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domingo, 26 de junho de 2016

Pedro Dantas: A Cachorra

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Veio uma angústia de cima
Pelos ombros me agarrou
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.

Mas ainda não satisfeita
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou
Na esquerda tomou um rio
Fogo nas águas soprou
As águas todas do rio
Com seu hálito secou
Levou-me aos cimos mais altos
No ar me imobilizou
Depois em súbitos saltos
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ah nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minh'alma mortificada
Minh'alma perto da morte
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
Perdido o sangue das veias
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ah pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou
Zombou da minha tolice:
"Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."

A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Pedro Dantas, pseudônimo literário de Prudente de Morais Neto ou Francisco de Paula Prudente de Morais (1904 1977), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito, foi jornalista, professor, contista, ensaísta e poeta; teve atuação no Modernismo, lançou e dirigiu a revista Estética (junto com Sérgio Buarque de Holanda), colaborou com os periódicos Terra Roxa, Antropofagia e Revista Nova; lecionou Técnica da Crítica e História Geral da Literatura na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro); Pedro Dantas, um dos principais polemistas do Modernismo, não publicou livros, sua pequena produção poética encontra-se esparsa em jornais e revistas da época.  

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pedro Dantas *: Autocrítica

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Quando romântico
inconformado
era o meu cântico
descabelado.

Sereno esteta
greco-romano
depois fui poeta
parnasiano.

E modernista:
meu verso lírico
mais que realista
já foi homérico.

Hoje, entretanto,
meu verso quero
de sentimento
de toda a gente,

fácil, sem arte,
rude, fatal,
de frases feitas,
como os de Homero,

e com a força
secreta e ardente
dos grandes sambas
de carnaval.

PEDRO DANTAS

* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Pedro Dantas, pseudônimo literário de Prudente de Morais Neto ou Francisco de Paula Prudente de Morais (1904  1977), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito, foi jornalista, professor, contista e poeta bissexto *; teve atuação no Modernismo, lançou e dirigiu a revista Estética (junto com Sérgio Buarque de Holanda), colaborou com os periódicos Terra Roxa, Antropofagia e Revista Nova; lecionou Técnica da Crítica e História Geral da Literatura na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro); Pedro Dantas, um dos principais polemistas do Modernismo, não publicou livros, sua pequena produção poética encontra-se esparsa em jornais e revistas da época.