domingo, 30 de abril de 2023

Francisca Júlia: Vidas anteriores


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Quando, curva a cabeça, à toa, o passo tardo,
          Por desertas ruas caminho,
À hora crepuscular em que, sob o céu pardo,
Asas se cruzam no ar em demanda do ninho,

E o céu é triste, o ambiente é leve, e as auras puras
Deixam, suspensas no ar, a amargura das notas,
Vêm-me recordações de existências obscuras
Que no sepulcro estão das épocas remotas.

Na Índia vejo-me a ler, sóbrio o gesto e voz clara,
À multidão que escuta o sábio Verbo e o Exemplo,
Preces do Bagavatta e do Vedanta-Sara,
Sob os negros umbrais de um arruinado templo.

Fui chela, fui fakir, fui shaberon; e inda hoje
Minha imaginação, no seu voo altaneiro,
          Desprende-se, ala-se e foge
Para aquelas regiões onde nasci primeiro.

(Esfinges — reedição ampliada, 1920)

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Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.

sábado, 29 de abril de 2023

Martins Fontes: Paulista eu sou há quatrocentos anos!

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Paulista eu sou há quatrocentos anos:
Imortal, indomável, infinita,
Dos mortos de que venho, ressuscita
A alma dos Bandeirantes sobre-humanos.

Tenho o orgulho dos nossos altiplanos.
Tenho a paixão da gleba circunscrita.
Quero morrer, ouvindo a voz bendita
Dos pausados cantares paulistanos.

De minha terra, para minha terra,
Tenho vivido. Meu amor encerra
A adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela, sonho num perpetuo enlevo.
E, incapaz de servi-la quanto devo,
Quero ao menos amá-la quanto posso.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Maria Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de NotíciasO País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Luiz Gama: O moralista*

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E tu, famoso herói, por cuja sábia
Intervenção a igreja se viu livre
Deste cisma nascente, brandos olhos
Corre a lançar-me, e a meu projeto anima,
Mas do assunto, que é sério, não te rias...
(Boileau)

De junho era no mês, por entre névoas
E rosas purpurinas, no poente,
O sol, em áureas chamas, se atufava:
Era dia de festa; era um domingo.

No templo augusto o povo, como proteus,
Sedento de gozar divinas graças,
Em lufados cardumes se engolfava.

Na excelsa catedral de altivas cúpulas,
De dourados relevos molduradas,
Bifranjadas purpúreas bambolinas
Dos marmóreos umbrais pendiam trêmulas.
Soavam pelas vastíssimas abóbodas
Gregorianos cânticos plangentes,
Que a meditar aos crentes convidavam.

Em púlpito elevado, posto à nave,
De estamenha vestido, hircoso frade,
Da classe refinada dos Capuchos,
De joelhos, prostrado, em parêneses,
Do céu, a idéia vã, néscio mentia.
Reluzia-lhe o crânio escabelado,
Descorado flamengo de Provença,
Ou nua de desenho esfera-mundi.

Do brunido carão, avermelhado,
Oleoso suor brotava, em bagas,
Como azeite infiltrado em nova infusa.
Flamífero tição era o nariz,
De alcólicos ardores adornado,
Que, do altivo Himalaia sobre o pico,
Do vasto mundo as trevas devastara.
Nos baios olhos, de candeia em vascas.
Felina raça o cachaçudo atesta;
Orelhas de abanar, pensa a beiçola,
Obeso o ventre, de impinada banza,
Esguias gâmbias, de elevado porte:
Cetáceo humano, roncador de bromas.

Da Ordem os preceitos observando,
Segundo a grã filáucia dos oráculos,
De capuz no cachaço encrapitado,
Camandolas na cinta, a barba hirsuta,
Medindo ao auditório a compostura,
Ergue-se, a pino, obeso e fradalhão.

Ia já do dia a parte vespertina,
D’aure-arroixadas nuvens revestida,
Vagarosa tombando no ocidente;
E, ou fosse por falta de talento,
Ou por vezo de normas corredias,
O nédio Carapanta, ao povo imbecil,
Em linguagem comum do céu falava.

“Meus irmãos! ronca o frade em ré profundo:
“Em nome do Senhor desconhecido
“A verdade vos trago sem contrastes.
“De artimanhas não venho premunido;
“Ardendo em compunção, da fé mais pura
“Trago o peito embebido santamente;
“E ao cintilante lume das estrelas
“A mente depurei para falar-vos.

