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domingo, 1 de fevereiro de 2026

T. S. Eliot: Morte pela água

 
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[traduzido por Idelma Ribeiro de Faria]

[IV]

Flebas, o fenício, há quinze dias morto,
Esqueceu o grito da gaivota, o inflar do mar profundo
E os lucros e perdas.

                                              Uma corrente submarina murmurando
Seus ossos recolheu. Imergindo e aflorando
Flebas ultrapassou velhice e mocidade
E na voragem se perdeu.

                                             Gentio ou judeu
Ó tu que a roda giras e a barlavento olhas
Pensa em Flebas
Um dia teu igual em estatura e linhagem.

A Terra Gasta — IV. 1921-1922.
(Eliot et alii, 1992, p. 47).

T. S. Eliot

IV. Death By Water

Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,
Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell
And the profit and loss.

                                            A current under sea
Picked his bones in whispers. As he rose and fell
He passed the stages of his age and youth
Entering the whirlpool.

                                           Gentile or Jew
O you who turn the wheel and look to windward,
Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you.

The West Land — IV
1921 — 1922
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Seleção: T. S. Eliot, Emily Dickinson e René Depestre — edição bilíngue, Tradução, Organização e Ensaios de Idelma Ribeiro de Faria, 1992, Editora Hucitec, São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Harvard, em Boston, estudou Língua e Literatura francesa na Sorbonne, Paris França, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista, conferencista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Prufrock and Other Observations (poems, 1917), Poems (1920), The West Land (poem [5 partes], 1922), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

T. S. Eliot: Maneja o ferro o cirurgião ferido . . . [trecho de ‘East Coker’, em Quatro Quartetos]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

IV

Maneja o ferro o cirurgião ferido
A esmiudear a infectada parte;
Sob as sangrentas mãos é percebido
O agudo pesar da esculápia arte
Dilucidando o gráfico do enfarte.

Nossa saúde é tão-só nossa doença
Se contentarmos a enfermeira à morte
Que jamais em desenfastiar-nos pensa
Mas lembrar-nos da nossa, e de Adão, sorte,
Que há-de o mal, pra sararmos, ser mais forte.

Todo o planeta, eis o nosso hospital
Conferido pelo creso arruinado,
Onde, se não nos comportarmos mal,
Morreremos do paternal cuidado
Que não nos larga, mas guiará por outro lado.

Sobe dos pés aos joelhos o arrepio,
A febre preludia em fios mentais.
Pra aquecer-me, força é engrunhir de frio,
Tremer em purgatórios glaciais,
Cuja áscua é rosa e o fumo são sarçais.

Nosso só néctar, o sangue exsudante,
O só repasto, a carne ensanguentada:
Sem embargo, crer é-nos confortante
Que somos sangue ileso, carne sustanciada
E, entanto, esta data, de Endoenças é por nós chamada.

[ . . . ]

T. S. Eliot

East Coker

[ . . . ]

IV

The wounded surgeon plies the steel
That questions the distempered part;
Beneath the bleeding hands we feel
The sharp compassion of the healer’s art
Resolving the enigma of the fever chart.

    Our only health is the disease
If we obey the dying nurse
Whose constant care is not to please
But to remind of our, and Adam’s curse,
And that, to be restored, our sickness must grow worse.

    The whole earth is our hospital
Endowed by the ruined millionaire,
Wherein, if we do well, we shall
160Die of the absolute paternal care
That will not leave us, but prevents us everywhere.

    The chill ascends from feet to knees,
The fever sings in mental wires.
If to be warmed, then I must freeze
And quake in frigid purgatorial fires
Of which the flame is roses, and the smoke is briars.

    The dripping blood our only drink,
The bloody flesh our only food:
In spite of which we like to think
That we are sound, substantial flesh and blood
Again, in spite of that, we call this Friday good.

