segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Marina Sabina: Marinha

 
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Quando, na beira azul do Oceano infindo,
entre o coral e a concha nacarada,
pela primeira vez viste, sorrindo,
dos meus olhos a luz vaga e magoada;

tua tranqüilidade foi fugindo;
ficavas pensativo na amurada
e eu, presa ao teu olhar, num sonho lindo,
à meia voz cantava uma balada...

Depois, tu me esqueceste. E sobre a praia,
quando, ante o Oceano esplêndido e infinito,
vejo a espuma ligeira que se espraia,

fico a cismar, no sonho que me enleia,
que eu gravei o teu nome no granito,
que escreveste o meu nome sobre a areia...

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Maria Sabina de Albuquerque (1898 1991), mineira de Barbacena, doutora em Letras Inglesas pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi professora, jornalista, poetisa e feminista atuante; lecionou inglês, francês, literatura universal, arte poética e oratória, escreveu e publicou, Na Penumbra do Sonho (poesia, 1921), Água Dormente (poesia, 1925), Alma Tropical (contos, 1928), O País sem Caminhos (poesia, 1931), Entusiasmo (poesia, 1ª edição em 1938), Adolpho Lutz (biografia), e outros títulos.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Laurindo Rabelo: A Romã*

 
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Entre as frutas que há no mundo
Não há uma fruta irmã
Na beleza e na doçura
Da que se chamou romã.

Tem coroa de rainha,
Rósea cor na casca tem,
Quando racha me retrata
A boquinha de meu bem.

Pela vez primeira vi,
Num jardim, pela manhã,
O meu bem, que em vez de flores,
Me trazia uma romã...

Consentiu, pra que eu sentisse,
Desse seu fruto a doçura,
Que eu pusesse a mão no pomo,
A boca na rachadura


* Nota do Organizador Fábio Frohwein de Salles Moniz [com acréscimo deste Verso e Conversa]: In: Melo Moraes Filho, Alexandre José de. Serenatas e Saraus. Rio de Janeiro & Paris: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1902, V. 3, p. 262; o atrevido aprendiz de blogueiro desta página complementa que Fábio Frohwein, na Apresentação deste Laurindo Rabelo — Série Essencial, relata que A Romã é um lundu [canção] e integra o grupo de poemas de Laurindo: “Trata-se, na verdade, de letras de canções, que, antes de ser publicadas, circulavam na tradição oral de cantadores ao acompanhamento do violão ou piano, apresentando consequentemente variações. Como Laurindo não publicou nenhum lundu [ . . . ] em Trovas, ou em sua reedição, é praticamente impossível discernir qual variação estaria de acordo com a chamada ‘vontade do autor’.
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Laurindo Rabelo — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação, Notícia Biográfica e Notas de Fábio Frohwein de Salles Moniz, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia, Português, Latim e Francês e poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

José Paulo Paes: Barriga cheia & Metamorfose

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Barriga cheia

Olha lá
o tamanduá
tomando ar!

Sua língua comprida
entra feito lombriga
no formigueiro
para comer formiga.

Olha lá, olha lá!
Quem disse que formiga
não enche barriga
de tamanduá?

Metamorfose

Me responda você
que parece um sabichão:

Se lagarta vira borboleta
por que trem não vira avião?

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Casimiro de Abreu: Na Estrada

 
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Cena contemporânea

Eu vi o pobre velho esfarrapado
Cabeça branca sentado pensativo
Dum carvalho ao pé;
Esmolava na pedra dum caminho,
Sem família, sem pão, sem lar, sem ninho,
E rico só de fé!

Era de tarde; ao toque do mosteiro
Seu lábio a murmurar rezava baixo,
Ao lado o seu bordão;
E o sol, no raio extremo, lhe dourava
Sobre a fronte senil a dupla c’roa
De pobre e de ancião!

E o homem de metal vinha sorrindo
Contando ao companheiro os gordos lucros
Na usura de judeus;
O mendigo estendeu a mão mirrada,
E pediu-lhe na voz entrecortada:
Uma esmola, por Deus!

