quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Alberto Isaac: Cidades e vilas já não se encontram no caminho do trem

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          Durante quase noventa anos elas cresceram no ritmo próprio das cidadezinhas do interior; sem muita pressa, mas decididas. Sua gente regulava a vida pelo vaivém dos trens de carga e passageiros que circulavam entre Iperó e Itararé e por ali paravam para recolher as verduras, abóboras, queijos, frutas e algumas cabeças de porcos, a modesta riqueza daquelas paragens. Um dia o trem não veio. Pelos trilhos passaram a circular rápidas e sem escala, apenas composições cheias de cereais e outros produtos. Uma a uma as cidades construídas começaram a se deteriorar. Hoje são vilas e algumas cidades fantasmas, que não têm nem mesmo a duvidosa honra de ter seu patrimônio saqueado para ornamentar cidades mais felizes. Proprietária de quase tudo que existe nessa área, a América Latina Logística não vende, não dá e não empresta o que restou dos seus imóveis.
          A antiga Sorocabana, posteriormente Fepasa, caso prosseguisse com suas atividades, estaria completando, no dia 11 de maio de 2005, cento e dez anos de existência, pois foi inaugurada em 11 de maio de 1895, graças aos esforços dos representantes itapetininganos no Senado e na Câmara dos Deputados de São Paulo, Francisco de Assis Peixoto Gomide e Cel. Fernando Prestes de Albuquerque.

          Ramal da Fome
          Com a desativação, em 1979, do transporte de passageiros no Ramal de Itararé, desapareceu a figura folclórica do "Ramal da Fome", porque em Iperó, na linha do tronco da Sorocabana, os vagões que se destinavam a Itararé eram desligados da composição e com esta seguia o carro-restaurante. Os viajantes que não almoçassem até Iperó não teriam como fazê-lo depois, avisavam em voz alta os garçons, percorrendo os vagões. Versões contrárias, no entanto, dão conta que a denominação foi em relação à pobreza da região, abandonada pelos governantes que preferiam investir em zonas mais produtivas do Estado. A designação "Ramal da Fome", apenas pitoresca, passou a nomear a nossa fértil região. O ramal e seus tributários, antigas estradas de terra hoje asfaltadas, abrangem grande área de superfície do Estado , englobando 33 municípios com uma população de aproximadamente três milhões de habitantes. Localizada entre a vertente ocidental da Serra do Mar e o Vale do Paranapanema, contém jazidas minerais, grandes represamentos de terra que, em virtude do clima, produzem trigo e frutas européias, onde se criam rebanhos de ovinos e gado, dominado atualmente vastas áreas de reflorestamento de pinus e eucaliptos.
          A região corresponde ao antigo caminho de tropas de Sorocaba, que alcançavam Rio Grande do Sul e sobre o qual, mais ou menos se estendeu a ferrovia com o mesmo destino. O ramal de Itararé, registra a história, correspondeu mais a uma exigência estratégica.

          Apenas lembranças
          Ao longo de quase trezentos quilômetros de extensão, as pequenas estações já não atraem mais as moças, rapazes, crianças e os demais moradores daqueles pequenos lugarejos que, aos sábados, domingos e feriados, com suas roupas novas postavam-se na plataforma aguardando os trens, principalmente os de passageiros, que ali faziam rápidas paradas. Estas, às vezes, eram demoradas, pois a velha "Maria Fumaça" tinha de ser abastecida. A única condução existente eram os trens e seus moradores utilizavam-se dele para viajar e despachar as encomendas, desde aves até animais de grande porte, que eram conduzidos nos vagões denominados "Gaiolas".
          Hoje, decorridos 110 anos de sua implantação, o ramal de Itararé não conta mais com os trens de passageiros e as antigas estações, bem como as sólidas casas destinadas ao pessoal da manutenção, chefes de estações e telegrafistas, não mais existem. As mais de 25 estações estão fechadas desde janeiro de 1979, época em que a Fepasa suprimiu os trens de passageiros do ramal.

