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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Gregório de Matos: O bem que não chegou a ser possuído . . . [soneto]

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Defende-se o bem que faltou nas ânsias do esperado, pelos mesmos consoantes

O bem que não chegou ser possuído
perdido causa tanto sentimento,
que faltando-lhe a causa do tormento
faz ser maior tormento o padecido.
 
Sentir o bem logrado, e já perdido
mágoa será do próprio entendimento:
porém o bem, que perde um pensamento
não o deixa outro bem restituído.
 
Se o logro satisfaz a mesma vida
e depois de logrado fica engano
a falta, que o bem faz em qualquer sorte
 
infalível será ser homicida:
o bem, que sem ser mal motiva o dano,
o mal, que sem ser bem, apressa a morte.

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Poesia Barroca, Antologia  Introdução, Seleção e Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Gregório de Matos: A instabilidade das cousas do mundo

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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.
 
Porém, se acaba o Sol, por que nascia? *
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.



Nota da ediçãoNascia, por nasce, é mera imposição da rima. Spina cita os Lusíadas, I, 90, “Já blasfema da guerra e maldizia / O velho inerte e a mãe que o filho cria”.
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Poesia Barroca, Antologia  Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra  Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical  volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa volume 3, 1930), Satírica (Satirical  volumes 4 e 5, 1930) Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Gregório de Matos: Pequei Senhor, mas não porque hei pecado . . . [soneto]

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(A N. Senhor Jesus Cristo com atos de arrependido e suspiros de amor)

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,Da vossa piedade me despido,Porque quanto mais tenho delinqüido,Vos tenho a perdoar mais empenhado.  Se basta a vos irar tanto um pecado,A abrandar-nos sobeja um só gemido,Que a mesma culpa, que vos há ofendido,Vos tem para o perdão lisonjeado.  Se uma ovelha perdida, e já cobradaGlória tal, e prazer tão repentinovos deu, como afirmais na Sacra História:  Eu sou, Senhor, a ovelha desgarradaCobrai-a, e não queirais, Pastor divino,Perder na vossa ovelha a vossa glória.
- Gregório de Matos (1636 - 1695)
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Cinco Séculos de Poesia — Antologia da Poesia Clássica Brasileira, Seleção, Introdução e Organização de Frederico Barbosa, 2000, Landy Editora, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo volume 1, 1923), Lírica (Lyrical volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa volume 3, 1930), Satírica (Satirical volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

domingo, 21 de setembro de 2014

Gregório de Matos: Aos Caramurus da Bahia

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Um calção de pindoba, a meia zorra,
camisa de urucu, mantéu de arara,
em lugar de cotó, arco, e taquara,
penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, sem temer que morra
o pai, que lho envasou cuma titara,
porém a mãe a pedra lhe aplicara
por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
sem mais leis, que as do gosto, quando erra,
de Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
só sei que deste Adão de Massapé,
procedem os fidalgos desta terra.

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Grandes Sonetos da Nossa Língua — Seleção, Organização e breve Prefácio, de José Lino Grünewald, 1987, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Gregório de Matos Guerra (1636? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933);vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Gregório de Matos: Soneto (Senhor Doutor, muito bem-vindo seja)

Livro: Lirica do Direito Antologia de Versos Juridicos - Miguel ...
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Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado,
 chegando do Rio de Janeiro à cidade da  Bahia,
 recorre o poeta, satirizando um julgador,
que o prendeu por acusar o furto de uma negra,
 a tempo que soltou o ladrão dela.

Senhor Doutor, muito bem-vinda seja
A esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora, e eqüidade,
E letras com que a todos causa inveja.

Seja muito bem-vindo, porque veja
O maior disparate e iniqüidade,
Que se tem feito em uma e outra idade
Desde que há tribunais, e quem os reja.

Que me há de suceder nestas montanhas
Com um ministro em leis tão pouco visto,
Como previsto em trampas e maranhas?
*

É ministro de império, mero e misto, **
Tão Pilatos no corpo e nas entranhas,
Que solta a um Barrabás, e prende a um Cristo
.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,Da vossa piedade me despido,Porque quanto mais tenho delinqüido,Vos tenho a perdoar mais empenhado.  Se basta a vos irar tanto um pecado,A abrandar-nos sobeja um só gemido,Que a mesma culpa, que vos há ofendido,Vos tem para o perdão lisonjeado.  Se uma ovelha perdida, e já cobradaGlória tal, e prazer tão repentinovos deu, como afirmais na Sacra História:  Eu sou, Senhor, a ovelha desgarradaCobrai-a, e não queirais, Pastor divino,Perder na vossa ovelha a vossa glória.
- Gregório de Matos (1636 - 1695)

