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domingo, 6 de novembro de 2022

Oscar Wilde: Balada do cárcere de Reading [Seção I]

 
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[traduzido por Bezerra de Freitas]

[Seção] I

Ele não trajava a sua túnica escarlate,
Pois o sangue e o vinho são vermelhos,
E sangue e vinho havia nas suas mãos
Quando o viram ao lado da morta,
A pobre mulher que ele tanto amara
E assassinara no seu leito.

Ia caminhando entre os juízes
Com um terno cinzento, já usado;
Trazia na cabeça um boné de esporte,
E seus passos pareciam leves e alegres;
Mas, nunca vi um homem que fitasse o dia
Com tamanha tristeza;

Nunca vi um homem que contemplasse
Com olhos tão vagos
A estreita faixa azul,
Que os presos chamam firmamento,
E todas as nuvens que corriam
Como se fossem impelidas por argênteas velas.

Fui caminhando, com outras almas sofrendo
Dentro de outro círculo,
E fiquei imaginando se aquele homem cometera
Uma ação mesquinha ou grande,
Quando uma voz sussurrou, atrás de mim:

“Aquele companheiro vai ser enforcado”.

Jesus! As próprias paredes da prisão
Pareciam, de súbito, estar girando,
E o firmamento, por cima da minha cabeça,
Tornou-se um capacete de aço escaldante,
E, embora eu fosse uma alma sofredora,
Não sentia a minha própria dor.

Compreendi, então, que pensamentos o atormentavam,
Apressando-lhe o passo;
Ele encarava o dia radiante
Com olhar tão vago:
O homem matara o objeto do seu amor
E, por isso, devia morrer.

No entanto, todo homem mata aquilo que adora,
Que cada um deles seja ouvido,
Alguns procedem com dureza no olhar,
Outros com uma palavra lisonjeira.
O covarde fá-lo com um beijo.
Enquanto o bravo o faz com a espada!

Uns matam o próprio amor quando ainda jovens,
Outros o fazem na velhice;
Uns estrangulam com as mãos da luxúria,
Outros com a mão de Ouro,
O que é bondoso faz uso do punhal,
Porque a morte assim vem mais depressa.

Uns amam pouco tempo, outros demais,
Uns vendem, outros compram;
Alguns praticam a ação com muitas lágrimas
E outros sem um suspiro sequer:
Pois todo o homem mata o objeto do seu amor
E, no entanto, nem todo homem é condenado à morte.

Ele não sofre a morte humilhante
Num dia de tenebrosa desgraça,
Não tem um laço em volta do pescoço,
Nem um capuz, cobrindo-lhe a cabeça,
Seus pés não ficam pendentes no alçapão
Num espaço aberto.

Não se senta ao lado dos homens silenciosos
Que o vigiam dia e noite;
E o velam quando ele quer chorar,
Ou quando tenta orar;
Que o vigiam com medo de que ele próprio livre
A prisão da sua presa.

Nem desperta de madrugada para ver
Vultos horripilantes povoando a sua cela.
O trêmulo Capelão à sua alva sobrepeliz,
O Sheriff, tristonho e carrancudo,
E o Diretor, todo de preto vestido,
Com o rosto amarelado do Destino.

Não se ergue apressadamente
Para vestir a túnica encarcerada,
Enquanto, com esperteza, um médico
Fita-o firmemente e toma nota
De cada uma das suas novas contorsões nervosas,
Com o dedo no relógio, cujos tique-taques, lembram horríveis
marteladas.

Ele desconhece aquela sede doentia
Que dá à garganta a sensação de areia,
Antes que o carrasco, com as suas luvas de jardinagem,
Atravesse a porta e o amarre com três correias
Para que a sua garganta não mais sinta sede.

Não curva a cabeça para ouvir
O ofício fúnebre que está sendo lido,
Enquanto, na sua alma, o terror
Diz-lhe que ele não está morto;
Ele passa pelo próprio caixão quando a caminho
do hediondo cadafalso.

Não olha para cima
Através do pequeno teto de vidro,
Nem reza com os lábios secos
Para que finde a sua agonia;
Não sente na face trêmula
O beijo de Caifás.

Oscar Wilde

The Ballad of Reading Gaol

Section I

He did not wear his scarlet coat,
For blood and wine are red,
And blood and wine were on his hands
When they found him with the dead,
The poor dead woman whom he loved,
And murdered in her bed.

He walked amongst the Trial Men
In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
And his step seemed light and gay;
But I never saw a man who looked
So wistfully at the day.

I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
With sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
Within another ring,
And was wondering if the man had done
A great or little thing,
When a voice behind me whispered low,
"That fellow's got to swing."

Dear Christ! the very prison walls
Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head became
Like a casque of scorching steel;
And, though I was a soul in pain,
My pain I could not feel.

