domingo, 30 de outubro de 2011

Castro Alves: Fábula (O Pássaro e a Flor)



Era num dia sombrio
Quando um pássaro erradio
Veio parar num jardim.
Aí fitando uma rosa,
Sua voz triste e saudosa,
Pôs-se a improvisar assim.

"Ó Rosa, ó Rosa bonita! 
Ó Sultana favorita
Deste serralho de azul:
Flor que vives num palácio, 
Como as princesas de Lácio, 
Como as filhas de 'Stambul.

Corno és feliz! Quanto eu dera
Pela eterna primavera
Que o teu castelo contém...
Sob o cristal abrigada,
Tu nem sentes a geada
Que passa raivosa além.

Junto às estátuas de pedra
Tua vida cresce, medra,
Ao fumo dos
narguillés,
No largo vaso da China
Da porcelana mais fina
Que vem do Império Chinês.

O Inverno ladra na rua,
Enquanto adormeces nua
Na estufa até de manhã.
Por escrava - tens a aragem
O sol - é teu louro pajem.
Tu és dele - a castelã.

Enquanto que eu desgraçado,
Pelas chuvas ensopado,
Levo o tempo a viajar,
- Boêmio da média idade,
Vou do castelo à cidade,
Vou do mosteiro ao solar!

Meu capote roto e pobre
Mal os meus ombros encobre
Quanto à gorra... tu bem vês!...
Ai! meu Deus! se Rosa fora
Como eu zombaria agora
Dos louros dos menestréis!. . ."
            _________
 
Então por entre a folhagem
Ao passarinho selvagem
A rosa assim respondeu:
"Cala-te, bardo dos bosques!
Ai! não troques os quiosques
Pela cúpula do céu.

Tu não sabes que delírios 
Sofrem as rosas e os lírios 
Nesta dourada prisão.
Sem falar com as violetas.
Sem beijar as borboletas,
Sem as auras do sertão.

Molha-te a fria geada...
Que importa? A loura alvorada
Virá beijar-te amanhã.
Poeta, romperás logo,
A cada beijo de fogo,
Na cantilena louçã.

Mas eu?! Nas salas brilhantes
Entre as tranças deslumbrantes
A virgem me enlaçará...
Depois... cadáver de rosa...
A valsa vertiginosa
Por sobre mim rolará.

Vai, Poeta... Rompe os ares
Cruza a serra, o vale, os mares
Deus ao chão não te amarrou!
Eu calo-me - tu descantas,
Eu rojo - tu te levantas,
Tu és livre - escrava eu sou!..."

S.Paulo, junho de 1868.
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Castro Alves - Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A - Rio de Janeiro - RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 - 1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da estrada, Tragédia no Lar...

Castro Alves: O povo ao poder (Poesias Coligidas)

Nestes tempos em que, pelo mundo afora, uma geração de jovens fazem ocupação de praças em inúmeras cidades-referência da modernidade, o poema O povo ao poder, de Castro Alves, é oportuno. Como cantou o poeta, "a praça é do povo como o céu é do condor"; os grifos feitos em negrito no poema são um puro atrevimento deste aprendiz de blogueiro que vos escreve.
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QUANDO nas praças s'eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário, 
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.

A praça! A praça é do povo 
Como o céu é do condor
 
É o antro onde a liberdade 
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.

A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.

No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".

Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...

Ah! não há muitos setembros!
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,

E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmãos da terra da América, 
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas, 
Bebei torrentes de luz... 
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

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Castro Alves - Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A - Rio de Janeiro - RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 - 1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da estrada, Tragédia no Lar...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vladimir Safatle: A nova geração de lutadores sociais

Reproduzo texto do pensador Vladimir Safatle, filósofo da USP  (Folha de São Paulo, 25.10.2011), acerca dos movimentos sociais de uma nova geração que, a exemplo do "Ocupe Wall Street", segue ousando acampar em praças públicas de cidades referências do mundo moderno em diversas regiões do nosso Planeta Terra. Os jovens acampados portam uma pauta heterogênea de reivindicações que se unem num só brado: querem abrir discussão com os donos do poder político, os quais são quase que unicamente orientados e representados pelos detentores do sistema financeiro global.
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São Paulo, terça-feira, 25 de outubro de 2011


