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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lima Barreto: Bendito futebol


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          Não há dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
          Com a citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
          Não é preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
          Um outro é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3, “pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
          Não falemos da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos rolos que coroam partidas magistrais.
          Além daqueles ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
          O futebol é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto11 de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
          0 Sacro Colégio do Futebol reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro homens de cor, enfim.
          A Igreja fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha ignorância não me trai, de processo de puritate sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu sacerdócio coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
          O conchavo13 não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
          Concordaram todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15 pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”, ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos todos em várias coisas e também deputados federais.
          A providência, conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas o que se há de fazer? O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social.
          O que me admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação.
          Não foi à toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
          Dava-se o seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever.
          O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
            Os maiores déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos homens eminentes ao Brasil! Viva!

P.S. A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros internacionais de futebol.
          Há toda a conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos estranhos.

[revista] Careta, 01/10/1921


Notas da edição:
1. Rega-bofes: festas com farturas de comidas e bebidas
2. Césares: governantes
3. Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos: músculos do pé
5. Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como fíbulas
6. Tíbias: ossos longos da perna
7. Belicosas: dispostas para a guerra
8. Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo de pontapés: futebol
10. Dissensão: desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor importância
12. Puritate sanguinis: pureza de sangue
13. Conchavo: acordo secreto
14: Aduziu: expôs
15. Pedestremente: modestamente
16. Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17. Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18. Tisna: mancha
19. Malsinada: infeliz
20. Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21. Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação: denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23. Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.); desde o início
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Akiri Conakri: Mãos ao alto


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não usarei eufemismo
não sou brando
sou de lavoura
e minha foice
arrancará tua alma

SUBSTITUIREI SEU CORAÇÃO
VICIADO POR AMOR E LUTA

já nasci com acúmulos de derrotas,
meus avós nunca desistiram
o campo é mais que um emaranhado verde,
meu martelo não
pregará apenas cercas, mas destruirá seus muros capitais
contaminados de ódio
isso não é um poema
são palavras engatilhadas para sua rendição.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Nelson Maca: Ao Mestre Moa com carinho

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Para Moa do Katendê

Quebra a tranca,
destranca a rua
troca as demandas,
liberta a mente
Exu é a chave

Abra os caminhos da gente
A ti, Mestre Moa, com carinho
na lembrança de te ver dançando
não te esquece quem te ouviu cantando
não te esqueço, pois, te vi sorrindo
Retorno, reconstrução
renascimento

VAI SE A MATÉRIA, FICA O EXEMPLO
CIMENTO NO TEMPLO DO TEMPO
ESSA LUTA BERIMBAU PODE SER
ESSA DANÇA AFOXÉ BADAUÊ
ESSE CANTO IJEXÁ KATENDÊ
ESSE MOÇO LINDO É VOCÊ.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Nelson Maca, ou Nelson Gonçalves, paranaense de Telêmaco Borba, nascido em 1965, em Curitiba fez o curso técnico de Mecânica no CEFET-PR e iniciou Letras na UFPR Universidade Federal do Paraná, mudando-se para Salvador BA transferiu o curso para a UFBA Universidade Federal da Bahia, concluiu licenciatura, bacharelado e especialização em literatura, é poeta, professor e agitador cultural; sua iniciação na poesia deu-se ainda em Curitiba, após conclusão do ensino médio; em terra baiana criou o Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, reunindo poetas, artistas e ativistas de Hip Hop, tornou-se um dos membros do Conselho Estadual de Cultura da Bahia; escreveu e publicou Gramática da Ira (poesia, 2015), Relatos da Guerra Preta ou Bahia Baixa Estação (conto, 2020), Ani: todos os Felas do mundo (romance, 2021) e outros textos.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Mamba Negro: Rainha pandêmica


