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sábado, 16 de maio de 2026

Sylvia Plath: Ovelha na névoa

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Colinas mergulham na brancura.
Estrelas ou pessoas
Me olham com tristeza, desapontadas comigo.

Um fio de hálito fica no caminho.
Ó, lento
Cavalo cor de ferrugem,

Cascos, sinos doendo
A manhã toda
Manhã ainda escurecendo,

Essa flor ao relento.
Meus ossos sentem um sossego, os campos
Distantes dissolvem meu coração.

Eles ameaçam
Me abandonar por um céu
Sem estrelas e órfã, água escura.

Sylvia Plath

Sheep in Fog

The hills step off into whiteness.
People or stars
Regard me sadly, I disappoint them.

The train leaves a line of breath.
O slow
Horse the colour of rust,

Hooves, dolorous bells
All morning the
Morning has been blackening,

A flower left out.
My bones hold a stillness, the far
Fields melt my heart.

They threaten
To let me through to a heaven
Starless and fatherless, a dark water.

2 December 1962 / 28 January 1963
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; viveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Sylvia Plath: Natimorto

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Estes poemas não vivem: triste diagnóstico.
Seus pés e mãos já cresceram o normal,
As testinhas enrugaram, de concentração.
Se não se perdem ou passeiam como gente
Não foi por falta de amor maternal.

Ó, não posso entender o que há com eles!
São exatos em número, forma e partes.
Ficam tão lindos curtindo como picles!
Ficam sorrindo e sorrindo e sorrindo pra mim.
Mas os pulmões não enchem e o coração não bate.

Não são porcos, nem mesmo peixes,
Embora o ar de porco e peixe que os revela
Quem dera fossem vivos, como um dia foram.
Mas estão mortos, e sua mãe quase morta de descaso,
Encaram como estúpidos, e não falam dela.

Sylvia Plath

Stillborn

These poems do not live: it's a sad diagnosis.
They grew their toes and fingers well enough,
Their little foreheads bulged with concentration.
If they missed out on walking about like people
It wasn't for any lack of mother-love.

O I cannot understand what happened to them!
They are proper in shape and number and every part.
They sit so nicely in the pickling fluid!
They smile and smile and smile and smile at me.
And still the lungs won't fill and the heart won't start.

They are not pigs, they are not even fish,
Though they have a piggy and a fishy air
It would be better if they were alive, and that's what they were.
But they are dead, and their mother near dead with distraction,
And they stupidly stare and do not speak of her.
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; viveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

terça-feira, 3 de março de 2026

Sylvia Plath: Rival

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Se a lua sorrisse, teria a sua cara.
Você também deixa a mesma impressão
De algo lindo, mas aniquilante.
Ambos são peritos em roubar a luz alheia.
Nela, a boca aberta se lamenta ao mundo; a sua sincera,

E na primeira chance faz tudo virar pedra.
Acordo num mausoléu; te vejo aqui,
Tamborilando na mesa de mármore, procurando cigarros,
Desconfiado como uma mulher, não tão nervoso assim,
E louco pra dizer algo irrespondível.

A lua, também, humilha seus súditos,
Mas de dia ela é ridícula.
Suas reclamações, por outro lado,
Pousam na caixa do correio com regularidade encantadora,
Brancas e limpas, expansivas como monóxido de carbono.

Nem um dia se passa sem notícias suas,
Vadiando pela África, talvez, mas pensando em mim.

Sylvia Plath

The Rival

If the moon smiled, she would resemble you.
You leave the same impression
Of something beautiful, but annihilating.
Both of you are great light borrowers.
Her O-mouth grieves at the world; yours is unaffected,

And your first gift is making stone out of everything.
I wake to a mausoleum; you are here,
Ticking your fingers on the marble table, looking for cigarettes,
Spiteful as a woman, but not so nervous,
And dying to say something unanswerable.

The moon, too, abuses her subjects,
But in the daytime she is ridiculous.
Your dissatisfactions, on the other hand,
Arrive through the mailslot with loving regularity,
White and blank, expansive as carbon monoxide.

No day is safe from news of you,
Walking about in Africa maybe, but thinking of me.

July 1961
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; viveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Sylvia Plath: Espelho

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

Sylvia Plath

Mirror

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

23 October 1961
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoseille [revista feminina], The LyricGrecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounterviveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito  suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Sylvia Plath: Lesbos

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel 
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha  olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir 
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.

Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.

O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico,
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.

O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.

Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso.
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.

Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."

Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar,
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras.

Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.