VLADIMIR SAFATLE

Eles sabem o que fazem

Um dos mantras preferidos daqueles que chegam aos 40 anos é: os jovens de hoje não têm grandes ideais, eles não sabem o que fazem.
Há algo cômico em comentários dessa natureza, pois os que tinham 18 anos no início dos anos 90 sabem muito bem como nossas maiores preocupações eram: encontrar uma boa rave em Maresias (SP), aprender a comer sushi e empregar-se em uma agência de publicidade. Ou seja, esses que falam dos jovens atuais foram, na maioria das vezes, jovens que não tiveram muito o que colocar na balança.
Por isso, devemos olhar com admiração o que jovens de todo o mundo fizeram em 2011.
Em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
Mas, mesmo assim, boa parte da imprensa mundial gosta de transformá-los em caricaturas, em sonhadores vazios sem a dimensão concreta dos problemas. Como se esses arautos da ordem tivessem alguma ideia realmente sensata de como sair da crise atual.
Na verdade, eles nem sequer têm ideia de quais são os verdadeiros problemas, já que preferem, por exemplo, nos levar a crer que a crise grega não seria o resultado da desregulamentação do sistema financeiro e de seus ataques especulativos, mas da corrupção e da "gastança" pública.
Nesse sentido, nada mais inteligente do que uma das pautas-chave do movimento "Ocupe Wall Street". Ao serem questionado sobre o que querem, muito jovens respondem: "Queremos discutir".
Pois trata-se de dizer que, após décadas da repetição compulsiva de esquemas liberais de análise socioeconômica, não sabemos mais pensar e usar a radicalidade do pensamento para questionar pressupostos, reconstruir problemas, recolocar hipóteses na mesa. O que esses jovens entenderam é: para encontrar uma verdadeira saída, devemos primeiro destruir as pseudocertezas que limitam a produtividade do pensamento. Quem não pensa contra si nunca ultrapassará os problemas nos quais se enredou.
Isso é o que alguns realmente temem: que os jovens aprendam a força da crítica. Quando perguntam "Afinal, o que vocês querem?", é só para dizer, após ouvir a resposta: "Mas vocês estão loucos".
Porém toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Circo dos Bancários: O Gruda-gruda — um laboratório, uma peça teatral.

Manos e minas,

Eis um naquinho de história do sindicalismo bancário em São Paulo para os que têm hoje menos de quarenta anos de idade mas também para os que passaram disso e andam um tanto esquecidos e/ou não cultivam a memória. Na segunda metade da década de 70 e começo da de 80 do século e milênio passados, o Sindicato dos Bancários de São Paulo já teve um circo-teatro sob sua coordenação cultural: o TESB Teatro do Sindicato dos Bancários.


Aliás, este espaço de cultura já existia mesmo antes da vitória da então Oposição Bancária (*) que tomou posse em 12.03.1979. Foi César Vieira, teatrólogo do Teatro Popular União e Olho-Vivo  ou Idibal Piveta, defensor de presos políticos e militante! , quem esteve à frente do grupo teatral que atuava no circo e, pelo que sei, e que não me desmintam!, ali se deu a montagem/apresentação da peça "O Evangelho Segundo Zebedeu", escrita e dirigida pelo próprio César Vieira e cujos atores/atrizes eram da categoria bancária e/ou ligados ao sindicato.

Mas a peça "O Gruda-gruda", cujo texto está reproduzido abaixo, não é de autoria de César Vieira nem foi montada por ele, foi sim uma criação coletiva (**), e que também não me desmintam!, de um grupo de bancários militantes ligados ao Cultural do Sindicato, coordenados pelo ator Celso Frateschi contratado para essa tarefa pela diretoria recém eleita.