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Ei, presta atenção, não adianta falar que o que faço é abominação ou coisa de bandido, quando tudo que eu crio é copiado pelo seu padrão boy, branco, elitista, higienista e rico, você vai torcer o nariz? Cuidado pra eu não quebrar, quero ver me chamar de macaco, de piranha, de cachorra, de viado, são animais demais pra eu prender dentro de um armário e eu também não vou pra sua cama ou fazer de zoológico o seu quarto, mas eu quero te ver me chamar de macaco com a cara quebrada, quando me vê passar na rua sente nojo, sente medo, mas quando bate a abstinência tu sobe a quebrada, sou bicha pre TRA TRA TRA, tipo Linn da Quebrada, desde navio negreiro afiando navalha, se tu bater de frente do vai cair de cara e para, para, para, parça, escancara essa farsa, você entende de mal com L e mau com U, Malcolm X, essa sua cara mal lavada combina com o pozinho branco embaixo do seu nariz. “E eu não sou pennywise, mas tu vai flutuar, com esse teu ego inflado, então é melhor parar” não sou de tirar o chapéu, sou de arrancar a cabeça, respeita a revolução vinda com as bicha preta, respeita os manos, minas, mona preta da quebrada, cobiço a casa grande e recuso senzala, me respeita na cama, me respeita na vida, cansei, não quero novamente ser mercadoria, na sua festa burguesa incorporo Queen Latifah, como uma globeleza, sambo na cara racista, e calma senhora não pira, e calma senhor não pire, teu filhos esquece de tudo quando quica na minha... RAM, vou lhe descer o “pau” é o preço do revide, dentro de um navio negreiro “chegay” terra brasilis, mas eu sinto o seu cheiro, farejo sua hemoglobina, as vozes da minha mente querem ver uma chacina de racista,
IREI LHE DEVOLVER
O SEU EXÉRCITO NAZISTA,
vou lhe caçar e com o couro das suas costas vou fazer um louboutin, vou recrutar todos os pretos que eu conheço e desbancar a klu klux klan, pois eu já estou cansado, da minha capacidade tu dúvida, mas carrego nos dentes navalha, cortando garganta dos “muleke paia” seguidos de Malafaia, eu te destruo pique calendário Maia, tu acha que é melhor que eu só porque carrego melanina, mas se lembra que eu estou tipo Rasputia, te esmago nas rimas, então sente impacto, tô fodendo com o caos tipo Baco, eu te odeio pra caralho não tem como evitar, meu ódio está mais alto que a Pablo Vittar... UKE, tô mais perigoso que o Pablo Escobar, estou tipo mar, então vem brincar com as minhas marés, mas relaxa, porque se meu tsunami não te mata, cuidado pra não te afogar nas minhas ressacas.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Eric Cardoso, ou Mamba Negro, nascido em 2000 [?] na zona leste paulistana, é multiartista, performer, slammer*, escritor e poeta; lida com seus textos desde os treze anos; em seus traços biográficos, o poeta-performer-slammer relata que “começou na arte ainda cedo em igrejas e após perceber que o cristianismo abominava tudo que ele era”, que “abraçou seus demônios internos” e que hoje “tem a arte como escudo em uma guerra contra si mesmo, tentando resistir aos próprios medos e limitações impostas”; Mamba Negro [é só dar um gúgol no iutube!] já fez presença em múltiplas apresentações “na parte mais extrema da zona leste” e região (Slam Interuni, Slam Sujeira, Slam da Guilhermina, Slam Resistência, Movimento Aliança da Praça  M.A.P., ...).