Trampas e maranhas  anota o Professor José Miguel Wisnik que o desembargador desconhece as leis na mesma proporção em que conhece trampas e maranhas, i.é., enganos e intrigas.
** Império mero e misto  jurisdição que o soberano dá aos magistrados para julgar as controvérsias, e impor pena de morte, confisco de bens, etc.
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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas SP; Gregório de Matos Guerra (1636 ? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do séc. XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa  volume 3, 1930), Satírica (Satirical volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

domingo, 28 de julho de 2013

Gregório de Matos: Carregado de mim ando no mundo, ...

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Segue neste soneto a máxima de bem viver que é envolver-se na confusão dos néscios para passar melhor a vida

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,*
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais que só, sisudo.


* ousadas: James Amado registra ornadas.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Gregório de Matos: Décima (a um livreiro que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre)

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Levou um livreiro a dente
de alface todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
a quem disso o quer taxar;
antes é para notar
que trabalhou como um mouro,
pois meter folhas no couro,
também é encadernar.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Gilmar Carneiro: preços da velhice

Reproduzo o texto "Amor, Doença e Morte - Como lidar com isto?" de Gilmar Carneiro, postado no seu blogue, em 21.01.2013:
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Depois de lermos bons comentários sobre o filme dirigido por Michael Haneke, diretor alemão, fomos ao cinema assistir ao filme AMOR.

Mesmo sendo seção do início da tarde de domingo, ficamos impressionados com a quantidade de gente no cinema. Todos provavelmente estavam com grande expectativa.

A plateia era composta amplamente por pessoas de mais de 50 anos... Todos, como nós, já lidamos com a morte de parente e amigos que estão indo, muitos deles mais jovens do que nós. Daqui para frente, os avisos de morte serão mais frequentes.

Mas, o filme, que segunda a crítica, seria uma homenagem ao amor, também aborda, de forma forte, a EUTANÁSIA, o SUICIDIO e as relações pais e filhos no mundo moderno.

Sei que não é recomendável falar sobre o final do filme, mas achei muito desagradável os críticos fazerem apologias do amor no filme e não falarem nada sobre eutanásia e suicídio. Dois assuntos tão polêmicos.

Antes de mais nada, recomendo a todos que vejam ao filme. É bom em todos os sentidos, principalmente pelo grande desempenho do casal de idosos...

Mas, como todos sabem que sou espírita da teologia da libertação. Mesmo sendo libertário, fiquei preocupado com a quantidade de pessoas idosas, muitas com dificuldades de locomoção, que vão ao cinema em busca de um estímulo e esperança para lidar com a velhice e a solidão, e podem ficar chocadas com a resposta ser a eutanásia e o suicídio.

É evidente que, para os ateus, que não acreditam em nada após a morte, a solução do filme é bastante pertinente e simples. Evita-se o sofrimento, como nas civilizações antigas ou mesmo em Esparta na velha Grécia.

Há um filme antigo japonês, muito bonito, chamado "Balada de Narayama”, que também aborta a questão da velhice e da morte, numa sociedade de escassez, como era o Japão na época. Já vi filmes sobre a África onde os velhos doentes eram abandonados à noite para as hienas. Literalmente....

Como estou ficando velho, chegando aos 60 anos, meus pais estão com 89 e ainda estão vivos, considerei que seria importante compartilhar estas questões com os amigos.

O mundo atual, com tanta medicina, plano de saúde, legislação sobre terceira idade, precisa lidar com vida afetiva até os 100 anos de idade, saúde de idosos, companhias para os idosos, e principalmente afeto e amor familiar.

Se não garantirmos estes benefícios, os velhos se transformarão em fardos para os filhos e para a comunidade, inclusive o erário público. E a saída para eles, os filhos e os poderes públicos, será estimular a eutanásia e o suicídio. Será mais barato e não ficarão com sentimento de culpa.

A gente pode ter direito a tudo, mas não podemos deixar de refletir sobre estas questões. Sem demagogia barata, sem dogmatismo, sem ceticismo e sem consideração por quem vai ao cinema, em busca de esperanças.

Como vocês estão vendo, o filme mexeu comigo...
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Gilmar Carneiro pilota o blogue www.gilmarcarneiro.com

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Define a sua cidade

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          Mote

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.


          Glosa

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o
furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B A H I A,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.


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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923),  Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última —  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.