo, dor do mundo. Há honraria
que nos abate como um punho fero
mas aceitamos com sobrançaria.

A um vate grego certo rei severo
vazou-lhe os olhos para não fugir.
Ó dor do mundo, eu vivo como Homero,
aceito a provação que me surgir.

Homero, a tua história sinto-a; e urdo
o teu destino, o meu e o de teu rei.
Mas só teus olhos nossos passos guiam,

e inda tens vozes para o mundo surdo,
e luz para os outros cegos, luz que herdei
com a aceitação dos olhos que não viam.

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Jorge de Lima: Perturbação nas Ilhas de Páscoa


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Houve paz nas ilhas de Páscoa,
sim, houve paz, mas depois que o ciclone
arrancou os coqueiros das Ilhas e destruiu as tendas dos canibais.
Houve paz, sim, houve paz, depois que as gaivotas se afogaram
e as fogueiras dos navios se apagaram.
Depois que o mar trouxe os búzios do fundo, houve paz.
O homem branco em sua tenda tocou sua vitrola
e na noite longa ouviu um blue;
não ouviu o vento, não ouviu a chuva, ouviu o canto, ouviu o canto.
Spring is coming, spring is coming for the swallows...
O homem branco pescará na maré alta a estranha maga que os
canacas da ilha viram n’água.
Houve paz depois da borrasca e ela virá.
Brigará com o Rei dos polvos e a libertará.
Spring is coming, spring is coming for the swallows...
Proporá viver com ela vendendo aguardente aos nativos:
Spring is spring...
Matará o Rei dos polvos.
Matará o claune, matará o equilibrista, matará o maestro.
Irá com ela pelas ilhas com o seu circo pequeno só de animais que não
a cobiçarão.
Matará os macacos semelhança dos homens.
Irá com ela sozinha pelas povoações.
Venderá seus retratos às plateias de contrabandistas e de marafonas.
Houve paz nas ilhas de Páscoa, sim, houve paz.
Depois que a matou e se matou houve paz nas ilhas de Páscoa.
Houve silêncio. E as gaivotas voltaram
E os canibais continuaram
os seus jogos noturnos.

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sábado, 28 de outubro de 2023

Jorge de Lima: Eu sei que atrás do seu olhar havia . . . [soneto]


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[Olhar]

Eu sei que atrás do seu olhar havia
um outro olhar como uma chama escrava:
Sob o olhar de Raquel o olhar de Lia
no pórtico das órbitas velava.

Quando às vezes Raquel o olhar cravava
em alguém ou a alguém Raquel seguia
eram os olhos da irmã o que se via,
era o olhar da pastora que ali estava.

Debruça-se o pastor no olhar do filho.
Que é que via nos olhos que fitava?
Nos olhos bem-amados que é que via?

Por certo de Raquel o estranho brilho.
Mas atrás desse brilho bruxuleava
o olhar de Lia, Lia, sempre Lia.

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Jorge de Lima: Vereis que o poema cresce independente . . .


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Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.

[Livro de Sonetos — 1949]

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Jorge de Lima: Não a vaga palavra, corrutela . . . [soneto]

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Canto X  Missão e Promissão

X

Não a vaga palavra, corrutela
vã, corrompida folha degradada,
de raiz deformada, abaixo dela,
e de vermes, além, sobre a ramada;

mas, a que é a própria flor arrebatada
pela fúria dos ventos: mas aquela
cujo pólen procura a chama iriada,
 flor de fogo a queimar-se como vela;

mas aquela dos sopros afligida,
mas ardente, mas lava, mas inferno,
mas céu, mas sempre extremos. Esta sim,

esta é que é a flor das flores mais ardida,
esta veio do início para o eterno,
para a árvore da vida que há em mim.

[Invenção de Orfeu (poesia, 1952)]

Poeta brasileiro quase ganhou Nobel de Literatura - Jornal Opção
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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Jorge de Lima: A ave

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Ninguém sabia donde viera a estranha ave.
Talvez o último ciclone a arrebatasse
de incógnita ilha ou de algum golfo,
ou nascesse das algas gigantescas do mar;
ou caísse de uma outra atmosfera,
ou de outro mundo ou de outro mistério.
Velhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos
nem nenhum andarilho a encontrara jamais;
era antropomorfa como um anjo e silenciosa
como qualquer poeta.
Primeiro pairou na grande cúpula do templo
mas o pontífice tangeu-a de lá como se tange um demônio doente.
E na mesma noite pousou no cimo do farol;
e o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus.
Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão
ou um gesto suave onde se dependurasse.
E alguém disse: “Essa ave é uma ave má das que devoram o gado.”
E outro: “essa ave deve ser um demônio faminto.”
E quando as suas asas pairavam espalmadas dando sombra às
crianças cansadas,
até as mães jogavam pedras na misteriosa ave perseguida e inquieta.
Talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso entre as nuvens
ou perdesse a companheira abatida de seta.
A ave era antropomorfa como um anjo
e solitária como qualquer poeta.
E parecia querer o convívio dos homens
que a enxotavam como se enxota um demônio doente.
Quando a enchente periódica afogou os trigais, alguém disse:
 “A ave trouxe a enchente.”
Quando a seca anual assolou os rebanhos, alguém disse:
 “A ave comeu os cordeiros.”
E todas as fontes lhe negando água,
a ave desabou sobre o mundo como um Sansão sem vida.
Então um simples pescador apanhou o cadáver macio e falou:
 “Achei o corpo de uma grande ave mansa.”
E alguém recordou que ave levava ovos aos anacoretas.
Um mendigo falou que a ave o abrigara muitas vezes do frio.
E um nu: a ave cedeu as penas para meu gibão.
E o chefe do povo: “Era o rei das aves, que desconhecemos.”
E o filho mais novo do chefe que era sozinho e manso:
dá-me as penas para eu escrever a minha vida
tão igual à da ave em que me vejo
mais do que me vejo em ti, meu pai.

