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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Óssip Mandelstam: odeio o brilho frio

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Odeio o brilho frio
Das estrelas iguais
Salve, alto desvario
Das torres ogivais!

Pedra, muda-te em véu
Ou transforma-te em teia!
No peito azul do céu
A agulha aguda alteia!

O vôo é minha meta,
Uma asa em mim se estira.
Mas a que alvo a seta
Do pensamento mira?

Quando a hora já se for,
Talvez eu volte a voar.
Lá, me negam o amor.
Aqui, não ouso amar.

1912

Óssip Mandelstam

Я ненавижу свет...

Я ненавижу свет
Однообразных звезд.
Здравствуй, мой давний бред,
Башни стрельчатый рост!

Кружевом, камень, будь
И паутиной стань,
Неба пустую грудь
Тонкой иглою рань!

Будет и мой черед
Чую размах крыла.
Так но куда уйдет
Мысли живой стрела?

Или свой путь и срок
Я, исчерпав, вернусь:
Там я любить не мог,
Здесь я любить боюсь...

1912
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

domingo, 8 de agosto de 2021

óssip mandelstam: silentium

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Ainda não é nascida,
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.

O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.

Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!

Volve à poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com a vida coabite!

[1910]

Óssip Mandestam

Silentium

Она еще не родилась,
Она и музыка и слово,
И потому всего живого
Ненарушаемая связь.

Спокойно дышат моря груди,
Но, как безумный, светел день,
И пены бледная сирень
В черно-лазоревом сосуде.

Да обретут мои уста
Первоначальную немоту,
Как кристаллическую ноту,
Что от рождения чиста!

Останься пеной, Афродита,
И слово в музыку вернись,
И сердце сердца устыдись,
С первоосновой жизни слито!

[1910 г.]
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Óssip Mandelstam: A concha

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem pérola, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazerás a seu lado pela areia
E pouco faltará para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
À sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
A pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

1911

Óssip Mandelstam

Раковина

Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.

Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь,
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.

Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей,

И хрупкой раковины стены,
Как нежилого сердца дом,
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем…

1911
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

domingo, 13 de junho de 2021

óssip mandelstam: o som *

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

o
som
seco
e
surdo
desta

fruta
cain
do

no
mur
múr
io
sem
fim
do

oco
silêncio
da   flor
esta

[1908]

Óssip Mandelstam

Звук осторожный и глухой...

Звук осторожный и глухой
Плода, сорвавшегося с древа,
Среди немолчного напева
Глубокой тишины лесной...

(1908 г.)

Nota do tradutor Augusto de Campos: intradução: o som (mandelstam)
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Óssip Mandelstam: Cassino

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[traduzido por Augusto de Campos]

Não gosto de prazer premeditado.
O mundo, às vezes, é um borrão escuro.
Eu, meio bêbado, estou condenado
A ver as cores de um viver obscuro.

O vento brinca e às nuvens descabela.
A âncora cai no fundo do oceano.
E inanimada, como numa tela,
A alma pende sobre o abismo insano.

Mas amo estar nas dunas do cassino,
A larga vista da janela baça,
Um fio de luz na toalha que desbota,

À minha volta o mar verde-citrino,
Vinho, como uma rosa, em minha taça
E eu a seguir o voo da gaivota.

1912

Óssip Mandelstam

Казино

Я не поклонник радости предвзятой,
Подчас природа серое пятно.
Мне, в опьяненьи легком, суждено
Изведать краски жизни небогатой.

Играет ветер тучею косматой,
Ложится якорь на морское дно,
И бездыханная, как полотно,
Душа висит над бездною проклятой.

Но я люблю на дюнах казино,
Широкий вид в туманное окно
И тонкий луч на скатерти измятой;

И, окружен водой зеленоватой,
Когда, как роза, в хрустале вино,
Люблю следить за чайкою крылатой!

1912
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; suas obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

óssip mandelstam: Liberta-me, libera-me, Vorôniej* . . . & etc.

 
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dos “cadernos de vorôniej”

[traduzido por Augusto de Campos]

1

Liberta-me, libera-me, Vorôniej*
Devolve-me ou devora-me em teu sorvo, 
Desinverna-me ou vara-me de nojo 
Voraz neve, Vorôniej  dente, corvo!

(Vorôniej, abril de 1935)

2

Como pedra do céu, na terra, um dia,
Um verso condenado caiu, sem pai, sem lar;
Inexorável, a invenção da poesia
Não pode ser mudada, e ninguém a irá julgar.

(Vorôniej, 20 de janeiro de 1937)

3

O que lutou contra o óxido e o bolor,
Qual prata feminina se incendeia,
E o trabalho silencioso prateia
O arado de ferro e a voz do inventor.

(Vorôniej, 1937)

Óssip Mandelstam

[1]

Пусти меня, отдай меня, Воронеж: . . .

Пусти меня, отдай меня, Воронеж:
Уронишь ты меня иль проворонишь,
Ты выронишь меня или вернешь, 
Воронеж  блажь, Воронеж  ворон, нож...

([Воро́неж] Апрель 1935 [r.])

[2]

Как землю где-нибудь небесный камень будит, . . .

Как землю где-нибудь небесный камень будит,
Упал опальный стих, не знающий отца.
Неумолимое  находка для творца 
Не может быть другим, никто его не судит.

(Воро́неж, 20 января 1937)

[3]

Как женственное серебро горит, . . .

Как женственное серебро горит,
Что с окисью и примесью боролось,
И тихая работа серебрит
Железный плуг и песнотворца голос.

(Воро́неж, [Начало] 1937)

* Nota do tradutor Augusto de Campos: Vorôniej: cidade em que Mandelstam foi confinado, entre 1934 e 1937, por ordem de Stálin.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; bibliografia: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Óssip Mandelstam: Vivemos sem sentir o chão nos pés . . .

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Vivemos sem sentir o chão nos pés,
A dez passos não se ouve a nossa voz.

Uma palavra a mais e o montanhez
Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.

Seus dedos grossos são vermes obesos.
Suas palavras caem como pesos.

Baratas, seus bigodes dão risotas.
Brilham como um espelho as suas botas.

Cercado de um magote subserviente,
Brinca de gato com essa subgente.

Um mia, outro assobia, um outro geme,
Somente ele troveja e tudo treme.

Forja decretos como ferraduras:
Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!

Frui as sentenças como framboesas.
O amigo Urso abraça suas presas.*

[Novembro de 1933]

Óssip Mandelstam

Мы живем, под собою не чуя страны...

Мы живем, под собою не чуя страны,
Наши речи за десять шагов не слышны
А где хватит на полразговорца,
Там припомнят кремлёвского горца.
Его толстые пальцы, как черви, жирны,
А слова, как пудовые гири, верны,
Тараканьи смеются усища,
И сияют его голенища.

А вокруг него сброд тонкошеих вождей,
Он играет услугами полулюдей.
Кто свистит, кто мяучит, кто хнычет,
Он один лишь бабачит и тычет,
Как подкову, кует за указом указ:
Кому в пах, кому в лоб, кому в бровь, кому в глаз.
Что ни казнь у него  то малина
И широкая грудь осетина.

Ноябрь 1933

* Nota do tradutor Augusto de Campos: A tradução literal desta última linha equivale a: “O largo peito do ossétio” (cidadão de Ossétia, da Geórgia, região de origem de Stálin). Variante: “Um abraço de Ossétia às suas presas.”
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; suas obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.