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Alberto Isaac  Vivas Memórias, volume I  histórias, personagens, crônicas, 2009, Editora Correio de Itapetininga, Itapetininga  SP; Alberto Isaac, nascido em 1925, de Itapetininga — SP, cronista e jornalista, é colunista do jornal Correio de Itapetininga.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Castro Alves: Quando Eu Morrer


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Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE

QUANDO EU morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...

Espumas Flutuantes
São Paulo, março de 1869
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Castro Alves — Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

Carlos Drummond de Andrade: Oficina Irritada


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Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
Claro Enigma  1951
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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Thiago de Mello: Madrugada Camponesa

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MADRUGADA camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-a-dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.


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Faz Escuro Mas Eu Canto Porque A Manhã Vai Chegar, 3ª. Edição, 1978, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro  RJ; Amadeu Thiago de Mello, amazonense de Barreirinha nascido em 1926, é poeta e ensaísta; publicou, entre outros ensaios, Notícia da visitação que fiz no verão de 1953 ao rio Amazonas e seus barrancos (1967), Amazonas, pátria da água (1987); obra poética: Silêncio e Palavra (1951), Narciso Cego (1952), A Lenda da Rosa (1956), Vento Geral (1960  1984), Faz Escuro Mas Eu Canto Porque A Manhã Vai Chegar (1965), Num Campo de Margaridas (1986), Campo de Milagres (1998) etc.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Amadeu Amaral: Soneto XV - Minha alma é uma casa abandonada

9 livros de arte sensacionais para ler e reler sempre
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Minha alma é uma casa abandonada,
por cujos tenebrosos corredores
volteia a ronda volatilizada
dos espectros de mortos moradores.

Um dia esta mansão mal-assombrada,
afugentando a treva e seus horrores,
entraste, — alegre aparição alada, —
num explodir de claridade e olores;

mas de pronto fugiste, e hoje, silente,
esconde a velha casa à luz do dia
as mesmas sombras, que volteiam juntas.

Ah! Terei de guardar eternamente
na solidão desta alma escura e fria
estas saudades de ilusões defuntas!

Urzes, 1889
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Amadeu Amaral  Poesias Completas, 1977, Editora Hucitec, em co-edição com a Secretaria da Cultura , Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi jornalista, poeta, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, Gazeta de Notícias (do Rio); escreveu e publicou Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, palestras e conferências, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Raimundo Correia: Plena Nudez


Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: da carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulente e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
Da transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!
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Coleção Nossos Clássicos  Raimundo Correia, Volume 20, Apresentação de Ledo Ivo, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1963, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859 — 1911), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito  USP), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

domingo, 14 de outubro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Serás Ministro.


