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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Bernardo Guimarães: Soneto anacrônico

 
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Eu vi dos pólos o gigante alado,
sobre um montão de pálidos coriscos,
sem fazer caso dos bulcões* ariscos,
devorando em silêncio a mão do fado!

Quatro fatias de tufão gelado
figuravam da mesa entre os petiscos;
e, envolto em manto de fatais rabiscos,
campeava um sofisma ensangüentado!

"Quem és, que assim me cercas de episódios?"
lhe perguntei, com voz de silogismo,
brandindo um facho de trovões serôdios**.

"Eu sou" me disse, "aquele anacronismo,
que a vil coorte de sulfúreos ódios
nas trevas sepultei de um solecismo...”


Notas do organizador Idel Becker:
* bulcão: massa densa de vapores, semelhante a nuvem; nevoeiro espesso, que prenuncia um temporal.
** serôdios: tardios, fora de estação.
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, magistrado e professor; bibliografia: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Poesias diversas (1865), Evocações (1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Circuito biciado *

 
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Ao mó culéga Machado d’Assis

"Guiando um vonde, g’mia inquieto maturnâiro
Ah! Si eu fosse u fiscale aqui dessa meléca...
De prazeire, nain sai... tumaba uma quiméca..."
Mas u fiscale ulhando u vurro du dinheiro

du chefe du iscritório: "Imbejo-te, parçâiro,
Se eu fosse como tu, câ farra! Câ panquéca!
Cumia tanto, qui rivintaba a cuéca!"
Mas u chefe a fitaire a pança de bendâiro

du supirintendente: "Eu não ser mais maióre,
não têre o que tu tains! Não têre u teu dinhâiro!..."
I u supirintendente a limpare o suóre:

"Iscrêbo como um vurro! É a noute! É u dia intâiro!
Entra sóle, sai sóle! Não há coisa pióre!
Ah! Câim déra qui eu fosse um simples maturnâiro!"


* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Círculo vicioso: Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: / "Quem me dera que fosse aquela loura estrela, / que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" / Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: // — "Pudesse eu copiar o transparente lume, / que, da grega coluna à gótica janela, / contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" / Mas a lua, fitando o sol, com azedume: // — "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela / claridade imortal, que toda a luz resume!" / Mas o sol, inclinando a rútila capela: // — "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... / Enfara-me esta azul e desmedida umbela... / Por que não nasci um simples vagalume?...” (Machado de Assis)
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé — o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Lúcio de Mendonça: Mulheres! Mulheres!

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Raça infame de víboras dolosas.
Castilho

Dois amigos desde as fraldas,
Crispiniano e Crispim,
viram-se após longa ausência
e palestraram assim:

Como vão os teus amores?
Que é feito de Sinhá Doce?
Aquela de olhos de gata?
Sim. Pois não sabes? Casou-se.

Infiel! E o que me dizes
da Mariquinhas Bem-Bem?
Oh! Traiu-me negramente.
Então... Casou-se também.

Mas a Júlia... essa não creio...
Pois casou-se, é o que te digo.
E foi a pior de todas,
porque casou-se comigo.

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha  MG; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Juó Bananére: Versignos popularo

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Lá vê a luna surgino
uguali c’oa pumarola
Si vucê non gazá cumigo
ti raxo a gabeza c’oa gaçarola.

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Bê difronti adondi móro,
móra un ómi indiferenti;
quano a genti passa lá,
illo gospi inzima da a genti.

*

Nu céu tê mortas istrella,
no mar tê pexi pra burro!
Gatterina non mi amolli
chi sinó ti prego um murro!

*

Tubaró é bixo brabbo,
baleia tê barbatana,
u Hermeze tê urucubaca
í u Wenceslau é un banana.

*

O pintigno sai du óvo,
o tigo-tigo tambê:
tambê o jacarezinho,
a gente inveiz nó.

*

Coraçó çino da genti,
gente çino da ardêia,
chi ripicca a Vemaria
tuttos dias as seis i meia.

*

O bacate é uma fruitinha
chi tuttos munno cunhéce,
a genti mexe bê elli
i disposa... o che parece?

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892 1933), paulista de Pindamonhangaba, formado pela Escola Politécnica da USP São Paulo, foi engenheiro civil, escritor e poeta satírico; é considerado um dos precursores do Modernismo literário e artístico, que desaguou na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo; colaborou com seus textos nos periódicos O Estado de São Paulo e O Pirralho; fez paródias de poemas de Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Camões, La Fontaine, Machado de Assis e outros; sua principal obra, La Divina Increnca (1915), parodia A Divina Comédia, de Dante; em 1933, ano de sua morte, criou o jornal semanal Diário do Abax’o Piques e que durou 21 números.