Mostrando postagens com marcador Fernando Cerisara Gil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Cerisara Gil. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de abril de 2023

Francisca Júlia: Vidas anteriores


____________________
Quando, curva a cabeça, à toa, o passo tardo,
          Por desertas ruas caminho,
À hora crepuscular em que, sob o céu pardo,
Asas se cruzam no ar em demanda do ninho,

E o céu é triste, o ambiente é leve, e as auras puras
Deixam, suspensas no ar, a amargura das notas,
Vêm-me recordações de existências obscuras
Que no sepulcro estão das épocas remotas.

Na Índia vejo-me a ler, sóbrio o gesto e voz clara,
À multidão que escuta o sábio Verbo e o Exemplo,
Preces do Bagavatta e do Vedanta-Sara,
Sob os negros umbrais de um arruinado templo.

Fui chela, fui fakir, fui shaberon; e inda hoje
Minha imaginação, no seu voo altaneiro,
          Desprende-se, ala-se e foge
Para aquelas regiões onde nasci primeiro.

(Esfinges — reedição ampliada, 1920)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Dario Vellozo: Rosa Alquímica


____________________
Olha, ó virgem, — não te iludas, —
Eu só tenho a lira e a cruz.
Junqueira Freire

Eu fui outrora Cavaleiro,
Era de argentum meu solar;
O meu brial de Cavaleiro
Era de lírio e de luar;
O meu broquel de Cavaleiro
Era um sol de ouro a rutilar.

Em minhas torres de esmeralda
Iam-se os Astros refletir,
Eram esperanças de esmeralda
De suavíssimo luzir;
Eram blandícias de esmeralda,
Astros e Pérolas de Ofir.

Vinham-se frotas do Oriente,
Sonhos e púrpura, ao Sol!
Elfos e Silfos do Oriente,
Meu coração era um farol;
Era um santelmo do Oriente
Efluviado pelo Sol.

Mas, nos recontros, o Destino
Quebrou-me a lança de cristal;
Desci às luras do Destino,
Perdeu alvores o brial;
As minhas torres o Destino
Vestiu de crepe sepulcral.

Vestes de monge da Saudade
Cingiram alma e coração;
Alma, no exílio da saudade,
Palmilho estranha solidão;
Os meus saltérios de saudade
São violetas da Ilusão.

Invoco as sombras do Passado,
Violo túmulos de amor;
Entro sepulcros do Passado
Levando outonos de amargor;
Nos sitiais de meu passado
Apenas reza a minha dor.

Nos atanores da Magia
Achei mercúrio, enxofre e sal
Filtros ocultos da Magia,
Ó luz estranha, ó luz feral!...
Corvo soturno da Magia,
Onde os alvores do brial?

As esmeraldas da Esperança
Na luz astral vão refulgir;
O vivo argentum da Esperança
Brilha nas pérolas de Ofir;
Fulvos leões, rubra esperança,
Tecel da Morte e do Porvir.

Extingue a lâmpada, Alquimista!
A Lua desce para o Além...
Rutila o Sol... Velho Alquimista,
Dá-me esse filtro que faz bem!
Santelmo fui, velho Alquimista,
E fui saltério, Alma do Além.

Ó Renascença, ó filtro de ouro,
XX : mistérios do Binário!
Entra, minha alma, os sólios de ouro
Desse esplendente santuário!
Brilham Santelmos, prata e ouro,
Analogias do Binário.

(Cinerário — 1929)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo (1869 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista, narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos entre estes a revista O Cenáculo e outras de cunho literário simbolista, além de ter exercido o ofício de professor de História; suas obras: Efêmeras (versos, Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poema, Curitiba, 1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908), Rudel (poema, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (Curitiba, Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poema, São Paulo, 1938), Fogo Sagrado (1941) e outros títulos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Francisca Júlia da Silva: Fonte de Jacó

____________________
Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isaac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d'água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma samaritana, acaso, à fonte veio:
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou uma graça lasciva:

“Água!” pediu Jesus, “mata-me a sede e a mágoa,
Do cântaro que tens dá-me uma pouca d'água,
Que em troca eu te darei da fonte d'água viva”.

