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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

António Lobo de Carvalho: Das tartáreas masmorras o Diabo . . . [soneto]

 
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Soneto CLII

Contra o fanchonismo, que invadindo esta corte,
ameaça convertê-la em outra nova Sodoma.

Das tartáreas masmorras o Diabo
Trouxe nos cornos a brutal punheta;
Jurando aniquilar com mancha e treta
Delícias feminis, por quem me babo:

Corre Lisboa do princípio ao cabo;
Inspira em corja vil que esquive a greta,
Que ao gosto singular da mama e teta
Hoje a mão substitua, a bimba, o rabo:

Lavra o prazer bastardo; eis Madragoa,
Eis Taipas, Cotovia em abandono,
Rara pica nas bordas já se assoa:

E perdeu tanto a voga o pobre cono,
Que até certo taful viu em Lisboa
Um gato sodomita, um cão fanchono!

António Lobo de Carvalho*

* Segundo o ilustrador de O Lobo da Madragoa, de Alberto Pimentel, editado em 1904, um romance misto biográfico e ficcional, onde o autor relata as aventuras e desventuras do poeta português.
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Antologia Pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Organização e Introdução de Alexei Bueno (Coleção Saraiva de Bolso), 2011, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; António Lobo de Carvalho (1730? 1787), português de Guimarães, foi poeta satírico; consta que suas poesias, sátiras implacáveis, quase todas compostas em forma de soneto, provocavam a ira das pessoas atingidas, inclusive a dos próprios mecenas e amigos mais próximos, o que lhe valeram várias vezes a prisão; o Lobo de Madragoa, como era conhecido o poeta, teve sua obra editada por Inocêncio Francisco da Silva, com o título de Poesias Joviaes e Satyricas (1852).

sábado, 4 de dezembro de 2021

António Lobo de Carvalho: Põe-se a toalha, chega-se a bacia, . . . [soneto]

 
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Soneto CLXX

A uma freira, que se fazia sangrar por lenitivo
das comichões que sofria nas antípodas da boca.

Põe-se a toalha, chega-se a bacia,
A lanceta na mão, pé na água quente,
Assustado o barbeiro, e reverente
Para a freira volteado assim dizia:

“Se dá licença vossa senhoria...
Pico?...” Sim, lhe diz ela, e tão valente
Que parecia só estar doente
Por pica lhe faltar naquele dia!

À sangria o barbeiro então se aplica,
E cuidando ao picar a freira morra,
Ela lhe diz valente: “Pica, pica:

E verás nesse sangue quando corra,
Que me fora melhor no que ele indica,
Se um lugar de lanceta fosse porra!”

Antonio Lobo de Carvalho*

* Segundo o ilustrador de O Lobo da Madragoa, de Alberto Pimentel, editado em 1904, um romance misto biográfico e ficcional, onde o autor relata as aventuras e desventuras do poeta português.
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Antologia Pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Organização e Introdução de Alexei Bueno (Coleção Saraiva de Bolso), 2011, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; António Lobo de Carvalho (1730? 1787), português de Guimarães, foi poeta satírico; consta que suas poesias, sátiras implacáveis, quase todas compostas em forma de soneto, provocavam a ira das pessoas atingidas, inclusive a dos próprios mecenas e amigos mais próximos, o que lhe valeram várias vezes a prisão; o Lobo de Madragoa, como era conhecido o poeta, teve sua obra editada por Inocêncio Francisco da Silva, com o título de Poesias Joviaes e Satyricas (1852).

terça-feira, 1 de junho de 2021

Glauco Mattoso: Soneto sobre a morte do Lobo de Madragoa*

 
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1787

Chamado Antonio Lobo de Carvalho,
tornou-se Madragoa pela rua
aonde foi morar, e seu trabalho
tornou a putaria inda mais nua...

Avante de Bocage, nesse galho
ele macaqueou até que sua
má fama o retirasse do borralho
para a cadeia... Alguém o substitua!

Autor de “Poesias joviais”,
o Lobo criticava até demais
os “fanchonos cruéis desenfreados”...

“Já dos fanchonos se acabou a moda”,
alardeava ele, contra a foda
das bichas versejando em altos brados...


* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que Antonio Lobo de Carvalho (1730? — 1787), o Lobo de Madragoa, português de Guimarães, foi poeta satírico e em sua bibliografia constam editadas Poesias Joviais e Satíricas.
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As Mil e Uma Línguas — Série Mattosiana, Volume 3, Glauco Mattoso, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Antonio Lobo de Carvalho: Apenas vês deixada da costura . . . [soneto XXV]

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A João Xavier de Matos, namorando por grosso
 e miúdo quantas mulheres há em Lisboa.

