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sábado, 14 de dezembro de 2024

Ernani Vieira: Tapuia

 
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Eis-me, brandindo, alígero, o tacape,
por defender-te dos Aventureiros,
sem que haja um só, por mais revel, que escape
dos meus botes fatais como certeiros.

Eis-me, Tapuia! E por que a clave empape
no sangue dos cobardes, dos traiçoeiros,
nem mesmo encontre aquele que desguape*
este porte que é bem dos Brasileiros...

Que, pois, a vida e o teu amor percorram
meu sangue heróico, dos Barés oriundo,
e todos quantos te desejam morram!

Porque, Tapuia, no final conluio
do teu afeto, afrontarei o Mundo
com a força e a graça do Varão Tapuio!...

* Nota do Organizador e Autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: Nota do Verso 7 — [O dicionário] Aurélio não registra "desguapar", mas "desguampar": — Bras. RS. Tirar as guampas ou cornos de (a rês), serrando-os ou usando de outro meio, para lhe permitir maior desenvolvimento físico.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ernani Vieira (1896 1938), amazonense e manauara, não cumpriu o ciclo inicial do ensino formal (frequentou por alguns meses a escola primária de Fortaleza — CE, depois, mudando-se com os pais para Abaeté, hoje Abaetetuba PA, aos 8 anos de idade foi matriculado em escola primária, em pouquíssimo tempo se indispôs com o diretor e negou-se a continuar comparecendo ao banco escolar ali, e, na impossibilidade de frequentar outro estabelecimento de ensino, compulsoriamente tornou-se autodidata), foi tipógrafo e poeta; aprendeu conhecimentos de leitura e escrita, com seus livros, em uma pequena tipografia do pai, proprietário do semanário O Comércio; de seus traços biográficos, no relato de Rodrigues Pinagé, da Academia Paraense de Letras, consta que foi “nos caixotins da modesta tipografia que Ernani se fez conhecedor dos primeiros rudimentos gramaticais, cujas questões analisava com sabedoria precoce.”; em 1910, de mudança para Recife PE (ele e suas duas irmãs), a convite de um seu tio que passou a ampará-los, Ernani empregou-se como tipógrafo em um jornal recifense, no qual trabalhou “quotidianamente em suas edições matutina e vespertina”; em 1913, Ernani Vieira, “abatido por insidiosa moléstia” a lepra, uma doença infectocontagiosa crônica , foi forçado a retornar definitivamente para Belém, e ali se isolou, passando “a morar em quartos separados nas chamadas ‘Repúblicas’” da capital paraense e seu convívio no lar, com os pais, só se dava nas refeições; nas palavras de Vasco de Castro Lima, organizador e autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto, “Ernani Vieira é considerado um perfeito imitador do estilo científico de Augusto dos Anjos, como se pode aquilatar pelos seus dois fortes sonetos Dentro da Cidade da Lepra e Dona Tuberculosa.”; suas obras: em poesia: Ritornelos (1919), Barquinhos de Papel (1926), De Picareta e Pá e Dona Filosofia (ambos em 1928), Para Você, Dona Cidade, Toca de Fel e Cano de Esgoto (todos em 1929), Poema dos Canoeiros do Pará (1932), em prosa: Iza (romance, 1929), para teatro: Sangue Português (drama em 3 atos, 1926) e Purriba di Muá (comédia em 1 ato), e outros títulos; faleceu num leprosário, em Belém PA, no dia 30 de maio de 1938.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Ernani Vieira: Página íntima

 
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Meus pobres barcos de papel... Um dia
eu deixei de os fazer... Um velho sino
no meio ambiente em lágrimas  dizia
do "Resquiescat in Pace" de um Destino...

Era defunta minha Mãe... Menino,
inconsciente da dor que me feria,
eu sofri na canção do velho sino,
não sabendo, entretanto, o que sofria...

Hoje, Homem-Poeta, gôndola sem Norte,
sofro o Inverno, ora ríspido, ora brando,
e me ponho a pensar naquela morte...