Sylvia Plath

Lesbos

Viciousness in the kitchen!
The potatoes hiss.
It is all Hollywood, windowless,
The fluorescent light wincing on and off like a terrible migraine,
Coy paper strips for doors
Stage curtains, a widow’s frizz.
And I, love, am a pathological liar,
And my child look at her, face down on the floor,
Little unstrung puppet, kicking to disappear
Why she is schizophrenic,
Her face is red and white, a panic,
You have stuck her kittens outside your window
In a sort of cement well
Where they crap and puke and cry and she can’t hear.
You say you can’t stand her,
The bastard’s a girl.
You who have blown your tubes like a bad radio
Clear of voices and history, the staticky
Noise of the new.
You say I should drown the kittens. Their smell!
You say I should drown my girl.
She’ll cut her throat at ten if she’s mad at two.
The baby smiles, fat snail,
From the polished lozenges of orange linoleum.
You could eat him. He’s a boy.
You say your husband is just no good to you.
His Jew-Mama guards his sweet sex like a pearl.
You have one baby, I have two.
I should sit on a rock off Cornwall and comb my hair.
I should wear tiger pants, I should have an affair.
We should meet in another life, we should meet in air,
Me and you.

Meanwhile there’s a stink of fat and baby crap.
I’m doped and thick from my last sleeping pill.
The smog of cooking, the smog of hell
Floats our heads, two venemous opposites,
Our bones, our hair.
I call you Orphan, orphan. You are ill.

The sun gives you ulcers, the wind gives you T. B.
Once you were beautiful.
In New York, in Hollywood, the men said: 'Through?
Gee baby, you are rare.'
You acted, acted for the thrill.
The impotent husband slumps out for a coffee.
I try to keep him in,
An old pole for the lightning,
The acid baths, the skyfuls off of you.
He lumps it down the plastic cobbled hill,
Flogged trolley. The sparks are blue.
The blue sparks spill,
Splitting like quartz into a million bits.

O jewel! O valuable!
That night the moon
Dragged its blood bag, sick
Animal
Up over the harbor lights.
And then grew normal,
Hard and apart and white.
The scale-sheen on the sand scared me to death.
We kept picking up handfuls, loving it,
Working it like dough, a mulatto body,
The silk grits.
A dog picked up your doggy husband. He went on.

Now I am silent, hate
Up to my neck,
Thick, thick.
I do not speak.
I am packing the hard potatoes like good clothes,
I am packing the babies,
I am packing the sick cats.
O vase of acid,
It is love you are full of. You know who you hate.
He is hugging his ball and chain down by the gate
That opens to the sea
Where it drives in, white and black,
Then spews it back.
Every day you fill him with soul-stuff, like a pitcher.
You are so exhausted.

Your voice my ear-ring,
Flapping and sucking, blood-loving bat.
That is that. That is that.
You peer from the door,
Sad hag. 'Every woman’s a whore.
I can’t communicate.'

I see your cute décor
Close on you like the fist of a baby
Or an anemone, that sea
Sweetheart, that kleptomaniac.
I am still raw.
I say I may be back.
You know what lies are for.

Even in your Zen heaven we shan’t meet.

18 October 1962
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Sylvia Plath: Canção da manhã

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

O amor te põe pra funcionar, relógio de ouro puro.
A parteira surra suas nádegas, e seu grito nu
Se aninha entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, louvando sua vinda. Estátua nova.
Num museu arejado, sua nudez
Ameaça nossa segurança. Ficamos rodeando, brancos como paredes.

Não sou mais sua mãe
Do que a nuvem que desfaz o espelho que a reflete,
Rabisco lento na mão do vento.

De noite sua respiração corrosiva
Vacila entre rosas lisas. Acordo para ouvir:
Longe, um mar movendo em meus ouvidos.

Um grito, e escorrego da cama, vaca obesa e floral
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A vidraça

Empalidece e suga estrelas sujas. E agora você confere
Suas anotações;
Vogais claras sobem feito balões.

