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domingo, 30 de novembro de 2025

Batista Cepelos: O trem de ferro

 
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Um fino apito, estrídulo sibila,
rangem as rodas num arranco perro,
e, lentamente, a se arrastar, desfila,
fumegante e luzente, o trem de ferro.

Soa no espaço um derradeiro berro
e tão rápido corre que horripila,
esse monstro a rolar de cerro em cerro,
apavorando a solidão tranqüila.

Vence choupanas, matagais tristonhos,
despenhadeiros, báratros medonhos,
nada lhe amaina o rábido furor.

Corre, corre veloz, nada o embaraça,
desfraldando a bandeira de fumaça,
como um bravo guerreiro vencedor!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Carlos Drummond de Andrade: O Maior Trem do Mundo

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O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
para o Japão.

O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará

pois nem terra nem coração existem mais.

[publicado em 1984 — Jornal “O Cometa Itabirano”]

Drummond

El Mayor Tren del Mundo

(versión de Manuel Graña Etcheverry)

El mayor tren del mundo
lleva a mi tierra
para Alemania
lleva mi tierra
para el Canadá
lleva mi tierra
para el Japón.

El mayor tren del mundo
arrastrado por cinco locomotoras a óleo diesel
enganchadas adosadas desenfrenadas
lleva mi tempo, mi infancia, mi vida
triturada en 163 vagones de mineral y destrucción.

El mayor tren del mundo
transporta la cosa mínima del mundo,
mi corazón itabirano.

Allá va el mayor tren del mundo
va serpenteando va desapareciendo
y un día, yo sé, no volverá

porque ni tierra ni corazón existen más.
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Caminhos Drummondianos: Itabira — MG, edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e 2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Wisława Szymborska: A estação

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

A minha não chegada à cidade de N.
aconteceu pontualmente.

Você foi avisado
por uma carta não enviada.

Conseguiu não chegar
na hora prevista.

O trem entrou na plataforma três.
Desceu muita gente.

À multidão rumo à saída
juntou-se a minha ausência.

Algumas mulheres tomaram o meu lugar
às pressas
naquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que não conheço,
mas ela o reconheceu
de imediato.

Ambos trocaram
um beijo não nosso,
instante em que sumiu
uma maleta não minha.

A estação da cidade de N.
passou bem na prova
da existência objetiva.

O todo ficou no lugar.
Os detalhes se movimentaram
pelos trilhos designados.

Aconteceu até
um encontro marcado.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da probabilidade.

Num outro lugar.
Num outro lugar.
Como estas palavrinhas ressoam.

Wisława Szymborska

Dworsec

Nieprzyjazd mój do miasta N.
odbył się punktualnie.

Zostałeś uprzedzony
niewysłanym listem.

Zdążyłeś nie przyjść
w przewidzianej porze.

Pociąg wjechał na peron trzeci.
Wysiadło dużo ludzi.

Uchodził w tłumie do wyjścia
brak mojej osoby.

Kilka kobiet zastąpiło mnie
pośpiesznie
w tym pośpiechu.

Do jednej podbiegł
ktoś nieznany mi,
ale ona rozpoznała go
natychmiast.

Oboje wymienili
nie nasz pocałunek,
podczas czego zginęła
nie moja walizka.

Dworzec w mieście N.
dobrze zdał egzamin
z istnienia obiektywnego.

Całość stała na swoim miejscu.
Szczegóły poruszały się
po wyznaczonych torach.

Odbyło sie nawet
umówione spotkanie.

Poza zasięgiem
naszej obecności.

W raju utraconym
prawdopodobieństwa.

Gdzie indziej.
Gdzie indziej.
Jak te słówka dźwięczą.