ESSE VAI SER MINISTRO — sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu.
          — E você, com esse ordenado micho de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro?  duvidou a mãe. 
          — Então, só porque meu ordenado é micho ele não pode ser ministro? A Rádio Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no mato, e chegou a presidente dos Estados Unidos.
          — Isso foi nos Estados Unidos.
          — E dai? Nem eu estou querendo tanto pra ele. Só quero uma de
Ministro.
          — Tonzinho, deixa isso pra lá.
          — Pra começar, a gente convida o Ministro pra padrinho dele.
          — O Ministro não vai aceitar.
          — Não vai por quê? Trabalho no gabinete há dois anos.
          — Ele é muito importante, filho.
          — Por isso mesmo. Com padrinho importante, o garotinho começa logo a ser importante.
          — O Ministro é tão ocupado, você mesmo diz. Vê lá se tem tempo pra batizar filho de pobre.
          — Pois sim. Ele me trata com toda a consideração, de igual pra igual. Hoje mesmo eu faço o convite.
          Fez. O Ministro não pôde comparecer, mas enviou representante. Era quase a mesma coisa. Na hora de dizer o nome do menino, o pai não vacilou; disse bem sonoro:
          — Ministro.
          — Como? — estranhou o padre.
          — Ministro, sim senhor.
          A mulher ia atalhar: "Tonzinho, não foi Antônio de Fátima que a gente
combinou?" mas era tarde.
          No cartório, também estranharam:
          — Ministro por quê?
          — Porque eu escolhi. Acho lindo.
          — Não é nome próprio.
          — Pois eu cá acho muito próprio. Não tem ai uma família chamada
Ministério, aliás com pessoas distintas, médicos, dentistas, etc.?
          — Tem.
          — Pois então. Meu filho é Ministro, só isso. Ministro Alves da Silva,
futuro cidadão útil à Pátria. Tem alguma coisa demais?
          O garoto registrou-se. Cresceu. Na escola, a principio achavam-lhe
graça no nome. Parecia apelido. Depois, o costume. Há nomes mais
estranhos. Ministro não era o primeiro da classe, também não foi dos
últimos.
          Já moço, o leque das opções não se abriu para ele. Entre o oficio sem brilho e o andar-térreo da burocracia, acabou sendo, como o pai, servente de repartição. Promovido a continuo.
          — Eu não disse? —- festejou o pai. — Começou a subir.
          O máximo que subiu foi trabalhar no gabinete do Ministro.
          — Ministro, o Sr. Ministro está chamando.
          — Ministro, já providenciou o cafezinho do Sr. Ministro?
          — Sabe quem telefonou pra você, Ministro? A senhora do Sr. Ministro. Diz que você prometeu ir lá consertar umas goteiras e esqueceu.
          — Ministro! Roncando na hora do expediente?!
          Começaram os equívocos:
          — Telefonema para o Ministro.
          — Qual? O Ministro ou o Sr. Ministro?
          — Este Ministro é um cretino! Me fez esperar uma hora nesta poltrona!
          — Perdão, Deputado, o senhor está ofendendo o Sr. Ministro.
          — Eu ? Eu ? Estou me referindo a esse animal, esse...
          Até que se apurasse que o animal era Ministro, o contínuo — que
confusão!
          O Ministro de Estado, ciente da confusão, recomendou ao assessor:
          — Faça esse homem trocar de nome.
          — Impossível, Sr, Ministro. É o seu titulo de honra.
          — Então suma com ele da minha vista.
          Mandaram-no para uma vaga repartição de vago departamento. Queixou-se ao pai, aposentado, que isso de se chamar Ministro não conduz a grandes coisas e pode até atrasar a vida.
          — Ora, meu filho, hoje no bueiro, amanha no Pão de Açúcar. E você não tem de que se queixar. Num momento em que tanta gente importante sua a camisa pra ser Ministro, e fica olhando pro céu pra ver se baixa um signo do astral, você já é, você sempre foi Ministro, de nascença! de direito! E não depende de governo nenhum pra continuar a ser, até a morte!
          Abraçaram-se, chorando.
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DRUMMOND — De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica, Livraria José Olympio Editora, 1974, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das  Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Lima Barreto: Numa e a Ninfa