I only knew what hunted thought
Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
With such a wistful eye;
The man had killed the thing he loved
And so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold.

Some love too little, some too long,
Some sell, and others buy;
Some do the deed with many tears,
And some without a sigh:
For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die.

He does not die a death of shame
On a day of dark disgrace,
Nor have a noose about his neck,
Nor a cloth upon his face,
Nor drop feet foremost through the floor
Into an empty place

He does not sit with silent men
Who watch him night and day;
Who watch him when he tries to weep,
And when he tries to pray;
Who watch him lest himself should rob
The prison of its prey.

He does not wake at dawn to see
Dread figures throng his room,
The shivering Chaplain robed in white,
The Sheriff stern with gloom,
And the Governor all in shiny black,
With the yellow face of Doom.

He does not rise in piteous haste
To put on convict-clothes,
While some coarse-mouthed Doctor gloats, and notes
Each new and nerve-twitched pose,
Fingering a watch whose little ticks
Are like horrible hammer-blows.

He does not know that sickening thirst
That sands one's throat, before
The hangman with his gardener's gloves
Slips through the padded door,
And binds one with three leathern thongs,
That the throat may thirst no more.

He does not bend his head to hear
The Burial Office read,
Nor, while the terror of his soul
Tells him he is not dead,
Cross his own coffin, as he moves
Into the hideous shed.

He does not stare upon the air
Through a little roof of glass;
He does not pray with lips of clay
For his agony to pass;
Nor feel upon his shuddering cheek
The kiss of Caiaphas.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; suas obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Thomas Stearns Eliot: Os homens ocos

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[traduzido por Bezerra de Freitas]

I

Nós somos os homens ocos,
Nós somos os homens empalhados
Apoiados uns aos outros
A cabeça cheia de palha. Ai de nós!
Nossas vozes rouquenhas, quando sussurramos juntos,
São suaves e não têm sentido
Como o vento na relva seca
Ou os pés dos ratos que passam sobre vidro quebrado
Na nossa adega vazia.
Feio sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;
Os que já cruzaram
Com o olhar para a frente, o outro Reino da morte
Recordam-se de nós — se é que assim seja —
Não como almas perdidas, exaltadas, mas simplesmente
Como homens ocos
Homens empalhados.

II

Olhos, não ouso fitá-los nos sonhos
No reino do sonho da morte
Estes não aparecem;
Os olhos são a luz solar
Numa coluna partida.
Ali está uma árvore que balouça
E há vozes na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela que se apaga.
Que eu não mais me aproxime
Do reino do sonho da morte
Que use disfarces
Pêlo de rato, pele de corvo, sarrafos cruzados
Num campo
Fazendo o que o vento faz
E não mais —
Não aquele encontro final
Na região crepuscular.

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob a cintilação de uma estrela que se apaga
É assim
No outro reino da morte
Despertar a sós
No instante em que estamos
Tremendo de ternura
Lábios que beijariam
Até a laje partida.

IV

Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta garganta partida dos nossos reinos perdidos.
Neste último reduto de encontros
Nós nos agrupamos
E evitamos falar
Reunidos nessa praia de rio cheio
Sem vista, a não ser
Que os olhos desapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
A única esperança
Do reino do crepúsculo da morte
Dos homens ocos.

V

Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Pêra silvestre, pêra silvestre,
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Às cinco horas da manhã
Entre a idéia
E a realidade,
Entre o gesto
E o ato
Desce a Sombra
Pois o Reino é teu.
Entre a concepção e a criação,
Entre a emoção
E a resposta
Desce a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a força
E a existência,
Entre a essência
E a descendência
Desce a Sombra.
Pois o Reino é teu,
Pois tua é
A Vida é
Pois tua é
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
Não com um estrondo, mas com um gemido.

T. S. Eliot

The Hollow Men

[Mistah Kurtz-he dead
A penny for the Old Guy]

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us — if at all — not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:
There the eyes are
Sunlight on a broken column
There is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer —

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death's other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o'clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate da qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para teatro; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

William Butler Yeats: Quando fores velhinha

 
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[traduzido por Bezerra de Freitas]

Quando fores velhinha, de cabelos brancos e cheia de sono,
Cabeceando junto ao fogo, toma este livro,
Lê-o vagarosamente e sonha com o doce brilho
Que teus olhos tinham outrora e com as suas sombras carregadas;

Muitos adoraram os teus instantes de graça juvenil,
E amaram a tua beleza com amor dissimulado ou verdadeiro;

Mas, um homem amou as amarguras que o teu rosto estampa.

E, reclinada sobre as barras incandescentes,
Recordarás, um pouco tristonha, o amor que fugiu
E atravessou as altas montanhas
Ocultando a face por entre miríades de estrelas.

W. B. Yeats

When you are old

When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.