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quarta-feira, 28 de março de 2012

Clarice Lispector: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1)

          Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E aqui estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
          Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
          Lóri olhava o mar, era o que podia fazer. Ele só lhe era delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
          Deviam ser seis horas da manhã. O cão livre hesitava na praia, o cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porquê ele é o mistério2 que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.
          Seu corpo se consola de sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio da madrugada.
          A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto, e agir sem se conhecer exige coragem.
          Vai entrando. A água salgadissima é de um frio que lhe arrepia e agride em ritual as pernas.
          Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seu mais adormecido sono secular.
          E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta, sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto.
          O caminho lento aumenta sua coragem secreta e de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.
          Agora que o corpo todo está molhado e dos cabelos escorre água, agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre as águas do mundo pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual retomado que abandonara há milênios. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.
          E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
          Agora está toda igual a mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal que seca, as ondas lhe batem, lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
          Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que não teme pois que sabe que terá tudo de novo.
          O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer: quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate, volta. A mulher não recebe transmissões nem transmite. Não precisa de comunicação.
          Depois caminha dentro da água de volta à praia, e as ondas empurram-na suavemente ajudando-a a sair. Não está caminhando sobre as águas - ah, nunca faria isso depois que há milênios já haviam andado sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe resistência à sua saída puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
          E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça, nunca poderá perder tudo isso. De algum modo obscuro seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.

(Transcrito de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres,
 romance, Rio de Janeiro, Editora Sabiá, 1969, págs. 82-85
 por Renard Pérez, emAntologia Escolar de Escritores
 Brasileiros de Hoje(ficção), pp. 36-40, Edições de Ouro,
Tecnoprint Gráfica S.A. - Editora, sd, Rio de Janeiro.)

          1. Conferido com Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 2ª ed. Editora Nova Fronteira, 1980, pp. 83-86.
          2. mistério vivo em vez de mistério.
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Antologia de Antologias - prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora, 1996, São Paulo - SP; Clarice Lispector (1920 - 1977), nascida na Ucrânia (na então URSS) e naturalizada brasileira, formada em Direito, foi romancista, contista, cronista, jornalista, redatora e tradutora; em suas obras fez valer recursos técnicos modernos: a análise psicológica, o monólogo interior, etc.; iniciou sua vida literária com a publicação de Perto do Coração Selvagem (romance, 1944), depois vieram O Lustre (romance, 1946), Alguns Contos (contos, 1952), Laços de Família (contos, 1960), A Maçã no Escuro (romance, 1961), A Paixão Segundo G.H. (romance, 1964), A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (romance, 1969) e tantos outros títulos, inclusive de literatura infantil.