domingo, 22 de abril de 2018

Hilda Hilst: Balada de Alzira

livro baladas hilda hilst
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XVII

O homem que não foi meu
um dia será de Alzira.
E passará os seus dedos
sobre suas pernas de virgem
e contará o segredo
daquele olhar de menina.
Amado, bem o sabia
que os meus delírios noturnos
nunca te resguardariam
do sabor dos frutos novos.
Os homens querem Alzira
e os escondidos dos mares
e as conchas que não se lançam
às vontades das marés.
Há muito que pressentia
teu gesto de retirada
(como a noite espera o dia
mergulhada no silêncio)
Alzira, menina pura
teu corpo feito de lírios
assustava aquele meu
maduro e já sem vontade
de lutas e de emboscadas.
..................................................

O homem que não foi meu
(porque me deu estertores
que à outra seriam dados)
em tardes de fevereiro
Alzira levou p'ra longe.
.................................................

Aquela menina pura
ficou pétala fendida
flor com mil olhos de água
espantados e noturnos.

Alzira soluço brando
e face tão misteriosa
que pena tenho guardada
por te saber corrompida.

Balada de Alzira  1951

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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora,  2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930  2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira  (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959),  Trovas de muito amor para um amado senhor  (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980),  Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002)  entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio  (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas  SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

sábado, 21 de abril de 2018

Friedrich Nietzsche: O homem louco

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Livro III  125

 Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? —  E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou em um navio? Emigrou?  gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-lhes o olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos  vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra de seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe ainda ‘em cima' e ‘embaixo'? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina?  também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais  quem nos limpará deste sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza deste ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior   e quem vier depois de nós pertencerá, por causa deste ato, a uma história mais elevada que toda história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação  e no entanto eles o cometeram!”  Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”

Friedrich Nietzsche | CEARENSES INTERNACIONAIS
Friedrich Nietzsche

Drittes Buch

125 – Der tolle Mensch

— Habt ihr nicht von jenem tollen Menschen gehört, der am hellen Vormittage eine Laterne anzündete, auf den Markt lief und unaufhörlich schrie: “Ich suche Gott! Ich suche Gott!”  Da dort gerade viele von denen zusammenstanden, welche nicht an Gott glaubten, so erregte er ein großes Gelächter. Ist er denn verlorengegangen? sagte der eine. Hat er sich verlaufen wie ein Kind? sagte der andere. Oder hält er sich versteckt? Fürchtet er sich vor uns? Ist er zu Schiff gegangen? ausgewandert?  so schrien und lachten sie durcheinander. Der tolle Mensch sprang mitten unter sie und durchbohrte sie mit seinen Blicken. “Wohin ist Gott?” rief er, “ich will es euch sagen! Wir haben ihn getötet  ihr und ich! Wir alle sind seine Mörder! Aber wie haben wir dies gemacht? Wie vermochten wir das Meer auszutrinken? Wer gab uns den Schwamm, um den ganzen Horizont wegzuwischen? Was taten wir, als wir diese Erde von ihrer Sonne losketteten? Wohin bewegt sie sich nun? Wohin bewegen wir uns? Fort von allen Sonnen? Stürzen wir nicht fortwährend? Und rückwärts, seitwärts, vorwärts, nach allen Seiten? Gibt es noch ein Oben und ein Unten? Irren wir nicht wie durch ein unendliches Nichts? Haucht uns nicht der leere Raum an? Ist es nicht kälter geworden? Kommt nicht immerfort die Nacht und mehr Nacht? Müssen nicht Laternen am Vormittage angezündet werden? Hören wir noch nichts von dem Lärm der Totengräber, welche Gott begraben? Riechen wir noch nichts von der göttlichen Verwesung?  auch Götter verwesen! Gott ist tot! Gott bleibt tot! Und wir haben ihn getötet! Wie trösten wir uns, die Mörder aller Mörder? Das Heiligste und Mächtigste, was die Welt bisher besaß, es ist unter unsern Messern verblutet  wer wischt dies Blut von uns ab? Mit welchem Wasser könnten wir uns reinigen? Welche Sühnefeiern, welche heiligen Spiele werden wir erfinden müssen? Ist nicht die Größe dieser Tat zu groß für uns? Müssen wir nicht selber zu Göttern werden, um nur ihrer würdig zu erscheinen? Es gab nie eine größere Tat  und wer nur immer nach uns geboren wird, gehört um dieser Tat willen in eine höhere Geschichte, als alle Geschichte bisher war!”  Hier schwieg der tolle Mensch und sah wieder seine Zuhörer an: auch sie schwiegen und blickten befremdet auf ihn. Endlich warf er seine Laterne auf den Boden, daß sie in Stücke sprang und erlosch. “Ich komme zu früh”, sagte er dann, “ich bin noch nicht an der Zeit. Dies ungeheure Ereignis ist noch unterwegs und wandert  es ist noch nicht bis zu den Ohren der Menschen gedrungen. Blitz und Donner brauchen Zeit, das Licht der Gestirne braucht Zeit, Taten brauchen Zeit, auch nachdem sie getan sind, um gesehn und gehört zu werden. Diese Tat ist ihnen immer noch ferner als die fernsten Gestirne  und doch haben sie dieselbe getan!  Man erzählt noch, daß der tolle Mensch desselbigen Tages in verschiedene Kirchen eingedrungen sei und darin sein Requiem aeternam deo angestimmt habe. Hinausgeführt und zur Rede gesetzt, habe er immer nur dies entgegnet: “Was sind denn diese Kirchen noch, wenn sie nicht die Grüfte und Grabmäler Gottes sind?”.
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A Gaia Ciência — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 3ª reimpressão, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844  1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876),  Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883  1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886),  Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Rainer Maria Rilke: A solidão

