____________________
[traduzido por Oswaldino Marques]
[
. . . ]
IV
Maneja o ferro o cirurgião
ferido
A esmiudear a infectada parte;
Sob as sangrentas mãos é
percebido
O agudo pesar da esculápia
arte
Dilucidando o gráfico do
enfarte.
Nossa saúde é tão-só nossa
doença
Se contentarmos a enfermeira à
morte
Que jamais em desenfastiar-nos
pensa
Mas lembrar-nos da nossa, e de
Adão, sorte,
Que há-de o mal, pra sararmos,
ser mais forte.
Todo o planeta, eis o nosso
hospital
Conferido pelo creso arruinado,
Onde, se não nos comportarmos
mal,
Morreremos do paternal cuidado
Que não nos larga, mas guiará
por outro lado.
Sobe dos pés aos joelhos o
arrepio,
A febre preludia em fios
mentais.
Pra aquecer-me, força é engrunhir
de frio,
Tremer em purgatórios
glaciais,
Cuja áscua é rosa e o fumo são
sarçais.
Nosso só néctar, o sangue exsudante,
O só repasto, a carne
ensanguentada:
Sem embargo, crer é-nos confortante
Que somos sangue ileso, carne sustanciada
—
E, entanto, esta data, de Endoenças
é por nós chamada.
[ . . . ]
East
Coker
[
. . . ]
IV
The wounded surgeon plies the steel
That questions the distempered part;
Beneath the bleeding hands we feel
The sharp compassion of the healer’s art
Resolving the enigma of the fever chart.
Our only health is the disease
If we obey the dying nurse
Whose constant care is not to please
But to remind of our, and Adam’s curse,
And that, to be restored, our sickness must grow worse.
The whole earth is our hospital
Endowed by the ruined millionaire,
Wherein, if we do well, we shall
160Die of the absolute paternal care
That will not leave us, but prevents us everywhere.
The chill ascends from feet to knees,
The fever sings in mental wires.
If to be warmed, then I must freeze
And quake in frigid purgatorial fires
Of which the flame is roses, and the smoke is briars.
The dripping blood our only drink,
The bloody flesh our only food:
In spite of which we like to think
That we are sound, substantial flesh and blood —
Again, in spite of that, we call this Friday good.
[ . . . ]
"East Coker", in Four Quartets (poems,
1943)
____________________
T. S. Eliot: Crime na Catedral
[peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias,
tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot
por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil],
Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot,
por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel
de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas
Stearns Eliot (1888 — 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado
inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade
de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário,
jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em
St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha
por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford — Inglaterra;
enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados
na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de
editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se
editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente
com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou
a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando
por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa
editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária,
1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos,
1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 1958—1959) e tantos outros textos em verso e
prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio
Nobel de Literatura em 1948.