Sylvia Plath

Morning song

Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue.
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I’m no more your mother
Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind’s hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat’s. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Ariel (coleção de poemas, 1965)
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; viveu na Inglaterra desde o seu casamento com o poeta britânico Ted Hughes; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativa de suicídio, a poeta suicidou-se em 11 de fevereiro de 1963.

sábado, 1 de abril de 2023

Arthur Rimbaud: Vidas

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

I

Ó as enormes avenidas do país santo, os terraços do templo! O que foi feito do brâmane que me explicou os Provérbios? Desde então, ainda vejo as velhas de lá! Me lembro das horas de prata e do sol rente aos rios, a mão da campina no meu ombro, de nossas carícias de pé sobre planícies de pimenta. Um bando de pombos escarlates troveja em volta de meu pensamento. Exilado aqui, tive um palco onde encenar as obras-primas dramáticas de todas as literaturas. Eu te mostraria as riquezas inauditas. Observo a história dos tesouros que encontrastes. Eu vejo a seqüência! Minha sabedoria é tão orgulhosa quanto o caos. Que é meu nada, perto do estupor que te espera?

II

Sou um inventor bem mais merecedor do que todos que me antecederam, um músico mesmo, que descobriu algo assim como a clave do amor. Hoje em dia, cavalheiro de uma campina amarga com um céu sóbrio, tento me emocionar com a lembrança da infância mendiga, da aprendizagem ou da chegada em tamancos, polêmicas, das cinco ou seis viuvezas, e de algumas bodas, onde minha cabeça dura me impediu de seguir o diapasão dos camaradas. Não choro mais minha velha porção de alegria divina: o ar sóbrio dessa campina amarga sacia e ativa meu ceticismo atroz. Mas, já que não se pode fazer uso desse ceticismo, e aliás, por estar envolvido num conflito novo, espero virar um louco muito perigoso.

III

Num celeiro aonde me prenderam aos doze anos, conheci o mundo e ilustrei a comédia humana. Numa adega aprendi a história. Em alguma festa de noite, numa cidade do Norte, cruzei todas as mulheres dos pintores antigos. Numa velha passagem de Paris, me ensinaram as ciências clássicas. Numa morada magnífica cercada por todo o Oriente, terminei minha imensa obra e passei meu ilustre retiro. Fermentei meu sangue. Minha dívida foi remida. Nem quero mais pensar nisso. Sou mesmo do além, e nada de mensagens.

Arthur Rimbaud

Vies

I

Ô les énormes avenues du pays saint, les terrasses du temple! Qu'a-t-on fait du brahmane qui m'expliqua les Proverbes? D'alors, de là-bas, je vois encore même les vieilles! Je me souviens des heures d'argent et de soleil vers les fleuves, la main de la campagne sur mon épaule, et de nos caresses debout dans les plaines poivrées. Un envol de pigeons écarlates tonne autour de ma pensée Exilé ici, j'ai eu une scène où jouer les chefs-d'œuvre dramatiques de toutes les littératures. Je vous indiquerais les richesses inouïes. J'observe l'histoire des trésors que vous trouvâtes. Je vois la suite! Ma sagesse est aussi dédaignée que le chaos. Qu'est mon néant, auprès de la stupeur qui vous attend?

II

Je suis un inventeur bien autrement méritant que tous ceux qui m'ont précédé; un musicien même, qui ai trouvé quelque chose comme la clef de l'amour. À présent, gentilhomme d'une campagne aigre au ciel sobre, j'essaye de m'émouvoir au souvenir de l'enfance mendiante, de l'apprentissage ou de l'arrivée en sabots, des polémiques, des cinq ou six veuvages, et quelques noces où ma forte tête m'empêcha de monter au diapason des camarades. Je ne regrette pas ma vieille part de gaîté divine: l'air sobre de cette aigre campagne alimente fort activement mon atroce scepticisme. Mais comme ce scepticisme ne peut désormais être mis en œuvre, et que d'ailleurs je suis dévoué à un trouble nouveau, j'attends de devenir un très méchant fou.

III

Dans un grenier où je fus enfermé à douze ans j'ai connu le monde, j'ai illustré la comédie humaine. Dans un cellier j'ai appris l'histoire. À quelque fête de nuit dans une cité du Nord, j'ai rencontré toutes les femmes des anciens peintres. Dans un vieux passage à Paris on m'a enseigné les sciences classiques. Dans une magnifique demeure cernée par l'Orient entier j'ai accompli mon immense œuvre et passé mon illustre retraite. J'ai brassé mon sang. Mon devoir m'est remis. Il ne faut même plus songer à cela. Je suis réellement d'outre-tombe, et pas de commissions.