[ . . . ]

"East Coker", in Four Quartets (poems, 1943)
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

T. S. Eliot: Aqui é um lugar nu de afeto . . . [trecho de Burnt Norton, Quarteto nº 1]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

III

Aqui é um lugar nu de afeto
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz turva: nem a luiz diurna
Revestindo a forma de lúcida imobilidade
Transmutando a sombra em beleza fugaz
Com lenta rotação a sugerir permanência
Nem a treva para purificar a alma
Em privação esvaziando o sensual
Purgando do temporal a afeição.
Nem a plenitude, nem o vácuo. Só o estertor da luz
Sobre os rostos rijos, flagelados pelo tempo,
Distraído da distração pela distração
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem a menor concentração
Homens e pedacinhos de papel, tangidos em torvelinho pelo vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Sopro que entra e sai de pulmões enfermos
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas malsãs
A difundir-se no ar lívido, pestilências
Carreadas pelo vento que assola as soturnas colinas de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo gorjeante.

Desce mais fundo, desce somente
Ao mundo da perpétua solidão,
Mundo não mundo, a não ser aquilo que não é mundo,
Obscuridade interior, privação
E destituição de toda propriedade,
Dessecação do mundo do sentido,
Egressão do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Eis a única maneira, e a outra
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção do movimento, enquanto o mundo se move
Em apetência, em seus caminhos metálicos
De tempo passado e tempo futuro.

[ . . . ]

T. S. Eliot

Burnt Norton [Quartet nº 1]

[ . . . ]

III

Here is a place of disaffection
Time before and time after
In a dim light: neither daylight
Investing form with lucid stillness
Turning shadow into transient beauty
With slow rotation suggesting permanence
Nor darkness to purify the soul
Emptying the sensual with deprivation
Cleansing affection from the temporal.
Neither plenitude nor vacancy. Only a flicker
Over the strained time-ridden faces
Distracted from distraction by distraction
Filled with fancies and empty of meaning
Tumid apathy with no concentration
Men and bits of paper, whirled by the cold Wind
That blows before and after time,
Wind in and out of unwholesome lungs
Time before and time after.
Eructation of unhealthy souls
Into the faded air, the torpid
Driven on the wind that sweeps the gloomy hills of London,
Hampstead and Clerkenwell, Campden and Putney,
Highgate, Primrose and Ludgate. Not here
Not here the darkness, in this twittering world.

    Descend lower, descend only
Into the world of perpetual solitude,
World not world, but that which is not world,
Internal darkness, deprivation
And destitution of all property,
Desiccation of the world of sense,
Evacuation of the world of fancy,
Inoperancy of the world of spirit;
This is the one way, and the other
Is the same, not in movement
But abstention from movement; while the world moves
In appetency, on its metalled ways
Of time past and time future.

[ . . . ]

"Burnt Norton", in Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Four Quartets (poems, 1943)
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

T. S. Eliot: As palavras deslocam-se, a música se move . . . [trecho de Burnt Norton, Quarteto nº 1]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

V

As palavras deslocam-se, a música se move
Apenas no tempo, mas tão-só aquilo que é vivente
Pode morrer. As palavras, depois do discurso, culminam
No silêncio. Apenas graças à forma, o molde,
Podem as palavras ou a música atingir
A quietude, tal perpetuamente se move em sua inércia
Um inerte jarro chinês.
Não a inércia do violino, enquanto a nota perdura,
Não isso unicamente, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim ao começo preceda
E o final e o começo estejam sempre lá
Antes do começo e depois do final.
E tudo é sempre agora. As palavras retesam-se,
Sob a tensão, resvalam, deslizam, perecem,
Degeneram na imprecisão, não se mantêm no lugar,
Não ficam em sossego. Vozes lancinantes
A descompor, a motejar, ou apenas proseando,
Assediam-nas sempre. A Palavra no deserto
É alvo de maior ataque das vozes de tentação,
A sombra lacrimosa na dança funérea,
O alto lamento da quimera inconsolada.