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Da série: Contos considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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          Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um "brilhareto", um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair de lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.
          Foi por ocasião do grande debate que provocou, na câmara, o projeto de formação de um novo Estado, com terras adquiridas por força de cláusulas de um recente tratado diplomático.
          Penso que todos os contemporâneos ainda estão perfeitamente lembrados do fervor da questão e da forma por que a oposição e o governo se digladiaram em torno do projeto aparentemente inofensivo. Não convém, para abreviar, relembrar aspectos de uma questão tão dos nossos dias; basta que se recorde o aparecimento de Numa Pompílio de Castro, deputado pelo Estado de Sernambi, na tribuna da câmara, por esse tempo.
          Esse Numa, que ficou, daí em diante, considerado parlamentar consumado e ilustrado, fora eleito deputado, graças à influência do seu sogro, o Senador Neves Cogominho, chefe da dinastia dos Cogominhos que, desde a fundação da república, desfrutava empregos, rendas, representações, tudo o que aquela mansa satrapia possuía de governamental e administrativo.
          A história de Numa era simples. Filho de um pequeno empregado de um hospital militar do Norte, fizera-se, à custa de muito esforço, bacharel em direito. Não que houvesse nele um entranhado amor ao estudo ou às letras jurídicas. Não havia no pobre estudante nada de semelhante a isso. O estudo de tais coisas era-lhe um suplício cruciante; mas Numa queria ser bacharel, para ter cargos e proventos; e arranjou os exames de maneira mais econômica. Não abria livros; penso que nunca viu um que tivesse relação próxima ou remota com as disciplinas dos cinco anos de bacharelado. Decorava apostilas, cadernos; e, com esse saber mastigado, fazia exames e tirava distinções.
          Uma vez, porém, saiu-se mal; e foi por isso que não recebeu a medalha e o prêmio de viagem. A questão foi com o arsênico, quando fazia prova oral de medicina legal. Tinha havido sucessivos erros de cópias nas apostilas, de modo que Numa dava como podendo ser encontradas na glândula tireóide dezessete gramas de arsênico, quando se tratam de dezessete centésimos de miligrama.
          Não recebeu distinção e o rival passou-lhe a perna. O seu desgosto foi imenso. Ser formado já era alguma coisa, mas sem medalha era incompleto!
          Formado em direito, tentou advogar; mas, nada conseguindo, veio ao Rio, agarrou-se à sobrecasaca de um figurão, que o fez promotor de justiça do tal Sernambi, para livrar-se dele.
          Aos poucos, com aquele seu faro de adivinhar onde estava o vencedor — qualidade que lhe vinha da ausência total de emoção, de imaginação, de personalidade forte e orgulhosa —, Numa foi subindo.
          Nas suas mãos, a justiça estava a serviço do governo; e, como juiz de direito, foi na comarca mais um ditador que um sereno apreciador de litígios.
          Era ele juiz de Catimbau, a melhor comarca do Estado, depois da capital, quando Neves Cogominho foi substituir o tio na presidência de Sernambi.
          Numa não queria fazer mediocremente uma carreira de justiça de roça. Sonhava a câmara, a Cadeia Velha, a Rua do Ouvidor, com dinheiro nas algibeiras, roupas em alfaiates caros, passeio à Europa; e se lhe antolhou, meio seguro de obter isso, aproximar-se do novo governador, captar-lhe a confiança e fazer-se deputado.
          Os candidatos à chefatura de polícia eram muitos, mas ele, de tal modo agiu e ajeitou as coisas, que foi o escolhido.
          O primeiro passo estava dado; o resto dependia dele. Veio a posse. Neves Cogominho trouxera a família para o Estado. Era uma satisfação que dava aos seus feudatários, pois havia mais de dez anos que lá não punha os pés.