O homem de metal embevecido
Em sonhos de milhões, por junto à pedra
Sem responder, passou!
O pobre recolheu a mão vazia…
O anjo tutelar velou seu rosto
Mas Satanás folgou!

(Rio — 1858)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Eduardo de Oliveira: Banzo

 
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Ao meu irmão Patrice Lumumba

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Trago em meu corpo a marca das chibatas
como rubros degraus feitos de carne
pelos quais as carretas do progresso
iam buscar as brenhas do futuro.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu vi nascer mil civilizações
erguidas pelos meus potentes braços;
mil chicotes abriram na minh'alma
um deserto de dor e de descrença
anunciando as tragédias de Lumumba.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Do fundo das senzalas de outros tempos
se levanta o clamor dos meus avós
que tiveram seus sonhos esmagados
sob o peso de cangas e libambos
amando, ao longe, o sol das liberdades.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Eu sinto a mesma angústia, o mesmo banzo
que encheram, tristes, os mares de outros séculos,
por isso é que ainda escuto o som do jongo
que fazia dançar os mil mocambos...
e que ainda hoje percutem nestas plagas.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.
Balouça sobre mim, sinistro pêndulo
que marca as incertezas do futuro
enquanto que me atiram nas enxergas
aqueles que ainda ontem exploravam
o suor, o sangue nosso e a nossa força.

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d'África
pendurado na noite do meu povo.

Banzo 1965 [2ª edição]

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Góngora: Acredita a esperança com histórias sagradas

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

165 1623

Quantos mais ferros me forjar o fado
a esta esperança, tantos oprimido
arrastarei cantando, e seu ruído
instrumento a esta voz será ajustado.

Jovem mal pela inveja perdoado,
e tarde da corrente redimido,
por quem, não adorado, foi vendido,
por havê-lo vendido, foi adorado.

Que pedra foi oposta ao soberano
poder, mesmo marcada de real selo,
que o remédio frustrasse do que espera?

Conduzido alimenta, de um cabelo,
um a outro profeta. Nunca insano
foi o esperar, mesmo entre tanta fera.


Acredita la esperanza com historias sagradas

165 — 1623

Cuantos forjare más hierros el hado
a mi esperanza, tantos oprimido
arrastraré cantando, y su ruido
instrumento a mi voz será acordado.

Joven mal de la invidia perdonado,
de la cadena tarde redimido,
de quien por no adorarle fué vendido,
por haberle vendido fué adorado.

¿Qué piedra se le opuso al soberano
poder, calificada aun de real sello,
que el remedio frustrase del que espera?

Conducido alimenta, de un cabello,
uno a otro profeta. Nunca en vano
fué el esperar, aun entre tanta fiera.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Há no soneto alusões às histórias, no mínimo, de José e Daniel.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Sully-Prudhomme: A Louca

 
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[traduzido por Raimundo Correia]

Dia e noite ela errava a ver quem descobria
A flor que vira acaso, um dia, na Alemanha;
Pequena e débil flor, flor como as da montanha,
De um perfume esquisito e de uma cor sombria;

Das viagens que fez, trouxe a melancolia
E o incurável pungir dessa lembrança estranha;
Certo encanto mortal, sem dúvida, acompanha
A flor que na Alemanha, acaso, vira um dia.

Quem porventura, o odor lhe aspira ao cálice, sente
Um novo mundo n’alma, abrir-se de repente
Dizia ela a morrer, saudosa desse odor.

Por ela muita gente a planta em vão buscara;
Mas a Alemanha é grande e aquela flor é rara,
E a louca morre, enfim, sem ver de novo a flor.

Sully-Prudhomme

La folle

Errante, elle demande aux enfants d'alentour
Une fleur qu'elle a vue un jour en Allemagne,
Frêle, petite et sombre, une fleur de montagne.
Au parfum pénétrant comme un aveu d'amour.