livro poemas de rainer maria rilke geir campos
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[traduzido por Geir Campos]

A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...

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Rainer Maria Rilke

Einsamkeit

Die Einsamkeit ist wie ein Regen.
Sie steigt vom Meer den Abenden entgegen;
von Ebenen, die fern sind und entlegen,
geht sie zum Himmel, der sie immer hat.
Und erst vom Himmel fällt sie auf die Stadt.

Regnet hernieder in den Zwitterstunden,
wenn sich nach Morgen wenden alle Gassen
und wenn die Leiber, welche nichts gefunden,
enttäuscht und traurig von einander lassen;
und wenn die Menschen, die einander hassen,
in einem Bett zusammen schlafen müssen:

dann geht die Einsamkeit mit den Flüssen…
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Poemas de Rainer Maria Rilke, Coleção Rubáiyát, Tradução e Notas de Geir Campos, 1953, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro RJ; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas I e II, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Friedrich Nietzsche: No horizonte do infinito

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Livro III  124

 Deixamos a terra firme e embarcamos! Queimamos a ponte  mais ainda, cortamos todo laço com a terra que ficou para trás! Agora tenha cautela, pequeno barco! Junto a você está o oceano, é verdade que ele nem sempre ruge, e às vezes se estende como seda e ouro e devaneio de bondade. Mas virão momentos em que você perceberá que ele é infinito e que não há coisa mais terrível que a infinitude. Oh, pobre pássaro que se sentiu livre e agora se bate nas paredes dessa gaiola! Ai de você, se for acometido de saudade da terra, como se lá tivesse havido mais liberdade  e já não existe mais “terra”!

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Friedrich Nietzsche

Drittes Buch

124  Im Horizont des Unendlichen. 

 Wir haben das Land verlassen und sind zu Schiff gegangen! Wir haben die Brücke hinter uns  mehr noch, wir haben das Land hinter uns abgebrochen! Nun, Schifflein! Sieh dich vor! Neben dir liegt der Ozean, es ist wahr, er brüllt nicht immer, und mitunter liegt er da wie Seide und Gold und Träumerei der Güte. Aber es kommen Stunden, wo du erkennen wirst, daß er unendlich ist und daß es nichts Furchtbareres gibt als Unendlichkeit. Oh des armen Vogels, der sich frei gefühlt hat und nun an die Wände dieses Käfigs stößt! Wehe, wenn das Land-Heimweh dich befällt, als ob dort mehr Freiheit gewesen wäre  und es gibt kein "Land" mehr!