Quanto ao Circo dos Bancários, que ficava na Rua Voluntários da Pátria, próximo à Estação Tietê do Metrô, durou pouco. Deixou de existir por pendengas (políticas!), falta de licença etc, da Prefeitura contra o Sindicato. O grupo teatral também deixou de existir, ficou só naquela experiência. A diretora responsável pelo Cultural foi Sandra Cajazeira, do BB.

Meninos e meninas, eu vivi aquela época!

(*) Oposição Bancária que tomou posse em 1979: Augusto Campos (Banespa), Luiz Gushiken (Banespa), Rui Sá (BB), Sandra Cajazeira (BB), Gilmar Carneiro (Banerj), Luiz Azevedo (BB), Tita Dias (Real), Edson Campos (BCN), Lucas Buzato (Banespa), Vitor Benda (BB), Rubens dos Santos (Safra), Antonio Rodrigues (Boston), Álvaro (Finasa), Washington (Mercapaulo), Ademar Lopes (Bamerindus), Acácio (Itaú), Geraldo Sanches (Itaú), Dumara Marques (Itaú), Claudio Ernesto (Banespa), Rui Soares (Sudameris), Lélio (Bemge), Camilo Pontes (Comind), David Ratcov (Banespa), Artur Quadros (Unibanco, foi destituído em assembléia e devolvido ao Banco, acusado de malversação no Setor de Compras), 

(**) Alguns dos bancários e militantes sindicais envolvidos na criação do texto e também participantes da peça: Ronei, Mirtes (Banespa), Levi, Jacyra e Sandrinha (Safra) ...
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Teatro

Personagens por ordem de entrada: Burguês, Intelectual, Operário, Hippie, Mulher, Bêbado, Marido, Bicha, Trombadinha, Policial, Louco.
.....................
Entram em cena por lados opostos o burguês e o intelectual, o primeiro mais apressado que o segundo. Quando se aproximam um pouco, o intelectual percebe conhecer o burguês, que passa por ele indiferente. O intelectual então levanta o braço e chama o burguês.

          Intelectual  Ô meu! 
(o burguês pára). Ô meu! (o burguês volta-se para o intelectual, encara-o mas não diz nada). (Continua o intelectual) 
Você não é o Roberto, que fez sociologia comigo na PUC? Não se lembra de mim?
          Burguês — (depois de ficar fitando um pouco o intelectual agora descontraído e sorrindo) - Sim, sou eu mesmo. Você não é aquele cara... o...
          Intelectual — É, isto mesmo, o Carlos. Como vai você?

"Aproximam-se e apertam as mãos."

          Burguês — (agora descontraído e sorrindo) Claro, amigo, há quanto tempo a gente não se vê, desde a formatura, né?!
          Intelectual — É, faz muito tempo mesmo. (e olhando o burguês de cima a baixo) Pô, que estica, hem? Subiu na vida, né? Olha o terno do cara! O que você anda fazendo?
          Burguês — Agora sou gerente administrativo da filial brasileira de uma grande empresa americana.
          Intelectual — O quê! Transando umas de multinacional, hem? Se vendeu pro sistema. Deve estar faturando uma nota (e mostra com os dedos).
          Burguês — É, eu vou levando. Mas e você, que anda fazendo?
          Intelectual — Eu estou fazendo pós-graduação em Sociologia e a noite dou aula em um cursinho.
          Burguês — Mas você que era um dos melhores alunos da turma trabalhando numa porcaria dessas! Deixa eu te dar o meu cartão, quem sabe te arranjo alguma coisa melhor.
          Intelectual — Não! Pode deixar, estou fazendo o que eu gosto, dinheiro pra mim é o de menos.
          Burguês — Bom, você vai me desculpar porque eu estou com um pouco de pressa (tenta soltar a mão e nota que está grudado). Deixe de brincadeira que eu estou atrasado, vê se me solta!
          Intelectual — E sou eu que estou te segurando?
          Burguês — Hiiii!! Parece que estamos presos, que é isso? Maldita hora que fui me encontrar com você. Estou com pressa, tenho um cliente à minha espera e agora por sua causa vou perder um bom negócio.
          Intelectual — Sai dessa xará, que culpa tenho eu? Eu também não tenho tempo pra perder, ainda mais com um cara chato como você. Eu tinha uma reunião do PT neste instante, e vou perder por sua causa.

