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domingo, 16 de abril de 2023

Fernando Santoro *: O Louro (e a Filosofia da Decomposição)

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Paródia paranóica do Corno, digo d'Corvo, de Edgar Allan Poe (ler com sotaque americano).

Numa madrugada brava, em que ao leito eu deleitava,
e eu fintava e eu driblava, respingado de suor,
pelo corpo ali desnudo, mui cheiroso e manteúdo,
quando entrei com bola e tudo corpo adentro de Lenor';
como o gol quando a torcida enlouquecida comemor'
              (era mais que brasa, mor'?)

Quando alcei minha bandeira do timão quando goleia
pelo amor comprometido desta cálida senhor'
ai, que gemia, gemia, como o leito que rangia,
demos de ouvir que batia, na porta do lado de for'
"Toc-toc" (uma fria) "Quem será, do lado de for'?"
              "Edgar a esta hor'?"

"Não: ele possui a chave." disse ela num tom grave.
"E viaja ao estrangeiro, não há de voltar agor'.
É somente algum vizinho. Volto já, bem rapidinho."
Desgarrou dos meus carinhos, se vestindo sem demor'.
esperei, pastor sereno, vendo seus pés ir embor'...
              minha ovelha vai: Lenor'!

Nos lençóis fiquei suado, em cios d'ócio cerrado
escutando longe "Senhor...", ela dizer, ou "senhor'
que chegai assim tão tarde, perdoai à minha parte
que não abra minhas grades, pois a noite me apavor'
eu a sós tenho arrepios, não consigo abrir a por'
              Voltai amanhã, outr' hor'."

Espiou na gelosia e expirou pelo que via
"É Ninguém!", olhou de novo, "Não tem viv'alma lá for'!"
Lá em frente levantada, ficou contemplando o nada
pela lua iluminada. Da sombra gritei: "Lenor',
vem, não foi ninguém, meu Bem, só uma brisa um pouco sonor'.
              vem meu docinho de amor' "

Ela vinha armando o bole, lânguida com passo mole
quando um ruído a sobressalta, por pouco não evapor':
ao voar um louro ao quarto, penetrado no entreato
pela janela do lado, feita a espiar lá for'.
que Lenora, sem cuidado, encostou-se e foi-se embor'.
              "Vê: um louro e só, Lenor'!"

Ela riu com guizo e gozo, se despiu e quis de novo,
"Viste? Não foi Edgar, Bem. Toda tua estou por hor'..."
Ao ouvir 'por ora' eu morro e vejo as garras de agouro
deste louro sobre o torso de Priapo de Lenor',
"Papagaio empoleirado, qual tua graça? És Lady ou Lor'?"
              e ele disse: "Qualquer hor'."

"Mas que louro boa praça, o fofo fala e com graça!
vem, bichinho, com a titia, dá a patinha prá Lenor'."
(Ai, mulher quando ama bicho, trata o homem como um lixo,
e o meu rouxinol no nicho foi largado sem demor'
pela arara devorada ao deus Priapo de Lenor'
              que falava "qualquer hor' ".)

"Teu amor, se é fingido, um passatempo sem marido,
fica aí com o papagaio, tchau, adeus eu vou embor'.
Nosso amor, se é confete, um caso curto, um curto flerte,
quando poderei rever-te? Diz um dia e diz a hor'."
Antes que ela respondesse, antes que ela desse um for',
              entra o louro: "Qualquer hor'."

Ao meu lado então Lenora voltou lépida: "Ora, ora,
mas que pássaro assanhado, chegou justo no melhor,
vai-te agora ave amestrada, vai seguir a tua estrada
mas, ao ir, ave estudada, repete a lição de cor 
Quando encontro meu amado, qual momento ardente mor?"
              e ave disse: "Qualquer hor'."