Apenas vês deixada da costura
Por trás da adufa a tímida donzela,
Como um raio, João, com os olhos nela
Lhe encampas reverente uma mesura:

Safa-se a moça, e o pai que porventura
Vem chamar o aguadeiro da janela,
Repara então que a filha se acautela
Dessa tua cismática ternura.

Por amante basbaque a bom capricho
Te aponta ao dedo o ginja furibundo.
Se é que pronta não tem a pá de lixo:

Casa-te, amigo meu, e logra o mundo;
Que é descanso maior ser corno fixo,
Do que andar putanheiro vagabundo.

Antonio Lobo de Carvalho *

* Segundo o ilustrador de O Lobo da Madragoa, de Alberto Pimentel, editado em 1904, um romance misto biográfico e ficcional, onde o autor relata as aventuras e desventuras do poeta português.
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Antologia Pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Organização e Introdução de Alexei Bueno (Coleção Saraiva de Bolso), 2011, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ; Antonio Lobo de Carvalho (1730? 1787), português de Guimarães, foi poeta satírico; consta que suas poesias, sátiras implacáveis, quase todas compostas em forma de soneto, provocavam a ira das pessoas atingidas, inclusive dos próprios mecenas e amigos mais próximos, o que lhe valeram várias vezes a prisão; o Lobo de Madragoa, como era conhecido o poeta, teve sua obra editada por Inocêncio Francisco da Silva, com o título de Poesias Joviaes e Satyricas (1852).

sábado, 16 de julho de 2016

Antonio Lobo de Carvalho: Desde que nasce o sol até que é posto . . . [soneto CLXXXVIII]

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À boa e descansada vida que levam os nossos frades-
pios, digna de inveja por todas as considerações


Desde que nasce o sol até que é posto
Governa o lavrador o curvo arado,
E de anos o soldado carregado
Peleja, quer por força, quer por gosto:

Cristalino suor alaga o rosto
Do barqueiro, do remo calejado;
Do cascavel ao dente envenenado
Anda o rude algodista sempre exposto:

Trabalha o pobre desde a tenra idade;
O destro pescador lanços sacode
Para escapar da fome à atrocidade;

Todos trabalham, pois que ninguém pode
Comer sem trabalhar; somente o frade
Come, bebe, descansa e depois fode.

* Antonio Lobo de Carvalho

* Segundo o ilustrador de O Lobo da Madragoa, de Alberto Pimentel, editado em 1904, um romance misto biográfico e ficcional, onde o autor relata as aventuras e desventuras do poeta português.
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Antologia Pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Organização e Introdução de Alexei Bueno (Coleção Saraiva de Bolso), 2011, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Antonio Lobo de Carvalho (1730?  1787), português de Guimarães, foi poeta satírico; consta que suas poesias, sátiras implacáveis, quase todas compostas em forma de soneto, provocavam a ira das pessoas atingidas, inclusive dos próprios mecenas e amigos mais próximos, o que lhe valeram várias vezes a prisão; o Lobo de Madragoa, como era conhecido o poeta, teve sua obra editada por Inocêncio Francisco da Silva, com o título de Poesias Joviaes e Satyricas (1852).

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Antonio Lobo de Carvalho: Soneto CLXVIII

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Este que vês aqui, formosa dama,
Entre moles testículos pendente,
Já foi em outro tempo raio ardente,
Hoje é pavio que não solta chama:

Este que vês aqui, já foi o Gama
Dos mares onde navega tanta gente;
Hoje é carcaça velha, que somente
Dos estragos que fez conserva a fama:

Este que vês aqui, foi do trabalho
O maior sofredor (quem tal dissera?)
Hoje de amor é lânguido espantalho:

Este que vês aqui, na ardente esfera,
Já foi flor, já foi luz, já foi caralho;
Mas hoje não é já quem dantes era.

António Lobo de Carvalho * 

* Segundo o ilustrador de O Lobo da Madragoa, de Alberto Pimentel, editado em 1904, um romance misto biográfico e ficcional, onde o autor relata as aventuras e desventuras do poeta português.
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Grandes Sonetos da Nossa Língua  Seleção, Organização e breve Prefácio, de José Lino Grünewald, 1987, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ; Antonio Lobo de Carvalho (1730?  1787), português de Guimarães, foi poeta satírico; consta que suas poesias, sátiras implacáveis, quase todas compostas em forma de soneto, provocavam a ira das pessoas atingidas, inclusive dos próprios mecenas e amigos mais próximos, o que lhe valeram várias vezes a prisão; o Lobo de Madragoa, como era conhecido o poeta, teve sua obra editada por Inocêncio Francisco da Silva, com o título de Poesias Joviaes e Satyricas (1852).