“Perdido o mundo vai; de queda em queda
“A moral se esboroa, e tíbia tomba
“Dos abismos no seio atra caverna!...
“O pecado seduz, zomba do dogma;
“A rebeldia ousada o colo altivo,
“Com arrojo, alevanta em toda parte;
“Sutil o maçonismo, como a lava,
“Tragando vai Pompéias desta idade;
“Corrompe o ouro vil; as leis corrompem!
“O gládio da justiça poluído

“Faz tremer os concílios; Roma treme!...
“Vacila a santa fé no Vaticano;
“Do Pescador a barca sobre as ondas
“Vanzeia (sic) ao vendaval das heresias!...
“O clero só, irmãos, puro soergue-se,
“Afronta os vícios todos, e derrama,
“Em torrentes de luz, santos milagres!

“Os governos... o apoio nos retiram...
“Nós damos liberdade aos nossos servos;
“Manda Deus o pão nosso aos que vadiam;
“De esmolas nossos cofres regorgitam!...
“Escolas abre o povo em toda parte...
“Nós temos seminários; e sotainas,
“Como chuva, espargimos pelo mundo,
“Onde um homem houver uma samarra
“Há de ser tão somente o seu vestido:
“E, confundindo, assim, as classes todas,
“Teremos devastado a rebeldia.

“A luz, a santa luz da sã verdade
“Há de o orbe acender de amor em chamas;
“Em vez da Inquisição, do sacro lume,
“Serão as nossas línguas labaredas,
“Nossos crânios vulcões, os olhos brasas;
“De lavas transbordando nossos peitos
“Vasto incêndio farão pelo universo!...”

Mas... eis que, de repente, a voz lhe falta,
Ou, no dengue falar dos acadêmicos,
A palavra lhe impede agro caroço”...
Disfarçando parou; pela samarra
A manopla estendendo, vagaroso,
A chumbada boceta pôs de fora;
E, nela, os rombos dedos cabeludos
Foi, de pronto metendo costumeiro.

A tardonha taboca nariz-tromba
Em linha horizontal apropinquando,
Prepara-se a alojar cargas adentro;
E, grunhindo, nas ventas ressonantes,
Clangoroso clarim, entre tambores
A mádida pitada se evapora!

Da narina obducta, encabelada,
Estanque, de granito, e do simonte,
Como a veia da linfa, que desliza
Da sombria floresta pelo solo,
De estioladas folhas tapetado,
Assim, da funda fossa fungadora,
Escuro, lento monco serpeava;
E, a cálida beiçada demandando,
Ia, nela, empecido, abrir lagoa.

Ali, pois, suspendido o pardo fluxo,
E, dele, evaporada a parte aquosa,
Do enrubescido rosto pela ardência,
Do vil tabaco um banco se projeta,
Que, com torvo subsídio, mais se aumenta
Do lábio à orla, em cônica pitomba.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Forceja, embalde, o pregador sanhudo;
Cerrou-se a fauce, palradeira insulsa,
Por ímpia falta da falaz memória!
Tressua, e geme, boquejando, e gago;
Enorme bócio na garganta avulta;
Vermelha máscara, de zarcão borrada,
Supõe-se a cara, de garraio a perros!...

Ao parvo povo, que de ouvi-lo pasma,
Impante afirma, que da arenga o termo
Chegado tinha: Ave Maria implora...

Responde o coro, a resmungar latim:
Cantaram, todos, da parlanda o fim.

São Paulo — julho de 1876

L. Gama

[Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881]


* Nota de Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado (sem assinatura) n’O Polichinello nº 16, 30 de julho de 1876, e, quatro anos mais tarde, reproduzido (com assinatura) no Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881, mesmo volume em que aparece o artigo “Luiz Gama”, de Lúcio de Mendonça [1854 — 1909]. Tomamos por base esta última publicação.
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Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867); tendo sofrido apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Schlegel: Todo homem inculto é a caricatura de si mesmo. [frag. 63] & outros fragmentos.