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Patrícia Meira: Identidade

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Passei a vida inteira vivendo meias verdades
Sempre tive RG não tinha identidade,
Me olhava no espelho e tinha vergonha de mim mesma,
me disseram que eu era tudo,
Morena, mulata eu só não sabia que era preta.
Agora você aceita
depois de tanto negarem a minha história eu me descobri.
Eu não estou aqui para ser tua Barbie
porque nasci sendo abayomi.
Já sofri calada as tuas humilhações
hoje em silêncio eu não mais sofro.
Você só vai ter minha cabeça baixa
se conseguir arrancar ela de cima do meu pescoço.
Eu sou a intrepidez de Harriet Tubmam
sou a mulher preta, gorda, lésbica
e nordestina que você não reconhece a luta e insulta.
Mas, eu estou e não preciso ser igual a você pra Resistir.
No teu ouvido eu sou o garfo arranhando o prato
sou a mina que você tentou fazer de capacho
mas não conseguiu.
Você viu, que mina preta não é bagunça?
Assume o teu lugar de privilégio e escuta.
Eu sou aquela neguinha que meteu fuga
e te deixou passando mal
quando você planejou estuprar
como um senhorzinho fazia no canavial.
Eu sou o silêncio quebrado, sou a mosca no teu prato
e esse você vai ser obrigado a pagar.
Eu sou a praga
o feitiço que as bruxas antes de serem queimadas lançaram sobre ti.
EU SOU AQUELA QUE VOCÊ
SEMPRE SILENCIOU
MAS HOJE QUERENDO OU NÃO
VAI TER QUE OUVIR.
Eu sou aquela que quando você escreve uma história pra mim
Eu vou e apago
eu sou a princesa que se depender do meu beijo
você continua sendo sapo.
Eu sei bem que depois de tudo isso
você vai achar que entrou pra minha lista negra
Mas fique tranquilo e acredite
que na minha lista negra
só entra quem é vip
esse não é o teu caso.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Patrícia Meira, nascida em 1988 [?], baiana de Itajuípe, é poeta, produtora cultural, slammer*, romancista, roteirista, compositora, oficineira e afroempreendora; mudou-se para São Paulo aos vinte anos de idade; escreve desde criança, aos 14 anos destruiu todos seus textos e só em 2014 retomou sua relação com a escrita; em São Paulo, frequentando o Sarau Movimento Aliança da Praça M.A.P., inicia sua participação em slams campeonatos de poesia falada; depois veio a presença e premiações no Slam da Guilhermina e, assim, foi escrevendo sua história nos slams; suas obras: Por amar outra mulher, Resisto, É amor que você quer? Então Toma! e Impressões (poesias, todos em 2018), Manual da Imoralidade (poesia, 2019), Emaranhado (romance, 2019); Patrícia Meira está enveredando na música sertaneja, com projetos em andamento, é integrante, compositora e poeta do espetáculo Samba Poética, combinando samba, poesia e ancestralidade . . .

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

Akiri Conakri: Trabalhar a dor

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um sentimento revolto
ruge dentro
de mim

vejo o mundo retroceder apagando as pegadas de minha mãe
minha bandeira foi tingida
com meu próprio sangue
dou meu sangue
por minha bandeira
não há guerra sem luta

VIVEMOS NUMA
ORDEM SEM
JUSTIÇA

VERMELHO
ENCARNADO
COM A VITÓRIA

RUBRO

ESCARLATE SEM
RECUO

RUTILANTE
COMO O OLHAR
DE NOSSOS
COMPANHEIROS.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Nelson Maca: As lágrimas de Benedita


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Para Benedita da Silva

As lágrimas de Benedita
Escorrem sobre minha própria face

O sal na boca de quem acredita
A dor no peito de quem prova
A solidão do cárcere do amigo

A cor de Benedita
Espalha-se em minha própria pele

O preto de quem reivindica
A cor de quem comprova
Na multidão, liberdade vigiada

A história de Benedita
Alastra-se na minha própria família

O pai que enfrentou os batalhões
A mãe que não fugiu à luta
O desfazimento da diáspora

A FORÇA DE BENEDITA ENTRANHADA EM MEUS MÚSCULOS

Dá rigidez pra carne viva
Robustez pra memória afetiva
A CERTEZA DE QUE É TEMPO DE LUTA!

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Nelson Maca, ou Nelson Gonçalves, paranaense de Telêmaco Borba, nascido em 1965, em Curitiba fez o curso técnico de Mecânica no CEFET-PR e iniciou Letras na UFPR Universidade Federal do Paraná, mudando-se para Salvador BA transferiu o curso para a UFBA Universidade Federal da Bahia, concluiu licenciatura, bacharelado e especialização em literatura, é poeta, professor e agitador cultural; sua iniciação na poesia deu-se ainda em Curitiba, após conclusão do ensino médio; em terra baiana criou o Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, reunindo poetas, artistas e ativistas de Hip Hop, tornou-se um dos membros do Conselho Estadual de Cultura da Bahia; escreveu e publicou Gramática da Ira (poesia, 2015), Relatos da Guerra Preta ou Bahia Baixa Estação (conto, 2020), Ani: todos os Felas do mundo (romance, 2021) e outros textos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Akiri Conakri: Eu quero ser


