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quinta-feira, 29 de maio de 2025

Rui Cinatti: Fato

 
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Tenho apreendido muito convosco, ó amigos homens,
a gostar de aventuras e, sobretudo,
mulheres ao alto, ao lado, ao fundo
e, adormecido, sonhar fora do mundo.

07/12/[19]76

(56 Poemas — 1981)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Rui Cinatti ou Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes (1915 1986), nascido em Londres, Reino Unido, viveu em Portugal e no Timor Leste, fez seus primeiros estudos como aluno interno no lisboense Instituto Militar dos Pupilos do Exército, formou-se em Fitogeografia no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, foi antropólogo, agrônomo e poeta; viajou pelo mundo, na Universidade de Oxford, Inglaterra, tardiamente estudou Etnologia e Antropologia Social e Cultural; em Timor Leste (à época, colônia ultramarina portuguesa), desempenhou funções públicas no governo local, sempre relacionadas com seu aprendizado técnico e acadêmico; na área literária, em 1940, foi co-dirigente da revista Cadernos de Poesia, ao lado de Jorge de Sena e outros, ali publicou suas primeiras obras poéticas; entre 1942-1943, fundou a revista Aventura, da qual foram redatores Eduardo Freitas da Costa, Jorge de Sena ...; colaborou com as revistas Panorama e Atlântico (revista luso-brasileira); consta de sua biografia que, a partir de 1958, com a publicação d'O Livro do Nómada Meu Amigo, ‘a presença dos territórios por onde viajou e sobretudo de Timor, se assumiria como “objeto em que se concretiza a aproximação do poeta consigo mesmo e com a vida humana dos outros”’; escreveu e publicou: Nós não somos deste mundo (1941), Anoitecendo, a vida recomeça (1942), Poemas escolhidos (1951), O livro do nómada meu amigo (1958), Sete septetos (1967), Crônica Cabo Verdeana (1967), Ossobó (1967), O tédio recompensado (1968), Borda d’alma (1972), Uma sequência Timorense (1970), Memória descritiva (1971), Conversa de rotina (1973), Cravo singular (1974), Timor — Amar (1974), Os poemas do Itinerário Angolano (1974), 56 poesias (1981), todos de poesia, além de várias obras de Antropologia e Botânica Timorense; premiações: Prêmio Antero de Quental (pela obra O Livro do Nómada Meu Amigo, 1958), Prêmio Nacional da Poesia (por Sete Septetos, 1968), Prêmio Camilo Pessanha (1971), Prêmio P.E.N. Clube de Poesia (1982); pertenceu à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, da qual foi presidente.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Rui Cinatti: Sunt Lachrimae Rerum . . .

 
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A José Júlio Maciel Chaves, engenheiro silvicultor,
morto em Goa, assassinado em Satari.
A Artur do Canto Resende, engenheiro geógrafo,
morto em Dili, assassinado em Alor.

1

O mar tem fundos nus de areia fina
E poentes toldados pela neblina.
Eu não tenho nada,
Vazio
Homem frente ao mar que despedaça
Inenarráveis construções do espírito.
E lanço pedras na espuma,
Só, absorto no espaço,
Sem palavras, nem sequer palavras
Devassadas.

Preso às formas que me chamam
No limiar da ausência
Que antecede os silêncios da angústia.
E corro para elas para que se apaguem os rastos
De uma presença efémera, indesejável.
E volto, pés molhados, praia fora,
Com algas entre os dentes,
E pedaços de verso amarrotados.

2

A paz que não encontro satisfaz-me.
Caminho, mas tropeço. E o verde vinho
Azedo que me dão, não o recuso:
Outros bebê-lo-ão, outros ainda
Antes de mim tragaram-no. E o mundo
Ora fluxo-refluxo, ora imutável,
Como cidade ao longe entre colinas,
Obstina-se a chamar e a dar
Reflexos que não aprofundo,
Sinais de afinidade que não pretendo, nem desfaço.
Eu respeito os mortos.

3

Ser ou não ser é pão que não discuto
De tão abjeto o preço
Ou nula a vibração.
Não discuto, mas há que comê-lo
Com náusea.
É ritual de porcos contraposto
À consciência. A água
Correu nas fontes, segundo a História.
A que bebemos vem desinfetada
Ou em bilhas lacradas.
Doce, suave, cristalina
Só na memória salgada,
É a que bebem os mortos, afogados.
E a paixão que me domina
Ou dela a imagem anjo inominado
Não é aparência rara,
Mas simplesmente inefável
Visitação.

4

Senhora da Hora, vela
Pacientemente e sempre,
Por todos nós, pelo meu irmão desencontrado
E assassinado.
Por aquele que entre florestas antagónicas
Cumpriu o seu dever de lábios mudos.
E pelo outro, maduro como um fruto
Sazonado nos pântanos.
Por mim que me sinto revoltado,
Surdo a deleites fictícios,
Porque não espero e quero
Ser empreiteiro do mundo
Neste lugar circunscrito onde sonhei, penei,
Desde o tempo em que as palavras tomaram o gosto
Dos braços que se estendem e das mãos que se apertam.
Senhora!
A Hora pertence-te.

5

Lágrimas são a chuva que nos molha
A vida inteira.
As alegrias são
As ilusões que fenecem
A vida inteira.
Dou de costas à luz. Calmo contemplo
Os horizontes perdidos.
O mar tem fundos nus de areia fina.
Cristo morreu na cruz.