(A túnica inconsútil 1938)

Segunda fase do modernismo no Brasil: autores e obras - Toda Matéria
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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Jorge de Lima: Tarde oculta no tempo

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O andarilho sem destino reparou então
que seus sapatos tinham a poeira indiferente
de todas as pátrias pitorescas;
e que seus olhos conservavam as noites e os dias
dos climas mais vários do universo;
e que suas mãos se agitaram em adeuses
a milhares de cais sem saudades e amigos;
e que todo o seu corpo tinha conhecido
as mil mulheres que Salomão deixou.
E o andarilho sem destino viu
que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo
sem paisagens terrenas, sem turismos, sem povos,
mas com a vastidão infinita onde os horizontes
são as nuvens que fogem.

[Tempo e eternidade (poesia, 1935)]

Invenção de Orfeu – Jorge De Lima (ii) e (iii) | Leveza e Esperança
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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Jorge de Lima: Essa negra Fulô

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Ora, se deu que chegou 
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

                  Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!

                  Essa negra Fulô! 
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

                  Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco."

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulo! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou."

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô)

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.

                  Essa negra Fulô!
                  Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?

                  Essa negra Fulô!

Novos Poemas — 1929

Jorge de Lima
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Jorge de Lima, Poesia  Coleção Nossos Clássicos N º 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, professor de literatura, tradutor e pintor; bibliografia: IV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O Acendedor de Lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A Mulher Obscura (romance, 1939), Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Jorge de Lima: O Acendedor de Lampiões *

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Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

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Nota de Luiz Santa Cruz: Atendendo ao didático desta antologia, incluímos o soneto acima, da fase juvenil e neoparnasiana de Jorge de Lima. 'O Acendedor de Lampiões' fez parte dos XIV Alexandrinos, livro de poesias publicado em 1914, no Rio de Janeiro, pelas Artes Gráficas.
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Jorge de Lima, Poesia  Coleção Nossos Clássicos N º 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, professor de literatura, tradutor e pintor; bibliografia: XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas  (1927), Novos Poemas (1929), O Acendedor de Lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A Mulher Obscura (romance, 1939), Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Jorge de Lima: O poeta Jacó

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E eu te direi, Labão, em qualquer instante, na planície ou no deserto,
em frente ao mar, ou diante do céu, sob qualquer juramento,
que esperarei Raquel mais sete anos e mais sete se quiseres;
saberei amar Raquel em Lia e transportar à tua filha mais velha
tudo o que me agrada em tua filha mais moça.
Transportarei a ela não só o rosto formoso e a gentil presença
mas o que mora dentro do rosto formoso e da gentil presença;
e os filhos de tua filha mais velha terão a beleza e o esplendor
de tua filha mais nova;
eu sou pastor e sei orientar minhas ovelhas e suprir com o meu espírito
generoso o calor e a alva lã que faltar nelas.
E farei Lia a grande musa em frente do Senhor;
e emprestarei o meu espírito em nome de Raquel para a glória de Lia,
e o Senhor vendo-a preferida por mim, torná-la-á fecunda
alargando a casa de meu Pai;
comporei os cânticos de Lia, alegrarei o sorriso de Lia,
farei que meus irmãos amem em Lia o espírito de Raquel e o meu espírito
[e o espírito do Senhor uno comigo;
perdoarei os defeitos de Lia,
gostarei de seu desgosto, de seus caprichos, de suas bondades
e de suas maldades sem motivos, porque é Raquel que eu estarei
perdoando e amando e esperando;
e dormirei sete anos com Lia; e Raquel me visitará em sonhos,
e contaremos então a prole imensa que ela me dará através da irmã.
E depois de sete anos e mais sete se quiseres, quando me deres Raquel,
terei os filhos de carne de Lia para louvarem os filhos
do espírito de Raquel que é teu espírito, Senhor;
e a casa de meu Pai será aumentada pelo espírito que cria como
pela carne que o espírito transformou.

Jorge de Lima
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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos N º 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 — 1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Jorge de Lima: Cantigas

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As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.
As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras
ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! 
Os bois são morosos, a carga é tão grande!
O caminho é tão comprido que não tem fim.
As cantigas são leves...
E as cantigas levam os bois, batem a roupa
das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são
tão sujas como a roupa, tão pesadas
como os bois...
As cantigas são tão boas...
Lavam as almas dos pecadores!
Levam as almas dos pecadores!

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos N º 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893  1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925),  Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A mulher obscura (romance, 1939),  Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.