
Que me aguarde, por pena, o mais triste dos fados,
e clamores hostis me sigam pela vida,
que floresçam vulcões nos montes sossegados
e trema de revolta a Terra adormecida…
Que se ergam contra mim os seres indignados
como um quadro dantesco em fúria desmedida,
e que, na própria altura, os astros deslocados
rolem numa sinistra e tremenda descida…
Hei de ser tua um dia e ofertar-te, sem pejo.
vibrante, ébria de amor, à chama de teu beijo,
esta alma virginal que há tanto assim te espera…
E então hei de sentir vaidosa, intensamente,
desabrochar em mim, num delírio crescente,
o instinto de mulher em ânsias de pantera!

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60 Poetas Trágicos —
Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio
Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Carmen Cinira (1902? — 1933),
carioca, nascida Cinira do Carmo Bordini Cardoso, ou Carmen Cardoso Bordini, foi
poeta; por falta de vocação não chegou a concluir seus estudos que a levaria ao
magistério, passando a dedicar-se inteiramente às atividades literárias; consta de
sua bibliografia: Primeiros vôos (1928), Grinalda de Violetas (1929), Sensibilidade
(póstumo, últimos versos, 1934) Crisálidas (póstumo, prefácio de Osório Duque
Estrada, 1935); Carmen Cinira ficou viúva, aos 20 anos, de um jogador de futebol que contraiu tuberculose; a poeta, tendo adquirido a doença do marido por dele ter cuidado, veio a falecer em 30 de agosto de 1933.
