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Ao
meu irmão Patrice Lumumba
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Trago em meu corpo a marca das chibatas
como rubros degraus feitos de carne
pelos quais as carretas do progresso
iam buscar as brenhas do futuro.
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu vi nascer mil civilizações
erguidas pelos meus potentes braços;
mil chicotes abriram na minh'alma
um deserto de dor e de descrença
anunciando as tragédias de Lumumba.
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Do fundo das senzalas de outros tempos
se levanta o clamor dos meus avós
que tiveram seus sonhos esmagados
sob o peso de cangas e libambos
amando, ao longe, o sol das liberdades.
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu sinto a mesma angústia, o mesmo banzo
que encheram, tristes, os mares de outros séculos,
por isso é que ainda escuto o som do jongo
que fazia dançar os mil mocambos...
e que ainda hoje percutem nestas plagas.
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Balouça sobre mim, sinistro pêndulo
que marca as incertezas do futuro
enquanto que me atiram nas enxergas
aqueles que ainda ontem exploravam
o suor, o sangue nosso e a nossa força.
Eu
sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Banzo
— 1965 [2ª edição]
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Antologia
de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de
Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa
Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte —
MG; Eduardo de Oliveira (1926 — 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista,
professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos
negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira
(1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961),
Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos
de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera
dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos
(1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio — cântico da Abolição,
oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da
Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira
dos Escritores.