(Illuminations, 1873—1875)
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Iluminuras — Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, Tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Arthur Rimbaud: Desfile

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

          Patifes muito duros. Muitos já exploraram vossos mundos. Sem carências, e pouca pressa em aplicar suas brilhantes faculdades e sua experiência de vossas consciências. Que homens maduros! Olhos vidrados como noite de verão, vermelhos e negros, tricolores, aço salpicado de estrelas douradas; faces disformes, plúmbeas, pálidas, em chamas; rouquidões burlescas! A marcha cruel dos ouropéis! —  Alguns são jovens, mas como encarariam Querubim? munidos de vozes medonhas e uns truques perigosos. São enviados amarrados pras cidades, fantasiados com um luxo que dá nojo.
          Oh! O mais violento Paraíso da careta furiosa! Nada comparável a seus Faquires e outra tantas teatrais bufonerias. Em trajes improvisados com sabor de pesadelo, encenam litanias, tragédias de malandros e semideuses cheios de graça, como jamais foram a história ou as religiões. Chineses, Hotentotes, ciganos, otários, hienas, Moloques, velhas demências, demônios sinistros, misturam os modos populares, maternais, com poses e ternuras bestiais. Interpretariam peças novas, canções "para moças". Mestres jograis, eles transformam o lugar e as pessoas, e usam a comédia magnética. Os olhos ardem, o sangue canta, ossos se dilatam, escorrem lágrimas e fitas de carmim. Sua folia ou seu terror dura um minuto, ou meses inteiros.
          Só eu tenho a chave desse desfile selvagem.

Arthur Rimbaud

Parade

          Des drôles très solides. Plusieurs ont exploité vos mondes. Sans besoins, et peu pressés de mettre en œuvre leurs brillantes facultés et leur expérience de vos consciences. Quels hommes mûrs! Des yeux hébétés à la façon de la nuit d'été, rouges et noirs, tricolores, d'acier piqué d'étoiles d'or; des facies déformés, plombés, blêmis, incendiés; des enrouements folâtres! La démarche cruelle des oripeaux1! Il y a quelques jeunes, — comment regarderaient-ils Chérubin2? pourvus de voix effrayantes et de quelques ressources dangereuses. On les envoie prendre du dos3 en ville, affublés d'un luxe dégoûtant.
          Ô le plus violent Paradis de la grimace enragée! Pas de comparaison avec vos Fakirs et les autres bouffonneries scéniques. Dans des costumes improvisés avec le goût du mauvais rêve ils jouent des complaintes, des tragédies de malandrins et de demi-dieux spirituels comme l'histoire ou les religions ne l'ont jamais été. Chinois, Hottentots4, bohémiens, niais, hyènes, Molochs5, vieilles démences, démons sinistres, ils mêlent les tours populaires, maternels, avec les poses et les tendresses bestiales. Ils interpréteraient des pièces nouvelles et des chansons "bonnes filles"6. Maîtres jongleurs, ils transforment le lieu et les personnes et usent de la comédie magnétique. Les yeux flambent, le sang chante, les os s'élargissent, les larmes et des filets rouges ruissellent. Leur raillerie ou leur terreur dure une minute, ou des mois entiers.
          J’ai seul la clef de cette parade7 sauvage.

(Illuminations, 1873—1875)

Notas dos tradutores:
1. Ouropéis. No original, “oripeaux”. Ouropel é uma folha muito fina e lustrosa de latão que imita o ouro; ouro falso, ouro-de-tolo;
2. Chérubin. Personagem de Beaumarchais na peça Le Mariage de Figaro;
3. On les envoie prendre du dos. Em La Vie Étrange de l’Argot (1931). Emile Chautard define a expressão “prend du dos” como “pederastia ativa”. Evidentemente, Rimbaud se utiliza de uma gíria, além de uma multiplicidade de significados: “prend du dos” pode ser “preso pelas costas”, “apanhado à traição”, “pego a laço”;
4. Hottentots. Povo Khoisiano do Sul da África. Pastores nômades cuja língua era baseada numa sucessão de “clicks” dentais-palatais, de cabeça ou do peito. Referência de Rimbaud à obra de Ch. P. Thungerg que narra suas viagens à África do Sul e Japão;
5. Molochs. Deidade a qual se sacrificavam crianças na época da monarquia em Israel;
6. Bonnes files. Esta expressão empregada com aspas por Rimbaud se refere à música “açucarada”, “melosa”;
7. Parade. Parece ser um indício de que Rimbaud trabalhara como intérprete de uma trupe de artistas mambembes alemães. Se isto estiver correto, é provável que Rimbaud ainda continuasse a escrever as Illuminations no período posterior a 1875. Contudo não se pode precisar se o poeta está se referindo a uma parada militar, à chegada de um circo, à vida dos “pícaros” mambembes e ciganos.
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Iluminuras — Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, Tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.