____________________
Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Dario Vellozo: Adepto

____________________
Duas vezes nascido, às mãos o ramo
De Acácia, árvore e símbolo dos Mestres,
Saio do esquife das mansões terrestres,
Das trevas para a Luz... Orfeu, quem amo,
 
Como a tua Eurídice, além me espera
Sob os mirtos da Paz, Musa de Samos,
Pois que, unidos no Amor, caminho vamos
Das alfombras do Templo de Citera.
 
Mas, Citera do Céu, que de Urânia
É profântida a minha Musa e Guia,
Que para o Alto me encaminha e leva.
 
Renunciei à carne, aos egoísmos;
Pairo sereno à fauce dos abismos,
Livre aos grilhões dos cárceres da Treva.

1933

(Fogo Sagrado — 1941)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo (1869 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista, narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos entre estes a revista O Cenáculo e outras de cunho literário simbolista, além de ter exercido o ofício de professor de História; suas obras: Efêmeras (versos, Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poema, Curitiba, 1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908), Rudel (poema, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (Curitiba, Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poema, São Paulo, 1938), Fogo Sagrado (1941) e outros títulos.

domingo, 7 de agosto de 2022

Dario Vellozo: Musa do Silêncio


____________________
I

No silêncio da tarde que se esfolha,
Vaga e macia nos ocasos de ouro,
Fito, cismando, o teu semblante, o louro
Tom do cabelo que o pesar desfolha.

Segues, por entre os túmulos, sombria,
Na saudade pungente. Erma e discreta,
A Mansão do Silêncio a alma inquieta
Cinge-te, à luz nostálgica do dia.

És do Silêncio a Musa merencória,
Leio-te na alma angustiosa história,
Triste fadário que teu véu recata;

Leio-te na alma a solidão imensa,
Só mitigada por suave crença,
Prece que o olhar em lágrimas desata.

II

Vês? Eu bem sei que a tua dor é nobre
É nobre o culto que te inspira a campa;
Sobes da mágoa a merencória rampa,
Ouves da tarde o evocativo dobre.

Das sepulturas o silêncio cobre
A paz macia que o arvoredo estampa;
O ocaso acolhe a radiosa lampa,
E denso crepe teu semblante encobre.

Ouço-te o passo, peregrino soa.
A dor que sentes em minha alma ecoa,
Asa de crepe que o silêncio cruza;

Asa tão só, mas tão formosa, adeja,
E o níveo mármor do sepulcro beija...
Sombra de Samos, merencória Musa!

Templo das Musas, 14 de maio de 1921.

(Cinerário — 1929)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo (1869 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista, narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos entre estes a revista O Cenáculo e outras de cunho literário simbolista, além de ter exercido o ofício de professor de História; suas obras: Efêmeras (versos, Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poemas, Curitiba, 1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908), Rudel (poemas, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (poesias, Curitiba, Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poemas, São Paulo, 1938), e outros títulos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Francisca Júlia: Carlos Gomes

____________________
Essa que plange, que soluça e pensa
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa.

Guarda na cordas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora arrasta
Ora do mar as queixas, ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda; mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que, muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que su’alma lançou aos quatro ventos.

(Esfinges 1903)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Dario Vellozo: Ângelus

____________________
Vamos, poeta, ilumina a mesquita da mágoa,
Veste, agora, da mágoa o negro sambenito;
Eleva para a cruz os olhos rasos de água
E sobre o pó da nave ajoelha-te contrito

Ouves? Baomba o sino as orações da noite...
Há em toda a amplidão o mistério da Cruz...
Perpassa à luz do círio a sombra de um açoite
De mortas ilusões e de flechas de luz.

As místicas visões elevam-se das campas,
Na destra apresentando os missais do Destino...
E a larva do pesar sobe as íngremes rampas
Do país da saudade e do amor peregrino.