Minha Mãe! E do Inverno na investida,
do Céu adoro as lágrimas chorando
minha Mãe... meus barquinhos... minha vida!...
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ernani Vieira (1896 1938), amazonense e manauara, não cumpriu o ciclo inicial do ensino formal (frequentou por alguns meses a escola primária de Fortaleza CE, depois, mudando-se com os pais para Abaeté, hoje Abaetetuba PA, aos 8 anos de idade foi matriculado em escola primária, em pouquíssimo tempo se indispôs com o diretor e negou-se a continuar comparecendo ao banco escolar ali, e, na impossibilidade de frequentar outro estabelecimento de ensino, compulsoriamente tornou-se autodidata), foi tipógrafo e poeta; aprendeu conhecimentos de leitura e escrita, com seus livros, em uma pequena tipografia do pai, proprietário do semanário O Comércio; de seus traços biográficos, no relato de Rodrigues Pinagé, da Academia Paraense de Letras, consta que foi “nos caixotins da modesta tipografia que Ernani se fez conhecedor dos primeiros rudimentos gramaticais, cujas questões analisava com sabedoria precoce.”; em 1910, de mudança para Recife PE (ele e suas duas irmãs), a convite de um seu tio que passou a ampará-los, Ernani empregou-se como tipógrafo em um jornal recifense, no qual trabalhou “quotidianamente em suas edições matutina e vespertina”; em 1913, Ernani Vieira, “abatido por insidiosa moléstia” a lepra, uma doença infectocontagiosa crônica , foi forçado a retornar definitivamente para Belém, e ali se isolou, passando “a morar em quartos separados nas chamadas ‘Repúblicas’” da capital paraense e seu convívio no lar, com os pais, só se dava nas refeições; nas palavras de Vasco de Castro Lima, organizador e autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto, “Ernani Vieira é considerado um perfeito imitador do estilo científico de Augusto dos Anjos, como se pode aquilatar pelos seus dois fortes sonetos Dentro da Cidade da Lepra e Dona Tuberculosa.”; suas obras: em poesia: Ritornelos (1919), Barquinhos de Papel (1926), De Picareta e Pá e Dona Filosofia (ambos em 1928), Para Você, Dona Cidade, Toca de Fel e Cano de Esgoto (todos em 1929), Poema dos Canoeiros do Pará (1932), em prosa: Iza (romance, 1929), para teatro: Sangue Português (drama em 3 atos, 1926) e Purriba di Muá (comédia em 1 ato), e outros títulos; faleceu num leprosário, em Belém PA, no dia 30 de maio de 1938.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Ernani Vieira: Dentro da Cidade da Lepra & Dona Tuberculosa

 
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Dentro da Cidade da Lepra

Chagas e chagas... Pestilência... Sangue...
Homens, mulheres, crianças... Meus irmãos...
E, sobretudo, a circunstância exangue
de todos todos! terem sido sãos!

Uns, com o rosto disforme... Outros, sem mãos...
Muitos, sem pés ou sem nariz... E, langue,
vagos vislumbres de vigores vãos,
no escapamento atro e fatal do sangue...

E a Ciência é vaga... E a Medicina é vaga,
diante da solução desse Problema
da cicatrização de tanta chaga!

E em meio a mudos desesperos e ais,
vibra a Promiscuidade como esquema,
e os "menos" doentes vão ficando "mais"!...


Dona Tuberculosa

Surge, esgalga e serena, e vai, de par em par,
com a sua Tosse (o seu Presente e o seu Porvir!) ,
os brônquios a tossir, cansados de sangrar...
a garganta a sangrar, cansada de tossir!

É tão calma, entretanto, e linda, e singular,
(Messalina do Nada à espera de um Vizir),
que seus olhos, assim, não cansam de sonhar,
que seus lábios, assim, não cansam de sorrir!...

Tão nova! E tem no peito a Velhice Precoce,
que é de quem filosofa e sabe não ter queixa,
pela Resignação da Lógica da Tosse...

Dona Tuberculosa!... E lá prossegue, louca,
em procura da Vida a mesma que ela deixa
para trás , que lhe foge... aos poucos... pela boca...
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ernani Vieira (1896 1938), amazonense e manauara, não cumpriu o ciclo inicial do ensino formal (frequentou por alguns meses a escola primária de Fortaleza CE, depois, mudando-se com os pais para Abaeté, hoje Abaetetuba PA, aos 8 anos de idade foi matriculado em escola primária, em pouquíssimo tempo se indispôs com o diretor e negou-se a continuar comparecendo ao banco escolar ali, e, na impossibilidade de frequentar outro estabelecimento de ensino, compulsoriamente tornou-se autodidata), foi tipógrafo e poeta; aprendeu conhecimentos de leitura e escrita, com seus livros, em uma pequena tipografia do pai, proprietário do semanário O Comércio; de seus traços biográficos, no relato de Rodrigues Pinagé, da Academia Paraense de Letras, consta que foi “nos caixotins da modesta tipografia que Ernani se fez conhecedor dos primeiros rudimentos gramaticais, cujas questões analisava com sabedoria precoce.”; em 1910, de mudança para Recife PE (ele e suas duas irmãs), a convite de um seu tio que passou a ampará-los, Ernani empregou-se como tipógrafo em um jornal recifense, no qual trabalhou “quotidianamente em suas edições matutina e vespertina”; em 1913, Ernani Vieira, “abatido por insidiosa moléstia” a lepra, uma doença infectocontagiosa crônica , foi forçado a retornar definitivamente para Belém, e ali se isolou, passando “a morar em quartos separados nas chamadas ‘Repúblicas’” da capital paraense e seu convívio no lar, com os pais, só se dava nas refeições; nas palavras de Vasco de Castro Lima, organizador e autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto, “Ernani Vieira é considerado um perfeito imitador do estilo científico de Augusto dos Anjos, como se pode aquilatar pelos seus dois fortes sonetos Dentro da Cidade da Lepra e Dona Tuberculosa.”; suas obras: em poesia: Ritornelos (1919), Barquinhos de Papel (1926), De Picareta e Pá e Dona Filosofia (ambos em 1928), Para Você, Dona Cidade, Toca de Fel e Cano de Esgoto (todos em 1929), Poema dos Canoeiros do Pará (1932), em prosa: Iza (romance, 1929), para teatro: Sangue Português (drama em 3 atos, 1926) e Purriba di Muá (comédia em 1 ato), e outros títulos; faleceu num leprosário, em Belém PA, no dia 30 de maio de 1938.