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sexta-feira, 7 de abril de 2023

Ricardo Aquino: Gênesis

 
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Das sombras da vida
da dor mais sentida
dos gritos, gemidos
ecoando no espaço
nascem os meninos de rua.

Das plantações da fome
dos homens sem nome,
sem dentes, sem terra
sobreviventes da guerra
nascem os meninos de rua.

Do salário de exploração
insegurança, fome, inflação;
da falta de leite
no seio das favelas
nascem os meninos de rua.

Da violência da polícia,
da iniquidade da Justiça
desigualdade, maldades
dos rostos humilhados
nascem os meninos de rua.

Do Brasil, brasileiro,
ritmado no pandeiro
do lucro fácil,
por político “Gerson”*,
nascem os meninos de rua.

Da minha revolta, minha vergonha,
minha iniciativa e insônia
acendo um holofote no escuro
e escrevo em cada muro:
por que nascem os meninos de rua?


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que “Gerson” refere-se à expressão ‘Lei de Gerson’, foi cunhada em 1976 e baseou-se numa propaganda de cigarros da época [cigarros Vila Rica] na qual o protagonista/ator, Gerson, ex-jogador de futebol da seleção brasileira e considerado um dos cérebros entre os ‘tri-campeões’ da seleção de 1970, afirmava que gostava de “levar vantagem em tudo” e concitava o consumidor: “leve vantagem você também. Fume Vila Rica”
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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

sexta-feira, 3 de março de 2023

Ricardo Aquino: Egoísmo & outros poemas


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Pingentes

São menores carentes
desfavorecidos,
privados dos direitos
num país menor
carente de futuro;
pingentes da vida
na luta,
sem dentes,
sobreviventes
até quando?

— o —

Egoísmo

Brasil,
gigante,
deitado em berço esplêndido
chega pra lá,
um pouquinho,
arruma um lugar
para os pequenininhos
que dormem ao relento.

— o —

Trinta e oito

Não tive bala de coco
branca
Nem bola de gude
colorida
Só bala metálica
calibrada.

— o —

Poética do abandono

A mamadeira
não tem leite
deixa
a fome dura
como cacete.

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Ricardo Aquino: Revolta & outros poemas


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Poética da solidão

É Natal
e o passarinho
pousado no tronco do ipê
abatido
passeia no meu pensamento
enquanto o pivete
dorme no cimento
coberto da luz do dia.

— o —

Meia vida

Meia
Bola de meia
Meia de sede
Meia vida
Meia inteira
Uma vida.

— o —

Revolta

O menino de olhar assustado
disse com voz embargada
de tanta porrada e humilhação:
quando crescer vou ser polícia,
vou ser igual a eles,
vai chegar minha vez...

— o —

Menina

descalça
na calçada
a espera da vida
nas calçadas da vida

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social, e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ricardo Aquino: Poética da propriedade & outros poemas


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Poética da propriedade

Não tive leite
Não tive pão
Não tive carinho
Não tive cama
Não tive teto
Não tive afeto
Vivi no chão
Vivi na rua
Vivi no frio
Por isso a cidade é minha.

— o —

Restos

Meninos e meninas de rua
não são restos de gente,
eles nem cresceram...

— o —

Pilhagem

Eles correm gritando
não sei se alegres
de alguma brincadeira;
os olhos brilhando
denunciam sua vitória,
são meninos assaltando
são vidas sem glória.

— o —

Poética do medo

Uma criança
agachada
na clareira
de leis
da selva
de pedra
parada
com medo
das leis
das pedras
sem lei
paralisada
por feras
tropicais.

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Ricardo Aquino: Genocídio & outros poemas

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Genocídio

“Cônscios” Pilatos
ecos modernos
exterminam promessas de vida;
quem vai semear a esperança?
quem vai multiplicar o pão?

— o —

Roleta russa

Fome
Prostituição
Tóxico
Morte
Funabem*
Violência
Fome
Prostituição
Tóxico
Morte
Funabem
Violência
Fim

— o —

Meninos de rua

Da ausência de vida
surgem
No horizonte da cidade
vivem
Na quebrada da sociedade
gemem
Do espelho de tanta mágoa
ecoa minha revolta
e grito: não!

— o —

Um pedido

Pivetes
Cola
Candentes
Consola
Pedintes
Escola


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que a sigla Funabem corresponde à então Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, órgão federal, depois substituída por organismos estaduais com o mesmo objetivo [em São Paulo, a Fundação Casa/SP — Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente].
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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social, e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).