Nota deste aprendiz de blogueiro: No Posfácio de A Gaia Ciência, o tradutor Paulo César de Souza expõe que Nietzsche, ao mesmo tempo em que trabalhava no quarto capítulo (ou “livro”, como o filósofo chamou) desta obra, informava ao seu editor o encaminhamento em breve de um manuscrito intitulado "Die fröhliche Wissenschaft", no qual continha “muitos epigramas  em versos”; o tradutor também relata que, do conjunto da obra nietzschiana, A Gaia Ciência é o livro que contém maior variedade formal, pois aí se encontram versos humorísticos, aforismos, textos argumentativos, diálogos, parábolas, alegorias e poemas em prosa.
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A Gaia Ciência — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 3ª reimpressão, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844  1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876),  Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883  1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro  (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo  Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Fábio Carvalho: o papel da poesia & preferência

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               Agora, independentemente da metragem de cada poema, a gente tem que, tentar medir o papel da poesia. Não precisa de trena, muito menos ir a uma gráfica.

O papel da poesia deve ser artesanal
Feito na mão com noites e manhas

O papel da poesia pode ser amassado
Desde que as canetas estejam prenhas

O papel da poesia deve ser lançado
Origami de aviões e andorinhas

O papel da poesia deve ser todo escrito
Verso livre, acordado com os sonhos

O papel da poesia é envolver a sensibilidade
E dá-la de presente aos corações e punhos

               Outra coisa, e você sabe disso muito melhor do que eu, é ter que escolher a forma poética para as ideias que vão pipocando do cérebro. Como disse o pleonasmo pra redundância, são várias as possibilidades que variam com a variedade da variação. E aí, igual a tudo na vida, é só uma questão de preferência.

Na urgência do poema
Caço e tiro as palavras
E refaço pensamentos
Num espelho infinito

Pelo risco dessa pressa
Minha dúvida assovia
Me alcança e me pergunta
Mansa feito mariposa:

Conteúdo do meu tema
Poesia do meu panfleto
O que você prefere?
Um poema numa quadra
Ou num soneto?

Meia Palavra Bastaria (2014)
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Na asa da algema  Papo de poeta, Conversa de bar, de Fábio Carvalho, Apresentação de Lília Diniz, 2016, Editorial Iguana, Marabá  PA; Fábio Simoni Homem de Carvalho é agrônomo, escritor, compositor e poeta, contribui com a elaboração e publicação de materiais destinados à educação popular, em sua maioria cartilhas relacionadas aos temas sociedade, meio ambiente e agroecologia; bibliografia: A Constituição da poesia (2008), Passeio poético pela obra de Marx e outros poemas necessários (2015), Na asa da algema — Papo de poeta, Conversa de bar (2016); na música, compôs os CDs Conta Outra, Clarice —  adaptação da obra de Clarice Lispector (trilha sonora, 2007), No Chão de Abá (2009), Meia Palavra Bastaria (2014) e, em parceria com Pedro Nathan, No Batuque das Ideias (2011); pilota o blogue meiapalavrabastaria.blogspot.com.br.

domingo, 15 de abril de 2018

Augusto Frederico Schmidt: Equilíbrio

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Há muito o meu coração estava seco.
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas vagas e vazias,
Entrara em mim.

Porém foi de repente talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo nunca vi,
Com estrelas de um brilho intenso,
De uma pureza incalculável e incrível.

A poesia voltou de novo ao meu coração 
Como a chuva caindo na terra queimada,
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes...

A poesia voltou de novo, única solução para mim.
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as outras soluções terem fugido:
O amor, o ódio, a fé, o abandono, a riqueza...