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[traduzido por Márcio Suzuki]

          [4] Para grande prejuízo da teoria dos gêneros poéticos frequentemente se negligenciam as subdivisões dos gêneros. Assim, a poesia-de-natureza se divide, por exemplo, em natural e artificial, e a poesia popular em poesia popular para o povo e poesia popular para os de boa condição e doutos.
          [29] Achados chistosos são os provérbios dos homens cultos.
          [52] Há um gênero particular de homens nos quais o entusiasmo do tédio é o primeiro excitamento da filosofia.
          [63] Todo homem inculto é a caricatura de si mesmo.
          [69] Já não temos as pantomimas dos antigos. Em compensação, agora toda a poesia é pantomímica.
          [79] A loucura só é diferente da sandice por ser arbitrária como a tolice. Se essa distinção não é válida, então é bastante injusto encarcerar alguns loucos, deixando outros fazer fortuna. Eles só diferem em grau, não em gênero.
          [94] Todo grande filósofo ainda tem explicado, muitas vezes sem intenção, seus predecessores de tal modo que parece que, antes dele, ninguém os entendeu.

[Fragmentos Athenäum]

Friedrich Schlegel

          [4] Zum großen Nachteil der Theorie von den Dichtarten vernachlässigt man oft die Unterabteilungen der Gattungen. So teilt sich zum Beispiel die Naturpoesie in die natürliche und in die künstliche, und die Volkspoesie in die Volkspoesie für das Volk und in die Volkspoesie für Standespersonen und Gelehrte.
          [29] Witzige Einfälle sind die Sprüchwörter der gebildeten Menschen.
          [52] Es gibt eine eigne Gattung Menschen, bei denen die Begeistrung der Langenweile, die erste Regung der Philosophie ist.
          [63] Jeder ungebildete Mensch ist die Karikatur von sich selbst.
          [69] Die Pantomimen der Alten haben wir nicht mehr. Dagegen ist aber die ganze Poesie jetzt pantomimisch.
          [79] Die Narrheit ist bloß dadurch von der Tollheit verschieden, daß sie willkürlich ist wie die Dummheit. Soll dieser Unterschied nicht gelten, so ists sehr ungerecht einige Narren einzusperren, während man andre ihr Glück machen läßt. Beide sind dann nur dem Grade, nicht der Art nach verschieden.
          [94] Immer hat noch jeder große Philosoph seine Vorgänger, oft ohne seine Absicht, so erklärt, daß es schien, als habe man sie vor ihm gar nicht verstanden.

[Athenäums-Fragmente]
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Schlegel — O dialeto dos fragmentos, Tradução, Apresentação e Notas de Márcio Suzuki, com Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1997, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Haroldo de Campos: renga em new york


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(fragmento)

1.
renga em new york: dante e louis zukofsky
estanças de três linhas terza rima
na manhattan de lorca e maiakóvski

quem será a primeira bailarina
nessa cadeia tríplice de estrofes
ouro dançante ou rápida platina?

renga em new york: estrofe e antístrofe
a rima rara a rima peregrina
vodka e rododendros cafre e cofre

café e frutas cítricas citrina
é a cor das nuvens voando para o norte
e o sol se põe: tabaco e purpurina

enquanto a noite pende e o amor desporte
de cínicos conjuga vitaminas
e orgasmos dedirróseos de clitóris

renga em new york: a estrela vespertina
sousândrade desastres astros sorte
e o guesa pára aqui e a luz se fina
[ . . . ]

Crisantempo no espaço curvo nasce um (1998)

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Haroldo de Campos: [Coleção] Ciranda da poesia, Apresentação, Seleção e Notas de Marcos Siscar, 2015, EdUERJ Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro RJ; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; suas obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), A educação dos cinco sentidos (1985), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), Crisantempo no espaço curvo nasce um (1998), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Bocage: Qual novo Orestes entre as Fúrias brada, . . . [soneto]


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Contradições do ateísmo

Qual novo Orestes entre as Fúrias brada,
Infeliz, que não crês no Onipotente,
Com sistema sacrílego desmente
A razão luminosa, a fé sagrada:

Tua bárbara voz iguala ao nada
O que em todas as coisas tens presente;
Basta que o sábio, o justo, o pio, o crente
Louve a mão, contra os maus do raio armada.

Mas vê, blasfemo ateu, vê, monstro horrendo,
Que a bruta opinião, que cego expressas,
A si mesma se está contradizendo:

Pois quando de negar um Deus não cessas,
De tudo o inerte Acaso autor fazendo,
No Acaso, a teu pesar, um Deus confessas!

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Bocage — Sonetos Completos, Primeira Edição, Primeira Impressão, 1989, Editora Núcleo, São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; ao ir para Lisboa (1783), depois de ter se alistado na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Boris Pasternak: Ah, se eu antes soubera desta sina, . . .