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eu quero ser isso
que não te agrada
o insuportável que
te deixa dormir
tunado watts
ensurdecedor

pedra gigante que se desloca rolando em bairro nobre
incêndio provocado por revoltas contras suas “conquistas” falsas
o favelado que sabe ler
o que decifra sua estupidez
o que nunca mais te elege
o que te cobra com juros
o que vende pó pro seu filho
o que nunca te pediu nada
quero ser poema de Marcelino Freire
o que entendeu Nietzsche, que não vê TV,
que não mata e ressuscita
que não bate continência, resistente,
que não crê, que não é pecado
quero ser atípico num mundo comum
quero o que é meu
o que foi roubado
eu quero sua alma
eu quero é mais
retaliação pras minhas crises, meu universo, meus banhos quentes
se vai engolir sua lama
a lama da qual você criou para que eu me suje enquanto acumula fortuna
o diabo não é pobre
só eu sou pobre em acreditar em seu trabalho digno
nas suas privatizações, indenizações

SEU SORRISO BRANCO
SEU OLHAR BRANCO
SUA MÃO BRANCA
MEU OLHAR AMARELO
MEU SORRIO AMARELO
MINHA PELA AMARELA
DE SUA LAMA.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Akiri Conakri, ou Jhon Conceito, ou Jonatas Santos de Almeida, de Vila Velha ES, um “canela verde” nascido em 1985, estudou Comunicação Social na Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha, e História na Faculdade Saberes, em Vitória, é ator-MC, diretor de eventos, diretor musical, historiador, articulador cultural, compositor, orientador social, apresentador, escritor, poeta e slammer*; escreve desde os dez anos de idade, é fundador do SLAM Botocudos, organizador do SLAM ES e um dos formadores do coletivo Literatura Marginal ES; suas obras: Meus Versos — zine (2013), Só quero viver — O CD: resumo de 14 anos de caminhada no movimento hip hop (rap, samba e poesia falada, 2015), Palavras Mortas (livro/zine, 2016), Depois do Nada (poesia de papelão, 2016), Poesia dá Cadeia (2020), além de projetos literário-poéticos e culturais em escolas, faculdades e outros espaços capixabas.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Countee Cullen: Incidente

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Um dia, quando eu perambulava pelas ruas da velha Baltimore,
O coração aos pulos, a cabeça transtornada de alegria,
Deparou-se-me um baltimoriano
A olhar insistentemente para mim.

Ora, eu tinha oito anos e era muita franzino,
Nosso tamanho, sem tirar nem pôr, era o mesmo;
E vai então e sorri, mas ele estendeu um palmo de língua
E xingou:  Negro!

De maio até dezembro
Vi a Baltimore inteira,
Mas de tudo que por lá aconteceu comigo
Essa é a única lembrança que conservo.

Countee Cullen

Incident

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue and called me, "Nigger."

I saw the whole of Baltimore
       From May until December:
Of all the things that happened there
       That's all that I remember.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Countee Cullen (1903 1946), nascido Countee LeRoy Porter, estadunidense de Louisville [ ? ], Kentucky, viveu desde seus nove anos no Harlem, Nova York, estudou na DeWitt Clinton High Scholl, Bronx, NY, na New York University e na Harward University, foi escritor, poeta, dramaturgo e professor; pertenceu à nova geração de escritores afro-americanos e participou do movimento Harlem Renaissance; colaborou como editor assistente na revista Opportunity, agraciado com uma bolsa Guggenheim pode estudar na França e viveu por um período viajando entre aquele país e os Estados Unidos, foi professor de inglês, francês e redação criativa na Frederick Douglass Junior High School, em Nova York; obras: Color (poesias, 1925), Copper Sun (poesias, 1927), The Ballad of the Brown Girl (poesias, 1928), The Black Christ and Other Poems (1929), One Way to Heaven (romance comédia social, 1932), The Medea and Some Poems (tradução de Medeia, de Eurípedes, e alguns poemas, 1935), The Lost Zoo (poesias literatura juvenil, 1940), My Lives nad How I Lost Them (autobiografia do seu gato, 1942), St. Louis Woman (drama, 1946) e outros textos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Jarid Arraes: Aqualtune