O pormenor do arquipélago é movimento,
Como na imagem dos dez degraus.
O desejo em si mesmo é movimento
Não em si mesmo desejável;
O amor, em si, é não-movente,
Somente a causa e o fim do movimento,
Intemporal e carecente de desejo
Exceto no aspecto do tempo
Colhido na forma da limitação
Entre não-ser e ser.
Súbito, num dardo de luz solar
Mesmo enquanto o pó se move
A oculta risada se eleva
Das crianças na folhagem
Rápida agora, aqui, agora, sempre
Ridículo o tempo triste, esbanjado,
Espraiando-se em antes e depois.

T. S. Eliot

Burnt Norton [Quartet Nº 1]

[ . . . ]

V

Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
Not the stillness of the violin, while the note lasts,
Not that only, but the co-existence,
Or say that the end precedes the beginning,
And the end and the beginning were always there
Before the beginning and after the end.
And all is always now. Words strain,
Crack and sometimes break, under the burden,
Under the tension, slip, slide, perish,
Decay with imprecision, will not stay in place,
Will not stay still. Shrieking voices
Scolding, mocking, or merely chattering,
Always assail them. The Word in the desert
Is most attacked by voices of temptation,
The crying shadow in the funeral dance,
The loud lament of the disconsolate chimera.

The detail of the pattern is movement,
As in the figure of the ten stairs.
Desire itself is movement
Not in itself desirable;
Love is itself unmoving,
Only the cause and end of movement,
Timeless, and undesiring
Except in the aspect of time
Caught in the form of limitation
Between un-being and being.
Sudden in a shaft of sunlight
Even while the dust moves
There rises the hidden laughter
Of children in the foliage
Quick now, here, now, always —
Ridiculous the waste sad time
Stretching before and after.

"Burnt Norton", in Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Four Quartets (poems, 1943) 
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

T. S. Eliot: Manhã à Janela

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[traduzido por Ivan Junqueira]

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

As fulvas ondas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Prufrock e outras observações — 1917

T. S. Eliot

Morning at the Window

They are rattling breakfast plates in basement kitchens,
And along the trampled edges of the street
I am aware of the damp souls of housemaids
Sprouting despondently at area gates.

The brown waves of fog toss up to me
Twisted faces from the bottom of the street,
And tear from a passer-by with muddy skirts
An aimless smile that hovers in the air
And vanishes along the level of the roofs.

[From Prufrock, and other observations (The Egoist, Ltd, 1917)]

* Nota do tradutor Ivan Junqueira: Escrito em Oxford, Inglaterra, 1915; é possível que este poema haja sido escrito em 1915, quando Eliot ainda realizava seus estudos sobre os pré-socráticos na Merton College, em Oxford, mas sua publicação data do ano seguinte, na revista Poetry, VIII, a 6 de setembro de 1916. Conforme suspeição de G[rover]. Smith ([1923 — 2014], in T. S. Eliot’s Poetry and Plays, 1956), “Manhã à Janela” teria sido inspirado por uma cena banal que Eliot presenciou ao longo de uma rua que leva à Russel Square, em Londres, durante o outono de 1914, quando o poeta residia então na Bradford Place, 28.
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Poesia: T. S. Eliot — Tradução, Introdução, Nota biográfica e Notas de Ivan Junqueira, 3ª edição, 1981, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

domingo, 24 de setembro de 2023

T. S. Eliot: East Coker* [excerto]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[ . . . ]

III
Ó escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários comitês,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulham no
escuro,1
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha2,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa baixar o escuro sobre ti3,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre
treva4,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados para longe5
Ou quando, no metrô, um trem se demora entre duas estações
E as conversas se animam e lentamente no vazio tombam
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente, mas consciente de
nada
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e espera sem esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera sem amor
Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há-de o repouso se
tornar.