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[traduzido por Haroldo de Campos
e Boris Schnaiderman]

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas, assassinas!,
Como um golpe de sangue na traquéia.

Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez 
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.

Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.

Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.

1932

Boris Pasternak

О, знал бы я, что так бывает

О, знал бы я, что так бывает,
Когда пускался на дебют,
Что строчки с кровью убивают,
Нахлынут горлом и убьют!

От шуток с этой подоплекой
Я б отказался наотрез.
Начало было так далеко,
Так робок первый интерес.

Но старость это Рим, который
Взамен турусов и колес
Не читки требует с актера,
А полной гибели всерьез.

Когда строку диктует чувство,
Оно на сцену шлет раба,
И тут кончается искусство,
И дышат почва и судьба.

1932 r.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

domingo, 23 de abril de 2023

Augusto dos Anjos: Senectude precoce

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Envelheci. A cal da sepultura
Caiu por sobre a minha mocidade...
E eu que julgava em minha idealidade
Ver inda toda a geração futura!

Eu que julgava! Pois não é verdade?!
Hoje estou velho. Olha essa neve pura!
Foi saudade? Foi dor? Foi tanta agrura
Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!

Sei que durante toda a travessia
Da minha infância trágica, vivia,
Assim como uma casa abandonada.

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...
Sei que na infância nunca tive auroras,
E afora disto, eu já nem sei mais nada!

[1905]

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sábado, 22 de abril de 2023

José Oiticica: As Sete Portas


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Numa noite sem timbre, de horas mortas
A noite do meu Sono mais sem lume
Eu vi, nas transfixões do meu negrume,
Os fechos de marfim das sete portas.

“Qual é, de vós, a porta do meu nume?”
Clamei, e um grifo azul, de unhas retortas,
Respondeu-me: “Quem és que assim te importas
Com a tua estrada? pensa em ir ao Cume.

Bate e abrir-te-ei!” E eu, com a maciez do susto,
Bati na quarta porta a porta de ouro
E ela abriu-se, rangendo, a muito custo.

E entrei... entrei para este Após medonho
Onde só vejo lá no Sorvedouro,
Um resplendor qualquer que eu chamo Sonho.

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, e da revista A Vida; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Antero de Quental *: Divina Comédia

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Erguendo os braços para o céu distante
e apostrofando os deuses invisíveis,
os homens clamam: Deuses impassíveis,
a quem serve o destino triunfante,

porque é que nos criastes?! Incessante
corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
do nada e do que ainda não existe,
ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
dizem: Homens, por que é que nos criastes?


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca de Antero de Quental: “Em 1865 foi um dos debatedores na Questão Coimbrã, em que se enfrentaram paladinos da escola romântica de Lisboa, capitaneados por Antônio Feliciano de Castilho, e os da escola realista de Coimbra, que Antero liderava, polêmica que só terminou na cidade do Porto com o duelo a espada entre Antero e Ramalho Ortigão. [...] Foi o fundador do Partido Socialista Português. Em 1874 começou a ter sintomas de depressão. Em 1891, de volta aos Açores, já não suportava as contínuas perturbações psíquicas e, em 11 de setembro, às oito horas da noite, num banco defronte ao muro do Convento de Nossa Senhora da Esperança, detonou a arma contra o céu da boca.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada, Açores Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Vielimir Khlébnikov: Neste dia de ursos cerúleos . . .

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[traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

Neste dia de ursos cerúleos
a correr sobre cílios tranquilos
transvejo para além da água azul
o acordar na taça das pupilas.

Na colher de prata de olhos latos
vejo a procelária em mar sonoro
e ao largo vai a Rússia dos pássaros
transvoando entrecílios ignotos.

Marventoso em celamor soçobra
a vela de alguém na azul esfera,
e eis que o desespero tudo engolfa
trovão e porvir de primavera.

1918

Vielimir Khlébnikov

В этот день голубых медведей,
Пробежавших по тихим ресницам,
Я провижу за синей водой
В чаше глаз приказанье проснуться.

На серебряной ложке протянутых глаз
Мне протянуто море и на нем буревестник;
И к шумящему морю, вижу, птичая Русь
Меж ресниц пролетит неизвестных.

Но моряной любес опрокинут
Чей-то парус в воде кругло-синей,
Но зато в безнадежное канут
Первый гром и путь дальше весенний.

[1918]

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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей — 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.