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acordar e constatar
que as ilhas não afundaram
que estão fixas as raízes das árvores
que o sol, apesar do escuro nas almas, voltara.
constatar que ainda sei andar
que minhas pernas ainda estão encaixadas
em meu tronco que os meus olhos enxergam
que os meus olhos não se fecharam novamente.
acordar desconfiada até dos lençóis que me cobriam
desconfiada da cor branca, que por pouco se mancha
desconfiada do cheiro desconfiada de sua lisura.
tomar um copo de água do dia anterior e constatar
que isso não restaura nada. desconfiar dos principais
aspectos da água: incolor, inodora, insípida.

50 poemas de revolta (vários autores), 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Laura Liuzzi, carioca, nascida em 1985, é poeta e escritora; bibliografia: Calcanhar (2010), Desalinho (2014) e Coisas (2016); trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho, tendo sido assistente de direção nos filmes ‘Um Dia na Vida’, ‘As Canções’ e ‘Últimas Conversas’; é responsável pelo núcleo de vídeo do Instituto Moreira Salles.