"Entra em cena o operário, sem se dar conta do intelectual e do burguês. O burguês dirige-se a ele."

          Burguês — Ô peão, ajuda a gente a se soltar.
          Operário — Claro seu dotô, mas cumé que oceis ficaram preso aí?
          Intelectual — Companheiro, não sabemos como aconteceu, mas o importante agora é ver se a gente se solta daqui. Será que você pode nos dar uma mão?
          Operário — Pois não seu dotô, é pra já (e vai tentar soltá-los)
          Burguês — (enquanto o operário tenta soltá-lo) Cuidado pra não sujar meu terno Pierre Cardin com esta mão cheia de graxa!
          Operário — Xiiii!! Dotô, além de sujá seu terno e num conseguí sortá oceis, inda fiquei preso tamém. Acho que num tem jeito.
          Burguês — (enérgico) Como não tem jeito? Não podemos desistir! Eu, gerente administrativo de uma importante firma, grudado aqui com dois tipos vulgares. Imaginem se meus subalternos me virem aqui; o que não vão dizer!
          Intelectual — (ofendido) Vá a merda! seu gerentezinho de bosta, pensa que é alguma coisa aqui? estamos no mesmo barco, tá sabendo?
          Burguês — (escandalizado) escuta aqui ô ralé, quem você pensa que é pra falar assim comigo?
          Intelectual — Eu sabia! Eu sabia! Desde os tempos de faculdade dava pra ver que você ia sair um nojento capitalista.
          Burguês — Ora, seu fracassado... (o operário o interrompe)
          Operário — Carma, pessoár, num dianta se brigá agora; bamo tentá resorvê as coisa na paiz...

"O hippie entra em cena, chega numa boa pra curtir com o pessoal. Dá uma volta em torno dos três grudados antes de começar a falar."

          Hippie — Que barato! Tão curtindo umas de cola-cola aí?

          Operário — Ô seu moço, num tamo curtino não, tamo aqui pregado memo. Ocê num dá uma mão pra mode nóis se sortá?
          Hippie — Tá legal! Tá legal! Numa boa! Tô cum vocês. Mas olha, tá um barato vocês grudados aí, dá até dó de soltar.
          Burguês — Ô moleque, não temos tempo pra perder, eu sou um homem muito ocupado. Vê se dá um jeito de soltar logo a gente que eu te arrumo uma grana.
          Hippie — Falou, patrão! (e o hippie tenta soltá-los e também fica preso) Pô, que barato, entrei nessa de gruda-gruda também.
          Burguês — Mas é só isso que faltava!

"Entra em cena a mulher. Pàra, vê o grupo grudado e exclama"

          Mulher  Meu Deus, que horror! O que está acontecendo? Todos esses homens agarrados em plena luz do dia! Que falta de vergonha! (ela aproxima-se do grupo) Vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
          Hippie — Hiiiiiiii! esta coroa num tá cum nada! Que tremenda caretice.
          Intelectual — Por favor, senhora, poderia colaborar com a gente?
          Mulher  Se for dinheiro, não-vem-que-não-tem; agora, em outra coisa, ajudo com prazer.
          Hippie — Então será que a coroa num arranja um rolinho pra mim?
          Mulher  Meu Deus, que horror!
          Intelectual — Não é nada disso, minha senhora, esse cara aí é um alienado. Estamos precisando de ajuda pra ver se a gente se desgruda daqui.
          Mulher  Mas como vocês ficaram presos aí? Nunca vi gente grudada deste jeito! Vige Maria, é o fim do mundo. Vamos ver se isso desgruda mesmo. (e a mulher vai tentar soltá-los e fica também presa) Pai nosso, fiquei grudada também! Jesus, tenho que sair daqui, porque se meu marido me pega  grudada com outro homem, vocês nem imaginam o que pode acontecer! Ele é bem capaz de matar todo mundo que está aqui.
          Hippie — Já vi que seu marido deve ser careta que nem a senhora. Não tem nada demais ficar grudada aqui com a gente, nós tamos grudados numa boa.
          Mulher  Ai, meu Deus, como esse moleque é atrevido!