 
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Como filha de um rei
Aqualtune era princesa
Era no reino do Congo
Da mais alta realeza
E na tradição que tinha
Encontrava fortaleza.
Lá no Congo era feliz
De raiz no ancestral
Mas havia outros reinos
Dos quais Congo era rival
E por isso houve guerra
Com desfecho vendaval.
Na disputa dessa guerra
Foi seu povo humilhado
E o reino de seu pai
Foi vendido como escravo
Mais de dez mil lutadores
Igualmente enjaulados
Aqualtune foi vendida
Em escrava transformada
Foi levada para um porto
Onde foi então trocada
Por moeda, por dinheiro
Pruma vida aprisionada.
Acabou num navio negreiro
Que ao Brasil foi viajar
Nos porões do sofrimento
Muito teve que enfrentar:
As doenças e tristezas
E a maldade a transbordar.
Aqualtune com seu povo
Nos porões muito sofreu
Tinham febres e doenças
Pela dor que só cresceu
Era fome e era castigo
Muita gente padeceu.
Foi no Porto de Recife
Que o navio então parou
Quando muito finalmente
No Brasil desembarcou
Aqualtune novamente
Teve alguém que a comprou.
Foi vendida como escrava
Chamada reprodutora
Imagine o pesadelo
Que função mais redutora
Pois seria estuprada
De escravos genitora.
Sua principal função
Seria a de procriar
Estuprada na rotina
Muita dor pra suportar
Imagine uma princesa
Isso tudo enfrentar!
Foi levada a Porto Calvo
Pernambuco, a região
E vivendo como escrava
Enfrentou a solidão
Os castigos e torturas
Do seu corpo a agressão.
Imagine quantos filhos
Aqualtune teve então
Tudo fruto de estupro
Fruto de violação
E ainda eram tomados
No meio dum sopetão.
Mas na vida de tortura
Aqualtune ouviu falar
Sobre a pura resistência
Dos escravos a lutar
E soube de Palmares
O que pode admirar.
Aqualtune se empolgou
Do seu povo quis a luta
E pensou em se juntar
Pra somar nessa labuta
Mesmo estando em gravidez
Ela estava resoluta.
A gravidez já avançada
Não causou impedimento
Aqualtune foi com tudo
Formando esse movimento
De convicta esperança
E com muito entendimento.
Junto com outras pessoas
Negras de muita coragem
Aqualtune fez a fuga
Mesmo com toda voragem
Foi parar em um quilombo
E falou de sua linhagem.
Todos lá reconheceram
Que era ela uma princesa
E por isso concederam
Território e realeza
Para a brava Aqualtune
Coroada de firmeza.
Nos quilombos do Brasil
Era forte a tradição
De manter vivas raízes
Africanas na nação
Aqualtune isso queria
Disso fazia questão.
Mas a sua importância
Muito mais se mostraria
Não se sabe com certeza
Mas pelo que se anuncia
Aqualtune teve um filho
E Ganga Zumba ele seria.
Segundo essa tradição
Foi avó doutro guerreiro
De imensa relevância
Para o negro brasileiro
Era Zumbi dos Palmares
Liderança por inteiro.
Aqualtune, infelizmente
Faleceu numa armação
Planejada por paulistas
Com fim de destruição
Do quilombo de Palmares
E de sua tradição.
Sua aldeia foi queimada
Pelos brancos assassinos
Não se sabe bem a data
Do seu fim e desatino
Mas a sua história viva
Para isso a descortino.
Quando ela faleceu
Bem idosa já estava
Aqualtune sim viveu
Como líder destacava
Essa força feminina
Que a princesa exaltava.
Eu só acho um absurdo
Porque nunca ouvi falar
Na escola ou na tevê
Nunca vi ninguém contar
Sobre a garra de Aqualtune
E o que pôde conquistar.
Uma história como a dela
Deveria ser contada
Em todo livro escolar
Deveria ser lembrada
No teatro e no cinema
Que ela fosse retratada.
Mas eu tive que sozinha
As informações buscar
Foi porque ouvi seu nome
Uma amiga mencionar
E por curiosidade
Fui on-line pesquisar.
A história do meu povo
Nordestino negro forte
É tão rica e importante
É vitória sobre a morte
Pois ainda do passado
Modificam nossa sorte.
Quando penso em Aqualtune
Sinto esse encorajamento
A vontade de enfrentar
De mudar neste momento
Tudo aquilo que é racismo
E plantar conhecimento.

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Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).