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I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.
Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.
No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:
que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.
II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.
E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas
cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.
No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.
III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.
O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.
A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.
É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.
IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.
Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.
O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:
procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.
[Serial, 1961 (Terceira feira), In:
Poesia completa
e prosa (org. Antonio Carlos Secchin), 2ª ed.,
Rio de Janeiro: Nova
Aquilar, p.178-9.]
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A lua no cinema e outros poemas [várias
autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres,
2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 — 1999),
pernambucano de Recife, fez seus estudos no Colégio Ponte d’Uchoa, dos Irmãos Maristas,
ali concluiu o secundário, mudou-se para o Rio de Janeiro, concursou-se pelo Itamaraty,
serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, sendo considerado um
dos maiores autores da poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O
engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação
pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu
de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle
Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo
das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério
das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941), Juan Miró
(1952); Da função moderna da poesia (1957), ...; por diversas vezes recebeu prêmios
literários no Brasil e no exterior, entre os quais o Prêmio Camões (1990), concedido
pelo governo português a autores de língua portuguesa; foi eleito membro da ABL
— Academia Brasileira de Letras.