"O intelectual começa a conversar com o operário, esquecendo-se da situação em que se encontram"

          Intelectual — Calor, né companheiro! Será que chove hoje? Esse tempo não dá pra entender mesmo!
          Operário — Sei não, dotô. Um dia faz frio, outro dia faz calor!
          Intelectual  É dura essa vida de trabalhador.
          Operário — Nem quera sabê, seu dotô. Hoje memo já vô perdê meu dia, porque toda vez que a gente chega atrasado num pode entrá na fábrica.
          Intelectual 
 Esses patrões são mesmo uns exploradores, além de pagarem um salário de fome ainda não perdoam nem um atraso dos empregados. Agora, pra pedir pra ficar trabalhando até tarde eles servem.
          Operário — Sabe, seu dotô, a gente trabaia 12 horas por dia e só tem meia hora de almoço; lá num tem lugar nem pra isquentá a marmita, a gente, além de comê cumida fria ainda tem que comê num lugar que tem até rato.
          Intelectual  (escandalizado) Não pode ser, isso é um abuso! Você precisa denunciar isso pro Sindicato.
          Operário — Sindicato? O que é isso, dotô?!
          Intelectual — Então você não sabe? Isso não é possível! O Sindicato é a força dos trabalhadores pra fazer frente aos patrões... (e é interrompido bruscamente pelo burguês)
          Burguês — Chega de papo-furado!! (grita) A gente com esse problema pra resolver e vocês aí falando besteira! Saibam que já perdi milhões por causa dessa brincadeira!

"O intelectual olha com raiva para o burguês, mas não responde nada. Quem toma a palavra é o hippie, dirigindo-se ao burguês"

          Hippie — O negócio é o seguinte, cara, já que tamos aqui vamos curtir essa transa de corpo numa boa. Sente só o calor da mão dele na sua, a gente tem mais é que ficar nessa até o fim e curtir o momento, não se sabe quando vai pintar outra do tipo.

"Neste momento entra em cena o bêbado, completamente embriagado. Roupa toda em desalinho, garrafa na mão e barba por fazer. Canta, cambaleando"

          Bêbado  Eu bebo sim, estou... bebendo. Tem gente... que não deve estar... bebeu... bebendo.
          Intelectual — Hiiiii, olha quem vem aí!
          Todos — Não!!!
          Bêbado  (pára diante dos outros, perplexo diante da situação que tem diante de si. Faz gestos característicos de bêbado. Depois, dirige-se ao grupo, eufórico) Mas o que é isso, gente boa!?
          Mulher  Nosso Senhor Jesus Cristo! O que é isso!
          Operário — (dirigindo-se ao bêbado) Mas é o Zé!
          Burguês — O quê! Você conhece este bebum? (apontando para o bêbado) Não tem jeito, essa ralé é tudo igual.
          Operário — Nada disso, seu dotô. O Zé é boa praça. Nós já trabaiemo junto. O pobrema é que ele bebe demais. Bebe o dia todo, quase num come.
          Bêbado  (Finalmente reconhecendo o operário) Ernesto! É tu mesmo! Deixa eu te abraçar, compadre! (abre os braços e caminha cambaleante em direção ao operário)
          Todos  Não, não!! Chega pra lá!! (todos recuam)
          Bêbado  Mas o que é isso, pessoal! Deixa eu me confraternizar com vocês, somos todos amigos, né?! (o bêbado se agarra com o operário e o burguês)
          Bêbado  (Ri e solta um hálito de aguardente bem na cara do burguês) Meus amigos do peito!! Como é bom abraçar vocês.
          Burguês  Puá! Que cheiro horrível!
          Bêbado  Pô, Ernesto, o teu amigo aqui é grã, né? E da alta (dirigindo-se ao burguês) O amigo aceita um gole? (e oferece a garrafa ao burguês)
          Burguês  Não, não, não!!! Não é possível! Deve ser um sonho! Não pode estar acontecendo!
          Intelectual  (divertindo-se muito com a situação em que o burguês se encontra) Ah! Ah! Ah! Doutorzinho!... Vamos, aceita um trago do moço!... Ah! Ah! Ah!
          Burguês  (Grita irritado) 
Você me paga, seu rato de biblioteca!