"Pára, espera! Ave da peste." Resolvi fazer um teste,
(pois bandeira ao ser guardada fica tímida, menor...
requisita lábios quentes, língua doce, dedos, dentes...
e a resposta renitente me excitava com Lenor')
Chamo o louro de meu louro, antes que ele vá-se embor'.
              "Venha cá, ô Qualqueror'!

"Se a mulher já tem traído tantas vezes seu marido
com amante destemido que com muito amor namor',
Considera a preferência, usa a tua sapiência,
doutor louro na indecência, quantas vezes a senhor'
deve vir sem resistência quando seu amante implor'?"
              disse o louro: "Qualquer hor'."

"Mas, meu louro", Ela retruca, já me armando uma arapuca,
"Se o amante é quem dá mole, se ele embroma na demor'
Se a batuta não se anima e o concerto desafina...
Quando eu, mulher grã-fina, que não sou de jogar for',
Posso procurar um outro de uma prontidão melhor?"
              Pronto o louro: "Qualquer hor'."

" Onde aprendeste, em que casta, este estribilho iconoclasta
Foi num consultório aberto, um lupanar de vulta flor",
sala de um doutor dentista, num poleiro de analista
foi ouvindo um jornalista de um programa de auditór'?
Não responda seu lorota! Puxe as asas vai-te embor'!"
               Nem deu bola e: "Qualquer hor'."

"Louro", disse-lhe, "peralta! e na calada ave pirata,
que nem foge ou sai de cima, louro parco, empada, for'!
Já não basta o teu marido que atrapalha o meu cozido,
Vem agora este sabido desandar a minha tor' 
Ah! Lenora, quando a dita rebelou-se como agor'?"
              Louro espalha: "Qualquer hor'."

"Louro", disse ela, "peralta! e na calada ave pirata!
Venha louro catalépto, vê se agora colabor'
Diga ao meu amor, meu rico, senão jogo-te o pinico
Diz ou eu te quebro o bico, te depeno e te devor'
quando encontro o meu marido, qual momento é bem pior?"
              respondeu-lhe: "Qualquer hor'..."

... É agora! Entrou com flores, Edgar saudou de amores:
"Lêê... Surpresa!" e, sem graça: "Surpresa..." responde Lenor'
e "Surpreso" então repito, como um gentleman aflito
muito avesso a tais conflitos. Mais um caso que evapor':
pensam juntos, de uma vez, e falam três a mesma hor':
              "nunca mais a qualquer hor'!"

E o louro estabanado bate as asas no Priapo
cujos cacos no assoalho se espalham além da por'.
Grito seu de ave acuada é mui sonsa (ai) gargalhada,
que se espalha em revoada mais que os cacos sob a por'
e se ouve redobrado como um eco que apavor'
              se os pisar a qualquer hor'...

Fernando  Santoro

* Fernando Santor’ (este aprendiz de blogueiro não resiste, escreve com 'sotaque americano' o nome do autor), tem extensa produção filosófica publicada em jornais, revistas especializadas e em livros.
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Poesia (e) Filosofia — por poetas filósofos em atuação no Brasil, Organização de Alberto Pucheu, 1998, Sette Letras, Rio de Janeiro — RJ; Fernando José de Santoro Moreira, do Rio de Janeiro, nascido em 1968, graduado em filosofia pela UFRJ  Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Literatura e Civilização Francesa em Nancy III, mestre e doutor em Filosofia (UFRJ) e pós-doutor pela Université Paris Sorbonne Paris IV, é professor, pesquisador, ensaísta, pensador, escritor e poeta; possui vínculo institucional com a UFRJ Filosofia, dirige o Laboratório OUSIA de Estudos em Filosofia Clássica e integra o GdRI Groupement de recherche internationaux 'Philosopher em Langue. Comparatiems e traduction', do CNRS  Centre national de la recherche scientifique; suas obras: Agravo (1991), Poesia e Verdade (1994), Imaculada (poesia, 1996), O Poema de Parmênides: Da Natureza, vol. I (2006), Arqueologia dos Prazeres (2007), Filósofos Épicos, vol I 'Xenófanes e Parmênides' (2011) e outros títulos.