A poesia voltou, de novo consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas e virgens,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.

Vi fugirem todas as minhas amargas queixas, de repente
Tudo me pareceu sólido, exato, reto:
A poesia estabeleceu em mim um equilíbrio ignorado.
A poesia caiu de novo em mim, como um raio.

Pássaro Cego  1930

Imagem relacionada
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Seleta em Prosa e Verso de Augusto Frederico Schmidt, Organização, estudo e notas do Professor Sílvio Elia, 1975, Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro — RJ; Augusto Frederico Schmidt (1906  1965), carioca, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne  Suiça) e nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos no Rio de Janeiro); teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da ManhãO Globo, entre outros periódicos); escreveu e publicou  Canto do Brasileiro  (1928),  Navio Perdido (1929), Cantos do Liberto A.F.S. (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária  (1940), Mar Desconhecido  (1942),  Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância, como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Jorge Amado, entre outros; em São Paulo, participou do Modernismo.

sábado, 14 de abril de 2018

Hilda Hilst: Nós, poetas e amantes o que sabemos do amor?

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XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes
damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs...
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa...
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não pára.

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Balada do Festival  1955

Hilda Hilst
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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora,  2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930  2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira  (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980),  Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios  (2002)  entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio  (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas  SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Gerardo Mello Mourão: O poço

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Todo homem é uma ilha (arquipélago às vezes)
sempre pélago:
todo homem é um poço e neste poço
ninguém mergulha:  o caminho
do fundo do poço é um labirinto.

Chega-se a ele  chegar-se-ia 
por uma gruta e ali ninguém
possui a chave o abre-te-sésamo
dessa caverna de Ali Babá.

Quem abriria os seus baús? Pois algum dia
todo homem foi algum pirata
todo homem, alguma vez, náufrago foi
no poço do mar
com sua proa seu galeão.

Jazem ali cobertos de águas
velhos cadernos jamais escritos
talvez escritos  lidos jamais
de sua história suas vergonhas
glórias de sonhos e pesadelos.

Jazem histórias jazem cardumes dos outros homens
tempos e espaços de encruzilhada
também mulheres  muitas  algumas
uma talvez também um poço.

Homem nenhum sabe a história
sabe as histórias de outros homens.

Todo homem é um poço
se alguém chegar ao fundo dele
pode encontrar o ouro e a lama
baú de ossos com seus destroços:
levanta a tampa  ali ainda
sua bravura nunca cumprida
sua tristeza sua alegria:
não é preciso saber de quem
ali ainda estremecera  ainda dói 
o rosto mudo  pureza pura
de um pobre herói.

Copacabana, 9 de janeiro de 1999
Algumas Partituras  2002

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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Gerardo Mello Mourão (1917  2007), cearense de Ipueiras, estudou no Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo MG, foi poeta, ficcionista, jornalista, tradutor poliglota, ensaísta, biógrafo e também político conservador; no seminário, além do latim e do grego, aprendeu o holandês, o alemão, o francês, o italiano, o inglês e o espanhol; traduziu textos de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio; viajou por países da América e também da Europa, tendo lecionado no Chile e sido correspondente da Folha de São Paulo, em Pequim; foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China; bibliografia: Poesia do homem só (1938), Argentina (1942), Cabo das Tormentas (1950), O Valete de Espadas e as dez elegias (1960), Peripécia de Gerardo (1972, Prêmio Mário de Andrade), Rastro de Apolo (1977), A Invenção do saber (1983), Cânon & Fuga (1999), O sagrado e o profano (2002), Invenção do Mar (1997, recebeu o Prêmio Jabuti — 1999), O Bêbado de Deus (2001), Algumas Partituras (2002) e outros títulos; traduziu Rainer Maria Rilke (O Canto de Amor e Morte do Porta-estandarte Cristóvão Rilke, 1977) etc; político conservador, foi preso diversas vezes e, como deputado federal, cassado pela ditadura militar, em 1969.