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Quando, curva a cabeça, à toa, o
passo tardo,
Por desertas ruas caminho,
À hora crepuscular em que, sob o
céu pardo,
Asas se cruzam no ar em demanda do
ninho,
E o céu é triste, o ambiente é
leve, e as auras puras
Deixam, suspensas no ar, a amargura
das notas,
Vêm-me recordações de existências
obscuras
Que no sepulcro estão das épocas
remotas.
Na Índia vejo-me a ler, sóbrio o
gesto e voz clara,
À multidão que escuta o sábio Verbo
e o Exemplo,
Preces do Bagavatta e do
Vedanta-Sara,
Sob os negros umbrais de um arruinado
templo.
Fui chela, fui fakir, fui shaberon;
e inda hoje
Minha imaginação, no seu voo
altaneiro,
Desprende-se, ala-se e foge
Para aquelas regiões onde nasci
primeiro.
(Esfinges —
reedição ampliada, 1920)
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Do Encantamento
à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando
Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva
Munster (1874 — 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado — SP, poeta, pianista
e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de
São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio
Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro,
A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como
legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil
(coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão
Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição
ampliada em 1920.