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(A Folha, 31 de janeiro de 1920)
Lima Barreto, o romancista admirável de Isaías Caminha, está no Hospício. Boêmio incorrigível,
os desregramentos de vida abateram-lhe o ânimo de tal forma, que se viu
obrigado a ir passar uns dias na praia da Saudade, diante do mar, respirando o
ar puro desse recanto ameno da cidade. Lá está seguramente há um mês. É verdade
que não está maluco, como a princípio se poderá cuidar; apenas um pouco
excitado e combalido. O seu espírito está perfeitamente lúcido, e a prova disso
é que Lima Barreto, apesar do ambiente ser muito pouco propício, tem escrito
muito. Ainda há dias, numa rápida visita que lhe fizemos, tivemos ocasião de
verificar a sua boa disposição e de ouvi-lo sobre os planos de trabalho que
está construindo mentalmente, para realizar depois que se libertar das grades
do manicômio. Lima Barreto apareceu-nos vestindo a roupa de zuarte, usada no
estabelecimento, os cabelos desgrenhados e os dedos sujos de tinta, sinal
evidente de que escrevia no momento em que fora chamado.
— Então, Lima, o que é isso?
— É verdade. Meteram-me aqui para
descansar um pouco. E eu aqui estou satisfeito, pronto a voltar ao mundo.
— Boa, então, esta vidinha?
— Boa, propriamente, não direi: mas,
afinal, a maior, senão a única ventura, consiste na liberdade; o Hospício é uma
prisão como outra qualquer, com grades e guardas severos que mal nos permitem
chegar à janela. Para mim, porém, tem sido útil a estadia nos domínios do
senhor Juliano Moreira. Tenho coligido observações interessantíssimas para
escrever um livro sobre a vida interna dos hospitais de loucos. Leia O cemitério dos vivos. Nessas páginas contarei, com fartura
de pormenores, as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro
destas paredes inexpugnáveis. Tenho visto coisas interessantíssimas.
— Mas, afinal, como vieste para aqui?
— Muito simplesmente. Estando um pouco
excitado, é natural, por certos abusos, resolveu meu irmão que eu necessitava
descanso. E, um belo dia, meteu-me num carro e abalou comigo para cá. Quando verifiquei
onde estava, fiquei indignado. Essa indignação,
pareceu, então aos homens daqui acesso furioso de loucura e o seu amigo foi,
sem mais formalidades, trancafiado num quarto-forte. Aí é que presenciei as
cenas mais engraçadas entre todas as que já me têm sido dado ver. Éramos quatro
dentro de um espaço que mal chegava para um homem se mover com certa liberdade.
Um preto epilético, que tinha ataques horríveis, um mulato de fisionomia má,
que tinha mania de ser mudo, um português, coitado, que resolveu ser cavalo de
tílburi e eu. Logo que entrei, compreendi o perigo de minha situação e procurei
me colocar num canto, bem cosido à parede, para evitar os pontapés, que à guisa
de coices, dava o suposto cavalo de tílburi. O preto epilético, porém, veio em
meu auxílio.
— Você não é aprendiz de marinheiro? — perguntou-me
acolhedor.
E eu, para o não contrariar, respondi logo que sim.
— Eu me lembro de você — acrescentou
ele. — Somos colegas.
Se não fosse esse “colega”, agora não sei onde estaria, o “cavalo”
era fraco, menor e tinha uma predileção especial pelas minhas parcas carnes. De
vez em quando, juntava os pés e — bumba! arrumava um par de coices violentos. O
preto é que intervinha, e, gritando como se fosse cocheiro, obrigava-o a
escoicear as paredes e não a mim. Assim foram as minhas primeiras horas pesadas
neste caso. Depois é que compreenderam que eu não era um maluco e me
libertaram.
— Mas não te reconheceu ninguém?
— Até então, não. Nem eu fiz por isso.
Queria, ao contrário, passar despercebido, para observar melhor e mesmo para
verificar, por experiência própria, a maneira como eram tratados os loucos
desprotegidos e sem dinheiro — que no Hospício também predomina o “pistolão”,
é preciso que se note. Logo que me soltaram, entretanto, deram-me uma vassoura
e mandaram-me varrer o Pavilhão de Observação e, depois, o parque.
E, passivamente me submeti e dei conta do serviço. Foi quando
terminava de varrer o parque, que um pensionista me reconheceu e denunciou. No dia
seguinte me visitava o meu amigo Humberto Gotuzzo e me fazia transferir para a
seção em que eu até agora estou.
— E a companhia, que tal?
— Boa. Onde estou só há inofensivos,
malucos mansos ou menos suspeitos, como eu. Não fazem mal a ninguém, nem se
preocupam uns com a vida dos outros. Há uns “cacetes”, conversadores ou
pedinchões. Querem penas, papel, cigarros — enfim, os “filantes” que existem lá
fora, existem também aqui dentro. Mas são mansos e não fazem mal a ninguém. Pode-se
viver perfeitamente no meio deles.
— Cita aí alguns tipos interessantes dos que
observaste. A título de curiosidade...
— Isso não. Se eu os citar, o livro perderá
o interesse. Essas coisas valem, sobretudo, pela novidade. O que posso
assegurar, no entanto, é que há uns esplêndidos, melhores ainda do que o tal “cavalo
de tílburi”.
— E quando pensas lançar O cemitério dos vivos?
— Não sei. Agora só falta escrever, meter
em forma as observações reunidas. Esse trabalho pretendo encetar logo que saia
daqui, porque aqui não tenho as comodidades que são de desejar para a feitura
de uma obra dessa natureza.
E Lima Barreto, sorrindo, arrancou do bolso um pedaço de
papel:
— Estás vendo? São uns tipos que acabo de
jogar.
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Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos — Lima Barreto, Prefácio de Alfredo Bosi e Organização e Notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta entre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...