          Entre as pessoas da família, vinha a filha, a Gilberta, moça de pouco mais de vinte anos, cheia de prosápias de nobreza, que as irmãs de caridade de um colégio de Petrópolis lhe tinham metido na cabeça.
          Numa viu logo que o caminho mais fácil para chegar a seu fim era casar-se com a filha do dono daquela "comarca" longínqua do desmedido império do Brasil.
          Fez a corte, não deixava a moça, trazia-lhe mimos, encheu as tias (Cogominho era viúvo) de presentes; mas a moça parecia não atinar com os desejos daquele bacharelinho baço, pequenino, feio e tão roceiramente vestido. Ele não desanimou; e, por fim, a moça descobriu que aquele homenzinho estava mesmo apaixonado por ela. Em começo, o seu desprezo foi grande; achava até ser injúria que aquele tipo a olhasse; mas, vieram os aborrecimentos da vida da província, a sua falta de festas, o tédio daquela reclusão em palácio, aquela necessidade de namoro que há em toda a moça, e ela deu-lhe mais atenção.
          Casaram-se, e Numa Pompílio de Castro foi logo eleito deputado pelo Estado de Sernambi.
          Em começo, a vida de ambos não foi das mais perfeitas. Não que houvesse rusgas; mas, o retraimento dela e a gaucherie dele toldavam a vida íntima de ambos.
          No casarão de São Clemente, ele vivia só, calado a um canto; e Gilberta, afastada dele, mergulhada na leitura; e, não fosse um acontecimento político de certa importância, talvez a desarmonia viesse a ser completa.
          Ela lhe havia descoberto a simulação do talento e o seu desgosto foi imenso porque contava com um verdadeiro sábio, para que o marido lhe desse realce na sociedade e no mundo. Ser mulher de deputado não lhe bastava; queria ser mulher de um deputado notável, que falasse, fizesse lindos discursos, fosse apontado nas ruas.
          Já desanimava, quando, uma madrugada, ao chegar da manifestação do Senador Sofonias, naquele tempo o mais poderoso chefe da política nacional, quase chorando, Numa dirigiu-se à mulher:
          — Minha filha, estou perdido!...
          — Mas que há, Numa?
          — Ele... O Sofonias...
          — Que tem? que há? por quê?
          A mulher sentia bem o desespero do marido e tentava soltar-lhe a língua. Numa, porém, estava alanceado e hesitava, vexado em confessar a verdadeira causa do seu desgosto. Gilberta, porém, era tenaz; e, de uns tempos para cá, dera em tratar com mais carinho o seu pobre marido. Afinal, ele confessou quase em pranto:
          — Ele quer que eu fale, Gilberta.
          — Mas, você fala...
          — E fácil dizer... Você não vê que não posso... Ando esquecido... Há tanto tempo... Na faculdade, ainda fiz um ou outro discurso; mas era lá, e eu decorava, depois pronunciava.
          — Faz agora o mesmo...
          — É... Sim... Mas, preciso idéias... Um estudo sobre o novo Estado! Qual!
          — Estudando a questão, você terá idéias...
          Ele parou um pouco, olhou a mulher demoradamente e lhe perguntou de sopetão:
          — Você não sabe aí alguma coisa de história e geografia do Brasil?
          Ela sorriu indefinidamente com os seus grandes olhos claros, apanhou com uma das mãos os cabelos que lhe caíram sobre a testa; e depois de ter estendido molemente o braço meio nu sobre a cama, onde a fora encontrar o marido, respondeu:
          — Pouco... Aquilo que as irmãs ensinam; por exemplo: que o rio São Francisco nasce na serra da Canastra.
          Sem olhar a mulher, bocejando, mas já um tanto aliviado, o legislador disse:
          — Você deve ver se arranja algumas idéias, e fazemos o discurso.
          Gilberta pregou os seus grandes olhos na armação do cortinado, e ficou assim um bom pedaço de tempo, como a recordar-se. Quando o marido ia para o aposento próximo, despir-se, disse com vagar e doçura:
          —Talvez.
          Numa fez o discurso e foi um triunfo. Os representantes dos jornais, não esperando tão extraordinária revelação, denunciaram o seu entusiasmo, e não lhe pouparam elogios. O José Vieira escreveu uma crônica; e a glória do representante de Sernambi encheu a cidade. Nos bondes, nos trens, nos cafés, era motivo de conversa o sucesso do deputado dos Cogominhos:
          — Quem diria, hein? Vá a gente fiar-se em idiotas. Lá vem um dia que eles se saem. Não há homem burro — diziam —, a questão é querer...
          E foi daí em diante que a união do casal começou a ser admirada nas ruas. Ao passarem os dois, os homens de altos pensamentos não podiam deixar de olhar agradecidos aquela moça que erguera do nada um talento humilde; e as meninas olhavam com inveja aquele casamento desigual e feliz.
          Daí por diante, os sucessos de Numa continuaram. Não havia questão em debate na câmara sobre a qual ele não falasse, não desse o seu parecer, sempre sólido, sempre brilhante, mantendo a coerência do partido, mas aproveitando idéias pessoais e vistas novas. Estava apontado para ministro e todos esperavam vê-lo na secretaria do Largo do Rossio, para que ele pusesse em prática as suas extraordinárias idéias sobre instrução e justiça.
          Era tal o conceito de que gozava que a câmara não viu com bons olhos furtar-se, naquele dia, ao debate que ele mesmo provocara, dando um intempestivo aparte ao discurso do Deputado Cardoso Laranja, o formidável orador da oposição.
          Os governistas esperavam que tomasse a palavra e logo esmagasse o adversário; mas não fez isso.
          Pediu a palavra para o dia seguinte e o seu pretexto de moléstia não foi bem aceito.
          Numa não perdeu tempo: tomou um tílburi, correu à mulher e deu-lhe parte da atrapalhação em que estava. Pela primeira vez, a mulher lhe pareceu com pouca disposição de fazer o discurso.
          — Mas, Gilberta, se eu não o fizer amanhã, estou perdido!... E o ministério? Vai-se tudo por água abaixo... Um esforço... E pequeno... De manhã, eu decoro... Sim, Gilberta?
          A moça pensou e, ao jeito da primeira vez, olhou o teto com os seus grandes olhos cheios de luz, como a lembrar-se, e disse:
          — Faço; mas você precisa ir buscar já, já, dois ou três volumes sobre colonização... Trata-se dessa questão, e eu não sou forte. E preciso fingir que se tem leituras disso... Vá!
          — E os nomes dos autores?
          — Não é preciso... O caixeiro sabe... Vá!
          Logo que o marido saiu, Gilberta redigiu um telegrama e mandou a criada transmiti-lo.
          Numa voltou com os livros; marido e mulher jantaram em grande intimidade e não sem apreensões. Ao anoitecer, ela recolheu-se à biblioteca e ele ao quarto.
          No começo, o parlamentar dormiu bem; mas bem cedo despertou e ficou surpreendido em não encontrar a mulher a seu lado. Teve remorsos. Pobre Gilberta! Trabalhar até àquela hora, para o nome dele, assim obscuramente! Que dedicação! E — coitadinha! — tão moça e ter que empregar o seu tempo em leituras árduas! Que boa mulher ele tinha! Não havia duas... Se não fosse ela... Ah! Onde estaria a sua cadeira? Nunca seria candidato a ministro... Vou fazer-lhe uma mesura, disse ele consigo. Acendeu a vela, calçou as chinelas e foi pé ante pé até ao compartimento que servia de biblioteca.
          A porta estava fechada; ele quis bater, mas parou a meio. Vozes abaladas... Que seria? Talvez a Idalina, a criada... Não, não era; era voz de homem. Diabo! Abaixou-se e olhou pelo buraco da fechadura. Quem era? Aquele tipo... Ah! Era o tal primo... Então, era ele, era aquele valdevinos, vagabundo, sem eira nem beira, poeta sem poesias, freqüentador de chopes; então, era ele quem lhe fazia os discursos? Por que preço?
          Olhou ainda mais um instante e viu que os dois acabavam de beijar-se. A vista se lhe turvou; quis arrombar a porta; mas logo lhe veio a idéia do escândalo e refletiu. Se o fizesse, vinha a coisa a público; todos saberiam do segredo da sua "inteligência" e adeus câmara, ministério e — quem sabe? — a presidência da república. Que é que se jogava ali? A sua honra? Era pouco. O que se jogava ali eram a sua inteligência, a sua carreira; era tudo! Não, pensou ele de si para si, vou deitar-me.
          No dia seguinte, teve mais um triunfo.

