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[traduzido por Thiago de Mello]
Tu me queres alva,
me queres de espumas,
me queres de nácar.
Que seja açucena,
mais que todas, casta.
De perfume tênue.
Corola cerrada.
Nem um raio de lua
filtrado me toque.
Nem uma margarida
minha irmã se diga.
Tu me queres nívea,
tu me queres branca,
tu me queres alva.
Tu, que as minhas taças
tiveste nas mãos,
de frutos e méis
os lábios morados.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes deixaste
festejando a Baco.
Tu que nos jardins
escuros do Engano
vestindo vermelho
correste ao Estrago.
Tu que no esqueleto
conservas intato
não sei bem por quê,
nem por qual milagre
me pretendes branca
(Deus que te perdoe),
me pretendes casta
(Deus que te perdoe),
me pretendes alva!
Foge para os bosques;
vai para a montanha;
limpa a tua boca;
vive nas cabanas;
toca com as mãos
a terra molhada;
alimenta o corpo
com raiz amarga;
bebe então das pedras;
dorme sobre escarcha;
renova tecidos
com salitre e água;
fala com os pássaros
e alcança a alvorada.
Quando as tuas carnes
te estejam de volta,
e quando nelas tenhas
limpa e profunda a alma
que pelas alcovas
deixaste enredada,
aí então, bom homem,
pretende-me branca,
pretende-me nívea,
pretende-me casta.
(El dulce daño — 1918)
Tú me quieres blanca
Tú me quieres alba,
me quieres de espumas,
me quieres de nácar.
Que sea azucena
Sobre todas, casta.
De perfume tenue.
Corola cerrada.
Ni un rayo de luna
filtrado me haya.
Ni una margarita
se diga mi hermana.
Tú me quieres nívea,
tú me quieres blanca,
tú me quieres alba.
Tú que hubiste todas
las copas a mano,
de frutos y mieles
los labios morados.
Tú que en el banquete
cubierto de pâmpanos
dejaste las carnes
festejando a Baco.
Tú que en los jardines
negros del Engaño
vestido de rojo
corriste al Estrago.
Tú que el esqueleto
conservas intacto
no sé todavia
por cuáles milagros,
me pretendes blanca
(Dios te lo perdone),
me pretendes casta
(Dios te lo perdone),
¡me pretendes alba!
Huye hacia los bosques,
vete a la montaña;
límpiate la boca;
vive en las cabañas;
toca con las manos
la tierra mojada;
alimenta el cuerpo
con raíz amarga;
bebe de las rocas;
duerme sobre escarcha;
renueva tejidos
con salitre y agua:
Habla con los pájaros
y lévate al alba.
Y cuando las carnes
te sean tornadas,
y cuando hayas puesto
en ellas el alma
que por las alcobas
se quedó enredada,
entonces, buen hombre,
preténdeme blanca,
preténdeme nívea,
preténdeme casta.
(El dulce daño — 1918)
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Poetas da América de Canto
Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago
de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global
Editora, São Paulo — SP; Alfonsina Storni Martignoni (1892 — 1938), nascida em Sala
Capriasca — Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos
4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades
financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária;
já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária
em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações
sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências
como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias
localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda,
onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício
de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas,
tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora
trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal
psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou
com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações
literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino,
La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou
de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância
em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo
uso do pseudônimo Tao-Lao; continando no desempenho da atividade de professora,
lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque
Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas,
Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas
noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal
(1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925),
Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla
y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes
inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa
e, com a publicação do poema La Loba, Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações
por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal
ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada pela
cantora Mercedes Sosa (1935 — 2009); teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25
de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um
jornal o soneto ‘Voy a dormir’.