O livro do nómada meu amigo — 1958

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Rui Cinatti ou Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes (1915 1986), nascido em Londres, Reino Unido, viveu em Portugal e no Timor Leste, fez seus primeiros estudos como aluno interno no lisboense Instituto Militar dos Pupilos do Exército, formou-se em Fitogeografia no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, foi antropólogo, agrônomo e poeta; viajou pelo mundo, na Universidade de Oxford, Inglaterra, tardiamente estudou Etnologia e Antropologia Social e Cultural; em Timor Leste (à época, colônia ultramarina portuguesa), desempenhou funções públicas no governo local, sempre relacionadas com seu aprendizado técnico e acadêmico; na área literária, em 1940, foi co-dirigente da revista Cadernos de Poesia, ao lado de Jorge de Sena e outros, ali publicou suas primeiras obras poéticas; entre 1942-1943, fundou a revista Aventura, da qual foram redatores Eduardo Freitas da Costa, Jorge de Sena ...; colaborou com as revistas Panorama e Atlântico (revista luso-brasileira); consta de sua biografia que, a partir de 1958, com a publicação d'O Livro do Nómada Meu Amigo, ‘a presença dos territórios por onde viajou e sobretudo de Timor, se assumiria como “objeto em que se concretiza a aproximação do poeta consigo mesmo e com a vida humana dos outros”’; escreveu e publicou: Nós não somos deste mundo (1941), Anoitecendo, a vida recomeça (1942), Poemas escolhidos (1951), O livro do nómada meu amigo (1958), Sete septetos (1967), Crônica Cabo Verdeana (1967), Ossobó (1967), O tédio recompensado (1968), Borda d’alma (1972), Uma sequência Timorense (1970), Memória descritiva (1971), Conversa de rotina (1973), Cravo singular (1974), Timor — Amar (1974), Os poemas do Itinerário Angolano (1974), 56 poesias (1981), todos de poesia, além de várias obras de Antropologia e Botânica Timorense; premiações: Prêmio Antero de Quental (pela obra O Livro do Nómada Meu Amigo, 1958), Prêmio Nacional da Poesia (por Sete Septetos, 1968), Prêmio Camilo Pessanha (1971), Prêmio P.E.N. Clube de Poesia (1982); pertenceu à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, da qual foi presidente.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Rui Cinatti: Confissão

 
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Na verdade,
nunca houve um amor como o nosso,
ninguém te amou como eu assim, ó Lésbia.
Invejam-nos os escravos, os homens livres e os patrícios, pouco nos
importa,
e já agora essa trupe de valdevinos chefiados pelo Heliodoro,
notório caçador de borboletas.
Disseram-me há dias terem-no visto entrar e sair do teu jardim à
noite,
acompanhado por um enxame de mimosas borboletas e algumas
vespas
que cheiravam muito a Primavera russa.
Eu não acredito, são uns más línguas, todos.
No fundo só prejudicam o rapaz, que não é má pessoa lá no fundo,
apesar de todas as suas incongruências e estouvinices.
Eu não acredito. Sou lógico.
Nunca houve na terra um amor como o nosso.
O meu amor por ti é igual ao teu amor por mim.
O resto, batatas fritas!
Se me acontecer alguma coisa, chama a polícia e esconde o anel que
te ofereci
no dia dos teus anos.

16/6/[19]76

(56 Poemas — 1981)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Rui Cinatti ou Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes (1915 1986), nascido em Londres, Reino Unido, viveu em Portugal e no Timor Leste, fez seus primeiros estudos como aluno interno no lisboense Instituto Militar dos Pupilos do Exército, formou-se em Fitogeografia no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, foi antropólogo, agrônomo e poeta; viajou pelo mundo, na Universidade de Oxford, Inglaterra, tardiamente estudou Etnologia e Antropologia Social e Cultural; em Timor Leste (à época, colônia ultramarina portuguesa), desempenhou funções públicas no governo local, sempre relacionadas com seu aprendizado técnico e acadêmico; na área literária, em 1940, foi co-dirigente da revista Cadernos de Poesia, ao lado de Jorge de Sena e outros, ali publicou suas primeiras obras poéticas; entre 1942-1943, fundou a revista Aventura, da qual foram redatores Eduardo Freitas da Costa, Jorge de Sena ...; colaborou com as revistas Panorama e Atlântico (revista luso-brasileira); consta de sua biografia que, a partir de 1958, com a publicação d'O Livro do Nómada Meu Amigo, ‘a presença dos territórios por onde viajou e sobretudo de Timor, se assumiria como “objeto em que se concretiza a aproximação do poeta consigo mesmo e com a vida humana dos outros”’; escreveu e publicou: Nós não somos deste mundo (1941), Anoitecendo, a vida recomeça (1942), Poemas escolhidos (1951), O livro do nómada meu amigo (1958), Sete septetos (1967), Crônica Cabo Verdeana (1967), Ossobó (1967), O tédio recompensado (1968), Borda d’alma (1972), Uma sequência Timorense (1970), Memória descritiva (1971), Conversa de rotina (1973), Cravo singular (1974), Timor — Amar (1974), Os poemas do Itinerário Angolano (1974), 56 poesias (1981), todos de poesia, além de várias obras de Antropologia e Botânica Timorense; premiações: Prêmio Antero de Quental (pela obra O Livro do Nómada Meu Amigo, 1958), Prêmio Nacional da Poesia (por Sete Septetos, 1968), Prêmio Camilo Pessanha (1971), Prêmio P.E.N. Clube de Poesia (1982); pertenceu à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, da qual foi presidente.