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LIMA BARRETO A Nova Califórnia Contos, 1979, Editora Brasiliense, São Paulo SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; escreveu para jornais desde 1902; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, o Floreal; obras literárias:  O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Viadutos


ENDEREÇO do colega?
     — Viaduto São Sebastião, pilastra n.º 4, lado esquerdo, na Presidente Vargas. Apareça por lá.
     — Ótimo. Vou aparecer, mas agora não. Estou de mudança.
     — Se não for indiscrição, pode-se saber para onde?
     — Não sei ainda. Moro no viaduto de Japeri, aliás muito confortável, mas compreende, né? Um pouco longe. Procuro um na cidade.
     — Já experimentou Botafogo?
     — Fui eu que inaugurei. Era uma habitação deliciosa, aliás duas, com vista panorâmica, banho de mar em frente, etc. Mas sabe o que aconteceu: estragaram aquilo, botaram jardins, espelhos d’água...
     — É. Estão sempre atrapalhando.
     — Espelho d’água, vá lá, serve para a toalete. Mas o jardim...
     — Jardim não é bom para secar roupa?
     — Em tese. Mas há sempre um guarda querendo defender as plantas, implicando com os moradores.
     — Tem razão. Na vida, o essencial é paz.
     — Também acho. Folgo em saber que estamos de acordo neste ponto fundamental. Mas, sabe? Os viadutos estão difíceis.
     — É, ouço dizer. Mesmo havendo tantos por aí?
     — Todos lotados. Dizem que onde cabem três cabe mais um. Eu discordo. Por essa teoria, onde cabem 20, 50, mil, cabe sempre mais um. E os viadutos tornam-se inabitáveis, ficam iguaizinhos aos edifícios, o que, francamente, caro colega, não é vantagem.
     — Vejo que o amigo aprecia a solidão.
     — Solidão a dois, a três, eu aprecio, quando os colegas sabem viver em comunidade. A gente não está nem sozinha nem com multidão. Equilibrado. Cada um cuida de si, e reina ordem no viaduto. O que eu não suporto é viaduto desorganizado. Sou muito exigente neste particular.
     — Estou vendo que lá em Japeri o senhor deve ser uma espécie de síndico.
     — Que síndico? Quem falou em síndico? Nós três nos autogovernamos. Eu, que atendo por Quilo-e-Meio, seu criado (não cheguei a crescer muito, em todo caso não me chamam de Meio-Quilo), o Vai-por-Mim e a Marlene Garbo.
     — Por que Marlene Garbo? Não é acumulação?
     — Por que ela tem as pernas de Marlene Dietrich e o jeito da Greta Garbo. A combinação é genial, sabe? Tem vezes que a gente chama ela de Margá. Santa mulher. Já teve os tubos, viajou por aí, não guardou nem pinta de grã-finagem.
     — E o Vai-por-Mim?
     — Não tenho queixa dele. Só que anda com mania de jogar na Bolsa, nosso viaduto está cheio de balancetes, prospectos, gráficos. Tenho medo que ele fique rico, daí a pouco começa a botar banca.
     — Dê uns conselhos ao Vai-por-Mim.
     — Dei. Ele sonha em descobrir jazida de tório em Japeri, para fundar o Banco Nacional de Habitação em Viadutos, Pontes e Congêneres. Não deu sorte na Loteca, hoje diz que o plá é investir. Eu preveni a ele: Ficando rico, a primeira coisa que vai fazer é cobrar aluguel nos viadutos.
     — Os viadutos são do Estado.
     — E daí? Até o Estado perceber, ele já dobrou a fortuna. O colega desculpe, mas isso é safanagem.
     — Diga ao Vai-por-Mim que apareça aqui no São Sebastião, para batermos um papo.
     — Vai tirar essas minhocas da cabeça dele?
     — Não sei... A idéia me parece aproveitável. A socialização dos viadutos, uma cadeia nacional de Hilton dos homens e mulheres independentes... viadutos bem funcionais, o abrigo ao alcance de todos... Um problema social que se resolve...
     — Sem essa! Eu a querer salvar o Vai-por-Mim, e o colega pensando em tirar partido da loucura dele! Acabando com a paz, a relativa paz que ainda se goza nos viadutos! Não conte comigo e passe muito mal, traidor!

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DRUMMOND  De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica, Livraria José Olympio Editora, 1974, Rio de Janeiro  RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das  Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo  Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...