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quarta-feira, 23 de abril de 2025

joão cabral de melo neto: o ovo de galinha

 
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I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.

[Serial, 1961 (Terceira feira), In: Poesia completa
e prosa (org. Antonio Carlos Secchin), 2ª ed.,
Rio de Janeiro: Nova Aquilar, p.178-9.]

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, fez seus estudos no Colégio Ponte d’Uchoa, dos Irmãos Maristas, ali concluiu o secundário, mudou-se para o Rio de Janeiro, concursou-se pelo Itamaraty, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, sendo considerado um dos maiores autores da poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941), Juan Miró (1952); Da função moderna da poesia (1957), ...; por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior, entre os quais o Prêmio Camões (1990), concedido pelo governo português a autores de língua portuguesa; foi eleito membro da ABL Academia Brasileira de Letras.

domingo, 17 de janeiro de 2021

João Cabral de Melo Neto: O poema e a água *

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As vozes líquidas do poema
convidam ao crime
ao revólver.
Falam para mim de ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.

O livro aberto nos joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.

Os acontecimentos de água
põe-se a se repetir
na memória.

João Cabral de Melo Neto

Le poème et l’eau

Les voix liquides du poème
invitant au crime
au revolver.
Elles me parlent d’iles
que même les rêves
n’ atteignent pas.

Le livre ouvert sur mes genoux
le vent dans mes cheveux
je regarde la mer.

Les événements d’eau
se mettent à se répéter
dans la mémoire.

Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

João Cabral de Melo Neto: A viagem *

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Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto

Le voyage

Qui est-ce quelqu’un qui marche
tout le matin avec tristesse
au-dedans de mes vêtements, perdu
au-delà du rêve et de la rue?

Des vêtements qui grandissent
comme s’ils portaient dans les poches
de douces geographies, des pensées
de l’au-delà du revê et de la rue?

Quelqu’un à chaque instant
vient mourir au lointain horizon
de ma chambre, où ce quelqu’un
est vent, bateau, continent.

Quelqu’un me dit toute la nuit
des choses dans une voix que je n’entends pas.
Parlons du voyage, je me souviens.
Quelqu’un me parle du voyage.

Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

sábado, 19 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: Uma faca só lâmina

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Para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by Galway Kinnell]

A Knife All Blade

For Vinícius de Moraes

Like a bullet
buried in flesh
weighting down one side
of the dead man,

like a bullet
made of a heavier lead
lodged in some muscle
making the man tip to one side,

like a bullet fired
from a living machine
a bullet which had
its own heartbeat,

like a clock's
beating deep down in the body
of a clock who once lived
and rebelled,

clock whose hands
had knife-edges
and all the pitilessness
of blued steel.

Yes, like a knife
without pocket or sheath
transformed into part
of your anatomy,

a most intimate knife
a knife for internal use
inhabiting the body
like the skeleton itself

of the man who would own it,
in pain, always in pain,
of the man who would wound himself
against his own bones.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

domingo, 6 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: O sertanejo falando

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A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by W. S. Merwin]

The man from up-country talking

The man from up-country disguises his talk:
the words out of him like wrapped-up candy
(candy words, pills) in the icing
of a smooth intonation, sweetened.
While under the talk the core of stone
keeps hardening, the stone almond
from the rocky tree back where he comes from:
it can express itself only in stone.

2.

That’s why the man from up-country says little:
the stone words ulcerate the mouth
and it hurts to speak in the stone language;
those to whom it’s native speak by main force.
Furthermore, that’s why he speacks slowly:
he has to take up the words carefully,
he has to sweeten them with his tongue, candy them;
well, all this work takes time.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

João Cabral do Melo Neto: O fim do mundo

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No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by James Wright]

The end of the world

At the end of a melancholy world
men read the newspapers.
Men indifferent to eating oranges
that flame like the sun.

They gave me an apple to remind me
of death.  I know that cities telegraph
asking for kerosene. The veil I saw flying
fell in the desert.

No one will write the final poem
about this private twelve o'clock world.
Instead of the last judgment, what worries me
is the final dream.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio  (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Amador Ribeiro Neto: O que é poesia? — Entrevista

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        Pergunta: O que é poesia para você?
        Amador Ribeiro Neto: Embora seja professor de teoria da poesia e poeta, eu não sei o que é poesia. Por isto me valho de 2 grandes pensadores: poesia é palavra na sua mais condensada dimensão (Pound) e é som, sentido e imagem numa interação semiótica (Jakobson).

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        ARN: Clareza de pensamentos e consciência de linguagem. Neca de pitibiribas de inspiração. Muito tutano, no duro.