terça-feira, 7 de março de 2023

Friedrich Nietzsche: Fala o martelo


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[traduzido por Paulo César de Souza]

Assim falou Zaratustra, 3, 90 *

          “Por que tão duro? falou certa vez ao diamante o carvão de cozinha; não somos parentes próximos?”
          Por que tão moles? Ó meus irmãos, assim vos pergunto; pois não são meus irmãos?
          Por que tão moles, tão amolecidos e condescendentes? Por que há tanta negação, abnegação em vossos corações? Tão pouco destino em vosso olhar?
          E se não quereis ser destinos e inexoráveis: como podereis um dia comigo vencer?
          E se a vossa dureza não quer cintilar, cortar e retalhar: como podereis um dia comigo criar?
          Pois todos os que criam são duros. E terá de vos parecer bem-aventurança imprimir vossa mão nos milênios como se fossem cera
           Bem-aventurança escrever na vontade de milênios como se fossem bronze mais duros que bronze, mais sobres que bronze. Apenas o mais nobre é perfeitamente duro.
           Esta nova tábua, ó irmãos, ponho sobre vós: tornai-vos duros”

Freidrich Nietzsche

Der Hammer redet

Also sprach Zarathustra (3, 90.)

          »Warum so hart! sprach zum Diamanten einst die Küchen-Kohle: »sind wir denn nicht Nah-Verwandte?«
          Warum so weich? O meine Brüder, also frage ich euch: seid ihr denn nicht meine Brüder?
          Warum so weich, so weichend und nachgebend? Warum ist so viel Leugnung, Verleugnung in eurem Herzen? so wenig Schicksal in eurem Blicke?
          Und wollt ihr nicht Schicksale sein und Unerbittliche: wie könntet ihr einst mit mir siegen?
          Und wenn eure Härte nicht blitzen und schneiden und zerschneiden will: wie könntet ihr einst mit mir schaffen?
          Alle Schaffenden nämlich sind hart. Und Seligkeit muß es euch dünken, eure Hand auf Jahrtausende zu drücken wie auf Wachs,
           Seligkeit, auf dem Willen von Jahrtausenden zu schreiben wie auf Erz, härter als Erz, edler als Erz. Ganz hart allein ist das Edelste.
          Diese neue Tafel, o meine Brüder, stelle ich über euch: Werdet hart!

* Nota do tradutor Paulo César de Souza: Cf. [confira] Assim falou Zaratustra, III, “Das novas e velhas tábuas”, seção 29 (a numeração de Nietzsche refere-se à página da primeira edição). O trecho é reproduzido com algumas ligeiras modificações. Nele se acha a peculiar mistura de poesia e paródia bíblica do Zaratustra, com aliterações, jogos de palavras e alusões. Exemplos: weich/weichwend (aqui traduzidos por “moles/amolecidos”). Leugnung/Verleugnung (“negação/abnegação”), schneiden/zerschneiden (“cortar/retalhar”), “mais duros que bronze” é alusão ao aere perennius [“mais duradouro que o bronze”] de Horácio [...]: “o mais nobre” (das Edelste) lembra “pedra preciosa” (Edelstein).
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Crepúsculo dos ídolos ou Como se filosofa com o martelo — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2006, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sábado, 7 de agosto de 2021

Xico Smart: Ser "smart*"

 
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Ora (direis) ser-se "smart", meu caro! Certo
Isto é tolice! E eu vos direi, no entanto,
Que, cada dia, logo que desperto,
pensar em sê-lo é o meu maior encanto...

E disso cuido todo o dia, enquanto
O belo sexo, esse rosal aberto,
Transita. E, vindo a noite, eu, triste e em pranto,
Inda o procuro no jardim deserto.