[ . . . ]

T. S. Eliot

East Coker

[ . . . ]

III
O dark dark dark. They all go into the dark,
The vacant interstellar spaces, the vacant into the vacant,
The captains, merchant bankers, eminent men of letters,
The generous patrons of art, the statesmen and the rulers,
Distinguished civil servants, chairmen of many committees,
Industrial lords and petty contractors, all go into the dark,
And dark the Sun and Moon, and the Almanach de Gotha
And the Stock Exchange Gazette, the Directory of Directors,
And cold the sense and lost the motive of action.
And we all go with them, into the silent funeral,
Nobodys funeral, for there is no one to bury.
I said to my soul, be still, and let the dark come upon you
Which shall be the darkness of God. As, in a theatre,
The lights are extinguished, for the scene to be changed
With a hollow rumble of wings, with a movement of darkness on
darkness,
And we know that the hills and the trees, the distant panorama
And the bold imposing facade are all being rolled away
Or as, when an underground train, in the tube, stops too long between
stations
And the conversation rises and slowly fades into silence
And you see behind every face the mental emptiness deepen
Leaving only the growing terror of nothing to think about;
Or when, under ether, the mind is conscious but conscious of nothing
I said to my soul, be still, and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing; wait without love
For love would be love of the wrong thing; there is yet Faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting.
Wait without thought, for you are not ready for thought:
So the darkness shall be the light, and the stillness the dancing.

[ . . . ]

Notas do tradutor Ivan Junqueira:
* East Coker é o nome de aldeia que se estende nos arredores de Yeovil, no Condado de Somerset, Inglaterra, distante 32 quilômetros do litoral da Mancha. Foi daí que, em em 1667, o Rvdo. Andrew Eliot, um dos primeiros ancestrais do poeta, emigrou para a Nova Inglaterra, Estados Unidos, iniciando assim o ramo norte-americano da família Eliot. East Coker foi lançado no semanário londrino The New English Weekly, a 21 de março de 1940. A primeira edição isolada é de 12 de setembro de 1940.
1. Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras . . . [Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulharam no escuro,]. Cf. Apocalipse, VI, 5: “ Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos, e todo o escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes.”;
2. Almanaque de Gotha. Espécie de almanaque genealógico do mundo;
3. Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa que baixe o escuro sobre ti. É aqui bastate palpável a lembrança de Baudelaire, no soneto “Récueillement”, Les Fleurs du Mal, “Sois sage, ô ma Douleur, et tiens ti plus tranquille. / Tu réclamais le Soir; il descend . . . ”. O mesmo poeta já fora “eliotizado” no final da primeira seção de A Terra Desolada, verso 76, assim como em Burnt Norton, II, 49-50;
4. Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre treva. Maioria dos comentadores e exegetas de Eliot sustenta que o verso evoca o ronco dos aviões nazistas que bombardearam Londres entre 1940-42, período em que foram escritos os três últimos Quartetos. É fato sabido, aliás, que estes poemas estão repletos de alusões à Segunda Guerra Mundial;
5. E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama / E a soberba fachada altiva estão sendo arrastadas para longe. Cf. Apocalipse, VI, 13-14: “As estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então todos os montes e ilhas foram movidos dos seus lugares.”
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Poesia: T. S. Eliot — Tradução, Introdução, Nota biográfica e Notas de Ivan Junqueira, 3ª edição, 1981, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

sábado, 3 de dezembro de 2022

T. S. Eliot: A Terra Desolada* [trechos]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[I – O Enterro dos Mortos]

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos,
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre de morte ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! mon semblable , mon frère!”

T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.

T. S. Eliot

The Waste Land

[I. The Burial of the Dead]

APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying ‘Stetson!
‘You who were with me in the ships at Mylae!
‘That corpse you planted last year in your garden,
‘Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
‘Or has the sudden frost disturbed its bed?
‘Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
‘Or with his nails he’ll dig it up again!
‘You! hypocrite lecteur! mon semblable, mon frère!’

[T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.]

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que o longo poema A Terra Desolada (The Waste Land), publicado pela primeira vez em 1922 na revista Criterion, é composto de 5 tópicos; ora estão expostos e traduzidos dois trechos do primeiro tópico, I. O Enterro dos Mortos (I. The Burial of the Dead).
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.