        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        ARN: Poetas: Augusto de Campos, João Cabral de Melo Neto e Caetano Veloso. Escolhi estes 3 poetas porque o que fazem/fizeram me provocam, me instigam e me incomodam sempre.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; Amador Ribeiro Neto e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Amador Ribeiro Neto, nascido em 1953, paulista de Caconde, com mestrado em Teoria Literária pela USP e doutorado em Semiótica pela PUC SP, é poeta, crítico literário, pesquisador e professor; escreveu e publicou Barrocidade (poesias, 2003), Imagens & Poemas (com Roberto Coura, 2008), organizou Muitos — Outras Leituras de Caetano Veloso (2003), Literatura na Universidade (ensaios, 2001), Epifania da Poesia sobre Haicais de Saulo Mendonça (ensaios, 2012) e participou de antologias.

domingo, 18 de setembro de 2016

Frederico Barbosa: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Frederico Barbosa: Durante muitos anos recusei-me a responder a essa pergunta. Considerava precipitado ou enganador quem a tentava responder. E muitas tentativas de definição da poesia são mesmo superficialidades subjetivas demais para meu gosto: palavras vagas que formam quase sempre a mesma ladainha difusa e mistificadora.
          Mas, paradoxalmente, se me recusava a definir a poesia, adorava e adotava a definição de Roman Jakobson, de que a função poética da linguagem é a projeção  do "princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação", ou seja, na criação literária a composição se sobrepõe, como princípio construtivo, à mera escolha das palavras guiada apenas pela semântica. Jakobson acrescenta ainda que a função poética é caracterizada por três aspectos básicos: imagens, sonoridade e ritmo. A partir destes conceitos do mestre linguista, eu inventei uma oficina de poesia que ministrei em vários cantos do país. Foi na troca instigante com os participantes destas oficinas que cheguei, sem abandonar os conceitos fundamentais de Jakobson, à minha definição de poesia que, embora pareça simples, norteia hoje meu pensamento sobre ela:
           Poesia é a palavra/impacto, é uma composição construtiva de efeitos. É a linguagem organizada da forma mais meticulosa possível para fazer sentir.
          Decorrente desta definição, podemos deduzir que:
          Fazer um poema é escrever usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível no leitor.
           Compor um poema é controlar nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor.
          A poesia dissolve as fronteiras entre som e sentido, forma e conteúdo.
           O verdadeiro poeta, de Homero a Augusto de Campos, sempre será o mais consciente artífice da linguagem.
           No poema sempre se usarão os recursos econômicos e sutis para atingir os resultados mais impactantes.
           Na poesia menos é sempre mais.
           O maior efeito que um poeta pode produzir não é dizer ao leitor o que ele (poeta) sente, mas é fazer o leitor sentir o mesmo ao ler o poema.
          No meu entender é isso o que define o poeta. O resto pode ser filosofia, religião, psicologia, sociologia, mistificação... qualquer coisa, menos poesia.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          FB: Precisa se despir de todas as ideias preconcebidas, românticas e preconceituosas que rondam o fazer poético. Como os conceitos de dom, talento e inspiração. Como a ideia de que o poeta é mais sensível ou que escrever poesia é sentir ou vivenciar emoções... Deve desconfiar de todas as mistificações da poesia e do papel do poeta.

          Deve saber que escrever poesia é um trabalho meticuloso e preciso e que, muitas vezes, não recebe o reconhecimento que merece, até porque está envolto em tanta mistificação... Se os próprios poetas consideram seu trabalho uma "inspiração divina", um "dom artístico"... quem irá respeitar o trabalho do poeta?
          O iniciante deve tentar lutar contra a sedução da facilidade e buscar sempre os caminhos mais difíceis.
          O iniciante deve correr da troca de elogios fáceis do compadrio, típico da vida literária brasileira.
          O iniciante não deve querer ser poeta, deve querer fazer bons poemas.
          
          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          FB: Seguindo a minha definição acima, minha escolha recai sobre três poetas que escrevem usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível e que controlam nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor. São, portanto, três dos mais conscientes artífices da nossa língua: Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos.

          Três textos teóricos fundamentais para a elaboração da teoria da poesia como palavra/impacto são:
          "A filosofia da composição", de Edgar Allan Poe, que expõe em detalhes o processo de criação racional e meticuloso do poema "O Corvo". Até hoje choca os defensores da inspiração mistificadora.
          ABC da literatura, de Ezra Pound, que apresenta o conceito de grande literatura como "linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível".
          Linguística e comunicação, de Roman Jakobson, que apresenta a teoria da função poética da linguagem, que precisa ser levada em conta em toda e qualquer discussão sobre a definição de poesia.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Frederico Barbosa e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Frederico Tavares Bastos Barbosa, nascido em 1961, pernambucano de Recife, formado pela USP Universidade de São Paulo em Física, Grego, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, é poeta e crítico literário; escreveu e publicou Rarefato (1990), Nada feito nada (recebeu o Prêmio Jabuti, 1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002), A construção do zero (2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (recebeu, pela segunda vez, o Prêmio Jabuti, 2004), além de outros títulos em verso e prosa; tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP; participou de antologias, com seus textos, e organizou antologias poéticas de outros autores.