Elle a fait ce voyage, et depuis son retour
L'incurable langueur du souvenir la gagne:
Sans doute un charme étrange et mortel accompagne
Cette fleur qu'elle a vue en Allemagne un jour.

Elle dit qu'en baisant la corolle on devine
Un autre monde, un ciel, à son odeur divine,
Qu'on y sent l'âme heureuse et chère de quelqu'un.

Plusieurs s'en vont chercher la fleur qu'elle demande,
Mais cette plante est rare et l'Allemagne est grande;
Cependant elle meurt du regret d'un parfum.

Les Épreuves (1866)
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês de Paris, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito e foi poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura (1901); obra poética: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Geraldo Eduardo Carneiro: Olhos de ressaca

 
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minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); mais obras literárias: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro é acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Rosário Fusco: Uma sombra na janela

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          De repente, a janela do apartamento se iluminou. Vagarosamente, como quem espreita uma fera no seu fojo. David se ergue da cama. Consulta a carteira que traz no bolso. Acende um fósforo para ver melhor. E, repetindo, precisamente, os gestos e as atitudes do órfão, promove a ligação projetada apesar do adiantado da hora. Ouviu, perfeitamente, o som da campainha tinindo, mais ou menos surda, no silêncio. O coração pulsava-lhe. Aqueles segundos, certamente, multiplicavam-se por mil. Foi o primeiro a falar, num ciclo.
          — David.
          Descansando o fone, em obediência à disposição recomendada pela outra voz, que parecia apreensiva e nervosa, David ficou pasmo como adivinhava ter chegado naquele instante (“Chegou agora? Também acabo de chegar.”). Mas, certamente, não poderia encontrar-se “no mesmo lugar”, ao dia seguinte. Continha-se para não repetir o telefonema, a fim de esclarecer as condições do próximo encontro, quando a janela fronteira abriu-se, com estrépito, para fora, a persiana estendida, formando um ângulo reto com a parede.
          Agachado, David não tinha forças para mover-se. Ficava ali, sem poder pensar, preso ao assoalho. Depois, intermitentemente, aos arrancos, o mesmo ruído da persiana foi crescendo e eis que, subitamente, pára. Certamente, com a janela agora escancarada, ela se exibira para o boa-noite costumeiro, executando uma leve inclinação de cabeça, antes da luz se apagar. Com as mãos apoiadas no peitoril da janela, David, de cócoras, ergue-se, pouco a pouco, de maneira que somente com meia cabeça à mostra, pudesse ver todo o quarto, na intimidade habitual aos seus olhos. Tinha certeza que não fizera nenhuma ligação errada? E se a nova função do aparelho se iniciava tão promissora, por que não podia levantar-se, completamente, de uma só vez? Pacientemente, suspendia-se — as pernas vergadas sob o peso do corpo. Agora, a luz se extinguia. Seria capaz de jurar ter ouvido o ruído do próprio comutador, acionado pela ponta de um dedo. E revia as mãos que atenderam ao telefone, as mesmas, aliás, que escolhiam discos, cumprimentavam com força e teriam, há pouco, apagado as luzes da alcova. Por elas, entrava no quarto.
          Mas, por que, de súbito, o vulto dela, normalmente esguio, se elastecera tanto? E eis que, encorajado pelo mistério da imprevista metamorfose, pôs-se, num salto, de pé. Sem a iluminação elétrica não poderia vê-la nitidamente. Mas ouviu que começava a discutir alto (era a mesma voz do telefone), acaloradamente, com alguém que, debruçado na janela, parecia alheio a tudo. Depois, como a sombra se movesse, devagar — de certo para recolher-se à escuridão da peça — percebeu-lhe, pela curva que a ponta acesa traçou no espaço escuro, o gesto de quem lança fora o cigarro.
          Uma sensação estranha apoderava-se de David. Se pudesse raciocinar, todas as indicações que recolhia — se consideradas minuciosamente — levá-lo-iam a concluir, de modo inequívoco, que ela, aquela noite, abrigava um homem no quarto. E este homem a enervara, fosse quem fosse. Suas palavras foram de cólera e explodiam como uma bomba de imprecações dissonantes na consciência de David. Contudo, destinava-se ao marido.
          Mas se era humana aquela sombra desenhada na janela, cuja forma não enganava, por que traria ela tão grandes cornos?