"Nisto vai passando o marido da mulher que se esconde, mas é reconhecida. Ao perceber que sua mulher está grudada em outras pessoas, o marido avança furioso."

          Marido  Muito bonito, então é isso que a senhora faz quando diz que vai ao dentista?! Sua sem-vergonha! (e avança de punhos fechados para a mulher)
          Mulher  Não, meu bem, não interprete mal, você tem que me deixar explicar (enquanto isso o marido a segura pelo braço e a sacode). ( A mulher olha para o intelectual, pedindo ajuda, mas quem toma a palavra é o hippie)
          Hippie  Qualé, meu, sem essa de ciúmes. Venha pra cá curtir esse tremendo barato.
          Marido  Quem é esse sujeitinho? (apontando para o hippie). Não quer falar? Vamos já pra casa, lá a gente acerta as contas (diz, sacudindo a esposa). (Puxa a mulher pelo braço e nota o gruda-gruda) 
 Mas o que que está acontecendo aqui? Eu exijo uma explicação.

"começa então um zum-zum entre eles que, depois de um certo tempo, é interrompido perla entrada do bicha. Ele entra todo desmunhecado e rebolando, quando dá com o grupo pára deslumbrado."

          Bicha  Cruzes!!! Mas que é isso, que horror!
          Operário  Ô, moço, qué dizê... bom, é que a gente tá grudado aqui um no outro e num pode saí.
          Bicha  O quê!! Vocês estão grudados; então deixa eu aproveitar!(aproximando-se do marido) Ah, gostosão! (e passa a mão no pau do marido e vê que ficou grudado) Meu Deus! Nova moda, adorei. Pelo menos não preciso mais fazer ponto na Praça da República.é só passar a mão e grudar: divino! Não quero mais sair daqui.
          Marido  (irritadíssimo com o bicha) O que é isso, meu senhor! Eu exijo mais respeito. O senhor não tem vergonha na cara!
          Bicha  Eu, heim! Fica na tua, bonitão! Adoro machões. Se me bater, aí que eu grudo mesmo.
          Mulher  Em vez de vocês ficarem aí nesse bate-boca, porque a gente não pensa num meio de se soltar?
          Marido  Como é que eu posso pensar em uma solução com essa... com esse... grudado em mim?!
          Bicha  Por mim está ótimo, queridinho.

"Recomeça o zum-zum. O trombadinha entra cauteloso e não o interrompe. Entra como não quer nada, aproxima-se do burguês que está distraído falando com um outro, enfia a mão rápido no bolso do burguês e tenta fugir, mas fica grudado. O burguês reage."

          Burguês  Ôpa, o que é isso! Pega ladrão... pega ladrão... pega ladrão... (continua repetindo enquanto o trombadinha desesperado tenta se soltar)

"O policial entra em cena correndo, atendendo aos gritos do burguês. Logo que o policial entra o burguês pára de gritar."

