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sábado, 10 de janeiro de 2026

Mário Quintana: Poema & A oferenda & Uma simples elegia

 
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Poema

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

(A Vaca e o Hipogrifo — 1977)

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

(Esconderijos do Tempo — 1980)

Uma simples elegia

Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
o que seria que te aconteceu?
Eu sei… o tempo… as ervas más… a vida…
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu…

(Nariz de Vidro — 1984)

(Antologia Poética — 1985)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Esconderijos do Tempo (1980), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Nariz de Vidro (literatura infantil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Mário Quintana: O Poema & Mentiras & Mentira & Da cor

 
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O Poema

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mentiras

Lili vive no mundo do Faz de conta... Faz de conta que isto é um avião. Zzzzuuu... Depois aterrissou em piquê e virou trem. Tuc tuc tuc tuc... Entrou pelo túnel chispando. Mas debaixo da mesa havia bandidos. Pum! Pum! Pum! O trem descarrilou. E o mocinho? Onde é que está o mocinho? Meu Deus! onde é que está o mocinho?! No auge da confusão, levaram Lili para a cama, à força. E o trem ficou tristemente derribado no chão, fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.

Mentira

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais a cor do tempo...

(Sapato Florido — 1948)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o Jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Mário Quintana: Eu nada entendo da questão social . . . [soneto]

 
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Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,

Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…

(A Rua dos Cataventos — 1940)

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Assombros cotidianos — Antologia: Mário Quintana, Organização de Márcio Vassallo, 2024, 1ª edição, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, fez seus estudos iniciais na Escola Elementar mista de Dona Mimi Contino e na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, ali concluiu o curso primário, estudou em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre RS, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; na infância, aprendeu a ler folheando o jornal Correio do Povo e iniciou-se em noções de francês com os pais, em casa; teve seus primeiros textos literários publicados na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio; como jornalista, trabalhou n’O Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, além de ter colaborado na revista Província de São Pedro e em outros periódicos gaúchos; suas obras: A Rua dos Cataventos (sonetos, 1940), Canções (poemas, 1946), Sapato Florido (poesia e prosa, 1948), O Batalhão das Letras (literatura infantil, 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (poemas, 1950), Espelho Mágico (quartetos, 1951), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Lili inventa o Mundo (literatura infantil, 1983), O Sapato Amarelo (literatura infanto-juvenil, 1984), Baú de Espantos (1986) etc.; além de participação em muitas antologias, o poeta teve + outras publicações e apresentações: discografia poemas declamados, Antologia Poética de Mário Quintana (disco de vinil, Polygram, 1983), música Recital Canto Coral Quintanares (1993) e Cantando o Imaginário do Poeta (1994), teatro Lili Inventa o Mundo (adaptação e montagem de Dilmar Messias, 1993); traduziu obras de Marcel Proust, Balzac, Mérimée, Virginia Woolf, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, Antoine de Saint-Exupéry entre outras autorias; foi laureado com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra) e o Prêmio Jabuti, como personalidade literária, ambos em 1981, além de ter recebido outras premiações e honrarias.

domingo, 16 de junho de 2019

Mário Quintana: Eu escrevi um poema triste

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Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas de sua tristeza...
Não foi por ti que era tão triste
Nem foi por tua fereza...

Mudaste?... Também se muda
Hora a hora a natureza:
Não vem do sol nem da chuva,
Minha alegria ou tristeza.

Que importa, a essa tristeza:
Que sejas boa ou cruel?
Fico junto à correnteza,

Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Mário Quintana: Dorme, Ruazinha. . . É Tudo Escuro! . . . [soneto]

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Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi jornalista, tradutor e poeta; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968),  Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Mário Quintana: Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Lpm Pocket 71 Quintana de Bolso
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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo, 
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sérgio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Mário Quintana: Soneto póstumo

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 Boa tarde...  Boa tarde!...  E a doce amiga 
E eu, de novo, lado a lado, vamos! 
Mas há um não sei quê, que nos intriga: 
Parece que um ao outro procuramos...

E, por piedade ou gratidão, tentamos 
Representar de novo a história antiga. 
Mas vem-me a idéia... nem sei como a diga... 
Que fomos outros que nos encontramos! 

Não há remédio: é separar-nos, pois. 
E as nossas mãos amigas se estenderam:
 Até breve!  Até breve!  E, com espanto 

Ficamos a pensar nos outros dois. 
Aqueles dois que há tanto já morreram... 
E que, um dia, se quiseram tanto! 

1952
Baú de Espantos  1986

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sérgio Faraco,  2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso  (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Mário Quintana: Querias que eu falasse de "poesia"

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Querias que eu falasse de "poesia" um pouco
mais... e desprezasse o quotidiano atroz...
querias... era ouvir o som da minha voz
e não um eco  apenas  deste mundo louco!

Mas que te dar, pobre criança, em troco
de tudo que esperavas, ai de nós:
é que eu sou oco... oco... oco...
como o Homem de Lata do "Mágico de Oz"!

Tu o lembras, bem sei... ah! o seu horror
imenso às lágrimas... Porque decerto se enferrujaria...
E tu... Como um lírio do pântano tu me querias,
como uma chuva de ouro a te cobrir devagarinho,
um pássaro de luz... Mas, haverá maior poesia
do que este meu desesperar-me eterno da poesia?!

Baú de Espantos  1986

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sérgio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda  Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão  (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo  (1978), Prosa e Verso  (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Mário Quintana: Os parceiros

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Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro... eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!

Apontamentos de História Sobrenatural  1976

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sérgio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão  (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo  (1978), Prosa e Verso  (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Mário Quintana: Quando eu morrer e no frescor da lua . . . [soneto]

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XVII

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

(A Rua dos Cataventos — 1940)

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sergio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Mário Quintana: Da primeira vez que me assassinaram . . . [soneto]

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XIII

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

(A Rua dos Cataventos — 1940)

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sergio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

domingo, 16 de outubro de 2016

Mário Quintana: Noturno da viação férrea

Lpm Pocket 71 Quintana de Bolso
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Ora, os fantasmas são viajantes noturnos.
Se aboletam nos carros vazios e ficam
(por que será que os fantasmas não fumam?)
a olhar o mundo que desliza...
Mas sucede que as máquinas estavam manobrando apenas.
E depois veio a luz crescente, a luz cruel,
situando e ambientando as coisas.
E quando surgem, cabalísticos, os primeiros letreiros:
Hotel Savóia, Ao Pente de Ouro, Saúde da Mulher,
os fantasmas, puídos de claridade,
soltam um suspiro e se desvanecem.

Baú de Espantos — 1986

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Mário Quintana — Antologia Poética, Volume 71 L&PM Pocket, Seleção de Sergio Faraco, 2003 (reimpressão), 1ª edição 1997, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

domingo, 14 de junho de 2015

Mário Quintana: Menininho doente

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Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola...

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente...
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente...

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Para Gostar de Ler, Poesias — Volume 6 (José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana, Vinicius de Moraes), 17a. edição, 7a. impressão, 2005, Editora Ática, São Paulo — SP; Mário de Miranda Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias no Brasil e no exterior; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos; recebeu premiações por sua obra.