(Sto pociech 1967)
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Wisława Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim,  Wisława deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Dalton Trevisan: Despedida


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          Meu pai leva-me à porta do famoso noturno para a cidade grande:
           Cuide-se, meu filho. É um mundo selvagem.
          Esse verbo clamante no teu ouvido. Por delicadeza, perdi a minha voz. Ó profetas ó sermões!
           Longe da família, será você contra todos.
          Homem não se beija nem abraça, nos apertamos duramente as mãos. Me instalo a uma das janelas, com a vidraça descida. Mais que me esforce, impossível erguê-la. Já não podemos falar. Esse pai dos pais ali na plataforma, mudo e solene. O trem não parte. Fumaça da estação? De repente ei-lo de olhos marejados.
          E, sem querer, também eu comovido. Diante de mim o feroz tirano da família? Ditador da verdade, dono da palavra final? Primeira vez, em tantos anos, vejo um senhor muito antigo. Pobre velhinho solitário. Merda, o trem não parte. Meu pai saca o relógio do colete, dois giros na corda. Pressuroso, digo que se vá. Doente, não apanhe friagem. E ele sem escutar.
          Olha de novo o relógio. Aceno que pode ir, não espere a partida. Quero ver a hora? Exibe o patacão na ponta da corrente dourada. Nosso último encontro, sei lá. E, ainda na despedida, o eterno equívoco entre nós. Maldita vidraça de silêncio a nos separar. Desta vez para sempre.

(O conto Despedida, publicado originalmente em
234 ministórias — 1997, foi revisto pelo autor para
a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

genésio dos santos: dona bidunga *

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fazer poemas é tão necessário
quanto o era para a mãe esculpir
bolinhos de chuva ao fritá-los
em óleo de amendoim ou óleo de algodão
ou banha de porco
naquele outrora

quem sabe
assim desenhasse o poeta
guri nos seus sete anos
enquanto devorava os bolinhos
e folheava a cartilha do tatu
cheia de letras e gravuras

de calças curtas,
ele só não tinha como imaginar
que lá no futuro iria escrever um poema
pra dona bidunga,
apelido de saturnina de almeida fagundes,
autora da cartilha.

sp, 24.12.2023


*Nota deste Verso e Conversa: O poema Dona Bidunga foi ideado em algum momento desde outubro de 2020, mês em que este ex-guri e aprendiz de blogueiro, filho de ferroviário, pesquisador e poeta, buscou e adquiriu em sebo um exemplar da Cartilha do Tatu — Caderno de Alfabetização, de Saturnina de Almeida Fagundes, a Dona Bidunga; tal cartilha, impressa nas gráficas da EFS — Estrada de Ferro Sorocabana, propiciou ao poeta um primeiro contato escolar com letras e gravuras, contato esse ocorrido em 1959, no início do então curso primário na Escola Rural da Estação, Vila Isabel, em Itapeva — SP.
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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — caderno de alfabetização, de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Genésio dos Santos: brinquedo

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abandonou tudo o que até então fizera parte do seu mundo: deixou de lado o limão verde que às vezes se fazia de bola, jogos de botões se aquietaram na gaveta.

até mesmo a bola feita de meias que fora moldada com carinho pelas mãos da mãe costureira ficou esquecida no seu cantinho.

o guri já não se imaginava jogador de futebol. trazia consigo o pressentimento de que um dia fosse crescer e que se faria adulto tal como o pai ferroviário quase pela vida toda.


desatou então a montar palavras, encadeou frases e fez com que delas brotassem incríveis histórias reais ou imaginárias. uma pequena estante de livros da escola, segregada à chave pela secretaria, era o seu santuário.


tudo o mais teria que ficar empedrado e acorrentado no tempo.
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até um dia destes foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária, participou no jornal Brinque (do coletivo cultural do SeebSP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

domingo, 10 de maio de 2020

genésio dos santos: janela

Maria Fumaça de Tiradentes - Meu Destino é Logo Ali
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pastos postes pontes
vidas correndo pra trás
janela de trem

Minha foto
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genésio dos santos ferreira, paulista e itapetiningano, nascido em 1952,  caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra são Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até um dia destes foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais o espelho — sp, folha bancária e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

José Paulo Paes: Noturno

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O apito do trem perfura a noite.
As paredes do quarto se encolhem.
O mundo fica mais vasto.

Tantos livros para ler
tantas ruas por andar
tantas mulheres a possuir…

Quando chega a madrugada
o adolescente adormece por fim
certo de que o dia vai nascer especialmente para ele.

Prosas Seguidas de Odes Mínimas — 1992

Imagem relacionada
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José Paulo Paes: Melhores Poemas — Ensaio e Seleção de Davi Arrigucci Jr., 2ª edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Meia Palavra (1973), Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa (ensaio, 1977), Resíduo (1980), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.