          Policial  O que está acontecendo aqui?
          Burguês  Seu guarda, é esse delinqüente que, se aproveitando desta situação ridícula, tentou me assaltar. Eu exijo providências imediatas.
          Policial  (Agarrando o trombadinha pelo pescoço) Vamos pro distrito ter uma conversinha, seu malandro! (e dirigindo-se ao burguês) O senhor me acompanhe pra registrar a queixa.
          Burguês  Mas acompanhar como, se estamos aqui grudados!
          Policial  O senhor está tentando obstruir um policial no cumprimento do dever! (o policial tenta puxar o trombadinha e vê que também está grudado) Mas o que é isso? O que está acontecendo aqui? Eu, um representante da lei, grudado neste pivete!
          Trombadinha  Cumé, tira, cê num falô que ia me grampiá? Agora tô isperano!
          Policial  (ameaça bater no trombadinha) Peraí, seu moleque, que eu te mostro! Te viro no avesso... (o intelectual intervém para impedir a agressão, enquanto o trombadinha se encolhe todo)
          Intelectual  (dirigindo-se ao policial) Pára aí! Se o senhor agredir este menor, eu vou denunciar isso num ato público. O senhor deveria saber que o problema deste garoto não é de polícia, é um grave problema social. Assim como este menino, existem milhares que são como ele, fruto do canibalismo selvagem.
          Burguês  Não dá bola pra este cara, não, seu guarda. Tem mesmo é que acabar com essa raça! São marginais de alta periculosidade.
          Mulher  Coitadinho! Tão novinho e já no mau caminho. Onde será que está a mãe desta criança, que não dá educação pra ele!
          Marido  Cala a boca, mulher! Isso é assunto de polícia.
          Intelectual (dirigindo-se à mulher)  a mãe desta criança, minha senhora, se ele tiver, deve estar  lavando roupa pra fora.e o pai, se tiver, deve estar trabalhando por aí por um salário de fome. Eis o fruto da exploração da classe dominante.
          Trombadinha  É isso aí, dotô, tô cuntigo e não abro.
          Operário (dirigindo-se ao marido e ao burguês)  Vocês diz que o pobrema do muleque é de puliça porque não conhecem a miséria de perto.

"O burguês, o marido e o policial respondem juntos ao operário e assim recomeça o zum-zum, com todo mundo falando ao mesmo tempo. Um grito do bicha põe todos em silêncio."

          Bicha  Aiiiiii!!!! Não aguento mais  esta história! Estou ficando louca! Isto aqui está cansando a minha beleza! (e olhando para o marido) Se eu não tivesse grudado em você, queridinho, já estava morta de tédio.
          Mulher (irritada)  O senhor quer fazer o favor de parar com essa indecência!
          Hippie (dirigindo-se ao trombadinha)  Já que tamos neste barato e pelo jeito não vamos sair daqui tão cedo, cê num tem uma coisinha pra me arrumar? (e faz um gesto como se estivesse com um cigarro na mão)
          Trombadinha  Olha, meu chapa, aqui num tem não, mas se tu for lá na Febem...
          Mulher  Meu Deus, será que ninguém tem uma solução pra esse caso? Como é que a gente vai conseguir sair daqui? Isso é o que importa!

"Ninguém responde à mulher. Todos estão cansados, exaustos com a situação, alguns aparentam mesmo uma certa sonolência. É quando o louco entra em cena rindo, circula em torno das pessoas que se entreolham assustadas. Finalmente começa a falar."