Direis agora: Meu choroso amigo!
Que cousa é o "smartismo"? Que sentido
Tem isso que entender eu não consigo?

E eu vos direi:  Ora esta! Eu é que sei?
Se eu falo assim é porque tenho ouvido
Que "smart" eu sou e, que fazer?, serei...

([jornal] A Quimera [nº21, pág. 3], 27.08.1908)

* Nota de Joaquim Branco: Segundo nossas pesquisas, nesta e em muitas publicações, a palavra smart tem o significado de chic, “elegante”, e vamos encontrá-la em vários números da Revista da Mata [ . . . ], como propaganda  de uma fábrica de gravatas que havia em Cataguases.
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; sobre Xico Smart [pseudônimo?!], compositor do soneto-paródia, não há outros registros em pesquisas googleanas; o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa já antecipa agradecimentos a quem tiver alguma notícia biobibliográfica do autor do poema e quiser/puder compartilhar com esta página.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Circuito biciado *

 
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Ao mó culéga Machado d’Assis

"Guiando um vonde, g’mia inquieto maturnâiro
Ah! Si eu fosse u fiscale aqui dessa meléca...
De prazeire, nain sai... tumaba uma quiméca..."
Mas u fiscale ulhando u vurro du dinheiro

du chefe du iscritório: "Imbejo-te, parçâiro,
Se eu fosse como tu, câ farra! Câ panquéca!
Cumia tanto, qui rivintaba a cuéca!"
Mas u chefe a fitaire a pança de bendâiro

du supirintendente: "Eu não ser mais maióre,
não têre o que tu tains! Não têre u teu dinhâiro!..."
I u supirintendente a limpare o suóre:

"Iscrêbo como um vurro! É a noute! É u dia intâiro!
Entra sóle, sai sóle! Não há coisa pióre!
Ah! Câim déra qui eu fosse um simples maturnâiro!"


* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Círculo vicioso: Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: / "Quem me dera que fosse aquela loura estrela, / que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" / Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: // — "Pudesse eu copiar o transparente lume, / que, da grega coluna à gótica janela, / contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" / Mas a lua, fitando o sol, com azedume: // — "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela / claridade imortal, que toda a luz resume!" / Mas o sol, inclinando a rútila capela: // — "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... / Enfara-me esta azul e desmedida umbela... / Por que não nasci um simples vagalume?...” (Machado de Assis)
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé — o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).

domingo, 25 de outubro de 2020

Álvaro Armando: Ser genro

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Ser genro* é arrebentar fibra por fibra
o Tesouro. Ser genro é ter o alheio
bolso do sogro como um farto seio
onde ouro, aos borbotões palpita e vibra.

Ser genro é ser morcego que se libra
sobre o Estado dormindo. É ser anseio.
Construir quitandinhas sem receio,
pensando que a roleta se equilibra!

É bem do genro o bem que o sogro goza,
é a própria vida noutra retratada,
luz que lhe faz os dias cor-de-rosa.

Ser genro é andar gozando num sorriso.
Fazer por Niterói menos que nada,
ser genro é enriquecer num paraíso!...

Resultado de imagem para ABI Helena Ferraz de Abreu
Helena Ferraz, em evento na
ABI 
(na foto, a única mulher)