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas  & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ—RJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; o romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Garcilaso de La Vega: Enquanto inda de rosa e lírio cheia . . . [soneto]

 
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[traduzido por . . . ]

Enquanto inda de rosa e lírio cheia
Se mostra a cor do vosso lindo gesto,
E o vosso luminoso olhar honesto
O coração abrasa, e o refreia;

Enquanto esse cabelo, que na veia
Do ouro colhido foi, com voo lesto,
Por vosso branco colo manifesto
O vento move, desordena e ondeia;

Colhei da vossa alegre primavera
O doce fruto, antes que o tempo irado
De neve cubra já o altivo cume.

Matará o frio a rosa passageira,
Mudará tudo o tempo arrebatado,
Para não alterar o seu costume.

Garcilaso de la Vega

En tanto que de rosa y azucena

En tanto que de rosa y azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto,
enciende el corazón y lo refrena;

y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena:

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre.

Marchitará la rosa el viento helado,
todo lo mudará la edad ligera
por no hacer mudanza en su costumbre.
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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Garcilaso de la Vega (1501 ? 1536), espanhol de Toledo, foi poeta e cavaleiro do imperador Carlos V, da Espanha; como cavaleiro tomou parte em diversas batalhas militares e políticas, e, nos intervalos das guerras, frequentou as cortes e cultivou as letras; de sua obra conservada, publicou-se, postumamente, Las Obras de Boscán com algunas de Garcilaso de la Vega (1543), livro que considera-se ter inaugurado o Renascimento literário nas letras hispânicas; o poeta e soldado do imperador morreu em combate, ferido num assalto à torre de Le Muy.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Baudelaire: O cachorro e o frasco

 
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[traduzido por Alessandro Zir]

VIII

          Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.

          E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.

          Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire

Le Chien et le Flacon

          « Mon beau chien, mon bon chien, mon cher toutou, approchez et venez respirer un excellent parfum acheté chez le meilleur parfumeur de la ville.»

          Et le chien, en frétillant de la queue, ce qui est, je crois, chez ces pauvres êtres, le signe correspondant du rire et du sourire, s’approche et pose curieusement son nez humide sur le flacon débouché; puis, reculant soudainement avec effroi, il aboie contre moi en manière de reproche.

          « Ah! misérable chien, si je vous avais offert un paquet d’excréments, vous l’auriez flairé avec délices et peut-être dévoré. Ainsi, vous-même, indigne compagnon de ma triste vie, vous ressemblez au public, à qui il ne faut jamais présenter des parfums délicats qui l’exaspèrent, mais des ordures soigneusement choisies.»
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Laurindo Rabelo: As rosas do cume

 
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No cume da minha serra
Eu plantei uma roseira,
Quanto mais as rosas brotam
Tanto mais o cume cheira.

À tarde, quando o sol posto,
O vento no cume adeja,
Vem travessa borboleta
E as rosas do cume beija.

No tempo das invernadas,
Que as plantas do cume lavam,
Quanto mais molhadas eram
Tanto mais no cume davam.

Mas se as águas vêm correntes
E o sujo do cume limpam,
Os botões do cume abrem,
E as rosas do cume grimpam.

Tenho pois certeza agora
Que no tempo de tal rega,
Arbusto por mais cheiroso
Plantado no cume pega.

Ah! porém o sol brilhante
Seca logo a catadupa;
O calor que a terra abrasa
E as águas do cume chupa!

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Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso [diversos poetas] — Organização, Introdução, Glossário e Notas de Alexei Bueno, 2011, Saraiva de Bolso, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.