          Louco (ainda rindo)  Mas o que é isso? (aponta o grupo) Estão todos grudados uns aos outros!
          Burguês (irritado)  E você ainda acha engraçado? Por que ao invés de ficar aí rindo não vem nos ajudar?
          Louco  Ajudar? Mas ajudar como? Quem sou eu? Ou vocês querem que eu fique preso aí também. A única coisa que eu posso fazer é aliviar o sofrimento de vocês, diverti-los  com a minha figura de idiota. Sim, porque eu sou um perfeito idiota.
          Mulher  Acho que esse cara é louco!
          Louco  Sim, sim, louco. E o que é a loucura senão uma idiotice crônica? Todas as pessoas fazem idiotices às vezes, isto é normal, mas só um louco as faz sempre. É por isso que eu sou louco, é por isso que eu não estou grudado em vocês. Como é que eu posso ficar grudado em gente normal como vocês? (pausa) Uma vez eu conheci um homem que pensava que era um elefante. Mas em torno dele havia muitas pessoas  que achavam que ele não era um elefante, aliás, essas pessoas tinham certeza de que ele não era um elefante. Ora, acontece que o homem que se achava elefante também tinha certeza de que era um elefante. Mas as pessoas que tinham certeza de que ele não era um elefante eram muitas, enquanto só ele é quem tinha certeza que era um elefante.. Aí trancaram o homem-elefante em uma cela, para que ele não pudesse contaminar ninguém com a sua certeza rebelde. Trancaram o elefante, digo, o homem-elefante em um lugar cheio de gente que não aceitava as certezas mesquinhas do mundo e que tinha as suas próprias certezas. E lá onde prenderam o homem que pensava ser elefante 
 e agia como um elefante havia outras pessoas que acreditavam nos próprios sonhos e nos dos outros e que por isso aceitaram o homem-elefante como elefante. Todos eles viviam como um homem que dorme e sonha um sonho bom e que por isso adia indefinidamente a hora de acordar. (pára de falar e fica pensativo)
          Bicha (horrorizado)  Meu Deus! Não é que o cara é mesmo lelé-da´cuca!
          Operário  Chiiii! Num fartava mais nada!
          Hippie  Ô, da marmita, sem essa! Este negócio de loucura é o maior barato. Quando eu levo uma "picada" também fico doidão assim.
          Intelectual 
(gritando)  Mas será possível! Deve haver alguma solução, não podemos ficar presos aqui.
          Louco (assustado)  Ah! Vocês querem se soltar? Pois então se soltem, o que os mantém presos?! Meu Deus (cospe no chão), de onde vem essa estranha solidariedade? Que estranha força mantém vocês tão fortemente atados uns aos outros? (Aproxima-se e olha nos olhos de cada um) E esse estranho brilho de ódio no olhar de cada um de vocês? Será que é o ódio que os prende assim? (todos se entreolham) É necessário muita força para atar assim gente que se odeia tanto. Mesmo se eu tocar em vocês eu não fico colado (e toca em uma das pessoas e não fica grudado), porque eu pertenço a um outro mundo, o dos insanos, um mundo que não se amarra a nada e voa dentro da cabeça de quem o habita. Por isso eu sou livre. Agora, vocês... vocês vão ficar eternamente aí grudados, pois é só assim que conseguem viver. Vocês vão ficar indefinidamente assim, colados uns aos outros pelo ódio que carregam dentro de si  quanto mais ódio, mais forte fica a cola. Vocês estão condenados a se verem sempre, condenados a compartilhar todos os instantes, a morar juntos, a trabalhar juntos, a comer juntos; sempre se odiando, mas sempre juntos. Dentro de cada um de vocês há um mundo individual que fabrica o ódio e assim mantém vivo o elo que os prende, da mesma forma que as células contribuem para manter vivo o organismo que as encerra. (As pessoas grudadas abaixam a cabeça, depois vão se abaixando até todos ficarem no chão. E o louco continua a falar, pensativo) Gente se odiando mas vivendo junto, pessoas opostas mas atadas, inimigos que travam lado a lado uma guerra surda e cada instante. Será que há um nome que se possa dar a uma coisa como essa? (fica um minuto pensativo) Um nome que resumisse em si todo esse absurdo. Será que há uma palavra suficientemente forte para exprimir isso? (fica mais um pouco pensando, e depois dá um pulo, animado, como se tivesse descoberto enfim o que procurava.) Não tem importância se não existir nenhuma palavra, pois eu a invento. (dirigindo-se ao público) Vamos inventar alguma palavra que possa exprimir isso (aponta para os grudados). Eu tenho a palavra na ponta da língua (mostra a língua). Que tal a palavra... a palavra... sociedade? Parece-me boa. Sim, sim, fica sendo isso: sociedade. Sociedade! (ri bastante, chega até a gargalhar, e finalmente sai de cena.)

FIM