Notas de Idel Becker (organizador de Humor e Humorismo – Poesias e Versos e Paródias...) e deste Verso e Conversa: O organizador Idel Becker anota na edição que o tal genro parodiado foi Ernani do Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas; já, para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Ser mãe: Ser mãe é desdobrar fibra por fibra / o coração! Ser mãe é ter no alheio / lábio que suga, o pedestal do seio, / onde a vida, onde o amor, cantando, vibra. // Ser mãe é ser um anjo que se libra / sobre um berço dormindo!  É ser anseio, / é ser temeridade, é ser receio, / é ser força que os males equilibra! // Todo o bem que a mãe goza é bem do filho, / espelho em que se mira afortunada, / Luz que lhe põe nos olhos novo brilho! // Ser mãe é andar chorando num sorriso! / Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! / Ser mãe é padecer num paraíso!  (Coelho Neto).
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Álvaro Armando, pseudônimo de Helena Ferraz de Abreu (1906  1979), natural do Rio de Janeiro, foi escritora e jornalista; nascida Helena Marília Bastos Tigre (filha do poeta Bastos Tigre, a quem só veio a conhecer quando mocinha, proibida que fora por seus ‘dela’ familiares), já aos oito anos escrevia crônicas e poesias para o jornal manuscrito O Potoka; depois, criou o Correio Universal (suplemento semanal que circulava em dezenas de jornais espalhados pelo país), colaborou nos jornais Correio da Manhã (foi responsável pela coluna 'Pingos e Respingos'), O Jornal, dos Diários Associados, (escreveu a coluna ‘Janela Indiscreta’), O Globo (colunas diárias em ‘Humorglobinas’ e ‘Na Boca do Globo’), dirigiu A Cigarra Feminina (suplemento de A Cigarra), além de ter trabalhado em revistas de grande circulação nacional, como Careta e Manchete; Helena Ferraz também exerceu atividades em publicidade e em programas radiofônicos e televisivos (Rádio MEC, Rádio Globo e TV Tupi); satirizou figuras públicas da época; foi eleita a primeira mulher diretora na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e, até o fim da vida, dirigiu a Biblioteca Bastos Tigre; teria sido o uso do pseudônimo masculino, Álvaro Armando, que a pusera tão à vontade no exercício da poesia satírica, o que tornara possível uma extensa carreira em jornais de grande circulação e destaque no Brasil da época; bibliografia: Na Berlinda — Versos de Álvaro Armando (ilustrações de Théo, 1947).

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Bastos Tigre: Ouvir estrelas

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Ora, direis, ouvir estrelas! Vejo
que estás beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
de ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo
que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando beijo
é, meu amigo, assunto p’ra um poema.

Direis agora: Mas, enfim, meu caro,
as estrelas que dizem? Que sentido
têm suas frases de sabor tão raro?

Amigo, aprende inglês para entendê-las,
pois só sabendo inglês se tem ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Manuel Bastos Tigre (1882 1957), pernambucano de Recife, formado engenheiro civil pela Escola Nacional de Engenharia, Rio de Janeiro, foi engenheiro, poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas (Tagarela, A Noite, Gazeta de Notícias, A Rua, Careta, O Malho); fundou a revista O Xiquote e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

sábado, 26 de setembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Mal sicreto *

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S’a cólera que põe danada a gente,
distrói a paz da bida disijada,
tudo o que nos vilisca intiriormente
suvisse á nossa cara, qu’istupada!...

Si si pudesse, a ialma padicente,
bêre por trás de muita guergalhada,
canta gente a se rire vestamente,
que era muito milhóre estar calada!

Canta gente só ri p’ra disfarçare
um turco á porta que lhe bem cuvrare
a quemisa, a ciloira1, a maia, u cinto...

Cantos há nesse mundo a tres por dois,
que tendo à janta só cumido arroz,
arrotam p’ru2, laitão e binho tinto!

Recanto das Palavras - Galeria: Furnandes Albaralhão e o Caldo Berde

* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Mal secreto: Se a cólera que espuma, a dor que mora / n'alma, e destrói cada ilusão que nasce / tudo o que punge, tudo o que devora / o coração, no rosto se estampasse; // se se pudesse, o espírito que chora, / ver através da máscara da face, / quanta gente, talvez, que inveja agora / nos causa, então piedade nos causasse! // Quanta gente que ri, talvez, consigo / guarda um atroz, recôndito inimigo / como invisível chaga cancerosa! // Quanta gente que ri, talvez existe, / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa! (Raimundo Correia)

Notas do organizador Idel Becker:
ciloira: ceroula;
2 p’ru: peru.
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).