Todo poeta que sofre, a tristeza do monge
Sente, e sente do monge os longos desalentos:
É que a ambos o Amor fita-os de muito longe,
E sem amor não há nem céu nem firmamentos!...

Vamos, poeta, ajoelha! Esse templo é a tua alma.
Sobre o negro madeiro um anjo se debruça.
Seu semblante não tem a merencória calma
Das virgens; mas a dor que em teus versos soluça.

Esse arcanjo é a visão de teus dias mais santos,
É o místico ideal que te vibrava a lira;
E por ele subiste um calvário de prantos,
E por ele a tua alma estremece e suspira.

Vamos, reza, poeta! As orações confortam...
Perpassa à luz do círio a sombra de um açoite...
Os mistérios do Céu só as cruzes suportam,
Porque o Céu fala à cruz pelos astros da noite.

Abre o teu coração a todas as tristezas,
Vive na tua dor, silenciosamente...
E as tuas orações e as tuas incertezas
Sepulta junto à cruz de tua dor veemente.

Cinge mais sobre os rins os cordões do cilício,
Crava mais o punhal que te lacera o peito.
O céu quer muito pranto e muito sacrifício...
Morre, para que o céu se julgue satisfeito!

Irrisão! E não há quem te compreenda as dores.
E o sino do pesar toca sinistramente...
Monge, oscula essa cruz!... Monge, entoa louvores!...
Vive na tua dor silenciosamente.

Curitiba, 10 de março de 1894.

(Cinerário — 1894)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo (1869 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista, narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos entre estes a revista O Cenáculo e outras de cunho literário simbolista, além de ter exercido o ofício de professor de História; obras: Efêmeras (versos, Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poemas, Curitiba, 1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908), Rudel (poemas, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (poesias, Curitiba, Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poemas, São Paulo, 1938), e outros títulos.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Francisca Júlia: Cega

____________________
Trôpega, os braços nus, a fronte pensa, várias
Vezes, quando no céu o louro sol desponta,
Vejo-a, no seu andar de sonâmbula tonta,
Despertando a mudez das vielas solitárias.

Arrimada ao bordão, lá vai... Imaginárias
Cousas pensa... Verões e invernos maus afronta...
Dores que tem sofrido a todo mundo conta
Na linguagem senil das suas velhas árias.

Cega! que negra mão, entre os negros escolhos
Do caos, foi procurar a treva, que enegrece,
Para cegar-te a vista e escurecer-te os olhos?

Cega! quanta poesia existe, amargurada,
Nesses olhos que estão sempre abertos e nesse
Olhar, que se abre para o céu, e não vê nada!...

(Esfinges — 1903)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Francisca Júlia: A um poeta

____________________
Poeta, quando te leio, a angústia dolorida
Que te mina a existência e que em teu peito impera,
Faz-me também sofrer, d’alma se me apodera,
Como se da minh’alma ela fosse nascida.

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,
Ora a mágoa que habita em tua alma  guarida
Onde a negra legião das mágoas se aglomera.

Não há nos versos teus um sentimento alheio
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas;
Há neles ora o suave e módulo gorjeio

Das aves, ora a queixa harmônica das águas...
Leio os teus versos; e, em minh’alma, quando os leio,
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...

(Esfinges — 1903)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Alphonsus de Guimaraens: A Cabeça de Corvo


____________________
Ao Dr. Edmundo Lins

Na mesa, quando em meio à noite lenta
Escrevo antes que o sono me adormeça,
Tenho o negro tinteiro que a cabeça
          De um corvo representa.

A contemplá-lo mudamente fico
E numa dor atroz mais me concentro:
E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,
Meto-lhe a pena pela goela a dentro.

E solitariamente, pouco a pouco,
Do bojo tiro a pena, rasa em tinta...
E a minha mão, que treme toda, pinta
          Versos próprios de um louco.

E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta.
Toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
          Destes versos que escrevo.

(Kyriale — 1902)

____________________
Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, cursou Direito, foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; obras: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.