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sábado, 29 de junho de 2024

Noel de Carvalho: Justiça divina


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Se tudo o que se passa no universo,
Se o mais simples fenômeno da vida
Depende da vontade indiscutida
De um Ser supremo, eterno, incontroverso;

Se Deus, que vive lá nos céus imerso,
Dirige o amor, a lágrima vertida,
A mão que salva e a mão homicida,
De modo agindo, em tudo, tão diverso;

Se Dele nasce a luz, o movimento,
A essência que produz o pensamento
Que cria e elimina em vã porfia,

Trazendo a natureza submissa:
Ou Deus não tem noção do que é justiça
Ou se dá tudo à sua revelia.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Noel de Carvalho (1878 1942), fluminense de Resende, foi tabelião de profissão, poeta e também musicista; por trabalhar desde cedo, pouco estudou em colégios, o que não o impediu de adquirir, por conta própria, “larga cultura, tornando-se bom conhecedor da filosofia positivista”, é o que aponta o publicitário Frederico de Carvalho, seu filho, no estudo literário Um poeta, publicado no Correio da Manhã, sábado, 29 de abril de 1967; Noel de Carvalho chegou a residir em São Paulo e na Guanabara (à época, Distrito Federal e, hoje, Rio de Janeiro); no Rio, foi presidente da Federação Metropolitana de Futebol em duas gestões e, em Resende, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida, há, em sua homenagem, a Escola Municipal Noel de Carvalho; não teve livro publicado.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Noel de Carvalho: Casa de pobre


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Uma casinha pequena
De uma porta e uma janela,
Paredes cor de açucena
E portas cor de canela.
Toda coberta de palha,
Sem postigo e sem vidraça,
O telhado sem cimalha,
Por dentro cor de fumaça.
Uma candeia amassada
Dependurada no esteio,
Uma mesa desconjuntada
Com uma escora no meio.
Um pote velho num canto,
Tendo uma cuia por cima,
Em cada parede um santo
Que por milagres não prima.
Na parede principal
A Santa da Aparecida,
Palhas de milho, o embornal
E a viola emudecida.
Ainda aí se sustenta,
Com muitas mudas de planta,
Um feixe de palma benta
De alguma Semana Santa.
Um tamborete sem pé,
Uma cama sem colchão,
Um coador de café
Quase arrastando no chão.
Uma espingarda de um cano,
De carregar pela boca,
Alguns bicos de tucano,
Uma sanfona já rouca.
Na cozinha uma peneira,
Uma panela sem cabo,
Gamela, chocolateira,
Um cachorrinho sem rabo.
Uns pratos velhos de folha,
Um samburá, um lombilho,
Um garrafão, cuja rolha
É de sabugo de milho.
Um gato magro, rajado,
Dormitando no borralho,
O fogo quase apagado,
Nem sequer um dente d’alho.
No terreiro um galo suro,
Uma galinha no choco,
Pintos ciscando o monturo,
Uma coruja no toco.
Numa sombra, um garnisé
Há pouco estava cantando,
Agora, apoiado a um pé,
Parece que está pensando.
Lá fora uma égua picaça,
Uma potranca alazã,
Uma cabra, um cão de caça,
Um carneirinho sem lã.
Uns vestidinhos de chita
Estão secando na grama,
Ao redor de uns pés de pita,
Um bacorinho na lama.
Por trás, numa verde mata,
Onde canta o passaredo,
Sussurra baixo a cascata,
Como quem conta um segredo.
Nos fundos, junto à cozinha
Corre uma aguinha tão clara
Que vem da grota vizinha
Numa bica de taquara.
Um pé de limão miúdo,
Uns quatro pés de mamão,
Arruda, que cura tudo,
Hortelã, manjericão.
Ao longe passa uma estrada,
Que sobe muito no monte,
Qual fita dependurada
Na beira do horizonte.
Reina silêncio profundo
Nesse cantinho da terra:
Está tão longe do mundo,
Está tão perto da serra...
Nessa casinha tão pobre,
Tão distante da cidade
Quem mora? Vamos, descobre...
Talvez a felicidade.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Noel de Carvalho (1878 1942), fluminense de Resende, foi tabelião de profissão, poeta e também musicista; por trabalhar desde cedo pouco estudou em colégios, o que não o impediu de adquirir, por conta própria, “larga cultura, tornando-se bom conhecedor da filosofia positivista”, é o que aponta o publicitário Frederico de Carvalho, seu filho, no estudo literário Um poeta, publicado no Correio da Manhã, sábado, 29 de abril de 1967; Noel de Carvalho chegou a residir em São Paulo e na Guanabara (à época, Distrito Federal e, hoje, Rio de Janeiro); no Rio, foi presidente da Federação Metropolitana de Futebol em duas gestões e, em Resende, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida, há, em sua homenagem, a Escola Municipal Noel de Carvalho; não teve livro publicado.